Vladímir Sorókin – Um mês em Dachau

Por Caio Lima

É bem provável que eu tenha sido muito injusto e tenha esquecido de bastante gente boa durante esse mês sobre a literatura russa. Tolstói, Leskov, Tchekhov e Górki são alguns dos caras que eu releguei. Em compensação, elegi a grandiosa Anna Akhmátova, Tynianov, Soljenítsin e Korolenko. Todos sintetizam muito bem a originalidade e a resistência que eu tanto prego aqui no Rede de Intrigas. E depois de passar esse mês todo fazendo essa pesquisa intensa, esse balanço entre prosa e poesia e essa salada entre conto, novela e romance, falta um único aspecto do meu roteiro áspero e confuso: renovação.

Não faço ideia se há algo que comprove o que eu vou falar aqui, mas, aparentemente, existe um período negro após toda uma era artística indefectível. Foi assim com a literatura russa também. O regime soviético, alicerçado em diversas razões, mas principalmente pela guerra tecnológica contra os EUA, parou de produzir qualquer arte em prol do avanço científico. Armas nucleares, corrida espacial, espionagem total e todo aquele clima de guerra fria is the new black fizeram a URSS esquecer de vez da arte, de modo geral, para investir em áreas que realmente produziriam algo concreto para o homem soviético.

Se isso é errado ou não, não preciso nem discutir. É só pegar o resultado de nações munidas de alta tecnologia e pouco acesso à diversidade cultural (ou muito acesso à cultura plastificada) que obtemos a resposta. Mas é um pouco difícil pegar mais de um século de movimento literário intenso-e-brilhante-e-chavoso e, de repente, ver tudo minguar. Triste, né? Mas a arte é um processo cíclico e revolucionário por si só, capaz de revelar caras como Vladímir Sorókin. Para falar em literatura russa contemporânea, temos que falar desse cara. E não, não é nada fácil carregar essa responsabilidade praticamente sozinho, mas ele está aí abrindo portas.

‘Um mês em Dachau’ é um dos contos mais psicodélicos que já li e um dos maiores socos na cara que tomei. O campo de concentração de Dachau já seria impactante o suficiente para tornar qualquer escrito um soco na cara, é óbvio. Segunda Guerra é sempre um tema delicado e triste de passear. Campos de concentração, nem se fala. Mas Sorókin foi um pouco além, reacendendo uma discussão muito em voga nos dias atuais, explorando a questão da gravidade histórica e do legado.

Contrapor o seu processo quase despretensioso de desejar visitar Dachau com a revolução fundamental do seu pensamento, constipado e confuso, a cada nova câmara que visitava, abre um precedente incrível para uma discussão quase banal, mas muito profunda: “o quanto você é capaz de estar inserido na história e de se sensibilizar com isso?”. É nessa massa de pensamentos que Sorókin exibe, com toda psicodelia que envolve a justaposição entre épocas, o quanto carregamos, por herança emocional, o legado da nossa própria maldade. É terrível, doloroso e confuso. Sorókin faz dos seus pensamentos uma massa de palavras jogadas e, muitas vezes, sem muito sentido. São vinte e poucas páginas de literatura à base de opiáceos selvagens que revelam uma alma perturbada e profundamente abalada por um legado tão frio e cruel.

A capacidade de se aprofundar na própria confusão e dor remete a uma velha classe de caras como Dostoiévski, Tolstói e Korolenko. É uma espécie de retomada de direção. Uma modernização da literatura que, arte que é, nunca cessa. Esse novo encaminhamento da literatura russa faz reacender a discussão do que é legado, do que é relevância histórica e a primazia da literatura ante o povo russo. Percebem o quanto passado e presente dialogam na busca de contextualizar o legado e a renovação? Sorókin foi lá e fez. A literatura russa está viva e, mais do que nunca, renovada!

Renovar é resistir. É isso! Nada mais que isso! Finalizando o mês russo no Rede de Intrigas, fica um apelo a uma reflexão profunda sobre todo o legado que nos cerca e o que fazemos com ele. Lutamos por sistemas falidos, numa concepção de mundo falida e por um legado reprovável. Até quando? A arte se renova, a natureza se renova, a ciência se renova. Ambas florescem sob novas formas, mas respeitam o legado que as trouxeram até aqui. É um pecado que não saibamos nos renovar, perpetuando um legado fixado há meio milênio. Sorókin foi para Dachau mostrar que para respeitar um legado, ele não precisou repeti-lo. Num futuro, acompanharemos o tamanho do seu legado.

