Charles Dickens – Tempos difíceis

Por Caio Lima

Depois de uma Flip completamente fora das tendências editoriais das grandes máquinas de cuspir livros brasileiras, dois autores em particular chamaram muito a minha atenção pela literatura que praticam, claro, mas não foi só por isso. Marlon James e Paul Beatty expuseram suas contradições sem vergonha de serem felizes. Mais preocupados em fazer algo literariamente relevante que abocanhar fatias de mercado específicas, ambos relataram aspectos importantes do que produzem. Inclusive, o ponto que dá início a esse texto é uma frase que circulou pelas redes sociais do próprio evento, quando Marlon James cita Dickens na seguinte frase: “Charles Dickens defendeu manifestações que mataram mais de 400 jamaicanos. Era um filho da mãe. Ao mesmo tempo, poucos escritores tiveram uma influência tão grande em como estruturo meus livros”.

downloadNum primeiro momento, a frase foi engraçada. Mas, passado o riso, veio uma onda de reflexão profunda e algumas pessoas ao redor foram embora da mesa. Como falar mal do, talvez, maior escritor inglês de todos os tempos? Quem esse jamaicano que escreveu um romancezinho pensa que é?

Tendo lido apenas “Tempos difíceis”, eu não tenho como saber se, dentro de sua vasta obra, Dickens foi racista. Também não me preocupei em pesquisar se há um dossiê que aponta racismo, misoginia, homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito. Provavelmente existe. Dei um google e já apareceu uma infinidade de resultados sobre maus tratos domésticos, racismo e, pasmem, assombrações. O cara batia neurose com fantasmas. Enfim, o relatório parece ser grande. Lerei com calma. O problema todo é: a obra de Dickens, uma vez lida, não há como não passar em branco. E o discurso é tão próximo da nossa realidade atual, que se afeiçoar a Dickens é um passo natural para o leitor.

Pensem em “Tempos difíceis”. A cidade de Coketown, dominada por duas linhagens aristocráticas de origens distintas, se esfacela diante da necessidade de acúmulo de capital e a hipocrisia reinante na cidade. Um retrato das urbes inglesas do século XIX. Um universo micro que pontua características de um novo modelo de sociedade que reproduz práticas antigas, como a educação usada como doutrina de vertentes singulares de pensamento, a escravidão e as injustiças sociais com camadas não contempladas com direitos à cidadania, mas que carregam o fardo mais pesado dos deveres, sem margem para erro.

O martelo bate pesado para quem não pode argumentar, persuadir ou amaciar o ego do juiz. Num simples caso de roubo, o filho do dono dos meios de produção, viciado em jogo e com dívidas altas, preparou evidências para que um funcionário comum levasse a culpa. É incontestável a previsibilidade de culpa no caso. Mínimas evidências são capazes de dissuadir uma forte suspeita nesses casos de maioridade social. Imagine se ele estivesse com uma garrafa de Pinho Sol nas mãos, o escândalo que não fariam. Pena a marca não existir à época, o enredo de Dickens tomaria contornos muito mais dramáticos.

A exploração da miséria humana nas grandes cidades em meio a uma revolução que, a despeito dos meios de produção, acelerou o acúmulo de capital e atrasou o avanço humano, lança sobre o homem uma espécie de dívida inata. Os benefícios para a humanidade citados pelos livros de história citam não são acessíveis à grande parcela das pessoas até hoje. A necessidade de sobreviver não permite que sobre tempo para usufruir de qualquer inovação. A necessidade de ganhar dinheiro para sobreviver não permite que sobre alguma farpela no final do mês para adquirir, de alguma maneira, o direito de usufruir tudo aquilo que fez com que a humanidade evoluísse. Ser humano é cada vez mais complicado. E caro.

As contradições que Dickens impõe a sua produção literária extrapolam o livro em si. Numa época de revolução e ordenação social em castas muito bem fixas e quase intransponíveis, a preferência por ser publicado em fascículos por revistas acessíveis à população de baixa renda e, via de regra, baixa escolaridade, era uma tentativa de equalizar a distribuição de entretenimento, conhecimento e humanidade. Talvez Dickens tenha sido o único da era vitoriana a não erguer uma redoma em torno de si e seus dilemas pessoais, numa autocrítica blasé e sectária. A opção por tratar de contextos puramente sociais com personagens pouco convencionais para a época é, definitivamente, surpreendente.

