Deixem os robôs para as fábricas

Por Caio Lima

Eu, às voltas com minhas leituras amontoadas, vivo inventando projetos literários e deixando pronto um arsenal de resenhas para o blog. Sabe como é, né? Vai que rola uma semana corrida, tudo dá errado e, de repente, o blog fica lá, às moscas. Isso não é legal. Eu levo essa parada muito a sério para deixar as coisas correrem soltas desse jeito. Essa semana eu comecei mais um, muito específico, que é a leitura de ‘Em busca do tempo perdido’, do Proust, o cara que escreve parágrafos tão longos quanto bonitos. E me peguei pensando em fazer um diário de leitura, uma parada com metas e toda subordinada. Mas desisti na hora. Não rola comigo. A literatura, para mim, tem um valor intrínseco muito latente para definir metas. Claro, rolará uma parada toda especial aqui para o blog ao fim de cada um dos sete livros que compõem a saga mais caudalosa da história da literatura, mas não vai ser algo tão regrado assim.

Indo na onda de tentar colocar metas, fui para Petrópolis e decidi levar somente ‘homens em guerra’, do Andreas Latzko, e ‘o vermelho e o negro’, classicão que estava pegando no meu pé desde setembro. Do Latzko, só faltava o último conto, tranquilo e favorável. Um dos grandes livros do ano e provocou uma revolução aqui no Rede de Intrigas que vocês não fazem ideia, nem vão fazer por agora. Do Stendhal faltavam umas 250 páginas ainda. Bagulho estava neurótico. Eis que no ambiente sempre chuvoso da serra, dei cabo do calhamaço mais dolorido de ler no decorrer desse ano. Não se enganem, faz jus ao status de clássico e rolará aquela resenha mafiosa aqui no Rede de Intrigas. Não sei se foi o clima da serra, se eu que estava muito inspirado, mas fluiu. Li as 250 páginas com um prazer enorme.

Literatura, antes de função, é prazer. E o prazer é uma coisa complexa, cheia de picos e nuances que nem mesmo nós entendemos. De repente, bate aquela vontade e pronto, você termina 250 páginas de um livro que estava num ritmo bastante vagaroso, rápida e facilmente. Mas vocês já repararam que a absorção da leitura prazerosa é muito maior, que quando lemos algo por obrigação? Isso é bem óbvio, eu sei. Talvez. Não tanto, vai. Eu fico imaginando essa galera que tem parceria com todas as editoras do planeta e não consegue ler o que realmente quer, para meio que suprir uma demanda de livros recebidos, que precisam ser lidos e resenhados rapidamente, já que o mercado exige cada vez mais velocidade nas respostas. Ou aquelas pessoas que seguem fielmente as dicas de blogueiros e só leem o que já foi lido, e opinado, por outros. Assim não caem na tentação de ler algo que, por ventura, não venham a gostar. Imagina perder tempo com um livro que fulano não gostou, cruzes. Ou, pior, os alunos do ensino fundamental e ensino médio que são obrigados a ler, tanto no colégio quanto, principalmente, para vestibulares, livros que eles sequer conseguem contextualizar. Pior ainda, fazem uma leitura rápida, tentando absorver o máximo possível daquele arremedo de palavras soltas que estão numa outra conjuntura, completamente estranha, para responder uma ou duas perguntas de uma prova gigantesca! E cada prova tem sua própria lista de livros! (Milhares de exclamações!)!

Os tempos mudam, os hábitos nem tanto. Hoje o tempo é dos números e dos gráficos irrefutáveis. Inclusive, o Dallagnol está ministrando um curso sobre isso, online e totalmente de graça. Não percam! Voltando, as estatísticas mostram tudo o que acontece a todo o momento e é impossível refutá-las. Argumentos irrefutáveis geram autômatos. E é uma sociedade de leitores autômatos, pragmáticos, quadrados e técnicos que estamos criando. Mais uma vez, vemos uma crescente onda de recortes niilistas, onde um livro sobre teoria política tem valor muito maior que um livro de poesia, por exemplo, pois é a economia que faz o mundo girar e a poesia é coisa de desocupado que não está nem aí para o futuro, só querem saber de fazer ciranda para protestar contra o governo golpista e acampar na praia do sono.