Literatura e o indivíduo

Por Caio Lima

Nessa programação de resenhas e artigos sobre a literatura russa durante todo o mês de setembro, chegamos ao último artigo. Depois de ter passado por tantos assuntos para tentar explicar minimamente no que a literatura russa pode nos ajudar a compreender em tempos nefastos (como o que estamos vivendo), finalizo falando da parte mais importante de qualquer resistência, o indivíduo. É muito contestável o argumento de que não se faz uma revolução sozinho. Tão contestável quanto argumentar que golpes de estado só se dão quando há militares na rua. Além de contestável, é um tipo de fala ingênua. E, sendo possível promover uma revolução solitária, é perfeitamente cabível que exista, tão efetiva quanto, uma resistência solitária. Sendo brasileiro, sabemos muito bem como funciona o esquema do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esses são tempos de “farinha pouca, meu pirão primeiro”, aliás. Por mais que haja um cunho egoísta nessa frase, há um sentido primário que mostra luta, pobreza (de espírito também, mas quem liga?) e resistência quando o assunto é sobreviver em meio ao caos da vida moderna.

Na literatura russa, essa análise do comportamento individual na sociedade, de uma maneira geral, cai muito sobre os ombros do mestre Dostoiévski. Dostô para os íntimos, obrigado. De nada. Dostô, muito provavelmente, foi o escritor russo que mergulhou mais fundo no que é ser humano. E extraiu lá um material bem denso e consistente. A extensa obra com, basicamente, todos os títulos explorando essa interiorização do indivíduo o credenciam a esse papel de embaixador do indivíduo, mister depressão e senhor “olho para mim e sinto um vazio enorme”. Mas não é bem assim que a banda toca. A literatura russa, em toda a sua movimentação desde Púchkin, nunca tomaria essa proporção se não soubesse conversar com cada indivíduo russo e, assim, fomentar gerações marcadas pelas revoluções promovidas e pela resistência altiva.

Ao olharmos para cada escritor russo, com suas convicções e obras em separado, montamos perfis muito distintos. Mas quando falamos aqui em literatura russa, não falamos de um ou dois autores em separado. É o legado maravilhoso que nos foi deixado pelas diferentes vertentes do pensamento russo. A literatura russa atua de forma tão contraditória dentro dela mesma, que se assemelha a um indivíduo tão profundo, lúgubre e complexo quanto os descritos por Dostô. E essa é a mágica da resistência através da literatura, a materialização da arte como indivíduo. Isso não quer dizer que ela seja pura e simplesmente política. A literatura descortina uma visão de indivíduo que o russo comum não tinha conhecimento. A síntese perfeita entre a liberdade de criação, a assimilação da informação e a proliferação disso como produto inicial de discussões profundas que modificaram a forma de enxergar o russo comum pelos seus semelhantes.

Falar com o indivíduo através da literatura não é tarefa das mais fáceis. Mais difícil ainda é a árdua tarefa de apresentar a esse ser uno e solidificado, que metamorfoses o farão enxergar em si mesmo a resposta para os seus problemas e, de quebra, que seu problema é o mesmo do vizinho e de 90% da Rússia. Do indivíduo à unidade de um movimento social ou revolucionário, por exemplo, é um longo caminho. Há um amadurecimento natural, um reconhecimento instantâneo e, o principal, a redescoberta do limite entre o ser coletivo e o ser individual. Transferir para a literatura a responsabilidade moral dessa metamorfose russa durante o século XIX e seu legado é algo muito pesado, porém muito justo.

Nesse redemoinho de acontecimentos, a literatura tem o papel fundamental de explorar a profundeza do senso crítico num indivíduo subestimado, explorado e inutilizado socialmente, para ascende-lo à esfera da resistência por meio da sua afirmação como indivíduo capaz de guiar o próprio destino, de reconhecer a urgência do que reivindica e, principalmente, que consegue se colocar no lugar do próximo e entender que a estrutura formadora da Rússia czarista torna-se, efetivamente, cada vez mais nociva ao indivíduo que se reconhece e reconhece a plenitude da sua liberdade. Essa transformação é fantástica e é a razão do mês russo aqui no Rede de Intrigas.

A literatura russa é tão abrangente que esses quatro artigos e esse monte de resenhas não são suficientes. Mas espero, de coração, que os artigos, principalmente, tenham conseguido passar a mensagem primordial do que a literatura pode representar num período onde todos os explorados são incapazes de se reconhecerem como iguais. Mostrar-se livre de conceitos fechados e cíclicos, além de evitar disparates, permite que você possa aplicar a maior resistência que existe no mundo: a tua liberdade de pensamento. Mudar de ideia, arrumar novos ares e discordar de antigas posições, é algo perfeitamente natural e libertador. Esquecer do social, polarizar o mundo em duas frentes e esquecer do indivíduo, é desumanizar-se em prol de quem te explora. Literatura russa, resistência e liberdade se misturam, se confundem e nos confundem. Mas vendo pelo lado dos russos, estar confuso é o primeiro passo para a resistência. Então aqui seguimos, livres.