Tudo muito bonito, é verdade. O problema é que há uma crise de identidade geral entre o olhar que temos sobre a arte e a importância que damos a ela.

Eu não entendo literatura da mesma forma que você, que está lendo esse texto. Muito menos da mesma forma que alguém do século XIX, como o próprio Dickens. Ou como Marlon James, que se inspira em Dickens mesmo sabendo que ele apoiou um massacre contra seu povo e era, muito provavelmente, racista. Afinal, como você enxerga a arte? Mais precisamente, a literatura? É realmente uma pergunta, respondam nos comentários.

Essa é uma excelente temporada para derrubar cânones literários. Ou ao menos reverter sua polaridade e tomar nota de algumas demandas não correspondidas pelas formulações vigentes. Sabemos como nosso cânone ocidental é formado. Sabemos da quantidade de vozes apagadas na história. Isso não desqualifica a literatura produzida por Dickens, absolutamente. Ele tem seu lugar cativo na história da literatura — e na minha estante —, mas se há a possibilidade de contestá-lo, por que não o fazer? Se a arte surge como contestação e quebra de paradigma, seria ilógico eu não poder contestá-la.

As vozes que Dickens abre têm relação intrínseca com um processo de industrialização forçado e a formação de nichos populacionais miseráveis e invisíveis para a sociedade que consumia literatura à época. É difícil reparar numa realidade senão a sua, ainda mais quando a sua é uma realidade de privilégios, sabemos bem. Portanto, muito dessa vontade de escrever sobre a miséria de Londres — ou Coketown, no caso específico de “Tempos difíceis” — é proveniente de uma juventude afetada pela famigerada Revolução Industrial. Tendo que trabalhar desde muito novo, a vivência do autor com a miséria e, mais precisamente, com as pessoas afetadas por essa miséria, fez com que o foco de observação fosse completamente diferente dos seus pares literários. Mas existem misérias, ou nuances, que Dickens jamais conseguiria representar na sua literatura.

A literatura que se busca hoje é, conceitualmente, mais plural e incisiva em questões individuais. Os conceitos puramente classistas do século XIX não conseguem, por mais que se tenha uma dose gigante de boa vontade em empreender sentidos às obras, saciar a fome de representatividade de uma geração que une os conceitos de gênero, raça e classe num caldeirão fervendo, derretendo qualquer suspeita de noções pré-concebidas sobre suas identidades – hoje, tantas, que a gente fica até meio perdido.

Nada mais natural, portanto, que um gênero como a autoficção cresça e se torne a nova tendência literária aqui no Brasil. Suis generis, é o literato brincando com sua própria história e expondo demandas individuais. Num país tão plural e caótico, é difícil ter coragem para expor demandas que não sejam únicas e, principalmente, próximas das vivências de cada autor. De fato, é mais uma tática de defesa do mercado editorial que, além da crise financeira, não sabe se comportar em relação a demandas sociais. Ou simplesmente as ignora, vai saber.

Sabemos que autoficção não nasceu aqui e que não existe apenas isso sendo publicado no país. É uma questão de demanda, de fomento. Um relato individual é incontestável, por mais contestáveis que sejam as ideias expostas pelo autor. Sempre funcionará como um mea culpa bastante eficiente. Isso não quer dizer que sejam produções ruins. É mais uma visão geral. O indivíduo, enquanto unidade produtora/consumidora de literatura, nunca terá contraponto ou oposição plausível a acusações feitas por massas. Afinal, quem pode mensurar o impacto das suas próprias memórias no processo criativo de um livro? A discussão se estenderia pela eternidade. São as grandes editoras fazendo o que sabem fazer de melhor: business.

O que não impede que surja outro fenômeno, numa literatura mais social e politizada, que queira representar nichos específicos da sociedade. Uma literatura endereçada, com representatividade e, normalmente, colaborativa, proveniente de mercados e editoras pequenas, com pouco investimento e que acabam caindo nas graças de nichos cada vez maiores e diversos por apresentarem visões diferentes de mundo, muito particulares e pouco aparentes. Vozes que se erguem.