Isso não é uma condição única e exclusiva do nosso tempo. Isso é cíclico. Aqui no Brasil, então… acontece de ano em ano. Só muda a forma. Mas é certo que a sociedade sempre tem que estar num estado de inércia intelectual e sempre combativa entre iguais. Somos os maiores reguladores de um regime democrático que não nos serve. Isso acontece, dentre diversos motivos e técnicas de manipulação de massas, porque não sentimos prazer algum em desfrutar da única coisa que todos podem produzir à sua maneira e difundir de forma gratuita e interminável, nossa cultura. Dentro desse contexto de cultura, a literatura é o movimento que sofre cada vez mais com essa lobotomia generalizada. Erros de interpretação simples, a necessidade de sempre ser literal, reto, conciso e estreito. Não há oportunidade de defesa para quem desperta dúvida. Alimentar a dúvida é o grande crime social. Tem dúvida disso? Pegue qualquer notícia de qualquer portal no Facebook e abra os comentários.

Se há uma tendência geral, mesmo naqueles que dizem lidar com literatura por amor, a girar em torno de um ciclo, torna-se simples a dedução de que a liberdade promovida pela literatura, como arte que é, tem sido amplamente cerceada. Mas é mais bonito falar que é chato ou desnecessário, assim você só se preocupa com o que interessa. Falar sobre literatura não interessa. Impor sua opinião e se fechar num círculo comum, sim. Ver a cultura, na sua manifestação mais individual, simples e livre, ser podada dessa forma é a maior comprovação de que a sociedade está sofrendo com um sério problema de identidade. Não nos reconhecemos mais, mesmo com um espelho gigantesco na nossa frente e nas nossas estantes.

Se esse quadro é reversível ou não, eu não sei. Aparentemente, não. Essa onda pragmática em tempos de crise econômica é muito forte: o mercado editorial precisa lucrar desesperadamente, o número de brasileiros leitores está diminuindo e a receita disso tudo você vê na vitrine das livrarias. Fica meio rap de mensagem, saca? Tipo aqueles grupos que só falam do menor da favela que busca redenção na sociedade durante um disco inteiro. Mas é necessário haver resistência para mostrar que literatura é um prazer, acima de tudo. E que, com prazer, somos capazes de ir muito mais além do que pela obrigação. A literatura precisa de mais leitores assim, que sintam prazer ao ler. Sem preconceitos ou círculos fechados. Se a arte imita a vida, sabemos onde vai parar uma pessoa que sente prazer com a arte que produz e que consome. No mais, deixem os robôs para as fábricas.

Outras Dimensões|FLIP 2016

 Por Caio Lima

Casa Folha

Por que a Casa Folha é legal? Com certeza não é por causa das mesas. A única que valeu à pena foi a do Ruy Castro, aquele velho rabugento e meio escroque, mas que manja mais do que ninguém de música e de boa escrita. Além do Ruy Castro, eu vi parte de outra mesa por ordenação do destino e dos atrasos. Foi a mesa do Jorge Caldeira e o cara estava falando sobre economia. Bom, é aquela coisa, mesa de economia da Folha é mais ou menos parecida com pesquisa de aceitação do presidente interino: ou você pensa como eu penso, ou você pensa como eu quero que você pense. Mas a Casa Folha é legal, gente. Sério! Rola bom vinho de graça e sempre tem uma bandinha para animar a noite com bom jazz e mpb.

Casa de Cultura – FLIP+

Botaram pra quebrar esse ano! Gostei de ver! A Casa de Cultura deixou de ser um espaço secundário e deu as cartas na FLIP. Muitas mesas excelentes, sendo a de maior destaque a do Caco Barcellos e toda a equipe do Profissão Repórter, e vários eventos interessantíssimos. A parceria com a PhilosTV (paga nóix) foi bem bacana, apesar de eu ter assistido somente o documentário ‘Focault x Focault’. Mas nada nesse mundo supera o documentário sobre Sabotage!!! Máximo respeito de verdade! Muito bom. Ansioso para que ano que vem essa programação só melhore. Parabéns e mais parabéns!

