Thomas Pynchon – O leilão do lote 49

Por Caio Lima

A literatura costuma endossar algumas temáticas ou questões cheias de significados, mas via de regra há um aprofundamento dessas questões todas até o cerne do pensamento humano. É pesado. Você lê e sai com a cabeça doendo, numa crise existencial grotesca e, o pior de tudo, não tem absolutamente ninguém para conversar sobre o que leu que tenha sentido a mesma coisa que você, é impossível. Olha uma confissão em cinco linhas do porquê o Rede de Intrigas foi criado. Brincadeira, não foi só por isso. Enfim, fazendo contraponto a essa máxima da profunda exploração do ser humano e suas mazelas, virtudes e embaraços, há uma outra linha, que me agrada muito, de escritores que levam o ser humano a um estado de absurdo completo, desenvolvendo suas obras de uma maneira completamente livre de qualquer estereótipo. Seja no estilo de escrever ou nas ideias que são ventiladas através da obra, esses autores têm essa capacidade ilimitada de elevar o ser humano, e a vida de uma maneira geral, a algo bizarro.

Claro que isso não tira a complexidade e, muito menos, a profundidade da leitura. Mas o sentimento de estranheza é, sem sombra de dúvida, uma verve nova para o leitor comum. Sair da zona de conforto, ler pelas entrelinhas e todas essas coisas que vocês ouvem em palestras motivacionais para jovens empreendedores, mas que nunca pensam em aplicar em atividades básicas, tipo ler ou estudar, tá ligado?

Do século XX até os dias de hoje, em muito se pode falar do desenvolvimento de uma literatura que trata o homem num hemisfério absurdo ou surreal. É provável que nenhum deles seja mais famoso que Kafka. O universo kafkiano é repleto de referências e analogias estranhas e que passam batidas a um leitor desatento, muitas vezes achando a psicodelia de Kafka algo surreal, mas despretensioso. Nessa linha psicodélica, temos uma coletânea memorável de poetas, desde os clássicos poetas malditos, como Baudelaire e Rimbaud, até, numa aproximação muito tênue, o nosso Leminski, cercando a atmosfera de suas obras com uma mistura inexata e arrebatadora do lúdico e do lúgubre, aludindo sempre ao fantástico mundo dos vícios, amores e misérias imensuráveis. Por falar em vício, a geração beat é especialista em recriar o absurdo humano, principalmente nas mãos de Allen Ginsberg e William S. Burroughs, através do êxtase das sensações elevadas a partir de psicotrópicos fortíssimos que vão se alimentando do meio literário até chegar a Irvine Welsh e Chuck Palahniuk e seus brados contraculturais espalhafatosos. Alguns movimentos, por aparência ou fixação mercadológica, também carregam essa espécie de descarrego bizarro. A ficção científica tem muito disso, por exemplo. E outros autores retratam a vida como ela é numa irônia sem fim do absurdo, estou certo ou estou errado, Nelson Rodrigues? Mário de Andrade, com Macunaíma. O boom sulamericano com autores como Borges, Cortázar e Gabo, entre outros clássicos e não tão clássicos que carregam essa marca bizarra em diferentes níveis de intensidade ao longo da história.

Eu só fui atentar para esse viés literário com maior força após ter lido Graça Infinita, do David Foster Wallace. Gostaria de resenha-lo um dia, quem sabe. Mas, para quem deseja ler ou matar algumas pontas soltas do livro, a Camila, do Livros Abertos, fez uma resenha tão especial e cheia de pormenores, que vale a pena ser lida e relida. Graça Infinita elevou infinitamente meu tino para as referências e para o mundo particular de cada autor: processo criativo, crenças pessoais, artigos relacionados e até informações mais gerais. Num livro tão absurdo, com tantas estruturas narrativas diferentes, é impossível contemplar toda a concepção da obra de uma vez só. Ela vai batendo aos poucos e em épocas diferentes, pedindo releituras e material de apoio constantemente. Afinal, essa é a mágica da boa literatura bizarra, fazer você chorar montando as peças do quebra-cabeças. Buscando referências, eu cheguei a muitos lugares, autores e materiais diferentes, mas nenhum comparável a Thomas Pynchon e seu universo regido pela paranoia.

