Nobel é pra quem tem

Por Caio Lima

Eu cresci ouvindo todo e qualquer tipo de música, mas rap é algo que transcende essa esfera do gostar. Vocês podem falar “aaaah mas o Caio disse que suas duas músicas preferidas são ‘hurricane’ e ‘black dog’, como pode ele gostar mais de rap?”. Rap é algo que vai além da experiência musical e lírica. Desmembrando e traduzindo, rap é ‘ritmo e poesia’. E eu levo isso muito a sério. Escrever rap é algo que vai muito além de uma letra com x recursos num beat y e, juntando tudo, existem carros de luxo, drogas, bebidas e clubes de strip-tease. Não, nada disso. O rap é uma expressão literária muito forte. Inclusive, para quem não sabe, uma boa fatia da minha estante são referências extraídas do rap. Essa parcela envolve tudo. Ficção, biografia, filosofia, sociologia, geografia, história, poesia e quadrinhos. O rap, para mim, é e sempre será uma experiência muito mais literária que qualquer outra rotulação que o mercado possa usar. A capacidade de desenvolver, dentro ou não de 16 linhas, relatos sobre tudo, fazem do bom rapper um grande contador de histórias. Contar histórias. Dar oralidade à literatura.

Quando vi Bob Dylan anunciado como o vencedor do nobel de literatura desse ano, fiquei extasiado. Parecia um sonho o que estava acontecendo. É, de certa forma, uma realização de todos que militam ou simpatizam com a poesia marginal e todas as formas em que a poesia é capaz de ser perpetuada e utilizada. Sim, a literatura não funciona apenas pelos livros. Papel e tinta são meras formalidades. Lindas formalidades, aliás. Dou muito valor aos livros. Mas muitas das melhores experiências literárias que tive não estavam no papel, sem registro algum fora a memória. Se formos remeter ao passado, a literatura era completamente oral. E obras, como a própria bíblia, foram contadas e recontadas de forma oral até assumirem sua versão em papel. Com Homero, a mesma coisa. Podemos falar de culturas inteiras que se perpetuaram através da oralidade, como celtas, saxões e os próprios índios. Se pararmos para pensar, hoje em dia lançaram audiobooks, rolam saraus vida afora e outros tantos eventos e recursos literários que não necessitam, de forma alguma, do objeto livro ou de qualquer regulação dogmática, limitando a literatura a um certo nicho ou padrão.

E é exatamente por essa facilidade de se transmutar de forma e se perpetuar em todas as classes, tipos e gêneros de pessoas, diferente da música, do cinema e da pintura, como exemplos, que existe um prêmio nobel de literatura. A simples capacidade de se comunicar já dá o suporte necessário para que a literatura exista. Mas se quiser ter uma experiência particular, papel e tinta resolvem. É simples. Você pode traduzir para qualquer língua, pode contar para alguém, colocar em braile e tudo vai dar certo. E o poder disso é impressionante!

Dylan apareceu em meio à loucura dos anos 60, no auge da luta pelos direitos civis. Movimentos diversos apareciam a cada beco e, perambulando pela vida, grudou na galera da geração beat. Acho que isso é referência literária o suficiente, fora o talento natural, para colocá-lo num patamar diferenciado de compositor. Aparecer nesse ambiente, claro, sempre por baixo, o fez percorrer o sonho de todo poeta marginal. Sabe essas letras escritas em dez minutos num guardanapo e que entram para a história, frutos de um momento monumental de inspiração? É isso. A forma, o estilo, o conceito. Tudo era diferente do usual. Escritos liricamente instigantes produzidos da inspiração e talento de um jovem que emergia como, futuramente, um dos maiores artistas multifacetados da história. Com linhas que eram poesia pura ou poesias que soavam como música.

