Marie Ndiaye – Três mulheres fortes

Por Caio Lima

A televisão estava ligada num filme de época enquanto eu tomava café da tarde. É sempre bom ir para a faculdade sem um rombo no estômago. E, enquanto como, a mãe fala para a filha que ela não deve mostrar demais, é sempre melhor deixar o rapaz imaginando a moça e tudo o que ela poderia oferecer a ele. Cenas clássicas de casamentos arranjados na aristocracia de algum país ocidental. Rapidamente me lembrei de Marie Ndiaye e o livro que eu acabara de ler, ‘Três mulheres fortes’. Calma, Marie não escreveu um romance de época, bem estilo Jane Austen. Não foi dessa vez, aos esperançosos. Quem sabe um dia. Ou não. Mas ela emulou bastante esse conceito bem casto de não mostrar demais e deixar o rapaz imaginando. Mas, pelo andar da carruagem, ela não me parece gostar muito das mocinhas indefesas, dos rapazes valentes e das matronas experientes e sabidas da sociedade.

Igual a um filme antigo, Marie utiliza nos três contos que compõem a obra, a visão de um homem sobre histórias nada felizes. Há um quê de vitoriano, uns traços góticos e aquela coisa exagerada de ‘Os sofrimentos do jovem Werther’. São três contos lúgubres, asfixiantes, intrigantes e nada esperançosos numa Paris moderna em tempo, antiga em modos. Todos os três tomando o homem como o centro das atenções. O homem sofre, se desespera e é mártir. É o comum, talvez. Na minha mente, esse concatenar de ideias entre cinema, literatura e costumes não cola muito. Fica capenga, sabe? Não pela arte. Não que não seja arte. Não que ela não possa fazê-lo. Mas fica algo preso, singelo e expresso.

Eu até poderia pensar “bom, são contos, o título tá meio nada a ver, mas também é mais uma daquelas autoras experimentais e excêntricas que a Cosac lança e não encaixou com meu gosto”, mas não. Eu não conseguiria passar assim. Na minha cabeça não faz sentido nenhum. A conta não fecha. Veja bem, Marie escreve de uma forma moderna, rápida, ágil e objetiva. Os contos se arrastam, vegetam, num arremedo de tristezas, sob apenas uma perspectiva. Não há cabimento entre a escrita e a estrutura. Ação e ideia completamente diferentes. Uma não é fechamento da outra. Das duas uma: ou eu não entendi o livro, ou havia algo implícito. Como eu sou bastante turrão, com certeza havia algo implícito, como a moça de um filme antigo deixa para o pretendente.

Metaliteratura é a técnica de você falar sobre as implicações do livro dentro do próprio livro. Um exemplo bacana é ‘A menina que roubava livros’. A menina fala, o tempo inteiro, sobre como os livros que ela lia alteravam seu universo. Isso é, de forma muito (MUITO) básica, metaliteratura. Se você não sabia, já pode tirar onda nos seus círculos sociais de leitores e parentes baba-ovo. E o que metaliteratura tem a ver com Marie Ndiaye, filmes antigos e minha pulga atrás da orelha? (Ah, minha mente sórdida… sempre me dando trabalho).

Marie, ao escrever os três contos, sempre coloca o narrador se misturando ao protagonista. É um bololô desgraçado, mas que fixa muito bem o ponto de vista masculino da história. Nada mais comum, mesmo nos dias de hoje. Na verdade, ela reforça muito esse poder do homem de guiar uma família de acordo com as suas ambições e sentimentos. Essa capacidade inefável do condutor da casa, da moral e da família em conduzir, inclusive espiritualmente, todos ligados à ele, independentemente do tipo de vínculo gerado. Já pararam para observar em como os humores das nossas famílias giram em torno de um expoente masculino? Mesmo quando há uma esposa que cria os filhos sozinha, sempre há essa aura do pai, do esposo, do homem. Marie é insistente nisso.