Nesse samba de uma nota só pelo qual os círculos literários têm passado, Dickens, além de se tornar figura contestável, fica um pouco esquecido, num limbo. Ele não produziu uma autoficção supra individual e incontestável, tampouco foi capaz de atender demandas específicas, apesar de ter tentado dar voz aos excluídos da sociedade inglesa. O que sobra desses dois contextos é literatura. E isso nos leva de volta à frase de Marlon James.

James não relativiza um Dickens racista na sua frase. Na verdade, ele expõe uma face que muito incomodou boa parte do público, que fez bico e ficou meio estupefato. Seu romance sofre influência direta de Dickens, é perceptível. Mas o contexto, a reinvindicação, o sentido da escrita de Marlon é completamente distinto. A influência não descaracteriza o desprezo, o desagrado. E, por mais que achem, não é engraçado, peculiar ou oblíquo que James tenha se inspirado em Dickens para se formar autor. Essa história de superação digna de programas de auditório transmitidos aos domingos à tarde só pode ser contada graças a visão crítica de James sobre Dickens.

Ler “Tempos difíceis” só me provou duas coisas: a primeira — e óbvia — é que Dickens é um grande escritor e eu deveria ter começado a ler sua obra mais cedo; a segunda passa pelas falhas de construção do nosso senso crítico como leitores e a formação e a falta de conhecimento que temos do nosso poder de disseminar informação. Somos veículos muito frágeis no que tange ao diálogo, incapazes de construir pontes permanentes que privilegiam a compreensão de outros mundos, tempos e ideais. A verdadeira revolução não carece de mais energia. Carece, sim, de onde e como concentrar essa energia.

É aí que o imponderável de Dickens aparece. A menina rica, criada para ser uma esposa perfeita, dentro de uma educação completamente tecnicista e que pretere o irmão à luz da justiça e da própria consciência. Os processos desenvolvidos até o desfecho, as ações desencadeadas por um senso incomum de liberdade de pensamento e justiça social e, finalmente, a revolução em Coketown. Sim, revolução. O processo que se passa em “Tempos difíceis” é revolucionário, crítico e silencioso.

Isso não anula nem por um momento sequer a verdadeira face de Dickens. Essa face racista que eu estou indo pesquisar agora. É apenas literatura. E literatura é tudo o que sobra. Se você não souber aprecia-la e critica-la, fatalmente Dickens ou seu autor favorito perderão completamente o sentido. Os alicerces para a contestação também se perdem no processo, rapidamente colocando o leitor numa bolha de privilégios onde ele não sabe exatamente contra quem ou o que lutar. E as teorias, o desagrado e a luta se tornam tão vazias de razão que o sentimento revolucionário, aquele romântico, se esvai junto. São muitos os exemplos dos que se tornaram ditadores de si mesmos por terem perdido a conexão com seus alicerces.

Num mundo literário tão cobiçado por seu comportamento piramidal, acabamos por esquecer que praticar a literatura no cotidiano é um ato de retratação e justiça contínuos. Após um século e meio, enxergamos faces de Dickens expostas por vozes que se levantam na busca de retratar e preencher as lacunas deixadas pelo escritor inglês e, não menos importante, balançar as bases já pouco sólidas do cânone (não vou esticar o assunto sobre a criação de um contracânone, isso fica para outro texto, mas que é bastante interessante, é). Gerar incômodo, provocar discussão, bagunçar a ordem. Ora, ora, se não é exatamente por isso que Dickens é louvado.

Marlon James se inspira em Dickens, e, aqui, Dickens é tratado não como um autor do cânone literário ocidental, mas como um autor de reconhecida importância e que deve ter sua obra revista e confrontada por olhos que enxergam além do que era visto no século XIX, olhos esses que caem nas redes de um mercado que enxerga dois polos distintos pelo simples fato disso ser melhor pros negócios, mercado do qual o Rede de Intrigas foge para trazer esse tipo de texto que era para ser apenas sobre um livro, mas que começou com uma frase de Marlon James, que se inspira em Dickens. Ciclos que se renovam. São tempos difíceis.

O Sebo Rede de Intrigas está de volta! Confiram!

BK’ – Castelos e ruínas

Por Caio Lima

Uma das principais, senão a principal, funções da arte é emocionar. E emocionar não é fazer chorar, apenas. Acho que o Guardião das Palavras, que vive no Vale das Palavras, deve chorar toda vez que vê um vocábulo tão bonito ser reduzido a algo tão superficial. E o pior, os considerados literatos, intelectuais do mais alto gabarito, são os que mais se utilizam de tal prática. Mas deixemos de lado a intelectualidade e voltemos à arte e ao que nos emociona.