Fiódor Dostoiévski – O idiota

Por Caio Lima

Como vocês fazem para ler todos os livros que ganham? Sério. Eu tenho um certo desconforto em ganhar o livro e deixa-lo na estante mofando. Talvez seja porque eu sempre ache que o livro possui uma mensagem que a pessoa quis me passar além da boa literatura. E eu penso assim, porque todos os livros que dou tem um motivo por trás. Então se alguém que já ganhou livro meu estiver lendo, saiba que o livro foi pensado justamente para você sob algum aspecto muito específico. Livros tem esse poder de abordar pontos muito específicos de uma forma que as pessoas permaneçam na leitura e, quando percebem, saem completamente mudadas. Acho essa questão do auto reconhecimento com a obra uma coisa fantástica. E, não, não falo do fato de achar que “nossa, isso é tão eu”. É um muito mais profundo dentro da própria consciência.

Foi essa a minha experiência com ‘O idiota’ do nosso queridíssimo mestre dos males da alma, Fiódor Dostoiévski. E pode-se falar que o romance gira em torno de um triângulo amoroso entre o bobo Príncipe Míchkin, a inconstante Nastácia Filippóvna e o truculento Rogójin, que não seria errado contar a partir desse ponto de vista. Pode-se contar o livro a partir da ótica da construção da personagem do Príncipe Míchkin, quando falamos da inspiração em desatino do nosso parça Dostô ao misturar numa personagem características de Don Quixote de la Mancha e Jesus Cristo. Seria bastante correto também, já que é um personagem tão bem trabalhado que dá um nó no leitor. Nó daqueles que até dói a cabeça durante a leitura.

Eu sempre digo que o exercício da leitura é um exercício de justaposição. Hoje eu gostaria de analisar ‘O idiota’ tentando trazer a realidade de Dostoiévski para perto da gente. Sei que isso soa ambicioso, mas é uma tentativa. Se eu quebrar a cara aqui, não me arrisco mais. Prometo!

Dostoiévski era um cara bem esquisito, cheio de manias, epiléptico e revoltado da vida com um monte de coisas. Mas em todos os artigos, matérias, reportagens e trechos biográficos que vi, ele não era tido como uma má pessoa. Apenas um cara solitário que, com o passar do tempo, ficou cada vez mais preso às suas convicções. Principalmente às de cunho religioso. Veja bem, isso não o separava de seu desejo de mudança naqueles idos pré-revolucionários. Ele era, simplesmente, a principal força para contrapor as ideias progressistas da época, afloradas pela busca de uma ordem econômica e social mais justas, mas que coibiam organizações básicas de ordenamento social, como a nossa querida, sagrada e santa igreja.

E lendo ‘O idiota’ eu me peguei pensando em como o Príncipe Míchkin funciona como uma alegoria perfeita do próprio Dostoiévski em seu ambiente social. Um jovem religioso, de 25 anos mas conservador, com um título de nobreza ou status social e uma suposta herança, com crises severas de epilepsia que lhe são “revelações” e, como ponto principal, a incapacidade de desfrutar de maus modos. Percebam que as alusões a Don Quixote e Jesus Cristo se tornam bastante secundárias agora, já que situamos nossa personagem com base no seu criador. Míchkin funciona dessa forma, porque Dostoiévski parece, a todo momento, falar de si mesmo dessa maneira.

O que separa Míchkin de ser um bobo completo, apesar de passar por otário durante o livro todo, é a capacidade de analisar as atitudes à sua volta e não replicar ou descontar, de forma alguma, todos os maus costumes que ele observa ou que são direcionados a ele. Costumes esses impregnados às mais diversas camadas sociais possíveis, já que há, na obra, uma infinidade de personagens bem específicos, pintando um quadro sobre a sociedade russa do século XIX. Isso é um ponto de vista muito específico e sempre atribuído ao autor, que sempre foi acusado de ser opositor a tudo, inclusive da oposição. Abrindo esse leque de opções, podemos contar com um Dostoiévski mais solitário do que nunca, ora por sua doença, ora pela incapacidade das pessoas o entenderem e deixarem de trata-lo como um completo maluco ou idiota incapaz de enxergar o mundo como ele é, mesmo ele se esforçando, até o limite do amor humano, para perdoar todo o mal que lhe fizeram. Não, não vou entregar spoiler.

Passemos de Dostoiévski para nós. Interiorizemos. Quantas vezes não nos isolamos dentro da nossa própria incapacidade de cativar e semear a ternura e a nossa bondade? Quantas vezes o mundo nos isola por justamente demonstrarmos isso? Impossível contar, acontece todo dia. Mas que esse manifesto puramente confessional de Dostoiévski em todas as esferas, mas principalmente na esfera pessoal, sirva para nós como um exemplo de que precisamos aprender a ouvir e levar a sério a melhor das intenções e atitudes. Sempre. E, talvez, consigamos aprender com elas. Já que as piores nós estamos acostumados a praticar. É degradante.