Conforme o desenrolar das histórias, vemos que todos os homens sofrem por “serem homens”. Existe uma prisão interior que se chama ‘Unidade Penitenciária Macho Alpha’. Essa unidade força a tomarem decisões rápidas, lancinantes e decisivas. Mas a pressa é inimiga da perfeição e do bem-estar, portanto, na maioria das vezes, essas decisões sacrificam o próprio homem e a todos que estão vinculados a ele. É claro que essa prisão espiritual, fruto de uma cultura milenar, dá ao homem a salvaguarda necessária para que ele acredite piamente que aquilo precisava ser feito, abstendo-se das consequências. Até na nossa forma de fazer política, 500 anos atrasada, é assim, vide às reformas arbitrárias aprovadas sem consentimento da população. São homens tomando decisões pelo simples fato de serem homens. Mas para quem convive, é dependente e cria laços com esse homem, fica um vazio completo e quase nunca notado. Uma mudança radical. Cortar na carne sem chances de restituir o que foi tirado. Uma jogada de risco quase sempre malsucedida.

Mas a roleta russa da vida é muito mais cruel que a original, ela te deixar ali, sofrendo, nas sombras, sem que ninguém te note. É aí que entra a “metamulher” da metaliteratura (sim, eu acabei de subverter o sentido de metaliteratura) de Marie Ndiaye. É como um filme antigo, onde sempre há a donzela para o cara valente e destemido. Esse cara se arrisca sem pensar no dia de amanhã e a donzela, cheia de amor e zelo, fica apavorada, sem saber o que fazer. Você sempre pensa nos grandes desafios do cara, mas as dores que a moça carrega sempre são deixadas de lado. Afinal, ela não travou batalha alguma, não se arriscou, não deu tudo de si por uma ideia, mesmo que esdrúxula.

Uma mulher que, ao escrever, simula as consequências das atitudes do homem na própria mulher, mas ninguém vê. A não ser que você entenda o método de Marie, você se compadecerá do homem. A metamulher que Marie desenha é, simplesmente, a mulher comum. A mulher que segura a barra do pai e do marido. A mulher que abdica da família por falsas promessas. A mulher que perdoa esse homem e o enxerga com compaixão e tenta, por si só e pelo próprio causador disso tudo, reestruturar e redescobrir o sentido de tudo. Conhecemos mulheres assim aos montes. Só aqui na minha rua tem algumas. Mas a gente nem nota. A gente nem quer saber o tamanho do piano que essas mulheres carregam.

Marie fala de si e fala de todas as mulheres, porque é necessário falar. Imagine o quão pesado é o fardo de ser válvula de escape, ser apontada como causadora, ter de carregar esse estigma e ninguém, absolutamente ninguém, em pleno século XXI, reparar que há protagonismo aí. Não são meras coadjuvantes no meio do “errei tentando, pelo menos”. São vítimas de escolhas visivelmente erradas, mas empurradas goela abaixo por uma necessidade de ser, por um apego a uma liderança que dizem ser natural.

Marie, nas suas personagens, protagoniza os contos. Não só por ser essa metamulher, mas por sua excelência ao escrever. Uma concepção moderna num ritmo de filme antigo. Para mim, isso pode ser chamado de metaliteratura. Um filme antigo que se repete. Autossuficiente. Que gira sob os mesmos aspectos após quase um século. Esse filme procura as películas antigas todos os dias, conversando com suas versões ultrapassadas. Ora porque os tempos mudam, a velocidade e os outros filmes vêm como um rolo compressor e é preciso inovar. Ora porque o roteiro precisa ser o original, nada pode fugir ao script. Como manter esse equilíbrio? Difícil, mas se mantém até hoje. Inexplicavelmente. Mas Marie se fez metamulher, já que ela não poderia mudar o roteiro original. E ao produzir essa metaliteratura (minha licença poética, relembrando), ela me fez enxergar de outra forma os filmes antigos. Uma pena o roteiro ser sempre igual. Marie Ndiaye é resistência.

Ernani Ssó – Como o diabo gosta

Por Caio Lima

Resolvi experimentar uma coisa nova e estou escrevendo essa resenha ao som do novo CD do The Outs, Percipere. Não conhece os caras? Joga no Spotify, Deezer ou qualquer outra plataforma. Psicodelia made in RJ da melhor qualidade. E essa onda psicodélica é para escrever um livro tão psicodélico quanto subversivo e, infelizmente, a crise passou aqui em casa e eu não posso comprar ácido. Pode não parecer, mas tudo que escrevo, escrevo no silêncio absoluto, por isso essa resenha tem ares experimentais. Igual a um programa piloto de TV que passa 15h de uma terça-feira, só concorre com o Vídeo Show. Ou seja, se você não tiver audiência, é porque o programa é uma bosta mesmo.