Estou devendo a resenha de “Castelos e ruínas”, do BK’, há quase um ano e meio. E eu realmente tento escreve-la há quase um ano e meio. Mas nunca consegui. E antes que eu comece a falar o porquê, quero que vocês saibam que esse texto pode se aproximar muito mais de um relato que de uma resenha crítica dos “portais de rap”, que prezam por um formato engessado e copiam tudo do estrangeiro, dos formatos de reportagem até os jornalistas incompetentes.

8da4e39437ac3c204a353ac8e90977d1.960x960x1Essa caminhada com o disco começa bem antes de o disco ser lançado. Em outubro de 2015 eu ainda trabalhava, havia acabado de chegar de uma importante viagem e fazia planos ambiciosos com a grana que eu estava ganhando. Não que estivesse tudo bem. Não estava. A Camila, talvez a pessoa que eu mais confie nesse mundo, havia rompido comigo. A Carolina, por quem eu estava fascinado, partiu. As coisas em casa estavam bem esquisitas também, tudo passava por extremos. Eis que surge a Magali, uma menina de 7 anos que enfrentava um câncer no estômago em estágio avançado muito bravamente. A família, sem recursos para manter o tratamento, pedia ajuda. Eu atendi o pedido.

Em questão de meses tudo mudou. No meu “Castelos e ruínas”, as polaridades foram invertidas. O status no trabalho, o dinheiro e a importância que eu dava às coisas certas, dentro do sistema, foram rapidamente minguando. Numa série de sucessivos golpes de realidade, eu passei a priorizar o que me emocionava. Minhas relações melhoraram, consegui extirpar alguns traumas e recebi de presente uma consciência mais tranquila, com a satisfação nas coisas simples ou no que realmente vale a pena.

A Magali morreu no dia 11/03/2016. Não foi um período fácil. Por mais que eu soubesse quão remotas eram as chances de ela resistir, eu não estava preparado para quando acontecesse. Ninguém está, eu acho. Foi um período de caos. Naqueles cinco dias entre a morte da Magali e o lançamento do “Castelos e ruínas”, eu não sabia o que era castelo e o que era ruína ainda. A inversão da ordem natural das coisas nunca fez sentido na minha cabeça, mas ao mesmo tempo eu ainda creio que aquela criança cumpriu seu objetivo aqui neste plano. Os momentos de paz interior e a situação caótica da minha cabeça destravaram uma série de crises de ansiedade. Eu, sempre leitor, não sabia interpretar o que acontecia comigo.

Quando o disco foi lançado, no dia 16, fui ouvir na função de uma pessoa que acompanhou o BK’ desde o começo do começo. Meu mano (e gênio) Gabriel Marinho foi o produtor e me mostrou a guia da primeira gravação do BK’, de 2011, quando ele ainda era o Abebe Bikila e fez participação numa música do Mineiro Treze (https://www.youtube.com/watch?v=HK01xl-dZGg). Já comentávamos entre uma aula e outra sobre o futuro do rap no RJ e BK’ não era apenas mais um nome ventilado, era uma aposta séria.

Engraçado como as histórias se cruzam em linhas extremamente tênues, não?

Pelas resenhas de bar na faculdade, em 2011, até a mixtape do Néctar, “Seguimos na sombra”, em meados de 2015, a evolução e a visibilidade do seu rap foram proporcionais ao seu talento; bem como o boom que existiu com “Castelos e ruínas”. O sucesso pode vir de diferentes formas, não existe receita. Mas não é difícil adivinhar que com o talento e o constante trabalho em prol de evolução, o sucesso, além de natural, seria sólido. Mas esse texto não é sobre o BK’, necessariamente. É sobre como a arte emociona. Não se esqueçam.

Eu não quis ouvir “Visão ampla”, lançada poucas horas antes do disco completo. Esperei de forma solene que o tempo passasse, lento como só o tempo pode ser em meio a crises. São nesses momentos de espera que as verdadeiras transformações internas costumam acontecer, eu acho. A gente vai criando expectativa e se desprende um pouco da realidade, do momento. Começamos a criar um outro mundo, imaginário, que sempre nos é solícito e agradável. Ruim é quando esse mundo se perde em meio à quebra de expectativas e o encanto se rompe. As crises voltam mais intensas e repelem a felicidade de uma forma tão violenta, que se acontecem de forma sucessiva nem Dante conseguiria criar um inferno para tal. Felizmente, esse não foi o caso.