Vladimir Korolenko – Em má companhia

Por Caio Lima

Antes de qualquer coisa, essa semana é meu aniversário. Sábado, para ser mais exato. Eu não ligo muito para datas comemorativas em geral. Nem aniversário, nem Natal, nem Páscoa, nem nada. Mas esse ano, com o Rede de Intrigas, me atrevi a me expor mais sem ganhar absolutamente nada para isso. E é por isso que essa semana as resenhas acabam por se misturar com meus pontos de vista e impressões de mundo. Mais que o normal. De uma forma íntima, saca? Funciona como um acerto de contas que eu sinto a necessidade de fazer. Não com as pessoas, mas com a minha própria memória.

Korolenko, para quem não sabe, era um profundo defensor dos direitos humanos, dos párias da sociedade e, principalmente, das crianças. Crianças são as que mais sofrem em qualquer sociedade baseada na divisão social por ordem do poder aquisitivo e posição ideológica. Nascem inseridas, e indefesas, num sistema que não as permite a ingenuidade ou a curiosidade. São adequadas a serem o que nasceram para ser. Não existe o período de adaptação ou o período de contestação que nós, adultos, temos quando, por exemplo, protestamos contra um governo golpista. Porém, crianças são seres mágicos e puros. Felizmente, não precisa fazer muita coisa para incitar a curiosidade de uma. E acorrentados nessa esperança de que uma geração futura seja melhor do que a nossa é que ainda acreditamos que há solução para todos os males do mundo.

A história que eu tenho para contar aqui não se parece muito com a do livro, mas acredito que quem costuma frequentar aqui já sabe que eu falo pouca coisa sobre os livros em si. Prefiro deixar minhas impressões de leitura, contextualiza-los a alguma situação ou dissertar sobre pontos específicos. Salvo raras exceções, é isso aí mesmo. Até porque, existe uma coisa chamada sinopse e se vocês quiserem saber do que o livro se trata assim, bonitinho e mastigado, leiam a sinopse. Meu trabalho aqui é tentar passar algo além do livro, o famigerado “poder transformador da literatura”. Então, quem gostou bate palma, caldeirão! Loucura, loucura, loucura! Maestro Billy, som na caixa! (Plateia fazendo ola enquanto toca ‘Love generation’).

‘Em má companhia’ chegou para mim num momento delicado, mas oportuno. E ler a pureza de intenção de uma criança para com os outros, arriscando a sorte e o nome da família, me fez compreender e repensar o momento pelo qual eu estava passando. A turbulência foi se extinguindo e eu me remontei. Porque os livros que tem mais valor para mim são esses que fogem da esfera literária e se materializam como cura, como exemplo, como conselheiro e como um bom amigo. E foi lendo sobre o poder transformador da criança, através da inocência e pureza, que eu comecei a acreditar que eu havia passado pela experiência mais incrível da minha vida.

Fazendo uma reflexão bem profunda, eu cheguei à conclusão de que eu mentiria dizendo que cuidei de uma criança com câncer nos seus seis últimos meses de vida. Mentiria porque cuidar é algo que vai muito além de ajudar a custear o tratamento ou visitar quando dá. Cuidar tem um sentido muito mais espiritual e professoral do que vocês podem imaginar. Existe uma questão de entrega constante e uma batalha enorme contra o próprio ego. Ego esse, que nasce cada vez mais cedo em nós e nos tira a oportunidade de olhar o próximo com a clareza e a pureza de uma criança. É um choque muito grande quando um pequeno ser de sete anos de idade te ensina mais em seis meses do que todos a sua volta tentaram ensinar a vida inteira.

Foram dias difíceis, em boa parte por saber que o quadro era irreversível, em outra boa parte por não conseguir me desvencilhar daquilo tudo. Ao invés de sair e olhar tudo de fora, eu mergulhei cada vez mais no universo dessa criança. Foi algo desesperador. Sempre à espera do inevitável, a sensação era a de me envolver em algo que me quebraria ao meio ali na frente. Sozinho em casa, viajando para a faculdade ou até indo encontra-la, eu ficava imaginando no tamanho do buraco que eu havia me metido e seria difícil sair. Muito difícil.

O que era mais engraçado, é que quando eu chegava para vê-la, essas aflições todas eram interrompidas bruscamente. Era um alívio. É lógico que o ambiente de uma criança com câncer não é feliz, mas a criança é. Nessa felicidade eu pegava carona e, sinceramente, não havia doença naquelas poucas horas que passávamos juntos. Existia um transporte para outro mundo e tudo estava bem, tranquilo e favorável. Eu já vi outros casos de câncer acontecerem, vencidos com louvor e muita luta. Mas eu nunca vi alguém não precisar lutar para deixar a doença de lado da forma que essa criança fazia. Essa serenidade e controle rechaçavam automaticamente toda a minha consciência que se perguntava o porquê adquirir esse sofrimento todo num momento já bastante conturbado.