Ernani Ssó é muito conhecido pelo trabalho que faz com livros infantis, mas só conheci a literatura desse cara de sobrenome sofisticado e solitário através do livro ‘Como o Diabo Gosta’. Achei um baita título, foi um dos últimos lançamentos da finada Cosac Naify e falava sobre o período da ditadura militar. Um enredo que promete. Após ter lido os livros do B. Kucinski, lançados também pela Cosac, fiquei tentado a provar todo o acervo dela relacionado ao período da ditadura.

Vou falar a real, é um livro que eu só captei a essência muito tempo depois de lido. Não é um livro fácil. É afogado em devaneios de um cara chamado Camilo. Ora ele não sabe o que fazer porque a Bruna, o grande amor da vida dele, o abandonou. Ora ele tá num churrasco no meio do nada com um primo esquisito que se embebeda e não sabe se comportar. Ora ele tá tentando fugir da casa de umas velhas, tias de uma suposta namorada ninfomaníaca dele, que querem sugar todas as suas opiniões e são meio que monstros(?!), o deixando numa situação mais que claustrofóbica. Entende que é difícil captar qualquer ideia nesse contexto todo? É truncado ler. Ernani escreve muito bem, mas a gente fica igual caixeiro viajante nos saltos cronológicos que a trama dá.

Mas depois de um tempo, eu comecei a me pegar pensando no livro e qual era a real ideia que o Ernani tinha ao lançar essa odisseia à avessas. E eis que chego à divina conclusão: todo mundo que é fora do padrão, é feliz. A sociedade é corrompida nessa loucura de manter-se firme e forte nos padrões aceitáveis de comportamento segundo a constituição, a igreja e os indicadores de status social, mas ninguém é livre e a sociedade é uma mini fábrica de monstros horrendos, cheios de desejos retraídos e frustrados pela normatividade social. Assassinos em série, políticos demagogos, fanáticos religiosos e essas explosões repentinas e sintomáticas que mostram tudo de ruim que esses padrões dessa sociedade doente nos oferta diariamente. Mas classificam isso como loucura. É mais fácil viver assim.

Camilo vê, a todo momento, a “loucura” do mundo e somos levados a ver com os olhos dele o quão doente somos. Infelizmente nada mudou. Do período da ditadura, onde a voga era o patriotismo e o cidadão de bem, chegamos aos dias de hoje e a sociedade teve avanços mínimos. Um padrão de beleza, de vestir, de pensar e de ser humano cisma por se impor sobre o diferente. Somos uma fábrica de intolerância, raiva e medo. Ao passo que somos extremamente burros. Asnos. Acéfalos. Não conquistamos nossa liberdade, pois estamos preocupados demais em como a sociedade vai nos julgar ou em como a economia vai girar. Se você acredita em Deus, de coração, a culpa nem é sua, mas Deus não te suportaria.

Obrigado, Camilo. Depois de um bom tempo eu consegui te entender, meu camarada. Eu sou rodeado de monstros e, admito, também sou um monstro por muitas vezes. É difícil me livrar de todos esses vícios comportamentais. A literatura tem me ajudado a melhorar constantemente, mas ainda assim é difícil. Difícil admitir que o sistema está aí, cada vez mais forte. Depois não reclamem dos loucos. Arbeit macht frei nicht.

Picotando o estoque

Por Caio Lima

Desconsiderar a existência de uma crescente demanda de mercado específica e as revoluções instantâneas da indústria do entretenimento, é pedir demais para qualquer editora que se preze. Mas essas correntes, tratadas nos primeiros artigos, abriram os olhos dos amantes da literatura para um ponto bastante importante: ter o livro. Tratar o livro como algo muito físico e pouco literário. É um sem-fim de discussões em redes sociais e canais voltados à literatura. As críticas são pesadas e pessoais. Há uma criação de estereótipo contínua, uma rotulação absurda e uma falta de empatia que beira a irracionalidade. Os mesmos capazes de vomitar atrocidades à baixa literatura, são os mesmos que são instantaneamente sensibilizados por certas obras ou editoras, sem nem ao menos se questionar o real interesse na leitura. O objeto também toma a frente na preferência desse nicho de consumidores em detrimento a todo o trabalho editorial, o significado artístico da obra e, o principal, na representatividade que determinada obra teve sobre o indivíduo.