Pynchon é grafado como um autor pós-moderno. Ninguém sabe muito bem o que isso quer dizer. Nas muitas literaturas existentes, o pós-moderno é algo muito sem face e com milhares de conotações ideológicas, tanto que marxistas e libertários são muito contundentes com suas críticas e associações, algumas até bastante semelhantes. Ironia ou não, é um meio cheio de nuances e eu, não sendo conhecedor profundo e nem estudante de letras, filosofia ou qualquer cátedra que me dê autonomia para dissertar sobre isso, não me arriscarei indo para águas profundas e colocarei uma interpretação minha do que é o pós-modernismo de Pynchon, segundo pude acompanhar em ‘o leilão do lote 49’. Permitam-me a licença poética (sempre quis colocar essa frase num texto).

Existe uma espécie de ruptura do pensamento moderno após a segunda guerra mundial. Não só na questão de ordenação e polarização econômica e ideológica. A tecnologia num avanço constante e vertiginoso, as novas maneiras de se conseguir informação e até na forma como essa informação chegava ao consumidor, de forma apropriadamente ideológica e urgente, elevando a intensidade e, consequentemente, o significado de qualquer informação nova que surgisse, por menor que fosse. O deslocamento instantâneo dos sentimentos, podendo ser manipulados de forma conspiratória e constante, renova essa ideia da necessidade do avanço fugaz e urgente. O que isso quer dizer, basicamente? Que a grande transição do moderno para o pós-moderno é a intensidade com que nossos reflexos e habilidades trabalham. O olhar romântico sobre uma metade de século que caminhou sob revoluções e guerras ideológicas já não é mais possível. A informação e, principalmente, a manipulação da distribuição dessa informação, controlam o sentimento de revolta, desconforto ou satisfação das pessoas, por exemplo. Agora pare e reflita: você já reparou nas suas trocas de humor durante o dia? Ou quantas coisas você faz em áreas totalmente diferentes umas das outras? Então, esse é o mundo pós-moderno.

Édipa Mass é vítima dessa loucura pós-moderna. Após receber a responsabilidade de fazer o inventário de um ex, Pierce Inverarity, ela entra de cabeça na busca do significado de Tristero, um serviço postal underground e que tem uma trompa postal como marca registrada. Nesse processo de investigação asfixiante, ela roda algumas cidades da Califórnia e esbarra com um monte de gente que, supostamente, estaria ligada à Tristero. O grande problema é que no fim das contas ela só encontra dúvidas e sua vida como terra arrasada. O marido se torna viciado em LSD, o amante foge com uma adolescente namorada de um dos caras da banda, seu analista fica louco e o dramaturgo, sua última esperança de ajuda, se mata. E, no fim das contas, tem o inventário do Inverarity, que é os EUA. Nada fácil, Édipa (suspiro de desolação).

Eu não sei a pessoa que colocaria o nome da filha de Édipa, mas caso exista alguma, torço para que ela seja estéril. Nesse caso, eu fui procurar um pouco da história de Édipo e no meio de toda a tragédia encontrei um ponto que, talvez, tenha sido a intenção de Pynchon ao dar esse nome a sua heroína. Caso não tenha sido, ao menos me ajudou a construir essa resenha, o que está de excelente tamanho. No caso, Édipo encara a esfinge e a derrota dentro do seu próprio jogo. A esfinge é um rito de passagem: ou você acerta a charada e ela abre o caminho, ou você erra e fica empacado. Enquanto houver a necessidade de atravessar tal caminho, o homem continuará tentando. Esse é o motivo de tantos ficarem loucos com o enigma da esfinge. É como estar perdido e andar em círculos eternamente, até a loucura. Édipo derrotou a esfinge, Édipa não.

A manifestação simbólica da tragédia grega não está tão longe assim do mundo pós-moderno retratado por Pynchon. Os dois se reconhecem muito bem, apesar de não se encaixarem. E o autor sabe disso. Ele usa o passado como uma alegoria do futuro, mesmo tendo a certeza de que ambos não se assemelham em forma. Nem poderiam. As condições de cada época não geram equivalência, nem mesmo partem do mesmo princípio, apesar de terem, em dados momentos, processuais semelhantes. A fixação de Édipa à sua rotina e sua vida, fazem dela uma refém de um tempo que já passou a partir do momento que ela recebe a notícia do inventário e enxerga a Tristero como uma grande conspiração, tirando-a do mundo real sob os mandamentos de eventos fantásticos e irreverentes da paranoia e elevando sua condição de perseguição a uma experiência tão alucinógena quanto o uso abusivo de LSD pelo seu marido. Essa transição entre dois mundos que Édipa bate de frente constantemente é seu enigma da esfinge.