A questão é que, muito além do talento musical, as letras de Bob Dylan revolucionaram a forma de escrever música e poesia. É um retrato daquela geração beat mais persuasivo que Kerouac, Ginsberg e Burroughs. Aprendeu com os mestres para perpetua-los em canções. Tomar noção disso me fez pensar muito na minha relação com o rap. Eu sempre considerei os grandes mcs, poetas. Depois de poder conviver um pouco mais de perto, passei a acreditar veementemente nisso. Sabe o Sabotage, o poeta do canão? Então, é poeta sim! E essa semana sai um álbum póstumo dele. A única coisa que eu parei para pensar quando soube é “cara, o que será que ele deixou escrito? Quantas linhas incríveis eu terei o prazer de ouvir?”. Caras assim são músicos, mas, acima de tudo, militantes da literatura.

Me deixa extremamente feliz que a academia luxuosa, rica e poderosa do prêmio nobel tenha pensado na literatura como algo que vai muito além do papel. A literatura tem dessas coisas. Está inserida em todas as artes e, provavelmente, boa parte das outras artes ruiriam sem ela. A literatura é flexível, amorfa. O mais engraçado disso é que, hoje, quem a trata assim, em sua maioria, são os que tem menos acesso à ela. A necessidade faz o homem, já dizia o ditado. Se os livros não chegaram, eles fabricam as próprias letras e fazem à capela, declamando ou em cima de um beat feito pelo mestre Ganjaman.

O nobel de Dylan representa muito mais que um prêmio por sua obra. Acho que ele já deve estar enjoado de receber prêmios, até. Olho com olhos mais profundos, de quem vê como a poesia está sendo capaz de movimentar mentes há mais de uma década. O nobel de Dylan é, sem sombra de dúvida, uma justa homenagem aos que não podem escrever suas poesias e as cantam. Aos que não possuem valor literário e insistem em escrever, nos cadernos, coisas melhores que 90% dos poetas que eu já li na vida. O Sant escreveu: “nem todo sorriso é feliz/nem todo choro é triste/nem toda saudade é má/nem toda fé persiste/ já faz um tempo que eu não oro/todo dia eu choro/e o silêncio do lado bom não garante que ele não existe”. Como é que eu não enxergo isso com valor poético? Além de tudo, existe técnica. Perfeita. Bem aplicada.

Dylan ousou e reinventou a poética da música americana. Escreveu clássicos que até hoje me inspiram. Mas, na real, eu me amarro em ver esses caras que reinventam poesia todos os dias apenas para batalhar numa roda de rima pequena. Os caras que estão crescendo no rap. Os caras que já são referência e fizeram do rap o que ele é hoje. O nobel de Dylan é o nobel de Sabotage, o poeta do canão. Espero que os críticos do prêmio possam perceber o quão maior é a literatura ante ao se laurear alguém que não se enquadraria, na opinião alheia, nos padrões da literatura. A literatura não tem padrão e não tem limites. É a arte mais livre de todas. E permanecerá assim. E essa semana ainda vou ouvir Sabotage cantar suas letras. Quero muito ouvir o que ele deixou gravado. O cara tinha muita coisa para falar. Salve Dylan! Salve Sabotage!

Svetlana Aleksiévitch – Vozes de Tchernóbil

Por Caio Lima

Pessoas fazem história todo dia. Eu, você, a tia que vende tapioca na faculdade (saudades, tia) e todo mundo. Somos fonte da história que fazemos e das que vamos nos metendo pelo caminho. A dimensão que você dá a sua própria história depende de você e com quem você a divide. A maioria das pessoas pode achar que esse blog é um fracasso, por exemplo. Eu o colocaria como um sucesso. Só as pessoas que me foram trazidas por esse singelo espaço, o tornam um sucesso.

Esses múltiplos sentidos da vida são melhores que qualquer autoajuda. Talvez seja o que dê o reconhecimento (merecido) ao Vozes de Tchernóbil, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, “ouvido e transcrito” pela bielorrussa Svetlana Aleksiévitch. Muito provavelmente esse foi o livro que me causou mais problemas nessa vida de fazer resenhas:

  1. Pelo fato de ter me deixado num estado de morbidez, comfortably numb (Waters, Gilmour, paga nóis), fora do comum;
  2. Após a mesa da Svetlana na FLIP, eu fiquei me perguntando “o que mais eu poderia falar?”. Ela chegou com o pé na porta e amarrou muito bem os assuntos;
  3. É um livro que está sendo tão resenhado, que eu estou com um medo muito sério de ser repetitivo e ficar no lugar comum. O que complica, porque mais do mesmo é muito ruim pra quem lê e para o ego de quem escreve também. Hehehe.