Não! Eu não estou aqui defendendo que leiam (ou consumam) livros de youtubers, séries escrotas e toda essa praga insossa e sem razão de ser que infesta o mercado editorial hoje em dia. Mas me atrevo a colocar no mesmo saco as pessoas que consomem obras da alta literatura pelo luxo da edição ou pelo status intrínseco e relevância que determinadas obras são capazes de gerar em alguns meios sociais. Isso aconteceu muito com a finada Cosac Naify, por exemplo. Altas edições com o máximo do luxo e a galera se matando para comprar. Cosac Day era mais celebrado que o próprio aniversário. Eu também me amarrava, galera. Sei qual é. Não precisa dizer que não. Naturalmente, com o crescimento do padrão Cosac de qualidade atraindo o público que ama livros, começaram a aparecer muito mais resenhas das obras lançadas pela finada. Que deus a tenha. E, para o meu espanto e decepção, os comentários sobre essas obras são mais rasos que os dos próprios livros modinha.

Gostar ou não de um livro é algo extremamente pessoal. Seria desonesto da minha parte discutir o íntimo de alguém. Mas, com o Rede de Intrigas, eu aprendi que o trabalho da escolha do livro, o exercício de reflexão que me acomete durante toda a leitura e a absorção e exposição de todas as minhas impressões de leitura, vão muito além do objeto livro. Envolve responsabilidade com quem lê. Também envolve responsabilidade para com a obra. É uma troca constante. Então não há justificativa para que eu não seja honesto ao falar sobre o que li.

Edições exclusivas e luxuosas são uma maravilha. Capa dura, folha de guarda, borda colorida, projeto gráfico caprichado e aquele jeitinho de “poucos leram”. É um espetáculo. Mas não adianta isso tudo, se não há absorção, entendimento e atenção com a leitura. Isso é uma baita desonestidade intelectual. Não há vergonha em ler e não gostar ou ler e não entender o contexto do autor. Na real, é muito bom! Força a pesquisa, a busca e a discussão. Quão melhor embasado se é para justificar o seu gosto, mais crítico você se torna. Eu mesmo, gosto muito mais de ‘Trabalhadores do mar’ que de ‘Os miseráveis’, do Victor Hugo, por exemplo. Tenho sérias restrições quanto a ‘Macunaíma’, mas pesquisei e reconheço toda a importância da obra e o quilate do Mário de Andrade. Inclusive, quero ler outras obras dele. É a vida. Durmam com essa.

Precificar arte é algo muito subjetivo. Precificar a arte criada para uma outra expressão de arte é pior ainda. Mas preços são padrões de valor. Da mesma forma que você pode colocar um checklist para determinar o que é um “homem de bem”, eu posso dar preço a algo baseado num conjunto de características. Isso cria nichos de mercado. E só existe mercado, se há quem consuma. Então, o que realmente faz com que você compre o ‘Pais e filhos’ da Cosac quando pode acha-lo em sebos a cinco reais? O primor da tradução e os textos de apoio? Estar fazendo a coleção ‘Prosa do mundo’? Ser mais um livro Cosac para a sua estante? Amou a capa?

Meus questionamentos são tão subjetivos quanto o valor de mercado dado a um livro luxuoso desses, mas como não questionar isso quando nessa semana a Cosac anunciou que iria picotar os livros encalhados lá? Claro que isso foi uma grande jogada para conseguirem um patrocinador e não ter que gastar patavinas com isso. Aliás, a Cosac é uma editora muito pouco transparente para com seu público. Desde seu encerramento, com justificativas muito vagas e estranhas, há uma grande nuvem que paira sobre a editora. O comportamento da Cosac foi, mais uma vez, obscuro. Porém o grande público assumiu o golpe que levou (mais um). O comportamento da editora foi uma ação do mercado que ela ajudou a moldar, simplesmente. O trato dispensado ao resto do estoque é o mesmo trato dado aos milhares de livros da editora empilhados nas estantes como objetos decorativos, e não como livros. Uma geração inteira que molda a literatura pelo poder aquisitivo e o tempo de leitura pelo valor de mercado. Uma geração inteira que não foi capaz de compreender que a arte da capa tem um significado muito maior do que ser, apenas, bonita. Uma geração inteira que valoriza as páginas amarelas e não sabe reconhecer o valor de uma boa tradução.