Arte é uma forma de diálogo. E, por mais incrível que pareça, o rap praticado aqui no Brasil desde 2013 carece de MC’s que saibam puxar assunto. Ao ouvir o disco pela primeira vez, eu simplesmente me empolguei. É um baita disco! Para mim, um clássico! E fui ouvir de novo, de novo e mais outras incontáveis vezes. Quão maior era o mergulho dentro do disco, com mais afinco eu estudava o contexto, a técnica, a construção toda. Não demorou muito para que eu tivesse destrinchado o “Castelos e ruínas” do BK’. E adianto que esse não é, definitivamente, um disco simples.

Um momento na programação: não, eu não vou dizer que esse disco foi feito para mim e que me fez mudar de vida. Repito, eu não faço parte dos portais de rap que vocês amam e seguem! Isso é de uma desonestidade com o leitor sem tamanho e, bom, eu sei muito bem o que escrevo e onde quero chegar com isso!

O ponto é que a arte, quando abre o diálogo, engana. Minhas constantes anotações traduziam o meu olhar sobre um disco que estava falando comigo. Eram meus castelos e minhas ruínas anotados. O envolvimento com a arte faz com que olhemos para dentro do nosso próprio universo. E, de imaginário por conta das expectativas criadas, se torna um mundo real. Não, nada melhorou. Mas eu entendi o que era ruína e o que era castelo dentro daquele momento turvo. É bom saber quais armas eu tinha e contra qual inimigo eu estava lutando, é claro. Só que não adiantou muito, já que eu não sabia o que fazer. Entendem como a arte mexe com o emocional e o emocional não quer dizer que seja algo necessariamente bom? Olha só a merda em que eu me meti.

Enquanto eu não achava as respostas para melhorar meu momento, eu seguia ouvindo “Castelos e ruínas” e fazendo um diário das minhas conversas com BK’ e comigo mesmo. Às voltas com uma faculdade que me cansa profundamente (e causa tédio), um trabalho que, além de não me valorizar, ainda atrasava os salários e as demais obrigações da vida adulta, até meus motivos literários giravam em torno dessa pesquisa de campo em mim mesmo. Logo, escrever não era mais uma tentativa de descobrir, e sim mais um motivo.

O disco, como todo bom MC gosta de dizer, é como um livro. E os motivos literários que cercam “Castelos e ruínas” não são tão óbvios assim. Existem muito mais elementos que os simples altos e baixos exemplificados em resenhas por aí e pelo próprio BK’, tentando encurtar entrevistas. Ouçam atentamente. O amor, a morte e as ruas são dúbios, não duplos. Não existem extremos perfeitos que não sejam prisões. A gente demora a entender esse negócio, mas é real. Não adianta ter um castelo que te sirva de prisão. Da mesma forma, ruínas tem seu charme e atraem. Não pelas joias, relíquias ou algo de valor material. Falo da força de uma história a ser contada, recontada e reerguida.

Todo esse processo literário e de interpretação do que eu mesmo anotava dentro de todo o conceito do disco, é transcrito nos meus textos aqui pelo Rede de Intrigas. Essa capacidade de reproduzir ideias dentro de universos próprios, de dialogar com mortos e de me colocar como centro de uma obra sem me apropriar dela.

Mas toda vez que eu tentava escrever sobre “Castelos e ruínas”, travava. Algumas situações são fortes demais para que sejam apenas escritas. Eu anotei tanto, escrevi tanto, li tanto. E simplesmente não conseguia, por quê? A arte me afastou de mim durante muito tempo nesse processo. Meus motivos para escrever não eram pessoais ou românticos, eram fuga. São as peças que a arte prega. Eram meus castelos e ruínas mostrando sua dubiedade na prática. A vida é uma grande obra literária, afinal.