Praça da Matriz

Lá na Matriz estava a tenda da Flipinha e, mais perto dos bares, um palanque para algumas mesas ao ar livre. Gostei da proposta, algo mais informal. Ficou bem bonito e criança tem que ter espaço mesmo! Correr, brincar e ter um espaço que consiga interagir mais e melhor com as pessoas. Quanto às mesas, foram mesas mais leves de assistir, intercaladas com mesas infantis. Foi boa essa rotatividade. A única que vi foi a do Duvivier com o Xico, a Maria e mediada pelo Marcelo. Foi uma mesa meio sem propósito. Falaram sobre livros, fizeram piada, tudo lindo e atrasaram uma hora. Reforço o atraso, pois isso foi o que propiciou a minha visita a Casa Folha para a mesa sobre economia. Olha o tipo de transtorno que esse atraso me causou, organização!!! É de deixar Gandhi sem cabelo!

Espaço Cultural Itaú (você tem a obrigação de pagar nóix)

Como patrocinador da parada, financiador do movimento e agiota cultural, eles colocaram uma casinha lá do lado de uma sorveteria boa para chamar mais gente. Não rolou muita coisa e acabei vendo só uma mesa com o Alberto Mussa. O cara é massa, viu? HEHEHE. Mas a programação foi bem reduzida, a casa era bem pequena e tinha muita coisa rolando ao mesmo tempo. Quem sabe se colocassem uns gerentes para que a gente abrisse uma conta ali na hora? Pois é, Itaú, você pode até patrocinar, mas dinheiro não compra atenção, neném! Melhorem se quiserem alguma coisa comigo na próxima FLIP.

Livraria das Marés

Aquele espacinho que eles tem para lançamentos de livros é muito maneirinho! Rolou um lançamento de um livro de um monte de gente que traduziu e reinterpretou as obras de Shakespeare para acontecimentos contemporâneos. Mesa meio coxinha, mas muito massa (meus trocadilhos estão incríveis hoje). Valeu por Shakespeare e pelo Everton, que encarnou Macbeth magnificamente para apresentar trechos do livro! Mas esperava mais coisas da livraria, ficou devendo um bocado.

Casa Rocco

Foi o único lugar que concedeu descontos em livros de autores FLIP e no resto do catálogo. Venderam muito, merecidamente. Cada promoção boa… pena que eu fui sem grana. Fora isso, muito material de divulgação legal. Sacolas de compras, marcadores diversos, capítulos de livros, adesivos, cartões e bottons. Só de Trainspotting eu peguei uns 30 marcadores. HAHA.

Programação diversificada, feita com muito esmero, na rua dos bobos, número zero. Fizeram muito bem ao prestigiar os autores da casa e o público junto, que pôde ver os autores bem de pertinho, participar diretamente e ter contato direto com os autores que circulavam pela casa livremente após as mesas e em outros eventos realizados.

Assisti uma mesa sobre a distopia feminista ‘Os Contos de Aia’, da Margaret Atwood, que foi uma uva. A do Frei Betto foi naquele pique ditadura. A sobre literatura juvenil foi bem bacana, mas o Raphael Montes precisa aprender a conviver com as críticas. Benjamin Moser é um pequeno gênio quando se trata de Clarice Lispector (lembrando que além de Clarice, Moser teve espaço para falar de seu outro livro lançado pela Cia. das Letras. Parabéns a Rocco por prestigiar o autor e não fazer guerrinha de ego editorial). Irvine Welsh teve espaço suficiente para falar tudo o que queria (ufa!) e eu quase me esqueci do desastre que havia sido sua mesa na Tenda dos Autores.

Finalizando isso aqui, ainda consegui meus autógrafos em Trainspotting e nos Contos Completos, de Clarice Lispector, que foram organizados pelo Benjamin Moser. Isso só após muita ajuda, carinho e compreensão do pessoal lá da Casa Rocco. Valeu, pessoal! Agora vira nosso parceiro, porque há um amor rolando entre nós.

 

 

 

Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

Americanização da Literatura e Senso Crítico

Por Caio Lima

“Quando não somos inteligíveis é porque não somos inteligentes.”

Victor Hugo

As editoras injetam no mercado cada vez mais marcas literárias. No labirinto que é o mercado editorial brasileiro, muitas editoras apontam para apenas uma saída. Existe toda uma padronização midiática que só difere pelo meio em que está inserida. No caso deste texto, lembrando sempre, a inclusão da literatura nessa poderosíssima rede de entretenimento norte-americana.