Somos acostumados a aprender a história através dos tecnicismos escolares. Um expoente majoritário que cria as bases/leis/regras, uma situação específica e um lugar no planeta, misture tudo numa bacia e pronto, temos um evento histórico. Vemos tudo de longe, como se teorias políticas, guerras, desastres, civilizações e a própria evolução fossem imbuídas de caracterizar e organizar a história por si só. Talvez seja isso mesmo. Essa história é continuamente escrita e documentada.

Sob essa perspectiva continuamente escrita, ficamos tristes ao ver inocentes mortos pela interminável guerra de poder nas cidades. A falta de segurança e a não perspectiva de uma solução são alarmantes. Mas essa mesma violência é natural. Discutimos a inabilidade do Estado para lidar com isso, como o crime é organizado, corrupção, boas maneiras e qual uva faz o melhor vinho, tudo ao mesmo tempo. Somos capazes de falar que “o João Roleta, irmão do Zé Catraca, lá do morro do Véu Vendado, morreu com um tiro de 12 na cara” com uma indiferença sórdida.

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil.jpgÉ lógico que quando lemos a palavra Tchernóbil, o que vem a mente é a catástrofe. Os fatos e o tempo. Os fatos explicam muito bem o impacto de Tchernóbil para a ciência, a política, enfim, para a história. O tempo, intuitivamente, selecionou cada fato grande o suficiente para fazer valer à pena sua relevância histórica. Há diversos cacoetes e chavões técnicos ao se discutir Tchernóbil, talvez para que a soma entre tempo e fato não nos dê a chance de sofrer além do acidente em si. Nada é mais importante que a história, afinal. Mas é tudo tão distante, ermo e frio.

Dizem que ouvir e colocar os relatos num livro não é literatura, não é livro jornalístico, não é nada além de um documento. Aí você vê um “documento” ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Procurando a história do tal “documento”, eu descobri que isso é fruto de 40 anos de entrevistas que formam uma série de cinco livros chamada Vozes da Utopia (que nome! QUE NOME!). Resultado de jornalismo investigativo puro, sensibilidade, empatia e vontade de realizar um trabalho que não seja apenas transcrever um conjunto de grandes histórias, mas revelar pedaços que a história insiste em suprimir até ocultar. As histórias que sucumbem ante a imponência dos fatos e o poder do tempo.

Da Svetlana, em si, temos um breve prefácio, os títulos dos relatos (magníficos), o discurso feito ao ganhar o Nobel de Literatura e os parênteses com as reações dos entrevistados. E só. Esqueça qualquer ardil literário, manifestação política, aquele estoicismo que encontramos nos nossos historiadores preferidos, o duplipensar de autores medíocres que querem seguidores fiéis e espaço na mídia, os fatos que compõem um artigo científico e a criatividade interminável de um autor de ficção científica. Nada disso existe em Vozes de Tchernóbil. São apenas relatos das pessoas que conviveram ou ainda convivem com a tragédia. A abrangência dos relatos, a urgência, o sentido disso tudo, fica a cargo do leitor.

Em meio aos grandes momentos da história existe algo subjetivo, manipulável e frágil. Cada entrevistado, na profunda dor, na inocência, inconformismo, devoção, incredulidade ou pureza, passou uma visão muito particular do que foi Tchernóbil. De como as vidas foram modificadas, ou não. Essa coleção de relatos profundos, pacientes, que divagam de um ponto ao outro, muitas vezes sem objetivo nenhum, nos colocam frente a frente com a maior deficiência que temos: a capacidade de se colocar no lugar do outro, a falta de empatia com o sofrimento alheio. Não existe uma transferência de culpa ou vitimismo. O livro inteiro é um exercício extremamente físico de como reagimos a cada um daqueles depoimentos. Ou você se rende e se abre para absorver as experiências das pessoas ou você larga o livro.