Tanto foi assim que, para vocês terem uma noção, eu cheguei a comprar ingressos para o show do BK’ três vezes e não fui. Isso sem contar as vezes que desistia de ir (pelo menos nessas eu não perdi dinheiro). Eu não estava pronto para me colocar à prova desse jeito. Pior, eu descobri que nunca estaria pronto se não me dispusesse a reerguer a história dessas ruínas que eu tinha nas mãos. É um processo trabalhoso no meio de um ciclo triste, estranho e desgastante. Até descobrir que nunca se sabe se está pronto ou não. Ou você aguenta a porrada, ou sucumbe. A vida não é muito paciente com quem fica se preparando a vida inteira. Já que eu estava no inferno, me dei um abraço.

Foi um longo processo até eu decidir largar toda a minha preparação para a Flip e subir até Petrópolis para, finalmente, assistir um show do BK’ com seu “Castelos e ruínas”. Foi no dia 22/07, não faz muito tempo. Sozinho, apenas bebendo água e tendo que encarar um bando de adolescentes insuportáveis achando que são adultos porque vão numa balada classe média do centro da cidade. Mas nem isso me irritou ou me fez repensar. Eu estava lá para ver o show de “Castelos e ruínas”. E vi. Fiquei no fundo da boate, com uma garrafa d’água, isolado. Não dava para ver tanta coisa do palco, então fechei os olhos. “Sigo na sombra” começou a tocar e as memórias retornaram. Mais uma vez mergulhei nelas. Impossível não me emocionar. Apenas deixei que a clareza do momento fosse bagunçada por todo o processo até conseguir chegar ali.

Um ciclo foi fechado e quando eu coloco “Castelos e ruínas” para tocar, as memórias que habitam minha mente não deixam com que eu me perca mais. Eu não me aproprio da realidade alheia para escrever minha própria história. Acho que não preciso disso mais e dá para perceber por esse texto. Não que eu tenha me encontrado, a busca é um presente vitalício.  É complicado entender a dinâmica da vida e das coisas que você tem que correr atrás. Oportunidade, momento e percepção são coisas que precisam andar juntas, mas tal qual as histórias que se entrelaçam aqui, todas elas são unidas por linhas tênues. Tênues como a linha da vida. Das vidas que se foram e das que ficaram, resta saber o que fazer com o que sobra disso tudo.

Se isso é uma resenha? Claro que é! Leiam com atenção. Tudo o que vocês precisam saber sobre as técnicas que o BK’ usa, eu utilizei ao escrever. O enredo do disco também está aí. Vocês sabem que o disco é um clássico instantâneo. Me ajuda! Aprendam a ler e saiam da bolha, camaradas. Está tudo aí.

Se isso é um relato da minha vida? Claro que é! Não sei o que vocês vão extrair desse texto, porém, pela primeira vez, estou criando a expectativa de que olhem de forma muito diferente para a arte. Se eu não tivesse reconhecido tudo o que havia ao meu redor, a Magali não teria me colocado nessa rota de colisão com minhas próprias crenças e eu não teria feito das minhas ruínas a minha história mais bonita. Sou dono das minhas memórias e construí meu presente através delas. De ruínas para castelos que ninguém é capaz de tocar, mas sempre compartilhados com todos os bons.

Se isso é uma homenagem? Claro que é! Infelizmente não citei todas as pessoas que me ajudaram nesse processo. E muitas das que citei não poderão ver, em especial minha pequena Magali e a Carolina. Mas todos que fazem parte do processo sabem que são contemplados nessas linhas. Foi um processo longo e, bom, quem sabe, sabe.

Finalmente eu estou subindo pro meu nome ser eterno igual pixo.

Descanse em paz, mestre Luiz Melodia.

Roberto Bolaño – 2666

Por Caio Lima

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Eu estava observando pela vida afora, e não encontrei muitas resenhas sobre o romance psicodélico de Roberto Bolaño, “2666”. E, curiosamente, a que eu mais gostei foi a mais curtinha e chegou por e-mail, me convencendo a ler Bolaño de uma vez por todas. Eu acho que enxergo uma espécie de urgência e verdade por detrás das palavras, que sobrepujam os aspectos técnicos dos livros. Isso me inspira. Não interessa o que a pessoa quis dizer, a partir daqui é comigo e o que eu faço com as palavras dela. Da mesma forma, não interessa, absolutamente, o que Bolaño quis escrever, mas é perfeitamente plausível que eu me inspire ao falar de “2666” e crie teorias absurdas sobre o livro. Para quem já leu, no segundo livro Amalfitano pendura um livro de geometria no varal, lembram? A partir dessa cena, eu comecei a traçar paralelos que me ajudarão a explicar o que eu consegui compreender de “2666” tanto em sentido quanto em estrutura. Vamos? Vamos.