Foram intensivos de um mundo paralelo onde reinava a santa trindade: palavras doces, sorrisos frouxos e histórias fantásticas. E sem perceber eu entrei nesse mundo também. Foi esquisito entender o mundo sem o ego cego do meio corporativista, mas tudo começou a ficar muito mais claro e simples. As coisas boas começaram a ficar incrivelmente boas. Tão boas que eu, por instinto, passei a cultiva-las cada vez mais e isso me resgatou da mortificação a qual eu estava entregue. Passei a trabalhar, estudar e render melhor em tudo o que fazia. As ideias foram mais positivas. Eu criei coragem para reconstruir laços perdidos por, simplesmente, não perceber a péssima ciranda que eu estava dançando. E o melhor de tudo, ainda poderia desfrutar de todos os momentos com a criança. É aquele sentimento da presença e da certeza que aprendemos que são a muleta perfeita para aprisionar pessoas e ideias.

Quando a sentença veio, eu perdi o chão de verdade. Saber que o inevitável tinha prazo foi o pior momento da minha vida. Eu custei a entender que era a posse que me fazia tão mal. Mas por um lado, foi isso que forjou a mentira de que eu cuidei dela por seis meses, porque foi nessa situação, quando não havia mais jeito, que, aí sim, eu verdadeiramente tomei conta das coisas. E vejam só, até que eu não fiz cagada. Foi um mês e uns quebradinhos de aplaudir de pé, igreja. Eu ainda não entendia e não conseguia largar essa noção de posse, mas foram momentos tão lindos e vívidos quanto eu poderia desejar. E não foi um esforço sobre-humano cuidar, não. Foi natural, como tudo deve ser. Por mais triste que seja a situação toda, eu não conseguia ficar triste. Havia algo impregnado em mim que eu jamais conseguiria explicar.

Como uma avalanche, veio a notícia de que sua vida findou. A criança já não suportava mais. Na verdade, eu é que estava suportando por ela aqueles últimos momentos. Foi um processo cansativo, extenuante. Até cair a ficha do que havia acontecido, eu estava tranquilo. Depois veio aquela onda de incompreensão e os questionamentos são inúmeros, mas todos eles ficam sem resposta. E logo após eu me aventurei pelos caminhos sinuosos de Korolenko em ‘Em má companhia’. Eu logo fui me remontando, devagar para não causar transtorno, e fui tocando a vida, criando o Rede de Intrigas e tomando um calote fenomenal da empresa que eu trabalhava.

Minha história não tem muita ligação com a história do livro, a não ser o ponto principal: as crianças tem uma percepção de mundo muito mais elevada que a nossa. Elas devem ser ouvidas e levar crédito pela sua capacidade infindável de agir com pureza e bravura, mesmo nesses momentos em que o destino está selado. Eu, burro velho e cheio de manias, tive a minha vida mudada. Aprendi a me reposicionar, a tirar o corporativismo entranhado por essa sede de competição para ganhar uma miséria e aprendi a dádiva de se viver com a leveza de ser quem você é, porque isso espalha luz por qualquer chão que você pise. Se eu dissesse, antes dessa história toda, que foi uma criança a responsável por me fazer pensar assim, vocês não acreditariam. Mas foi. E eu não tive a oportunidade de agradece-la como deveria.

A gratidão desses seis meses saem em cada muito obrigado que eu dirijo às pessoas, mesmo que tímido e rápido. Eu não agradeço a atitude de dar licença, mas agradeço a sua boa vontade e compreensão de me ceder seu espaço momentaneamente. Isso pode te parecer filosofia de boteco, mas é assim que eu penso e me comporto. A vida me deu a oportunidade de vivenciar cada pequeno momento em busca do que realmente vale à pena. E para isso seis meses foram tão suficientes quanto seriam sessenta anos.

Korolenko nunca teria escrito algo para mim, até porque daqui a pouco ele completa o centenário de sua morte, mas eu sinto como se fosse. Essa mágica que a verdadeira arte é capaz de produzir é motivo da minha gratidão também. Foi lendo que eu percebi que não é só a literatura que ensina, salva e liberta. A pureza de uma criança me salvou do que eu poderia me tornar, acaso continuasse seguindo por esse mundo onde temos que medir muito bem até onde podemos ir por alguém ou alguma causa. A literatura me fez colocar os pés no chão e enxergar tudo o que eu me permiti mudar. São reflexos que deixo transparecer em cada ‘muito obrigado’ que falo. As atitudes, a boa vontade e a gentileza que muitos me proporcionaram e que eu procuro proporcionar. Eu não sou nenhum espírito elevado ou bom exemplo de qualquer coisa. Sigo o exemplo de uma criança cheia de luz e que se foi, deixando um legado de uma nobreza muito maior do que nós, adultos, seríamos capazes de realizar.

