Leonid Tsípkin – Verão em Baden-Baden

Por Caio Lima

11530_ggA rotina, com seus milhares de tentáculos, nos afasta dos prazeres que a vida oferece. Não rola ir num show terça, porque na quarta você tem que levantar às 5:30 da manhã e encarar trânsito, van, ônibus, trem ou metrô cheios para chegar na escola, faculdade ou trabalho e viver um dia que, de tão previsível, já é passado. Nada impede que nesse caminho até o trabalho você ouça um novo disco ou leia um livro completamente fora do que é habitual ou que observe e imagine o ambiente ao seu redor. A rotina proporciona várias fugas. Como quase tudo no mundo, nosso algoz também é um poço de contradições. Mas o hoje começou como ontem, então é passado. Não há motivo plausível para essas pequenas fugas do cotidiano.

Trens me fascinam. Não a máquina em si. O ambiente de um trem. Utilizei muito pouco na vida. Quem mora em Paraty não tem esse privilégio. Mas, das vezes que utilizei, acabei comprovando e adicionando pontos para fascínio. O principal deles é o ritmo constante. Não da máquina em si. Dos vagões quase sempre cheios, do entrar e sair de pessoas, dos ambulantes e dos olhares que se cruzam e se perdem. De como um ritmo quase constante se adequa ao ritmo de uma boa leitura, a ponto de me causar um efeito tão imersivo quanto ler em casa, no silêncio absoluto. Parece um bom free jazz, instrumental puro, onde cada instrumento entra no tempo e a sonoridade muda, o ritmo muda, mas a imersão só aumenta. Tudo se conecta e se arranja.

Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsípkin é um livro que eu chamaria de trem-jazz.

O médico que lê os diários de Anna Grigorievna, esposa de Dostoiévski, durante sua viagem, rapidamente toma forma no meu imaginário. Eu poderia ser aquele médico. Leves olhadelas pela janela, daquelas que desviam a atenção da leitura para mostrar que, por mais profundo que seja o processo imersivo de um livro, ainda estamos conectados com o mundo lá fora. Um princípio do que poderia ser algo autobiográfico. Ou autoficcional. Mesmo que em situações tensas, o ritmo do trem me fazia relaxar. É uma sensação de conforto bastante esquisita, já que os trens no Rio de Janeiro estão abaixo do que pode ser considerado aceitável. Ainda assim era bastante confortável. Lembrar dessas viagens, relativamente curtas, ainda me causa essa sensação. Talvez seja por isso que o romance de Tsípkin tenha me soado tão familiar.

Mas nas mãos do médico estão as memórias de Anna Grigorievna. E, supondo que Tsípkin seja esse médico e que eu poderia sê-lo da mesma forma, seria infantil e inoportuno deixar que minha atenção se desprendesse das memórias de um dos autores que mais me causa fascínio. Tanto quanto o trem. Ou o jazz.

Escrever é uma maneira de perpetuar a história, mas não através de uma simples reprodução. Escrever é um processo de entendimento, de reflexão e, principalmente, de saber dialogar. Funciona como maldição, na maioria das vezes. Por isso é um alento tão grande quando escrever é capaz de salvar. É por isso que o diário de Anna Grigorievna ganha vida pelas mãos de Tsípkin, que o enxerga através do médico. O médico permite a Anna e a Dostoiévski uma reconstituição própria das passagens. É um diálogo primário, direto. Mesmo que ficcionais, ousando jogar com situações não factuais, o médico não se arrisca a dizer que leu algo nos diários. Ele empresta seu espaço para que as personagens apareçam pelas mãos de Tsípkin. É um processo complexo, encoberto por espessa névoa e certa confusão entre os parágrafos.

O médico no vagão é um veículo que dita o ritmo das memórias. É a cozinha de uma boa jam session, que prepara tudo para que outros elementos brilhem. Mas, um pouco diferente de uma sessão de free jazz, as memórias não vão e voltam, desorganizadas, de improviso, como numa reunião de amigos que só querem se divertir e entreter. Há um sério compromisso com o que é veiculado e levado a cabo pelo médico, ou por mim mesmo. Essa locomotiva, como outra qualquer, segue em frente, compondo quadros que se sucedem, numa sequência de estações predeterminadas e observações pontuais. Aqui vai entrar isso, porque ali na frente tem aquilo, e uma coisa é incapaz de ser relatada sem a outra. As vozes, inexplicavelmente separadas pelos parágrafos incomumente divididos, são guiadas por uma ordem muito bem estabelecida. Nenhuma cela é tão prisão, nem toda liberdade é desoladora. É apenas uma ordem natural, de preferência. Um trem-jazz.