Toda relação interpessoal pode ser considerada uma reta. Existe uma pessoa A que direciona a sua atenção para uma pessoa B. Porém, todo esse direcionamento para a outra pessoa existe por conta de uma atividade fim, um objetivo comum. A atividade fim do ser humano é a sua essência, sua razão de ser, existir, socializar e tudo mais. No caso de “2666”, Bolaño assume a violência como atividade fim do ser humano. Nossas relações sempre buscam formas de manifestar o que há de mais violento entre nós. Vejam bem, “entre nós” e não “em nós”. A violência, como razão, produto e derrocada do ser humano, é obtida através da troca.

Voltando às formas geométricas, temos as pessoas A e B, mais a violência como vértices, portanto as relações interpessoais se dão em triângulos. Triângulos são as formas geométricas planas mais simples que temos. Toda figura geométrica plana produz uma área na sua superfície, e essa área é preenchida com o que idealizamos ou sentimos nesse triângulo de relações. Seria mais ou menos o seguinte: se eu, pessoa A, amo pessoa B, toda troca entre nós teria, como fim, a violência, e o amor que sentimos um pelo outro funcionaria como força motriz e justificativa para a violência cometida. O amor foi só um exemplo, mas não interessa o sentimento ou desejo que habite essa área criada pelo triângulo, por mais bonito que seja.

Outro aspecto da obra que a teoria dos triângulos pode ajudar é na sensação de solidão e vazio constantes ao longo dos cinco livros. Podemos considerar a violência como inviolável. Essas quebras de relação acontecem, então, quando chegamos ao estado fim do homem e finalmente rompemos certo paradigma, ou quando há uma separação abrupta das pessoas que se relacionam. O triângulo, uma vez formado, jamais será desfeito, mas quando não se consegue atingir a esse objetivo fim das relações humanas, os sentidos de incompreensão e vazio se aguçam. É como se tudo perdesse o sentido, tudo ficasse incompleto.

A relação com a morte como forma de rompimento dessa busca pela origem do ser, me fez lembrar de uma frase de Malcolm X: “Se você não está pronto para morrer por ela, risque a palavra ‘liberdade’ do seu vocabulário. ”

O cultivo da violência é uma das coisas mais abominadas pelo mundo ocidental, porém é o meio pelo qual o mundo ocidental foi criado. A não expressão da nossa natureza violenta é o meio mais eficaz de controle social possível. Foi assim que os países europeus mudaram o mapa do mundo e colonizaram toda a América e a África, por exemplo. Agiram com violência, implantaram a filosofia ocidental de vida e, de repente, a violência não seria mais tolerada.

Logo no primeiro livro, Bolaño retrata a busca até os confins do México, em Santa Teresa, de quatro pós-doutores em literatura alemã – um espanhol, um italiano, uma britânica e outro francês – pelo autor (alemão, claro) que é objeto de estudo e da admiração deles, o famoso Archimboldi. Essa busca pelo autor alemão não permite que eles percebam o que se passa na cidade, com os eventos constantes de mulheres abusadas e mortas de forma muito violenta.

Num paralelo, a busca por sonhos impossíveis toma o lugar da realidade. Mulheres morrem misteriosamente a todo momento, mas a busca por Archimboldi tira, inclusive do leitor, a sensação de gravidade sobre os acontecimentos em Santa Teresa. As expressões violentas ficam em segundo plano, sempre. E quando os pós-doutores praticam a violência de forma vazia, ela vem contextualizada, como se fosse uma expressão não natural movida por forças que tomaram o lugar da razão. Pós-doutores europeus seriam incapazes de tal ferocidade.

Já no segundo livro, com Amalfitano, essa violência é ofuscada, mais uma vez, por um paternalismo enorme e alguns transtornos gigantescos do mesmo. Pode não parecer, mas todos os extremos, das suas confusões com a esposa até a cisma com o livro de geometria (e o que pode ser tratado como loucura), são traços que validam, ao meu ver, a teoria dos triângulos e o rompimento das relações de forma abrupta. Revelam o vazio da morte e em como é dialética a questão entre a plenitude do ser e o conforto dos limites.