O nicho está consolidado, definitivamente. Edições grandiosas estão por todas as editoras e em qualquer livraria. Eu mesmo tenho várias. E novas editoras entram no mercado explorando, e muito bem, essa nova maneira de ler, sentir e consumir literatura por aqui. Ressalto a Carambaia, parceira do Rede de Intrigas, e a recém criada Ubu, fundada por três ex-funcionárias da Cosac. E que bom que tratem o livro com esse carinho. Que bom que cada livro seja tão cheio de referências quanto é possível. Que excelente os novos títulos que estão pipocando, com traduções inéditas e referências incríveis. É realmente um mercado especial e lucrativo. Tanto para quem ama literatura, quanto para quem ama livros.

Nathalie Quintane – Começo

Por Caio Lima

Tem poesia que é tão poética que não dá pra entender nada, né? São várias referências particulares, vindas de uma cabeça completamente avoada e que um ou dois conhecem 20% das referências ali porque estudaram muita crítica literária, destrincharam as obras da pessoa, leram biografias e toda obra de apoio possível e pescaram esse número comprovadamente miraculoso de significados dentro da obra desses poetas voadores. Isso acontece muito com Ana C., por exemplo, e eu acho que disse isso lá na resenha dela. Essa pessoalidade toda, para o novo leitor ou para quem está acostumado mais com a prosa, acaba resultando numa repulsa imediata e permanente. Mas há quem ouse juntar a prosa e a poesia e dessa fusão nasceu uma aberração, terror de qualquer leitor, a devassidão do mundo literário, a prosa-poética.

Nathalie Quintane é uma dessas pessoas que escrevem poesia cheias de referências que ninguém sabe onde se encaixam, apenas ela. Ela teve a audácia, ainda maior, de fazer isso lançando um livro de memórias da sua infância e adolescência, ‘Começo’. Ou seja, uma autobiografia, algo extremamente pessoal, com o nosso famigerado estilo chamado de prosa-poética. BANG! Um tiro na cabeça, já que esse é um convite à todos para que leiam e não entendam absolutamente nada do que foi escrito ali, mas achem bonito pra caramba e aplaudam sem se reconhecer naquelas palavras.

Sim, é bem isso mesmo. Viver de prosa-poética não é fácil, vide Valter Hugo Mãe que teve de dar uma aliviada na mão nos seus últimos livros (eu achei isso, ok?) e ainda leva a fama de escrever bonito sem dizer nada com nada. Mas no caso do ‘Começo’ de Nathalie Quintane, essa coisa lustrosa e cheia de referências desconhecidas, existe uma outra atmosfera a ser explorada. Nathalie consegue embutir dentro de sua obra uma cadência e forma diferentes e, mesmo não captando as referências extremamente pessoais, ela nos faz sentir tudo o que ela sentiu enquanto criança e adolescente.

Essa capacidade de manter a sua forma de escrever completamente viajante e conseguir passar o sentimento dos fatos narrados em poucas palavras que não parecem se encaixar é algo que eu ainda não havia visto até então. É aquele esquema de tomar o lugar do outro, saca? Dentro da narrativa que constrói, Nathalie vai fazendo uma sessão de regressão com você, trazendo à tona nossas próprias lembranças de criança para que, sem qualquer tipo de visão parcial criada por uma mente adulta e cheia de vícios, consigamos entende-la perfeitamente.

Esse é o ‘Começo’ de Nathalie Quintane, uma viagem pela nossa própria infância através dos olhos dela, que se mostram puros e desprendidos de qualquer conceito ou feixe de vergonha. É uma baita lição de que um livro deve ser lido e contextualizado para realmente tomar forma como uma obra inteira. Mas ao invés de insistir para que cada leitor fizesse isso, ela induz sem medo de errar. Sua coragem já faria desta, uma bela obra. Mas sua técnica coloca isso como um belo soco na cara que todo mundo deve tomar. Um brinde à velha infância.

