Abasse Ndione – A vida em espiral

Por Caio Lima

Capa RádioLondres_Avidaemespiral_AbasseNdione.jpgMuitos defendem que um livro nunca deve ser analisado politicamente. É uma visão purista da literatura e eu até concordo em partes. Acho interessante se apegar apenas à arte. É bonito. Imaginem ter propriedade, tempo e oportunidade de analisar literatura apenas pelo valor literário. Porém, esse não é o caso do Rede de Intrigas.

Recortar a filosofia a fim de esvaziar o sentido original da teoria e/ou prática e moldá-las ao seu bel prazer é uma das especialidades políticas ocidentais mais apuradas e a primeira forma de corrupção possível. É visível, também, que as tradições ou quaisquer aspectos culturais de um povo, ocupam cadeiras muito frágeis ante o fenômeno político ocidental, tornando inviável a existência de uma alternativa ao “prato feito” político que nos é servido.

Foi lá na Grécia Antiga que toda noção de vida pública e privada ocidental surgiu, basicamente. E, bom, qualquer teoria política que conhecemos busca elementos da filosofia grega para justificar seus pontos. O “mito da caverna” talvez seja o exemplo mais claro desse alicerce filosófico helênico. Porém, ele só existe por ser uma defesa à aristocracia filosófica. Sim, Platão era um crítico ferrenho da democracia e acreditava que existiam pessoas (filósofos, no caso) destinadas a guiar a massa para práticas e organização harmônicas. Mas se “mito da caverna” é uma crítica ferrenha à democracia e uma defesa da monarquia filosófica, seria, então, uma falácia muito grande utilizar Platão para reforçar princípios do estado democrático de direito ou a defesa da libertação do homem através do conhecimento. Triste, né?

E então, saltamos no tempo e chegamos ao Senegal de Abasse Ndione, escritor de “A vida em espiral”, em meados de 1980. O melhor em analisar a história é a liberdade. A semelhança entre a Grécia de Platão e o Senegal de Abasse Ndione não é tão bizarra assim e, sinceramente, Abasse poderia ter nascido na Grécia daqueles idos. A crítica ao sistema democrático senegalês é tão sutil quanto profunda, e passível de diferentes interpretações.

Amuyaakar Ndooy, o personagem central do livro, poderia continuar sua vida de taxista, cuidando da mãe, da irmã e da filha, e se reunindo com seus quatro amigos para fumar yamba (maconha) escondido. Porém, numa dessas oportunidades únicas na vida, Ndooy consegue uma boa quantidade de yamba bem quando o Estado está criminalizando seu uso, tornando o produto escasso no mercado. Ndooy decide, então, empreender e mergulhar no tráfico, se tornando um sipikat (traficante). Grana alta, fumo à vontade e poder.

O mundo como ele é faz com que o tráfico pareça enfrentamento político, porém não é bem assim. Conforme Ndooy avança nos negócios e se aproxima das esferas mais altas da sociedade senegalesa, ele entende que o tráfico de yamba (bem como qualquer ilegalidade) é benéfico para a manutenção do sistema e distribuição de poderes no seu país. Uma coisa fica bem clara durante a leitura do livro: a lei não atinge uma parcela de pessoas – os criadores/financiadores das leis.

As leis, como conjunto normativo para uma sociedade, podem ser injustas por natureza. Não é difícil validar exemplos de como leis podem funcionar para garantir privilégios, a escravidão é um exemplo bem claro disso. O link entre uma realidade marginal e a validação do que é legal e o que não é, é um primeiro passo para, mais uma vez, ampliar a discussão para um embate cultural. Resoluções políticas ampliam a distância entre cultura e justiça. Os efeitos são aterradores.

Isso é agravado em um país que dança conforme a música tocada em outras terras. É difícil ser politicamente estável quando as pessoas estão perdidas entre o que lhes é imposto e o que é herança. Muletas culturais nunca aproximam o país colonizado da amplitude de perspectiva, da plenitude do indivíduo – senão o “mito da caverna” não seria usado até hoje (em toda sua subversão de sentido) para defender conceitos democráticos.