Essa exploração comercial de marcas e ícones funciona como uma ode ao consumo. Há uma rápida identificação entre produto e consumidor, gerando a primeira safra de consumo. Rapidamente os acomete outra onda e consome-se muito mais, com velocidade ainda maior, outra marca. Até a criação de tantos objetos de desejo que não é possível consumir tudo e todos ao mesmo tempo, pois as condições financeiras, psicológicas e espaciais não coexistem. Desta forma a indústria do entretenimento inibe a formação de uma mentalidade crítica acerca da abrangência do valor artístico, cultural e social do que é produzido. É uma ação direta num tipo de carência intelectual que é fomentada historicamente por lideranças em busca da não formação plena da sociedade, excluindo sua noção mais básica e imprescindível, que é o senso crítico.

Obviamente ninguém nasceu lendo Guerra e Paz, do Tolstói. Mas, dentro do que observo, a massa de novos leitores é tratada como órfã de boa literatura e esse entretenimento viral veio suprir essa carência. É isso que aparenta. Essa orfandade tem ar de necessidade, ar de falta de incentivo à cultura. É um pensamento doente, torpe, degenerativo e funciona como uma epidemia. Em questão de poucos anos as estantes dos novos leitores brasileiros se renderam (quase) única e exclusivamente a marcas, em que alguns de seus produtos são livros.

Podemos chamar essa busca incessante por informações mastigadas, ruminadas, processadas e coadas de colonização cultural. Em países de terceiro mundo, com uma crise gritante de identidade (Brasil? Oi?), isso se torna uma arma extremamente eficaz no que tange à manutenção sistêmica de uma massa que esteja sempre abaixo de qualquer crítica. Evitar que haja contestação de políticas degradantes à população como um todo através dos véus do entretenimento de massas é uma das blindagens mais eficazes criadas. E se não há soberania na produção de nossa própria arte, imagine agora se há soberania sobre nossa maneira de decidir o destino político do país, por exemplo.

Essa viagem toda explicita o papel vital que a literatura sempre teve para a formação do pensar. Ao deixarmos o entretenimento sem critério ser reconhecido como algo extremamente natural, há uma identificação com uma cultura e realidade totalmente genéricas.  Cortamos uma via poderosíssima de formação do senso crítico permitindo que esses véus cubram todo o meio literário que tem por função não só o entretenimento, mas também mostrar diversos aspectos que influenciam o desenvolvimento pessoal e social. Há um reforço de ideal quanto à literatura brasileira, pelo fato do Brasil ser celeiro de autores fenomenais. Além de haver um dever de todos quanto a um melhor desenvolvimento do cenário editorial brasileiro, de fomentar autores brasileiros. Debater sobre nosso ambiente ajuda (e muito!!!) a criarmos uma identidade mais una como cidadãos.

“Odeio os livros; ensinam apenas a falar daquilo que não se sabe.”

Jean-Jacques Rousseau

Consumir (no sentido mais abjeto da palavra) literatura não é o ideal, mas já que é o principal viés do mercado editorial hoje, que saibamos aproveitar as brechas que nos são dadas. Que esses “livros-produto” sejam uma porta de entrada, e não uma razão de viver para os que se iniciam no mundo mágico e democrático da literatura. Quanto mais literatura que estimule o pensar, a arte, a criatividade e os sentimentos, melhor. O conhecimento passado em vias mais pessoais de comunicação, como os próprios blogs, são de fundamental importância para incentivar a busca por novas referências e novos caminhos. Esse é meu objetivo com este espaço, da mesma forma que fui inspirado por muitos da mesma maneira.

P.S.: Para maiores dados sobre o mercado editorial do Brasil é recomendada a leitura da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, com última edição lançada agora, em 2016. Aproveitem enquanto o café tá fresco, meu povo.

Americanização da Literatura

Por Caio Lima

“(…) um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias (…)”.

Mario Vargas Llosa

A virada do milênio, além de ter possibilitado nossa terna continuidade neste planeta achatado nos polos (já que o mundo não acabou em 2000), veio carregada de uma nova era para o entretenimento de massas. Há uma profusão de sagas em longas-metragens e séries com intermináveis temporadas fidelizando cada vez mais admiradores e demarcando no mercado marcas criadas para explorar uma complexa rede. E com o passar da primeira década o volume de séries aumentou a cada virada de estação. Antes de acabar a temporada de uma, já estão sendo anunciadas as premières de três ou quatro novas séries que você, como imposição, precisa acompanhar.