A afirmação aclamada de Marx “a história se repete, primeiro como farsa, depois como tragédia” pode ser taxada como um grande erro (mas é uma frase bonita) se acompanharmos a evolução do homem e das formas de ordenamento social ao longo da história, já que usar a história como simulacro não é exemplificar ou emular no passado uma situação equivalente no presente. Pontos podem ser semelhantes, mal comparando, até o resultado final pode ser, mas a história é continuamente escrita e não repete capítulos. Por isso que ficamos perdidos junto com Édipa ao rememorar a história do serviço postal Tristero. Nada é conclusivo ou explica muita coisa de seu funcionamento atual, se comparando a sua origem na Europa e seu estabelecimento nos EUA no meio do século XIX. Essa sensação de estar à deriva junto com Édipa é proposital. Causa um desconforto extremo pesquisar sobre o passado de alguma coisa tentando justificar ações no presente e não conseguir tornar as duas realidades, passado e presente, concomitantes. Isso agrava o estado de desespero e aumenta essa tensão de sentir algo prestes a te engolir sem poder algum de defesa. Bem-vindos à paranoia de Pynchon.

Tudo o que foi dito aí em cima nos ajuda a entender o contexto do livro e, consequentemente, da linha que Pynchon adota para criar seu ambiente paranoico, já que, segundo informações, essa é uma constante da sua literatura. Mas entender a heroína é fundamental para revelarmos o quão grande foi Pynchon nesse livro. Essa interposição de pessoas e fatos aleatórios que levam Édipa a acreditar que o serviço postal Tristero é alguma conspiração grandiosa e, mais para o fim, pessoal, pode ser explicado sob diversas óticas. Uma delas pode ser uma relação entre o que acontece à Édipa e a teoria da heterotopia de Foucault. Heterotopia é a teoria que versa sobre espaços não hegemônicos, falando de forma muito simplificada, ou seja, lugares que você encontra tudo ao mesmo tempo. Ao longo do livro, Édipa encontra todo o tipo de gente, em todos os lugares de San Francisco, onde ela passa as 24h mais alucinantes que eu já vi na literatura, com algum tipo de relação muito particular com o serviço postal Tristero. Ou seja, você não consegue distinguir um comportamento ou um padrão de quem usa o serviço. Ele é usado por todos, em qualquer lugar e sob qualquer aspecto. Não conseguir construir um padrão para conseguir informações é tão devastador quanto conseguir informações de todos os lados possíveis. E se apoiar nessa profusão de “sinais” torna o poço de Édipa completamente sem fundo.

Édipa eleva-se a uma realidade improvável, aproveitando sinais controversos e migalhas de informação para reforçar a conspiração Tristero e, consequentemente, sua paranoia. Todo o mundo que Édipa conhece desmorona sob seus olhos, enquanto ela permanece presa nessa realidade criada a partir do símbolo da trompa postal, mesmo sem nada que conecte as pontas soltas que ela tem nas mãos. Ela perde tudo da vida que deixou para trás e também não consegue sair do lugar para descobrir o que é Tristero. O que sobra para Édipa? A paranoia.

Além de toda essa maluquice filosófica que eu disse, há ainda um mar de referência dos anos 60 no livro. Muitas mesmo. Jogadas sem dó. Lendo com atenção dá para pegar muita coisa. Essas metáforas que ambientam os EUA dos anos 60 e alguns marcos da história americana e da cultura europeia clássica, trazem uma maneira nova de ver a história em si. Como eu disse lá em cima, esses caras bizarros amam fazer com que a gente passe mal tentando desvendar tudo o que eles colocam nos livros. Mas essa análise não está fora de todo esse contexto filosófico do livro e do pós-modernismo como um todo, seja lá qual definição adotarem. Toda essa geração de Pynchon sofria do mal de Édipa, estavam todos perdidos pela nova ordem do mundo. De repente o mundo virou do avesso, as coisas começaram a acontecer rápido demais e as pessoas começaram a sentir coisas demais e a fazer coisas demais e a pensar coisas demais, até o que não deveriam pensar de tão bizarra que era a ideia.