“A vida em espiral” é um livro sobre a vida de um traficante? É, mas não é. O livro é uma apologia ao tráfico? Definitivamente, não. A tônica do livro é contestar o sistema, mas não de uma forma convencional. A manobra de Abasse Ndione ao montar o livro é o que separa bons autores de excelentes autores.

Existe uma força ancestral que move Ndooy ao longo do livro. Isso pode passar batido pelo leitor, mas a força está lá, sempre reforçada pela narrativa de Abasse através das recorrentes expressões no dialeto wolof (yamba e sipikat são exemplos disso), típico de uma das tribos que fazem parte do Senegal; ou pela maneira, o lugar, o fornecedor e o clima onde Ndooy busca o yamba. Todo enredo tem uma aura de um Senegal que parece não mais existir. Contudo, essa ancestralidade é a responsável por carregar Ndooy na sua perigosa carreira. Por isso o livro não retrata o simples embate entre tráfico versus sistema. A resistência proposta por Abasse Ndione é cultural.

A raiz cultural dessa Senegal exposta por Abasse Ndione é sólida e mágica. Não existe falácia filosófica que a corrompa. Ser algo sólido já pode ser considerado mágica nessa sociedade pós-moderna, mas a magia é algo maior e foge ao entendimento do leitor. Não por Abasse não conseguir explicar, é vívida a aura que circunda o livro. A questão é compreender a abrangência da cultura.

Descobrir e viver a cultura senegalesa é completamente diferente de defender que toda essa diversidade cultural seja respeitada. Pode-se seguir outras doutrinas, é normal que haja essa liberdade. Mas “A vida em espiral” mostra que apenas quem vive a sua cultura é capaz de falar com propriedade por ela, da mesma forma que é responsável pela sua manutenção e perpetuação. Retirar ou reduzir drasticamente a cultura de um povo, impondo seus métodos e práticas embasados em verdades absolutas sobre modernidade, globalização e a irmandade entre as nações é uma atrocidade.

Afinal, o que seria de um povo que respeita suas raízes e é organizado politicamente? Se você chutou “livre”, acertou. Então porque esses países não se reconhecem culturalmente dentro de um sistema político conhecido? Porque são criados numa base filosófica corrupta. Isso inviabiliza que a expressão “dar certo” seja usada numa frase que contenha “sistemas políticos ocidentais”, mesmo nos países europeus.

Não é aceitável a elevação de uma “nação colonizada” a um status de “nação livre” sob qualquer aspecto, mas a ferida que mais sangra é a ferida cultural. Delinear traços culturais próprios (e progredir por meio deles) torna o homem pleno, dono de si. Com raízes sólidas, muito bem estabelecidas, nada que possa vir do externo é capaz de machucar. Conceitos como justiça são moldados pela equidade social e são consenso, todos defendem a liberdade de todos. A cultura, como modo de vida aplicado, é ampla demais para que alguém não tenha sua cobertura.

É bem verdade que a sutileza de Abasse dá o raso para um leitor menos atento, podendo parecer apenas mais uma história de polícia e ladrão ou, como alguns críticos apontaram, uma apologia ao tráfico. A distorção de uma realidade periférica como apologia já denota o que é o sistema e como ele molda o pensamento do colonizado. O traficante de Abasse, Amuyaakar Ndooy, nada mais é do que uma peça dentro do sistema. Uma peça que cresce, vê as coisas acontecerem e consegue sair.

Resistir culturalmente não é ativismo político por cultivar pautas minoritárias, por usar uma peça de roupa característica ou por incluir um tambor dentro de uma música que você faz. Claro, tudo isso é importante. São símbolos e resoluções que devem ser discutidos e usados com orgulho. Porém, é necessário se fazer maior que o material quando se fala em resistência cultural.

Resistência cultural é ativismo político porque a cultura alça o homem a sua plenitude. E o homem que sabe de onde veio, que sabe para onde vai e que é capaz de reconhecer e abrir espaço para o próximo, é muito mais efetivo em criar um ambiente que se desenvolva de forma saudável e harmônica que qualquer teoria presa em livros de ciência política, jornais de televisão e conspirações de guerra. Fecho com os versos de Marcelo D2: “Eu luto e não me rendo/Caio e não me vendo/Não recuo nem em pensamento/Sigo em movimento, que para mim é natural/De resistência cultural”.

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