A ordenação desse médico viajante para o que lembrar é tão subjetiva quanto poderia ser. Mesmo que a locomotiva só ande para frente, não é necessariamente um evento marcante que será lembrado. Algumas coisas são mais importantes que as datas de lançamento dos livros ou o número de exemplares vendidos no lançamento. Existem estações menos medíocres onde pegar bagagem. Algo como o próprio processo de escrita do cara. Como o próprio Dostoiévski. Nem tudo que é ficcional é ficção. Nem tudo que é ficcional e possui alguma carga autobiográfica é autoficção também. Sosseguem o facho. E o autor russo talvez seja a maior prova disso.

Através das memórias de Anna Grigorievna, é perceptível que estar próximo do autor desmembra partes de sua personalidade acessíveis por toda sua obra, porém nada é tão óbvio assim. Não convivemos com ele para além do papel. É de uma singeleza comovente os que reconhecem traços do autor para além da própria literatura, pescando sentimentos que ficam fora do foco, abaixo dos radares. E por não ser tão óbvio, literatos recorrem a materiais e enormes pesquisas para relacionar Dostoiévski com suas personagens. Textos e mais textos de apoio devem servir de alguma coisa quando não se pode sentir o impacto de pequenas atitudes que evidenciam o estado de espírito volátil do escritor. É surpreendente como tudo é tão explicável e cheio de sentido estando numa nota simples de um diário. Ler também funciona como maldição, tanto quanto escrever. Talvez seja por isso que tantos leiam apenas o que está escrito, mantendo tudo sob uma superfície segura.

O Dostoiévski que fica ressentido e raivoso após a esposa lhe negar o resto do pouco dinheiro que tinham para que tentasse a sorte no jogo, é o próprio Raskólnikov ou o homem mais-que-revoltado de Memórias do Subsolo. Ou quando em Baden-Baden, apertado por prazos e ávido no seu vício pelo jogo, tratado nos romances Os demônios e Um jogador, o último escrito em Baden-Baden. Ou, ainda, quase no fim, em que todas as lembranças lhe traziam os arrependimentos de uma vida desequilibrada e intensa, o desarvorar do homem e a semelhança com o divino, em busca da redenção pela sua natureza, um homem que se vê bom e puro tal qual o Príncipe Míchkin, de O idiota. A mesquinhez do pensamento aparente, o resguardo ao qual se força para atenuar a ponte entre realidade e ficção, denotam que Dostoiévski esteve, de fato, nos seus livros.

A escrita fluida de Tsípkin contrasta muito bem com as guerras internas de Dostoiévski e com o ar admirado do médico, que varia entre a surpresa pela descoberta e a sapiência de saber por onde guiar o próprio Tsípkin. São três momentos narrativos distintos, mas apenas um está impresso. Apesar de ser um livro, não se faz necessário, em absoluto, que tudo esteja escrito.

Verão em Baden-Baden fez com que eu fosse além. Nessa toada de identificar elementos diferentes que se sobrepõe e harmonizam um enredo que corre sem parar e sempre em frente. Avante, avante, avante. Rápido, rápido, rápido. Ei, olha que paisagem linda. Já passou. Foco no livro. Eu bem que poderia ser o médico. Levo jeito para essa coisa de viajar de trem lendo. Enquanto o médico lê (ou eu aqui, ó), Dostoiévski briga consigo mesmo o tempo inteiro. Não é fácil ser um baú de tanto remorso, de tantas dívidas acumuladas e de tão pouco crédito pela pessoa que se apresenta. O ser humano estava em baixa. Mas a literatura estava em alta conta, pelo menos. Há um canal de diálogo aberto. Uma esperança se apresenta. Um alívio imediato. O que separa o dedo do gatilho. Ou o que separa Dostoiévski de Raskólnikov. Infelizmente eram poucos os que entendiam que existe um momento de Dostoiévski dentro de cada personagem central de suas tramas tão profundamente humanas. Os livros estavam ali, alta literatura. Tecnicamente indiscutíveis. Mas o humano nunca era contemplado, não tanto quanto deveria. A literatura, que se apresentava como salvação, funcionava como maldição tempos depois. O mesmo texto. A mesma angústia. A mesma incompreensão. Tratado com a mesma indiferença.