Entender as pessoas. Ouvir, absorver, sentir. Foi a única coisa que Svetlana fez ao longo dos anos. A “mulher-ouvido”, sem escrever uma única palavra de sua autoria, provocou esse alarde todo. Deu espaço a todas essas vozes que a grande história ocultou. São essas as pessoas, e outras tantas, atingidas pela catástrofe nuclear de Tchernóbil. Agora todos nós as conhecemos. Eu nunca fui capaz de pensar sob esse aspecto. Acredito que poucos foram.

Ao longo do livro eu fui desarmado. Nenhuma evidência histórica me traria a sensação de desalento ao ver trabalhadores rurais tão apegados a sua terra, agora contaminada até o talo com radiação, voltarem para suas casas e continuarem suas vidas e comerem seus tomates, agora radiativos. O avanço das horas não me fez chorar menos com as crianças, que corriam de peito aberto e não aceitavam serem castigadas por algo que não podem ver, sentir ou tocar. A radiação transformaria a todas, inevitavelmente. Suas esperanças me transformaram, felizmente.

Através da perspectiva de cada um, enxergamos uma hecatombe diferente. Momentos de profunda devastação moral, com os primeiro e último relatos do livro. Momentos de riso frouxo com algumas figuronas. Momentos de esperança com os relatos das crianças. Momentos de ternura, raiva, inconformismo. Uma coleção de visões. É estranho quando você se reconhece capaz de entender outra pessoa plenamente lendo apenas um relato dela, não é? Não somos acostumados a isso no cotidiano. Isso choca.

O evento, em si, desencadeia tudo. Mas o que dá o sentido a tudo são as pessoas. Coisa que a história faz questão de esquecer ou não mostrar. Sempre compramos uma versão técnica, bonita e cheia de correção para fazer jus aos fatos e ao tempo. Mas a história é feita por pessoas, para pessoas e atinge pessoas. Qualquer ideal que deturpe isso nos afasta do que verdadeiramente somos. Vozes de Tchernóbil no traz de volta instantaneamente, assim, finalmente, vemos as nossas imagens refletidas num espelho, quando somos educados para enxergar tudo em vitrines. São iluminados os capazes de provocar isso. Ou são, tão simplesmente, humanos.

O trabalho de Svetlana é tão especial por isso. É uma reeducação do ser humano, uma nova aula de história. Durante três semanas pensei em como resenhar esse livro. Hoje ainda sinto que essa resenha não será capaz de tocar alguém como eu acho que deveria tocar, muito provável que eu tenha ficado no lugar comum. Mas isso deixou de me interessar. Meus olhos se voltam às histórias que vivencio diariamente, nos fatos que a história anda registrando mundo afora e, principalmente, nas milhares de histórias que o tempo e os fatos farão questão de passar por cima. O tempo, o fato e a história. Não, nada disso importa mais.

Aguarda na Disciplina|FLIP 2016

A FLIP 2016 terminou e agora começa a nossa jornada de posts. Em termos gerais, foi mesmo o que eu havia previsto: mais interação do público, mesas com assuntos encaixados e mais artistas de rua. Claro que o mundo não é perfeito como eu gostaria que fosse e temos aqui algumas dúzias de problemas, mas isso é papo de futuro.