Repare bem que todas essas séries/sagas seguem um padrão, uma estilística comercial, bem semelhantes umas às outras. Formam, hoje, a principal rede de entretenimento massivo e, com o advindo do Netflix, isso tem se expandido de forma absurda. O lastro para crescimento num curto período é vertiginoso e as previsões são extremamente otimistas para os entusiastas do mercado. Mas falando em roteiros e tramas, um ponto que é de comum acordo é: quando não são simples adaptações ou superlativos, essas séries/sagas são em parte inspiradas em livros, sejam clássicos ou contemporâneos. A indústria do entretenimento foi capaz de se utilizar do espaço literário e fazer ser consumido um produto eficazmente mastigado e de assimilação instantânea.

LEMBRANDO QUE: a questão aqui é em como a máquina do entretenimento gira, e não contestar a qualidade de obras que para mim são incontestáveis.

Partindo desse pressuposto, existe uma logística reversa, já que tudo (ou quase tudo) nesse mundo é uma via (crucis) de duas mãos. Com a simplificação do meio literário massificado pelos filmes e séries, as pessoas que consomem os livros querem, exigem, necessitam e defendem a ideia de que os livros devem ter semelhante poder de compactação, o mesmo poder “miojístico” de assimilação. Assim, o meio literário cai na mesma roda do entretenimento de massas. A emergente produção de sagas literárias, os textos amplamente descritivos e visuais e tramas roteirizadas (quase cinemáticas) focadas numa estrutura pré-moldada de escrever, garantem o sucesso de um mercado tido como emergente.

Então é gerada uma nova ordem onde a literatura é escrita para o entretenimento audiovisual e o entretenimento audiovisual é criado de forma a ser reproduzido, também, pela via literária. Vendo os autores que mais lucraram em 2015 (Tabela 1) pode-se notar que todos têm seus trabalhos traduzidos em filmes e séries de TV e esses trabalhos se enquadram nas obras que mais arrecadaram nos dois meios. Existe uma tendência que presta mais e mais atenção no estímulo dessa correlação entre os meios de entretenimento para fidelizar e comercializar marcas e doutrinar a distribuição de entretenimento mundial.

Autor

Lucro no Ano de 2015

País de Origem Principais Obras
James Patterson US$ 89 milhões EUA Trilogia Bruxos e Bruxas; Romances policiais
John Green US$ 26 milhões EUA A Culpa é das Estrelas; Cidades de Papel
Veronica Roth US$ 25 milhões EUA Trilogia Divergente
Danielle Steel US$ 25 milhões EUA Um Longo Caminho para Casa; Cinco Dias em Paris
Jeff Kinney US$ 23 milhões EUA O Diário de um Banana
Janet Evanovich US$ 21 milhões EUA Saga Stephanie Plum
J. K. Rowling US$ 19 milhões Reino Unido Saga Harry Potter
Stephen King US$ 19 milhões EUA O Iluminado; It – A Coisa; Sob a Redoma
Nora Roberts US$ 18 milhões EUA Série Mortal; Trilogia O Círculo
10º John Grisham US$ 14 milhões EUA Tempo de Matar; O Júri; A Confissão
11º Dan Brown US$ 13 milhões EUA O Código da Vinci; Inferno; Ponto de Impacto
Gillian Flynn US$ 13 milhões EUA Garota Exemplar; Lugares Escuros
Rick Riordan US$ 13 milhões EUA Série Percy Jackson; Série de Apolo
Suzanne Collins US$ 13 milhões EUA Trilogia Jogos Vorazes
15º E. L. James US$ 12 milhões Reino Unido Trilogia 50 Tons de Cinza
George R. R. Martin US$ 12 milhões EUA Série As Crônicas de Gelo e Fogo

Tabela 1: Autores que mais arrecadaram em 2015, segundo matéria da Forbes.

Mas o que é consumir literatura? Quais tipos de obras entram no país de forma massiva? O que isso tudo tem a ver com a formação dos novos leitores brasileiros?