O que sobra quando, para acompanhar o novo e desconhecido, perdemos o velho que era nossa base? Nada. Foi o que sobrou a Édipa. Foi o que sobrou para toda uma geração que foi submetida à transição violenta de uma época. É o que sobraria para toda nossa geração acaso a ordem das coisas mudasse de forma quase que instantânea. Viver na paranoia, para a paranoia e de paranoia. A história não se repete, já que nada voltará a ser como antes. A transição de eras não respeita seu tempo e o que você pensa. A história é o ente mais imperialista que existe e todo dia é acrescentada de páginas novas e não muito bem escritas, passando milhares de pessoas para um estado de letargia e paranoia. E resistindo ao tempo, como uma obra-prima da literatura deve resistir, Pynchon nos fez olhar o passado de forma crítica, analisar nosso presente e entender o que esperar do futuro.

Alexandre Soljenítsin – Um dia na vida de Ivan Deníssovitch

Por Caio Lima

Kolyma, terça-feira, 27 de Setembro de 1949

São cinco da manhã e a alvorada toca. Aqui todo dia é assim. Nem os guardas gostam de sair para tocar a alvorada. Através das paredes finas, o vento anuncia que hoje é mais um dia frio. No termômetro está marcado 30 graus negativos. Dizem que se a temperatura chegar a menos 45 graus, nos darão folga. No começo eu até acreditava, mas essa terra aqui parece estar mancomunada com o nosso sofrimento. Mesmo nos dias mais frios, nunca chegamos aos 45 graus negativos. Às vezes dá para ouvir um guarda ou outro reclamando enquanto nos vigiam no trabalho e posso garantir que eles não estão mais felizes que eu. Ninguém é feliz aqui. Nem nós, presos. Nem os guardas. Nem o alto comando.

O problema de acordar num lugar desses, é que percebemos que não é só lá fora que é frio. Me sinto cada vez menos humano. Apesar de ter perdido muito peso, me sinto cada vez mais pesado. É um exercício enorme levantar todo dia nesse lugar sem surtar. Não condeno os que não aguentaram isso aqui. Nem a comida é quente mais. Na verdade, nunca foi. E depois da última tentativa de fuga, pararam de entregar nosso pão gelado em fatias. Agora o pão é picado e dividido em porções. O desjejum, o almoço e o jantar são assim. Não esquentam, não enchem e não alimentam. Só trazem o ambiente gélido para dentro de mim e assim me mantenho frio, igual a tudo aqui.

Diferente de todo dia, eu não fui para a fábrica. Hoje eu fui atender ao grande comitê dos que mandam aqui. Ou pensam que mandam, porque só o frio manda nesse lugar. Quando me chamaram, pensei que seria mais um preso aleatório a ir para as masmorras para ser torturado. Talvez por não andar tão asseado quanto deveria, talvez por acharem que olhei torto para o guarda. Se os guardas realmente soubessem o que penso deles, me matariam pela humilhação. Pobres seguidores do regime. Alguns até sabem o lugar em que se meteram. Para esses é até pior, porque não tem jeito de sair mais.

Hoje me mandaram limpar o salão. Pés descalços, para não molhar a bota. Não que ela proteja meus pés do frio. Na verdade, ela traz uma espécie de alívio moral. Em situações assim, nós usamos e fazemos coisas para simplesmente nos mantermos apegados ao que resta de humano em nós mesmos. É um jogo mental dizer “eu faço porque quero, não porque necessito”. Como se eu tivesse alguma escolha. E tenho. Ou faço e mantenho minha esperança de um dia sair desse inferno branco, ou morro de inanição, pelo frio, e nem à minha família contariam. A água correndo pelo chão só fazia aumentar a sensação de frio. Eu falei que sobrevivo assim, mas nessas horas eu só desejo não estar aqui.

Aqui é tudo frio e úmido. A tosse é uma maneira de lembrar que mesmo estando no meio de muitos, lutamos sozinhos. Com o que não posso lutar, sou subserviente. Meu corpo parece anestesiado, mas é resistente. Sofro surtos de febre. Calafrios nem contam. Mergulhado naquele chão do refeitório dos oficiais, a febre e os calafrios voltaram. Não é a primeira vez. Sei que não vai ser a última. Mas o médico daqui só dá atestado aos moribundos. A maioria dos que saem, não voltam. Os que voltam, duram pouco. Aqui o trabalho é a cura para todos os males, até pelos quais foram produzidos pelo próprio trabalho. Então eu trabalho e fico melhor. Ao passo que isso aqui fica mais frio e eu fico mais frio junto.

Agora é hora de dormir. Os dias aqui são feitos para que você perca as esperanças. O regime não admite oposição. Até onde não existe oposição. O estado me tomou quase tudo o que tenho. A hora de dormir é a única coisa que eu não permito que me retirem. No meu sono eu tenho sonhos de liberdade. E é nesse último fio de esperança que me atenho, em ser de novo livre.