Antes de falar sobre o evento, existe algo muito mais importante que deve ser colocado aqui: com menos de dois meses, o Rede de Intrigas contou com a colaboração de muita gente e a FLIP 2016 foi o extrato disso. Aos que ajudaram com a cobertura do evento, nas ruas, na correria das mesas super distantes, nos imprevistos, nas caronas e quem estava de longe, sempre me atualizando, solicitando e sugerindo. Agradeço aos autores que tiveram a paciência de ouvir, assimilar e contribuir. E agradeço previamente as pessoas que me ajudarão a organizar todo o mundo de materiais e serão meus revisores, analistas e sempre serão companheiros fieis. Repetindo, com menos de dois meses de história o Rede de Intrigas já pode ser considerado um projeto de extremo sucesso ao conseguir envolver por livre e espontânea vontade uma galera comprometida com a arte. A vocês, meus amigos, faltam palavras de agradecimento.

Agora a FLIP. Ah, a FLIP. Foi uma festa diferente, mais humana, mais próxima das pessoas. A opção pela poesia marginal com a cara e a voz de uma mulher encurtou o distanciamento natural que a arte promove entre o receptor e o autor. Foi uma FLIP mais quente e até o clima ajudou.

Claro que alguns erros estruturais aconteceram e serão falados por aqui, porque aqui a gente não tem medo de meter o dedo na ferida. Tem bastante coisa pra falar e todas serão tratadas separadamente e de forma construtiva. Mas a mensagem foi dada e a FLIP, que via um público mais distante ano após ano, conseguiu ver uma aproximação muito clara. Mesmo com uma cidade mais vazia por conta de vários fatores, principalmente a crise, houve um massivo aumento da participação das pessoas. Não houve sensação de vazio em momento algum (a não ser em algumas mesas podres).

Os eventos aconteceram em todas as partes do centro histórico da cidade, então imaginem a correria que foi e o estado dos pés de todos que colaboraram para trazer uma cobertura da forma mais completa possível para vocês. Pois é, mas valeu a pena e o saldo foi extremamente positivo. Não apenas pelo material que coletamos, mas pela satisfação de cada um em estar ali. Valeu o cansaço e agora vem à próxima parte do trabalho, que é passar essa satisfação e o saldo disso tudo para vocês.

Para dar um gostinho do que foi essa FLIP e do que está por vir, rolou cobertura em quinze das vinte mesas da Tenda dos Autores, Casa Folha, Casa Rocco, Casa de Cultura, Casa SESC, lançamento de livro e muita coisa na rua, com os artistas que vieram por conta própria buscar o seu espaço. Passando esse estado letárgico que fica após cinco dias alucinantes, tô vendo que vou ter que escrever pra cacete!

É isso aí, galera. Aguardem na disciplina que tá saindo parada boa com as impressões da FLIP, resenhas exclusivas e muitas novidades do Rede de Intrigas para vocês.

Ítalo Calvino – O Visconde Partido ao Meio

Por Caio Lima

“Cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração.”

Eu admiro as pessoas capazes de fazer soar simples qualquer história que contam. É sério, não existe hora ruim pra ouvi-las. Ítalo Calvino é um desses caras. É meio que uma receita de bolo: tá sem paciência, ressaca ou sem ânimo pra nada, então vai lá e pega um Calvino pra respirar, ler uma grande história e ainda tomar tapas e tapas e tapas na cara, mesmo com toda a sensibilidade que transborda desse cara. E numa situação dessas de ressaca literária que, num belo domingo, eu fui procurar O Visconde Partido ao Meio na minha prateleira.

Ítalo Calvino - O Visconde Partido ao MeioEu encaixei esse livro na categoria de “Livro Bobo” do Desafio Livrada! 2016, mas já me adianto que de bobo, em essência, o livro não tem nada. Eu já sabia o que esperar do livro, pois é de Calvino (claro!). Mas o encaixei como “Livro Bobo” pela escrita despretensiosa, simples e bem-humorada do autor. Fica aqui meu mea-culpa.

Primeira coisa: Medardo di Terralba! Você pensaria num nome melhor pra um nobre qualquer? Eu não. Não colocaria num futuro filho meu (bem futuro) pelos trocadilhos com merda, mas quem sabe num peixe beta. Estou refletindo sobre.