Os diversos segmentos de entretenimento emergentes são todos baseados no mercado e nos moldes do entretenimento norte-americano. As portas, hoje, estão escancaradas para qualquer produto que nos entretenha produzido por eles ou nos seus padrões. Isso influencia absurdamente o mercado editorial do país. Fez-se um ciclo em que o consumo de um produto se dá por todas as vias possíveis: filmes, séries, artigos diversos, jogos e, finalmente, os livros.

Com um mercado reduzido ao longo da história, as editoras brasileiras viram nessa indústria emergente de entretenimento a oportunidade de angariar recursos para se estabilizar no mercado (Tabela 2). É difícil culpa-las, afinal, tudo se resume em negócios, em cifras. A responsabilidade do que é lido é de quem lê… É? Não necessariamente.

Título Autor Número de Exemplares Vendidos Nacionalidade Editora
Grey E. L. James 174.796 Reino Unido Intrínseca
Se Eu Ficar Gayle Forman 100.757 EUA Novo Conceito
Cidades de Papel John Green 94.771 EUA Intrínseca
Toda Luz que Não Podemos Ver Anthony Doerr 71.954 EUA Intrínseca
Para Onde Ela Foi Gayle Forman 65.371 EUA Novo Conceito
Cinquenta Tons de Cinza E. L. James 43.096 Reino Unido Intrínseca
A Garota no Trem Paula Hawkins 42.023 Zimbábue Record
Simplesmente Acontece Cecelia Ahern 40.216 Irlanda Novo Conceito
Cinquenta Tons Mais Escuros E. L. James 36.443 Reino Unido Intrínseca
10º Como Eu Era Antes de Você Jojo Moyes 34.033 Reino Unido Intrínseca
11º Número Zero Umberto Eco 31.878 Itália Record
12º A Garota na Teia de Aranha David Lagercrantz 28.634 Suécia Companhia das Letras
13º Guerra Civil Stuart Moore 27.229 EUA Novo Século
14º Cinquenta Tons de Liberdade E. L. James 26.299 Reino Unido Intrínseca
15º Somente Sua Silvia Day 19.713 EUA Paralela
16º As Espiãs do Dia D Ken Follett 19.250 Reino Unido Arqueiro
17º A Guerra dos Tronos George R. R. Martin 18.388 EUA LeYa
18º O Irmão Alemão Chico Buarque 17.853 Brasil Companhia das Letras
19º Para Sempre Alice Lisa Genova 17.033 EUA Nova Fronteira
20º Paraíso Perdido – Filhos do Éden Volume Dois Eduardo Spohr 16.171 Brasil Verus

Tabela 2: Os 20 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2015, segundo contagem do Publishnews.

A questão é que estamos nos enganando quando dizemos que há um crescimento “fora da curva” de leitores. Há uma unilateralidade bem evidente no mercado editorial atual, onde o montante de vendas de autores norte-americanos (ou que elaboram suas obras com esse conceito) é clamorosamente maior que as publicações dos próprios autores brasileiros. Não que não existam autores de best-sellers lendários, mas há de se reparar que a grande maioria das obras são provenientes desse modelo “livro-produto” com marcas já consolidadas, best-sellers com uma estratégia de mercado embutida.

Alguns autores trataram de se apoderar desse fanatismo pelo consumo e desse endeusamento que o capital é capaz de proporcionar para escrever suas marcas literárias. Desta forma, fenômenos editoriais mundiais surgiram da noite para o dia, fomentados pela cultura poderosa do entretenimento de massas norte-americano.  Fenômenos estes que em menos de uma década tem lançados: uma série de televisão com 15 temporadas garantidas por contrato, uma sequência de filmes, o dia especial da marca (vulgo “título da obra literária de maior reconhecimento do século segundo o The New York Times”) e produtos e mais produtos empanturrando o mercado, de cereais ao enxoval. Vale tudo. São clássicos forjados pela força do mercado. Então o crescimento que existe hoje é de consumidores de certo produto ou marca. Os livros deixaram de ser uma via principal e independente, e se tornaram itens no meio de uma demanda gigantesca de artigos diversos criados especialmente para seguidores fieis.

E esse é o post de inauguração!!! (Fogos [as drogas chegaram] e chuva de papel picado [feita com títulos de eleitor]).  Comentem, critiquem e compartilhem, pois criar uma via de debate amplo é a intenção do canal. Alimentem a intriga!