Michel Deguy – A Rosa das Línguas

Por Caio Lima

Se você nunca leu Michel Deguy na vida, não passe mais tempo sem ler. O cara é sublime. Mas aqui a gente se arrisca na mariola da peteca e tenta fazer diferente. Então, me diz, por que não resenhar um livro de poesia fazendo uma? Bugou a mente aí? Faz favor e dá um confere aqui.

Dá margem ao que te faz leve

Dê tempo para que o tempo (re)leve

Das cinzas do centro

Em forma de espiral que

Cai e envolve o mundo

Caiu dentro de si

Refletiu sobre tudo

E todos os passageiros

Que se revezam na busca

De um destino comum

Nessa vida não há espaço para

Ser apenas um por um

Si para si, causa

Encurte as distâncias e grite

Mais alto, até que seus pulmões

Explodam

Aproxime-se do real para que pareça frívolo

E torne triste o mendigo que goza da liberdade como o

Maior dos bens

Malditos sejam os que espalham

Sua métrica através dos

Tempos e soltam gritos de

Socorro

Que só a arte escuta sem que

Tantos o compreendam.

Mario Bellatin – Flores

Por Caio Lima

A arte é uma ferramenta importantíssima de protesto. Todos sabem disso, é bem óbvio e coisa e tal. Mas reforço essa frase logo aqui no começo, porque sempre caímos na falácia de estereotipar protestos, movimentos ou acontecimentos históricos. Palavras como protesto, revolução, insurgência e revolta são atreladas a imagens de forma proposital, na maioria das vezes. Acho que consigo esclarecer isso muito bem quando vejo gente falando que golpe de estado é o que aconteceu na Turquia, porque o exército saiu nas ruas, ignorando o “golpe branco” que rola aqui. E a cada dia as leis vão sendo modificadas a bel prazer de interesses escusos. Tudo é legítimo, afinal aqui no Brasil não existe um golpe.

A arte é uma ferramenta importantíssima de protesto, reforço. Isso acontece pelo fato de que através da arte, podemos brincar com a realidade. Sair do convencional, direcionar opções para além do que os olhos veem e sair do senso comum. Isso não significa ser bem aceito ou compreendido, longe disso. Mas você está sendo transgressor. E o ato de transgredir é de uma nobreza sem tamanho. Você está apresentando uma releitura de alguma alternativa ou até mesmo abrindo novas portas.

E aí você pega um livro chamado ‘Flores’, do mexicano Mario Bellatin. São 80 páginas e 36 flores. Cada flor é um capítulo ou um micro conto. Você pode ler 36 histórias diferentes ou uni-las todas como um grande buquê. Tudo vai do gosto, da essência e da intenção. Toda flor compõe uma parte da história da criação de um fármaco poderosíssimo, mas extremamente nocivo para grávidas que estão entre um e três meses de gestação. O fármaco atinge o feto, atrapalhando seu desenvolvimento. O bebê nasce com deformações nos braços e pernas. Isso afetou toda uma geração. Mas é claro que isso foi ignorado pela indústria, ávida pelo lucro, e encoberto pela mídia e esferas políticas.

Flores, fármacos e protesto. Mario relata milhares de vidas afetadas pelo descaso da máquina. A ciência não tem freio, merecidamente. A liberdade de pesquisa propicia os avanços, mas a partir do momento que afeta o desenvolvimento normal do indivíduo, ela deve parar e rever os processos. O problema é que para ter ciência, há investimento pesado. O investimento precisa de retorno. O quanto o retorno é responsável pela liberdade científica, essa é a chave. Os princípios éticos e morais que regem o mercado científico são muito dúbios na sua relação entre resultado e retorno financeiro.

Talvez as flores não sejam claras para você até aqui. Talvez ainda não sejam após esse parágrafo. Mas flores são mutantes. Apesar da delicadeza, são de uma adaptabilidade fora do comum e sofrem com a inconstância de humor da mãe natureza. Mas não perdem a essência, mesmo quando alteradas. Como pode? Florescer uma flor diferente a cada geração, ao bel prazer da influência da mãe natureza. Uma chamada grave aos que usam da ciência como ferramenta de melhora imediata e trabalham com amostragem, excluindo minorias. Movimentar-se em busca da perfeição gera resultados, mas não dinheiro. Movimentar-se em busca de dinheiro gera aberrações, não perfeição. Lembre-se das flores. Torne-se um exímio jardineiro ou compre seu buquê.