E da mesma forma que a bonequinha da capa do livro ilustra tão bem o quão espiritual é a relação entre essas crianças, eu guardo um único desenho como evidência física da minha experiência sentimental com essa criança. Nesse desenho há uma casa de sentimentos bons e nós dois. Esses sentimentos bons que antes residiam na criança, agora residem em mim. Não existe honra ou riqueza maiores do que essa. Muito obrigado, criança. Você cuidou de mim e mudou a minha vida. Muito obrigado, Korolenko. Você soube mostrar que a resistência num mundo doente é cultivar o amor, coisa que as crianças sabem perfeitamente o que é. Eu vivi isso na pele. Ainda bem. Essa era a dívida que eu tinha para com a minha memória e resolvi expor para vocês, portanto meu muito obrigado à todos que leram até aqui.

Alexsandr Púchkin – A Dama de Espadas

Por Caio Lima

A arte só faz sentido quando exerce alguma forma de comunicação entre o artista e o espectador. Por favor, não entendam isso como padronização do conceito de arte. O que quero dizer é que você pode ser o único espectador da arte que produz e ninguém tem nada a ver com isso, tampouco a obrigação de entender o que você criou. Mas a partir do momento que uma pessoa tem a capacidade de interpretar a sua arte, por mais estranheza que ela cause e que ela tenha errado ao palpitar sobre a obra, existe uma troca. Mas já percebeu o quão pouco de arte conhecemos e temos acesso? Ou que temos um padrão bem quadradinho sobre o que é arte? O bonito e o feio, o clássico e o contemporâneo, o aceitável e o inaceitável. Funciona como uma cartilha de etiqueta. Não quero entrar no mérito do conceito de beleza, o que já daria muito pano pra manga. Porém, limitar o acesso à arte impede o desenvolvimento e uma atuação crítica ante o que se vê.

No primeiro artigo eu trouxe um brevíssimo panorama de como essa etiqueta artística e o limite de acesso da grande massa rural da Rússia do século XIX foram quebrados através da literatura, principalmente. Então, é nesse contexto que Alexsandr Púchkin aparece para nós, pobres mortais. É, amigos, o cara é o pai da literatura russa. Segura a marimba, monamu. E o cara é multifacetado, escreveu de tudo, sobre tudo e, o mais importante, escreveu tudo muito bem.

Dentro da literatura de Púchkin reside uma responsabilidade maior que a da literatura em si. Ele pode até não ter imaginado as proporções que seus escritos tomariam para várias e várias gerações (até chegar aqui nesse pobre blogueiro), mas ele desenvolveu sua arte para que se comunicasse com toda a parcela esquecida da Rússia. Aquela mesma que foi criada para ser caolha e reconhecer apenas uma arte, quando não totalmente retirada a visão. E é aí, atraído por essa responsabilidade, que Púchkin passa a tratar cada vez mais da Rússia. O povo, o trabalho, a divisão social, a cidade, o ambiente e os costumes são sempre analisados por uma literatura simples, coloquial e bastante popular, mas de um teor crítico absurdo. E o fomento disso acaba conduzindo Púchkin para um ativismo literário cada vez mais sólido.

Utilizando de estilos e formas diferentes, ele pintou cenários de uma maneira jamais vista naquela região e época. Poesia, prosa, sobrenatural, comédia, romance, conto e por aí vai. Cada recurso narrativo, causo criado e ambiente escolhido exibem ao povo russo um retrato que não os era mostrado. Podemos ver isso claramente em ‘A Dama de Espadas’ (finalmente) em como ele trata a aristocracia russa daquele tempo. O que, na verdade, não mudou tanto em lugar nenhum do mundo, mas isso aí são outros quinhentos.

O mais interessante desse conto é em como ele associa a capacidade de adivinhar cartas da condessa, sua ascensão ao status de condessa e a sede por descobrir essa mágica, ou poder sobrenatural, e ascender à nobreza russa à qualquer custo do jovem Hermann, com o fato de como a aristocracia russa é formada. Mesmo sabendo que jamais poderia usar a habilidade de adivinhar as cartas após sabe-la, Hermann usa e abusa sem dó e enriquece. A jogatina come solta, moleque. Ele quebra a banca. Rei do jogo. O grande trunfo é mostrar que, se bem usada, a forma ilícita de enriquecer pode ser um garantidor de riqueza ao longo da vida, uma maneira fácil e rápida de ascender socialmente e isso denota como estar numa esfera social maior era algo importante. Na real, ainda é, né?  Esse enriquecimento não poderia ser necessariamente ilícito, mas com certeza se passava dentro de uma imoralidade irracional, como o casamento pelo dote ou pela herança. Tómski manja disso muito bem.