A lembrança que me fica é a da casa em que Dostoiévski morreu. Vista de fora, algo tão simples. Fechada para visitação. Parece incapaz de caber tanto talento. Incapaz de caber, também, gênio tão hábil e perverso. Se não fosse o diário de Anna Grigorievna, eu não o teria encontrado tão felizmente contraditório.

Vale lembrar que é exatamente por isso que não se deve acreditar em “maneiras de ler Dostoiévski”. Esses tutoriais engessam uma experiência que não tem nada de robótica. Numa literatura em que é aplicada uma carga tão grande de si mesmo, por onde quer que comece, você, caro amigo leitor, estará lidando com um desconhecido. E a cada livro, apesar de certas características sempre presentes, é um novo momento de Dostoiévski. E pessoas não são fáceis de entender. Não existem manuais para pessoas. Apenas se deixem levar e o leiam. Ninguém, senão o próprio, poderia dizer para vocês por onde começar a lê-lo. E bom, até onde sei, mortos não falam. Sendo assim, desconfie de quem fala por eles. Que pausa triste de fazer nesse trem-jazz. Mas necessária.

As vozes entrelaçadas por Tsípkin guiam até um final que não termina. A última estação é a primeira. Verão em Baden-Baden não é um livro cíclico, nisso eu não me contradisse. Não é necessário que um livro comece onde terminou para que, assim que terminado, ele reinicie. É a graça da coisa. Um free jazz nunca acaba, apesar da música terminar. Nesse trem-jazz, a viagem é contínua e, acredito eu, se estenderá ao longo de uma vida. A cada novo Dostoiévski lido, eu revisito aspectos, memórias, cheiros e experiências que a viagem me proporcionou e que me previnem de estabelecer uma comunicação superficial com a obra. Não é só a obra, não sou só eu lendo a obra. É um diálogo muito mais amplo. Talvez essa seja a sensibilidade que tanto dizem que a ficção desperta.

Verão em Baden-Baden é um grande livro. Sem medo de ser o que é. Sem rótulos. Dostoiévski e Anna Grigorievna têm suas vozes abertas nesse púlpito que é a literatura. O médico é sensível demais para interferir no que diz seu objeto de admiração. Tsípkin pode até ter tentado ser o médico viajante, mas não conseguiu. Não se pode criar algo apenas por acreditar ser especial demais ter a percepção de que Dostoiévski, então seu autor favorito, era muito mais que um grande escritor dentro de suas obras. Imagine o quão megalomaníaco seria achar que apenas você, e mais ninguém, pode dialogar com a obra de um autor. Por isso o médico me é tão familiar que poderia ser eu mesmo. Esse trem-jazz de Verão em Baden-Baden virou rotina. Essa aqui foi mais uma viagem.

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Fiódor Dostoiévski – O idiota

Por Caio Lima

Como vocês fazem para ler todos os livros que ganham? Sério. Eu tenho um certo desconforto em ganhar o livro e deixa-lo na estante mofando. Talvez seja porque eu sempre ache que o livro possui uma mensagem que a pessoa quis me passar além da boa literatura. E eu penso assim, porque todos os livros que dou tem um motivo por trás. Então se alguém que já ganhou livro meu estiver lendo, saiba que o livro foi pensado justamente para você sob algum aspecto muito específico. Livros tem esse poder de abordar pontos muito específicos de uma forma que as pessoas permaneçam na leitura e, quando percebem, saem completamente mudadas. Acho essa questão do auto reconhecimento com a obra uma coisa fantástica. E, não, não falo do fato de achar que “nossa, isso é tão eu”. É um muito mais profundo dentro da própria consciência.