Ronaldo Correia de Brito – Livro dos Homens

Por Caio Lima

Se eu pudesse mudar alguma coisa na educação virtual dos blogs/vlogs de literatura, era para que não resenhassem livros de contos classificando os contos. Sou a favor de resenhas mais técnicas, não consigo conceber essa ideia de classificar os melhores e os piores ou só falar dos melhores. Todos os contos têm a sua importância para a sociedade e precisam ser demonstrados sem partidarismo. Não dá para escolher um conto e defende-lo assim. Chega de doutrinação literária! Resenhas de livros de contos sem partido já!

Ronaldo Correia de Brito - Livro dos HomensO ‘Livro dos Homens’, escrito pelo Ronaldo Correa de Brito, é a bola da vez. O que mais me chamou para esse ‘Livro dos Homens’ é o simples fato de todos os contos serem ambientados no sertão nordestino. Os contos possuem um ponto no espaço em comum. Involuntariamente eu acabei montando um cenário bem específico, apesar dos contos não serem interligados. Essa identificação do espaço é muito importante, porque a geografia, e consequentemente os costumes em toda sua abrangência, é o que rege cada conto de ponta a ponta. Essa preocupação com o espaço é o que permeia grande parte da obra do Reinaldo, inclusive. E o livro pede essa ambientação rápida.

Contos curtos, incisivos, sem pompa e voluptuosidade e que dão ares de ensaios ou estudos antropológicos (Levi-Strauss manda um salve). Dar vida a um ambiente árido, sofrido e incompreendido por natureza, principalmente por recortes do Brasil que não tentam compreender esse atraso por já serem regiões civilizadas, industriais, progressistas e centros culturais do país. É um olhar atento a costumes de outro recorte da sociedade que ainda não se perderam. Talvez dê pra compreender algumas coisas descritas ali através da novela Velho Chico? Talvez, beeeem talvezado (sim, eu parei para assistir a novela).

Em tons trágicos, com enredos cruéis e pesados, cada conto é desenvolvido como um manifesto de uma cultura muito brasileira fincada numa das nossas raízes sociais. Raiz essa que não deixou de existir. Apesar de alguns avanços, ainda reside essa esfera de um faroeste abrasileirado com chapéu de couro, sandália de dedo e de peixeira na cinta. Os sobreviventes de uma era de coronéis que perpetuam esse mundo retrógrado e sem as pílulas diplomáticas de um bom jornal televisivo.

Além da geografia e a parte cultural durante cada conto do livro, Reinaldo faz uma coisa muito difícil: manter um nível de excelência. O último conto, ‘Livro dos Homens’, é o melhor do livro, mas todos os outros não ficam muito atrás, não. Estamos falando de muita qualidade aqui. Recriar uma região através de palavras é algo extremamente difícil.

A junção do espaço, dos costumes e da excelência literária, fez com que eu devorasse um conto atrás do outro. Normalmente, o recomendável é ler um conto por dia, por semana, sei lá. Mas aqui você não tem tempo para ruminar cada conto, é instintivo que você emende um conto no outro e só pare por motivos de força maior. Mas, na boa, vale uma pausa no trabalho para ler um continho, aquela fugidinha marota no meio do expediente, atrasar trabalho da faculdade, esquecer de buscar o filho na escola e essas coisas que não valem, nem de longe, o prazer de um conto muito bem escrito. Brincadeira. Ou não.

O ‘Livro dos Homens’ era um desejo literário antigo meu e tem sempre aquele papo de que gerar expectativas é ruim e aquela coisa de página de Facebook que gosta de dar pitaco na vida dos outros. Esquece isso! Pode botar expectativa sim! A raça humana ainda é capaz de corresponder toda a fé que eu tenho nela! Obrigado, humanidade! Obrigado, Reinaldo! Pai, mãe, amo vocês! Esse mês a empresa me paga em dia! Um dia esse blog faz sucesso!