Essa sensibilidade de condenar a moral e a origem da riqueza de boa parte da Rússia, além dos costumes, dão a tônica desse conto. Escolhi exatamente esse conto para que vocês procurem dentro de todo esse contexto sobrenatural traços semelhantes da nossa sociedade. Aqui é muito comum o “topa tudo por dinheiro”. As técnicas mais absurdas são utilizadas, esfregadas na nossa cara e não somos capazes de criticar os danos que isso causa à sociedade de forma direta e indireta, implantando um ciclo vicioso de corrupção moral que é velado pela admiração ao grande empreendedor, ao empresário magnânimo ou ao lobo de Wall Street.

Infelizmente são poucos os que não se vendem por conta do dinheiro e do poder intrínseco a ele. Esses são meros produtos nas prateleiras, daqueles não atrativos o bastante para se venderem e que precisam de um esforço para serem vendidos. Se você for um deles, bate aqui e fica ligado que o Púchkin vai te contar um segredinho: eles vão tentar vender você também.

Anna Akhmátova – Antologia Poética

Por Caio Lima

Eu estava meio chateado com o mês russo. Não pelo fato de fazê-lo, de forma alguma. Mas eu pesquisei tanta coisa diferente para tentar fazer um apanhado da literatura russa como forma de resistência e, ainda assim, alguns pontos me pareciam meio soltos. Fica um vazio chato pra caramba. Eis que eu, procurando ‘O Uivo’, do Allen Ginsberg, despretensiosamente, me deparo com uma tal de Anna Akhmátova. Essa é daquelas coisas que sempre acontecem comigo, de um livro brotar na minha frente e fisgar toda a minha atenção de forma instantânea. E é por isso que eu não consigo realizar desafios grandes de leitura. É complicado, mas é algo muito feliz. Com a ‘Antologia Poética’ da Anna foi muito mais que feliz. Passou a sensação de vazio. Na verdade, se eu postasse um poesia dela por dia ao longo desse mês, vocês todos teriam a noção perfeita do que é literatura de resistência.

Na Rússia efervescente daqueles tempos, algumas mulheres conseguiram certo destaque, mas sempre ofuscadas por seus pares homens. É como se cada tentativa de produzir uma obra que tivesse a mesma qualidade de um Púchkin, habitasse a sombra do pai da literatura russa como uma assombração. As comparações eram inevitáveis e aí apareciam aqueles dedos apontados acusando falta de originalidade e a infinidade de argumentos que uma sociedade patriarcal usa para destituir o poder de mulheres que ousam exercer qualquer voz num contexto social (percebem alguma semelhança?). Eu ressalto o argumento da “falta de originalidade”, porque veja bem que merda era tentar ser escritora àquela época: qualquer coisa que você escrevesse, homens já teriam feito melhor do que você. Imagina quantas autoras russas não nos são ofertadas justamente porque suas obras foram julgadas como não-originais.

É nesse bosque das ilusões que Anna Akhmátova desenvolve toda a sua obra e se torna um expoente quase que metafísico da literatura russa. E isso, talvez, tenha acontecido porque sua poesia é um reflexo não só de sua forma de pensar, das suas dores e da sua visão de mundo. É bem maior que isso. Na poesia de Anna, habitam suas ações. Ler Anna Akhmátova é estar com Anna Akhmátova. É compartilhar de seu tempo. É exercitar a empatia na sua forma mais básica e verdadeira.

A vida de Anna Akhmátova é uma loucura só. Ela se casou três vezes e se separou três vezes, perdeu o filho preso e morto pelo serviço secreto russo, foi condenada ao exílio, passou fome, não teve onde cair morta, sentiu de forma muito vívida as duas guerras mundiais, sofreu censura da polícia política soviética e por isso, além de ter boa parte das suas obras impedidas de serem publicadas durante um bom tempo, teve que regular na caneta para continuar escrevendo, já que ela nunca aceitou fazer a arte partidária que o governo soviético impôs à época e só lá no fim da vida, após o abrandamento da censura, suas obras foram relançadas e ela pôde desfrutar de todo o frenesi que sua literatura foi capaz de causar à Rússia. Ufa!

Diante disso tudo, Anna Akhmátova teve a oportunidade de sair da Rússia e ir para um exílio em algum país mais quente, mais liberal e menos perdido na maneira própria e quase única de criar inimigos. Mas ela decidiu ficar e isso tem um efeito no imaginário do povo muito grande. Releia o parágrafo acima e me responda uma coisinha: se fosse você que tivesse sofrido isso tudo, você ainda pensaria que deve alguma coisa ao teu povo, ou teu país, de uma maneira geral? Tem que ter muita resiliência, paciência, proficiência, malemolência, criatividade para sair da crise e todos os outros tópicos enumerados por palestrantes de auto ajuda e livros de como se dar bem nos negócios.