Enfim, o Visconde tomou um tiro de canhão no meio do peito enquanto lutava contra os turcos, em prol dos cristãos. Nessa loucura, só acharam a metade direita dele. Após recuperar-se parcialmente (porque essa é só a metade dele, sacou?), o Visconde se revela um personagem oblíquo aos olhos dos demais. Ninguém entende tanta crueldade e autoritarismo. O sentimento de revolta é crescente entre seus subordinados. É muita maldade para uma metade só.

Mas e a outra metade? A metade esquerda é bem vendedora de miçangas. Sumido pelo meio do mato, vive falando com plantas e cuidando de animais por aí. É uma parte excelente no âmago do seu ser. Ternura, arco-íris pela boca e mais miçangas no ar. Mas é tão bom que atrapalha e é tão chato que enjoa. É uma metade que gera revolta. Cansativa, superficial e suas boas intenções só interferem (muito) negativamente nas ações alheias.

“Ó Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desrraigado, mas você também, e todos. Mas, isso agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer com os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.”

Os antagonismos que carregamos nos servem de balança e são os limitadores das ações extremas que, por ventura, somos tentados a tomar. Isso vem muito de encontro a algumas filosofias orientais. Vocês que já leram Calvino já perceberam isso nos livros dele? Talvez seja só uma impressão minha, mas fica o questionamento.

Como eu disse lá em cima, Calvino tem esse poder de simplificar as coisas. Aqui, de forma leve, bem humorada e rápida, ele nos dá uma aula de que o indivíduo é indivisível e, desta forma, não se pode defini-lo a partir de conceitos tão puramente simples como o bom e o mau. Nós temos o nosso próprio “controle de qualidade” (a não ser que você seja diagnosticado com uma patologia, claro). É uma análise do ser humano como um todo, desmistificando conceitos e julgamentos superficiais. O que acreditamos é construído dentro de bases muito profundas que, além de se interligarem, são continuamente moldadas por uma série de fatores ao longo da vida.

Um livro bem-humorado e bem levinho, mas não se esqueçam de que quem o escreveu foi Calvino. Nunca esperem nada menos que reflexões profundas durante a noite tirando seu sono e a excelência de quem entende as mazelas da alma como poucos.

Escalada Literária

“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.”

Sigmund Freud

Conversar literatura abre espaço para uma série de interações. Obtemos pontos de vista novos e completamente diferentes, uma construção mais ampla e sólida do senso crítico e aprendemos a ouvir e interagir com o próximo. Isso tudo vem agregado, também, da busca natural por referências de novas obras e autores impulsionando a tão famosa ‘Escalada Literária’.

Tomando como ponto de partida um lugar comum, é bem natural que comecemos a ler ou quando crianças ou a partir de alguma recomendação de um livro que está vendendo muito, sendo muito comentado. Normalmente algum desses best-sellers que viram filmes e séries e possuem toda aquela estrutura enorme, mas com conteúdo bem insosso. É o que eu considero boa literatura? Não. É um começo? É. Ao começar a ler, você naturalmente sai do ponto zero. Ponto positivo.

Naturalmente, quanto mais gostamos de um assunto, mais lemos sobre. Então quanto mais Percy Jackson eu leio, por exemplo, mais obras do Rick Riordan eu irei buscar. Isso é legal? É muito legal. Mas e depois? Das duas uma: ou você vai procurar um autor que tenha escrita parecida ao Rick Riordan ou vai buscar as referências que o próprio autor usou para poder escrever seus livros, correto? Beleza, beleza, beleza. Outro ponto positivo.

Nessa busca por novas referências, pintou algum autor mais maduro, né? Bernard Cornwell, M.K. Hume, Robin Hobb, George R.R. Martin, Tolkien, Stephen King. E o que você fez? Anotou? Foi pesquisar sobre os livros? Muito bem. Ponto positivo. Mesmo assim não se sentiu seguro para arriscar na leitura? Tudo bem, sem problemas. Mas deixa lá anotadinho que uma hora você cria coragem.