John Steinbeck – A Pérola

Por Caio Lima
Corrupção – substantivo feminino
  1. deterioração, decomposição física de algo; putrefação.
  2. modificação, adulteração das características originais de algo.
  3. fig. depravação de hábitos, costumes etc.; devassidão.
  4. ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa própria ou alheia, ger. com oferecimento de dinheiro; suborno.
  5. uso de meios ilegais para apropriar-se de informações privilegiadas, em benefício próprio.

Corrupção. Kino era pobre de tudo, menos de espírito. Um grande homem, com milhares de valores e mantenedor, à duras penas, de sua pequena família formada por esposa e filho recém-nascido. Seu filho é picado por um escorpião. Apesar de a mãe ter sugado o veneno, ambos os pais acham melhor levar o pequeno até o único médico da cidade. O médico, sabendo da condição de extrema pobreza do casal, se recusa a atendê-los. Kino pega sua canoa toda remendada em busca de pérolas perfeitas. A única forma de arrumar dinheiro fácil. Ao mergulhar, ele se depara com uma ostra gigantesca e de dentro dessa ostra, um brilho sem igual. Ao voltar para a aldeia, ali está a Pérola do Mundo. A maior pérola que jamais vira. A solução de seus problemas.

Corrupção. Seria impossível esconder de toda aldeia aquela preciosidade. Rapidamente a cidade toda já sabia também. Kino era o novo rico. Kino sabia o que havia achado. Rapidamente fazia planos. Queria comprar roupas boas, diversas outras coisas e um rifle. Seu filho já estava se recuperando com os unguentos ancestrais que seu povo praticava quando ainda eram livres. Ao olhar para o pequeno, transformou sua cria num revolucionário. Seu filho iria estudar e revolucionar as condições sociais daquela aldeia. O dinheiro que A Pérola do Mundo traria seria investido em seu herdeiro. Uma crise de consciência. Ou não.

08 - John Steinbeck - A Pérola.jpgCorrupção. Kino não chegou perto do valor que achava justo ao tentar vender a pérola. Ali habitava um monopólio de um único comprador real, que contratava falsos compradores para fingir uma concorrência. Sua revolta era gigante. Ele sabia quão valiosa era A Pérola do Mundo. Resolveu ir embora. Mas antes de ir, sofreu um ataque. Quase perdeu a pérola, sua esposa a recuperou. Mas perdeu sua pobre casa, queimada sem dó. Seu barco estava furado e perdeu a cabeça. Acabou matando um dos salteadores. Precisava fugir. Tornara-se assassino.

Corrupção. Junto com sua esposa e filho, seguiu numa fuga alucinante rumo à outra cidade. Viram-se perseguidos por três homens. Especialistas na arte da caça. Mas sua sobrevivência e de sua família, e a preservação da pérola falavam mais alto. Conseguiram vaguear até uma caverna com visão ampla. Mas seus perseguidores eram bons. Só encontrou uma solução: matar novamente, os três, envolto na escuridão da noite. Ele o faz, mas isso custa sua família. Seu projeto de futuro. A Pérola do Mundo se torna cinza e opaca, seu valor se esvai e é devolvida para o mar.

Corrupção. Ao longo dessas menos de 120 páginas, é impossível não pensar e repensar sobre como injetamos esperança em possibilidades que corrompem algumas virtudes que pensávamos serem inatas. Subornamos, inclusive, nossas boas intenções. Como somos corruptos e levianos! Somos capazes de inverter valores quando nos convencemos que “praticamos o bem” ou que tudo é “por um objetivo maior”. Somos nossos maiores sabotadores e é uma pena que, na grande maioria das vezes, só percebamos os enganos após danos irreversíveis.

Desafio Livrada! 2016 + Jaroslav Hasek – As Aventuras do Bom Soldado Svejk

Por Caio Lima

Antes da primeira resenha do blog, vim expor a minha seleção para o Desafio Livrada! 2016, do blog Livrada!.A grande graça do desafio é ser dividido em 15 categorias com apenas um livro obrigatório e não precisar ler tudo na ordem, ajudando a pesquisa de novos títulos, escolas literárias e afins. Além de ser flexível com quem participa ao permitir que adapte títulos de sua própria estante que, talvez, ficassem para depois. Já li boa parte dos que selecionei para o desafio, mas caso alguém se interesse, essas são minhas escolhas (e a garantia de 15 resenhas aqui hahaha):

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann

2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski

3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe

4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko

5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino

6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade

7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg

10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein

12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino

13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal

15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Aproveitando o ensejo, a primeira resenha do blog será do livro obrigatório do Desafio Livrada! 2016, As Aventuras do Bom Soldado Svejk, escrito por Jaroslav Hasek e que estava parado aqui na minha estante.