Foi essa a minha experiência com ‘O idiota’ do nosso queridíssimo mestre dos males da alma, Fiódor Dostoiévski. E pode-se falar que o romance gira em torno de um triângulo amoroso entre o bobo Príncipe Míchkin, a inconstante Nastácia Filippóvna e o truculento Rogójin, que não seria errado contar a partir desse ponto de vista. Pode-se contar o livro a partir da ótica da construção da personagem do Príncipe Míchkin, quando falamos da inspiração em desatino do nosso parça Dostô ao misturar numa personagem características de Don Quixote de la Mancha e Jesus Cristo. Seria bastante correto também, já que é um personagem tão bem trabalhado que dá um nó no leitor. Nó daqueles que até dói a cabeça durante a leitura.

Eu sempre digo que o exercício da leitura é um exercício de justaposição. Hoje eu gostaria de analisar ‘O idiota’ tentando trazer a realidade de Dostoiévski para perto da gente. Sei que isso soa ambicioso, mas é uma tentativa. Se eu quebrar a cara aqui, não me arrisco mais. Prometo!

Dostoiévski era um cara bem esquisito, cheio de manias, epiléptico e revoltado da vida com um monte de coisas. Mas em todos os artigos, matérias, reportagens e trechos biográficos que vi, ele não era tido como uma má pessoa. Apenas um cara solitário que, com o passar do tempo, ficou cada vez mais preso às suas convicções. Principalmente às de cunho religioso. Veja bem, isso não o separava de seu desejo de mudança naqueles idos pré-revolucionários. Ele era, simplesmente, a principal força para contrapor as ideias progressistas da época, afloradas pela busca de uma ordem econômica e social mais justas, mas que coibiam organizações básicas de ordenamento social, como a nossa querida, sagrada e santa igreja.

E lendo ‘O idiota’ eu me peguei pensando em como o Príncipe Míchkin funciona como uma alegoria perfeita do próprio Dostoiévski em seu ambiente social. Um jovem religioso, de 25 anos mas conservador, com um título de nobreza ou status social e uma suposta herança, com crises severas de epilepsia que lhe são “revelações” e, como ponto principal, a incapacidade de desfrutar de maus modos. Percebam que as alusões a Don Quixote e Jesus Cristo se tornam bastante secundárias agora, já que situamos nossa personagem com base no seu criador. Míchkin funciona dessa forma, porque Dostoiévski parece, a todo momento, falar de si mesmo dessa maneira.

O que separa Míchkin de ser um bobo completo, apesar de passar por otário durante o livro todo, é a capacidade de analisar as atitudes à sua volta e não replicar ou descontar, de forma alguma, todos os maus costumes que ele observa ou que são direcionados a ele. Costumes esses impregnados às mais diversas camadas sociais possíveis, já que há, na obra, uma infinidade de personagens bem específicos, pintando um quadro sobre a sociedade russa do século XIX. Isso é um ponto de vista muito específico e sempre atribuído ao autor, que sempre foi acusado de ser opositor a tudo, inclusive da oposição. Abrindo esse leque de opções, podemos contar com um Dostoiévski mais solitário do que nunca, ora por sua doença, ora pela incapacidade das pessoas o entenderem e deixarem de trata-lo como um completo maluco ou idiota incapaz de enxergar o mundo como ele é, mesmo ele se esforçando, até o limite do amor humano, para perdoar todo o mal que lhe fizeram. Não, não vou entregar spoiler.

Passemos de Dostoiévski para nós. Interiorizemos. Quantas vezes não nos isolamos dentro da nossa própria incapacidade de cativar e semear a ternura e a nossa bondade? Quantas vezes o mundo nos isola por justamente demonstrarmos isso? Impossível contar, acontece todo dia. Mas que esse manifesto puramente confessional de Dostoiévski em todas as esferas, mas principalmente na esfera pessoal, sirva para nós como um exemplo de que precisamos aprender a ouvir e levar a sério a melhor das intenções e atitudes. Sempre. E, talvez, consigamos aprender com elas. Já que as piores nós estamos acostumados a praticar. É degradante.

Literatura e história

Por Caio Lima

O ato da leitura é um esforço integrado entre se colocar no lugar das personagens, se colocar no lugar do autor e entender aquele contexto específico da história. Nos dois primeiros artigos passei rapidinho justamente essa relação entre personagem-leitor e autor-leitor. Claro, não foi um baita estudo, mas espero ter deixado perceptível que essas relações, na literatura russa, foram exploradas ao máximo para extrair alguns conceitos arraigados da sociedade russa à tona. As ações e as nuances pelas quais cada indivíduo passa, são exercícios constantes de resistência. Reparem que, raramente, os grandes autores russos criam personagens bons de tudo e quando criam… é um verdadeiro drama, como o príncipe Míchkin, em ‘O Idiota’. Mas isso é papo para a resenha de quinta-feira e para o texto do próximo domingo.