Criou coragem, leu, curtiu e quer mais? Mais uma rodada de busca por referências. Mas esses autores não se limitam ao mundo da fantasia e ficção histórica. Agora começam a surgir alguns clássicos. Bram Stoker, Mary Shelley, Jane Austen, George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Henry James, Franz Kafka e por aí vai. Então você começa a compreender que a partir desses clássicos mais acessíveis, esses grandes autores ao escrever usavam e abusavam de referências. Um grande passo.

Ao chegar nesse ponto você já compreendeu que para escrever, deve-se ler muito. Inclusive os autores pioneiros, inovadores, passaram por todo esse processo de construção de referências a partir das leituras que fizeram ao longo da vida. Então se torna natural buscar cada vez mais referências, ser cada vez mais curioso. É perceptível como você se torna mais exigente a cada obra, não é? E sua sede natural por sempre ir mais a fundo. Isso é uma maravilha! E nem doeu. Dá pra notar as mudanças na estante, a variedade maior de livros e assuntos, em como você passa a construir teu pensamento e em como você, naturalmente, se aproxima do mundo. A literatura tem essa capacidade que transcende o puro entretenimento.

Não adianta pular de Como Eu Era Antes de Você para Graça Infinita de uma vez. Pode até ser feito, mas as dificuldades serão enormes e às vezes tão grandes que causam a interrupção da leitura e uma quebra do processo de evolução, criando bloqueios gravíssimos e dificílimos de transpor. É um trabalho árduo. Cada obra tem o seu valor, cada autor tem seu estilo de escrever e uma mensagem para passar. Ir com calma, dentro do próprio ritmo, e construir gradativamente o conhecimento necessário para ler, digerir e conseguir dialogar com qualquer autor que seja é o caminho pelo qual segui e o caminho que recomendo e tento demonstrar às pessoas. Desta forma, ler Bernard Cornwell não perde a graça mesmo quando você é capaz de ler, com plenitude de absorção, Homero. Dá pra apreciar a literatura em todos os seus níveis. Nada é nulo. Pode ser ruim, muito ruim, mas não nulo.

Essa escalada tem um tempo que é muito pessoal, mas a coleta de informações quase sempre vem do meio em que estamos inseridos. A importância de apresentar referências, de conversar sobre o que se lê e de extrair o máximo de cada obra tem o poder transformador de inspirar outros. É uma lição de empatia e humildade das maiores. Algo que muito falta hoje em dia, inclusive. Por isso, repito, sou fã de leituras coletivas (o projeto do blog tá amadurecendo) e debates. No fim, junto com a ‘Escalada Literária’, podemos praticar uma série de valores que tanto sentimos falta no cotidiano. Adquirimos o hábito de sermos cada vez mais contestadores, solícitos e compreensivos. Viu como todas as ideias até aqui se misturam? É um conjunto de ações que gera um conjunto de resultados. O pensamento é disseminar a ideia e devagarinho a gente vai colhendo os frutos.

Desafio Livrada! 2016 + Jaroslav Hasek – As Aventuras do Bom Soldado Svejk

Por Caio Lima

Antes da primeira resenha do blog, vim expor a minha seleção para o Desafio Livrada! 2016, do blog Livrada!.A grande graça do desafio é ser dividido em 15 categorias com apenas um livro obrigatório e não precisar ler tudo na ordem, ajudando a pesquisa de novos títulos, escolas literárias e afins. Além de ser flexível com quem participa ao permitir que adapte títulos de sua própria estante que, talvez, ficassem para depois. Já li boa parte dos que selecionei para o desafio, mas caso alguém se interesse, essas são minhas escolhas (e a garantia de 15 resenhas aqui hahaha):

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann

2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski

3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe

4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko

5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino

6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade

7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg

10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein

12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino

13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal

15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Aproveitando o ensejo, a primeira resenha do blog será do livro obrigatório do Desafio Livrada! 2016, As Aventuras do Bom Soldado Svejk, escrito por Jaroslav Hasek e que estava parado aqui na minha estante.