Mas antes, sendo estreia (mais fogos [ano novo chinês] e chuva de papel picado [os boletos já estavam vencidos mesmo]), explicito que minhas “resenhas” são apenas pontos que observei durante a leitura e resolvi destacar aqui. Não tem sinopse e ficha técnica com o peso do livro depois de juntar poeira por cinco anos na estante da livraria. Grato desde já.

Agora vamos ao que interessa.


“que tendo há anos abandonado o serviço militar, depois de definitivamente ser declarado idiota pela junta médica militar, ganhava o seu sustento com a venda de cães, feios monstros de sangue impuro, aos quais ele falsificava as árvores genealógicas”

02 - Desafio Livrada! 2016 + As Aventuras do Bom Soldado Svejk.jpgAo me deparar com o bom soldado Svejk eu fiquei muito relutante quanto ao atestado de idiota que lhe foi conferido pelo exército tcheco. Suas “aventuras” são fruto das maiores confusões que só uma mente completamente desprovida de bom senso poderia causar. Sua salvação sempre vem de uma esperteza extrema e de uma sorte que só acompanha os muito competentes. Vai entender. Mas é assim, após ser preso (são incontáveis vezes durante o livro) pelo seu esquema de fraudulência canina e voltar para o exército através do capelão do batalhão, que Svejk age durante todo o livro.

Durante seu percurso hilário com inúmeras sátiras sociais, mãozadas de humor negro e pastelão, Svejk lança um olhar muito sutil para as mazelas da Primeira Guerra em seus bastidores, antes do massacre. Existe um pré-guerra tenebroso e cruel, talvez mais cruel que a própria luta. Logo na fila de exames, tchecos loucos por escapar da guerra iminente pagam para injetar parafina em seus membros, mesmo sabendo que isso poderia custar suas vidas. Os que passam são transportados como gado, amontoados em vagões, com comida extremamente racionada, sendo obrigados a usar restos de agasalhos para se aquecer (requerer um novo uniforme no exército tcheco era quase impossível), tendo que ocupar lugares piores que os dos cavalos dos comandantes e subordinados a oficiais desumanos, imorais e mais cruéis que a própria guerra. Deflagra com ternura, e até inocência, um sistema de organização arcaico e comandado por homens sem capacidade para tal numa guerra sem motivo. Principalmente para os tchecos.

“Para o senhor general tudo era simples. O caminho para a glória bélica repousava nesta receita: As seis os soldados recebem gulache com batatas, às oito e meia fazem cocô nas latrinas e às nove se retiram para dormir. Diante de um exército como este, o inimigo foge assustado.”

Hasek, com toda sua biografia extravagante e ensandecida, impôs à sua narrativa um tom tão natural que choca. Choca ao ver que passamos pelos horrores da guerra rindo de Svejk. Choca ao confiar a um personagem tão caricato a tarefa de mostrar um cenário tão degradante. Choca ao mostrar que o extremo da guerra aparece antes da guerra em si. E o que choca mais é o fato de acontecerem absurdos tão exuberantes que eu não percebi por muitas vezes o tom sempre irônico da narrativa.

Svejk é malandrão no aperto, bobo quando não deve, mas é bom sempre. Não vê maldade, não vê malícia e, muito menos, problemas. Passa por tudo e todos com a mesma cara inchada ou por ser rechonchudo ou um bêbado inveterado. Nunca chegou a ir pra guerra, mesmo com as quase 700 páginas do livro inacabado. Mas foi capaz de tornar divertido um ambiente podre. Tal qual uma criança, Svejk tem na pureza a explicação da sua bondade. Isso não o impede de cometer pequenas transgressões, de mentir e dissimular, mas os pequenos erros não podem ser simples maldade. Talvez só evidencie o lado bom de ser bom.

 “Se me pedissem que apontasse três obras literárias deste século que, em minha opinião, farão parte da literatura universal, diria que uma delas é, sem dúvida, “As aventuras do bom soldado Svejk”.

Bertold Brecht

P.S.: E é bom lembrar que nunca se deve confiar num húngaro.