Indo um pouco além nessa coisa de “em como a história interage com as obras russas e o efeito único produzido por isso”, já que os russos bebem de uma fonte comum à escola francesa, por exemplo, mas a utilizam de maneira diferente ao meu ver. Enquanto fatos históricos e momentos marcantes normalmente servem como um pano de fundo para a construção e desenvolvimento do enredo, na literatura russa a história chega de uma forma mais incisiva e de duas maneiras primordiais.

A primeira forma que eu vejo como bastante particular da literatura russa é em como a história passa a fazer um papel além de ser apenas pano de fundo para a trama. Fatos históricos, ou até um enredo que cubra todo um período, agem diretamente dentro de todo o contexto criado, mas não que tenhamos em mãos um romance de ficção histórica, propriamente dito. É meio esquisito, mas a história se transforma em mais uma personagem, tão complexo quanto quaisquer outros criados e regada de olhares tão críticos quanto os que são jogados para o indivíduo. Quer ver um exemplo bem claro e curtinho? O Soldado Quetange, do Iúri Tynianóv, que coloca como similares a burocracia da União Soviética no regime stalinista e do regime czarista de cem anos antes. O regime czarista deixa de ser o background, para exercer uma função muito vívida dentro da trama. Toda a ironia e o humor da novela passam pelo olhar aprofundado que damos entre as duas épocas.

Essa característica está em obras que permeiam o imaginário da literatura russa. A maior delas, muito provavelmente, é ‘Guerra e Paz’, do velho do saco, opa, do Tolstói. Essa elevação da história para algo além da contextualização do leitor, da formação de uma simples trama, proporciona uma nova maneira de apreciação da leitura em si. A leitura fica, normalmente, muito mais densa e nebulosa. A história tem essa função de nos intrigar e ir desenvolvendo a leitura, reconhecendo como a história age sobre cada personagem e sobre si mesma, como organismo vivo que é, intriga mais ainda. Essa fábrica de fazer intrigas, sempre com os olhos voltados para o passado e elevando a história a um status maior que o comum dentro da literatura, nos obrigam (sim, obrigam) a enxergar pontos cruciais da sociedade russa.

O segundo ponto que eu observo dentro de como os autores russos, de uma maneira geral, se utilizam da história é quando se prendem no presente e pensam no seu legado. Não, não se embole. Mas com uma obra tão vasta e contemporânea, eles são historiadores de seu tempo, deixando registros e mais registros das profundas mudanças na Rússia do século XIX em diante. Não é à toa que ‘Pais e Filhos’, do Turguêniev, nasceu um clássico. São como os rappers de hoje em dia, saca? Dropping dimes and classics errrrrday.

Por isso, já fica o aviso, não desprezem as notas de rodapé dos livros. Apesar de serem muitas, via de regra elas contextualizam e explicam algumas situações primordiais para uma experiência de leitura completa. Lembrem-se que ler é, acima de tudo, um exercício de justaposição com as personagens, com o autor e com a história, portanto fazer vista grossa para os detalhes que formam a obra é abdicar de tentar entender o próximo. E isso é muito grave. Tão grave quanto açaí aguado ou churrasco sem pão de alho.

Entre trazer a história para nós e retratar a história no ato, sem deixar lacunas em branco ou pedaços soltos, os russos foram mestres. A história nos desafia a fazermos diferente, sermos criativos e a evoluir. A literatura russa, além de lembrar isso muito bem, escreveu sua história e o que vemos é uma farta produção literária que vai muito além dos próprios livros. Temos que sair do mundo literário e pesquisar fontes, correr atrás da informação e ler mais um emaranhado de referências. Mas obra boa é assim, transcende o ambiente físico para se materializar num lugar que condiz à grandiosidade dos russos: a história. E é assim que literatura e história se confundem e nos carregam para um novo mundo. Para os russos, estudar história é resistência. Fazer história, também.