Mas antes, sendo estreia (mais fogos [ano novo chinês] e chuva de papel picado [os boletos já estavam vencidos mesmo]), explicito que minhas “resenhas” são apenas pontos que observei durante a leitura e resolvi destacar aqui. Não tem sinopse e ficha técnica com o peso do livro depois de juntar poeira por cinco anos na estante da livraria. Grato desde já.

Agora vamos ao que interessa.


“que tendo há anos abandonado o serviço militar, depois de definitivamente ser declarado idiota pela junta médica militar, ganhava o seu sustento com a venda de cães, feios monstros de sangue impuro, aos quais ele falsificava as árvores genealógicas”

02 - Desafio Livrada! 2016 + As Aventuras do Bom Soldado Svejk.jpgAo me deparar com o bom soldado Svejk eu fiquei muito relutante quanto ao atestado de idiota que lhe foi conferido pelo exército tcheco. Suas “aventuras” são fruto das maiores confusões que só uma mente completamente desprovida de bom senso poderia causar. Sua salvação sempre vem de uma esperteza extrema e de uma sorte que só acompanha os muito competentes. Vai entender. Mas é assim, após ser preso (são incontáveis vezes durante o livro) pelo seu esquema de fraudulência canina e voltar para o exército através do capelão do batalhão, que Svejk age durante todo o livro.

Durante seu percurso hilário com inúmeras sátiras sociais, mãozadas de humor negro e pastelão, Svejk lança um olhar muito sutil para as mazelas da Primeira Guerra em seus bastidores, antes do massacre. Existe um pré-guerra tenebroso e cruel, talvez mais cruel que a própria luta. Logo na fila de exames, tchecos loucos por escapar da guerra iminente pagam para injetar parafina em seus membros, mesmo sabendo que isso poderia custar suas vidas. Os que passam são transportados como gado, amontoados em vagões, com comida extremamente racionada, sendo obrigados a usar restos de agasalhos para se aquecer (requerer um novo uniforme no exército tcheco era quase impossível), tendo que ocupar lugares piores que os dos cavalos dos comandantes e subordinados a oficiais desumanos, imorais e mais cruéis que a própria guerra. Deflagra com ternura, e até inocência, um sistema de organização arcaico e comandado por homens sem capacidade para tal numa guerra sem motivo. Principalmente para os tchecos.

“Para o senhor general tudo era simples. O caminho para a glória bélica repousava nesta receita: As seis os soldados recebem gulache com batatas, às oito e meia fazem cocô nas latrinas e às nove se retiram para dormir. Diante de um exército como este, o inimigo foge assustado.”

Hasek, com toda sua biografia extravagante e ensandecida, impôs à sua narrativa um tom tão natural que choca. Choca ao ver que passamos pelos horrores da guerra rindo de Svejk. Choca ao confiar a um personagem tão caricato a tarefa de mostrar um cenário tão degradante. Choca ao mostrar que o extremo da guerra aparece antes da guerra em si. E o que choca mais é o fato de acontecerem absurdos tão exuberantes que eu não percebi por muitas vezes o tom sempre irônico da narrativa.

Svejk é malandrão no aperto, bobo quando não deve, mas é bom sempre. Não vê maldade, não vê malícia e, muito menos, problemas. Passa por tudo e todos com a mesma cara inchada ou por ser rechonchudo ou um bêbado inveterado. Nunca chegou a ir pra guerra, mesmo com as quase 700 páginas do livro inacabado. Mas foi capaz de tornar divertido um ambiente podre. Tal qual uma criança, Svejk tem na pureza a explicação da sua bondade. Isso não o impede de cometer pequenas transgressões, de mentir e dissimular, mas os pequenos erros não podem ser simples maldade. Talvez só evidencie o lado bom de ser bom.

 “Se me pedissem que apontasse três obras literárias deste século que, em minha opinião, farão parte da literatura universal, diria que uma delas é, sem dúvida, “As aventuras do bom soldado Svejk”.

Bertold Brecht

P.S.: E é bom lembrar que nunca se deve confiar num húngaro.