Eu estou aqui divagando pela vida da Anna Akhmátova não é por falta de assunto, é que essa é a poesia dela mesmo. Ela escreve sobre a vida, sobre a realidade dela, sobre o que viu, o que sentiu e sobre a Rússia. Sem precisar apelar para o substrato do subconsciente em subatividade. É seco, reto e à flor da pele. Isso não quer dizer que ela não abuse da técnica. Mas, na real, quem quer saber de técnica quando essa mulher tá falando? É leitura e sentimento. É sentimento na caneta. É literatura como forma de propagar mensagem. É a mensagem que se transforma em resistência.

Alguns preferem chama-la de Púchkin mulher, outros de mãe da literatura russa. Mas acho que é muito cabível que aprendamos, de uma vez por todas, que ela é Anna Akhmátova. Sem comparativos e superlativos. Sua poesia não necessita disso. E, pensando um bocado, nem eu, nem você, nem ninguém. Você transgride, eleva o patamar, abre espaço para milhões de vozes e dá conforto e carinho para todo um povo através da sua poesia, que nada mais é do que um retrato das próprias ações. O mais importante é que ela me faz acreditar que eu posso fazer isso também e olha eu aqui, todo bobo, tentando explicar para vocês o porquê do mês russo não parecer vazio.

 

Iúri Tyniánov – O Tenente Quetange

Por Caio Lima

Iúri Tyniánov lançou a novela ‘O Tenente Quetange’ em 1928, poucos anos após a ascensão de Stalin na URSS, e teve um sem número de edições até ser, finalmente, limada das prateleiras uns dez anos após o lançamento da primeira edição, pela política de repressão ideológica do novo regime soviético. É impossível saber se isso se dá pelo fato de os órgãos governamentais soviéticos serem tão burocráticos que, ao não encontrar qualquer referência ao atual regime, deixaram passar a obra ou se leram, analisaram e não foram capazes de se enxergar no espelho. Para os que acharam que o mês da literatura seria uma ode à URSS e um meio (ex) governamental de realizar uma doutrinação marxista-bolivariana-mortadela-petralha-comunista em vocês, ledo engano.

De forma muito sutil, vemos como o governo soviético sofreu um retrocesso comportamental e processual, se embolando cada vez mais num novelo burocrático e cheio de vícios, ressuscitando práticas tão old fashioned que a revolução deveria ter derrubado e enterrado no passado czarista. E aqui temos um alerta, dentro de um exemplo simples, de como a mudança de sistema de governo não necessariamente representa uma modificação na forma de governar.

Um escrivão, novo no pedaço, completamente enrolado para escrever seus memorandos e informes-do-dia, ao invés de escrever “a nomeação para Tenentes que tange a Stíven, Rybin e Azantchéiev foi determinada…”, escreveu “a nomeação para Tenentes Quetange, Stíven, Rybin e Azantchéiev foi determinada…”. Pode parecer bobeira, mas lembrem-se sobre os processos burocráticos em voga e a atribuição de poder que o chefe de Estado e seus asseclas possuíam. De forma repentina o Tenente Quetange ganha vida, é enviado para a Sibéria, volta cheio de promoções, vira guarda particular de um comissário, é promovido até virar General, tem mulher e um filho muito parecido com ele, inclusive, e um funeral digno de um grande servidor da mãe Rússia. Tudo isso sem nunca ter existido.

A admissão do erro seria o suicídio dentro do sistema vigente, uma condenação à anos de serviços forçados na Sibéria e a volta para a Rússia numa situação miserável, sem qualquer amparo. Erros não são toleráveis no sistema, por menores que sejam. Desta forma, um erro se torna uma mentira e essa mentira é sustentada a qualquer custo, sob qualquer circunstância e atingindo não importa quem. Isso faz do Estado uma máquina de produzir falácias através de métodos burocráticos e o pior, protegendo sistematicamente os responsáveis por essa produção em massa.

Eu esqueci de mencionar que a história do Tenente Quetange se passa durante o reinado do czar Alexandre I, um grandessíssimo usurpador, mas, pasmem, na URSS de Stalin acontecia igualzinho. Sem tirar nem por. E essa tara pelos métodos de censura stalinistas foi bem grande em Tyniánov, que desafiou (e burlou) bastante o sistema soviético de repressão através de suas novelas e críticas cheias de humor e malemolência. Mas após dez anos com o livro rolando nas mãos de geral livremente, o estrago já estava feito e todo mundo já estava ligado em como a burocracia e o regime claustrofóbico que a revolução quis tirar, permanecia lá. Pilantrinha esse Iúri.

Vale lembrar que Górki e Maiakóvski, principais líderes da revolução de 1917 dentro da literatura russa, cometeram suicídio no começo do governo de Stalin por perceber que, além da censura aplicada a mãos de ferro, a revolução estava tomando caminhos contrários ao que foi idealizado. Muito se discute se os dois gênios realmente se mataram, mas a primeira versão é essa daí. E por falar em usurpador, repressão, censura e manutenção da máquina estatal para distribuição de falácias, como não está nosso Brasil, hein? Tyniánov deu o alerta. Se liguem.