O jogo entre colonizado e colonizador não existe pela relação direta de servidão. O homem, quando muito pressionado em suas relações, tende a alcançar a violência como meio de libertação. O que fazer, então? Permitir que essas pessoas em estado servil encontrem na sua realidade alguma forma de poder, de ser autoridade. De repente, os servos são o principal método de controlar outros servos. Acaso exista violência, ela seria deliberadamente direcionada para o espelho. É o jogo do “mata ou morre”. Ou melhor, pessoas que tem algum privilégio mínimo se aproveitam das lacunas que o sistema propositalmente possibilita para violentar pessoas socialmente menos privilegiadas. A morte de mulheres em Santa Teresa começa a ganhar espaço.

Espaço esse que lança a Santa Teresa um jornalista negro para cobrir a luta de boxe do século e que acaba se perturbando e, por que não, se identificando pela questão das mulheres mortas. Além de deflagrar toda a questão da imprensa americana, suja como ela sempre foi, essa parte coloca muito em xeque a posição e importância que damos ao que chamamos de potências mundiais. Os problemas relatados por Bolaño são parte de países colonizados, não de países pobres. Os EUA entram nessa questão de país colonizado e que vive sob constante tensão por viver de forma muito latente os efeitos de um processo forçoso e muito mal resolvido de colonização. X morreu há 50 anos apenas, emboscado por negros num país onde negros eram mortos por brancos apenas por serem negros. Mais um caso de violência contra o espelho. Quer mais terceiro mundo que isso?

Na entrevista que faz com o líder do Panteras Negras fica evidente que a desnaturalização da violência se impôs até dentro da célula mais belicosa no movimento de luta pelos direitos dos negros americanos. E é importante como Bolaño trabalha isso com humor. O pensamento do colonizador é tão, mas tão costurado ao ideal da perfeição da vida, que gera caos e seletividade. São poucos os colonizados qualificados para usufruírem dos poderes de um colonizador. É engraçado, é irônico, é peculiar, é excêntrico e é caótico. E, particularmente, o caos é uma maravilha.

Refletir sobre o caos e seus múltiplos conceitos é refletir sobre as origens da cultura em si. E reparem em como as relações entre diferentes culturas são completamente desiguais. Essas culturas europeias, colonizadoras, ditam o ritmo do que acontece no mundo e são puras, quase impenetráveis. A não permeabilidade cultural gera, de forma sistêmica, falta de entendimento, de empatia. A reprodução de uma cultura considerada como correta, gera opressão. Hoje há a admissão de diferentes culturas no espaço, mas não no pensamento. A predominância cultural é o ponto base do autoritarismo, que leva, num ponto extremo, ao nazismo, um dos pontos chave de toda a obra de Bolaño.

A violência como fim, como razão de ser do homem, só é capaz de existir quando há troca. É um fim alavancado pelas interações pessoais e por forças e desejos que não somos capazes de compreender à luz da ciência. Sabem a teoria do super-homem, de Nietzsche? É um fim violento, agressivo. Ele se desgarra de todo conceito cultural do homem ocidental e ressurge para uma nova era. A violência com que Malcolm X tratava o desejo pela liberdade é um fim, uma quebra de paradigma, um rompimento do que foi estabelecido não importando o seu custo.

Sem estabelecer trocas, o nazismo almeja a purificação cultural. É um conceito muito maior do que a simples superioridade de raça. Não existe nada sobre violência como fim, trata-se da morte como meio. E a morte atua como ponto de ruptura das relações, gerando vazios. Impor-se como única cultura e postura aceitáveis, inibe a troca. A postura autoritária gera esse tipo de vazio sem matar, por exemplo. Inibir a troca é tornar uma cultura incapaz de evolução. É um processo lento, que demora séculos, mas nada que é hermético sobrevive, por mais que demore a ruir. A cultura, quando viva, não é pura.

O que nos leva ao livro quatro, que nada mais é que uma sucessão de registros sobre mulheres assassinadas. Ao dissecar cada caso, ao contar cada história até onde se sabe, as ideias sobre a mentalidade do colonizador e da natureza da violência são escancaradas. Poucas vezes eu senti um vazio tão grande lendo alguma coisa. Os relatos são crus e apenas se sucedem, um atrás do outro, sem pausa e sem um fim, um objetivo. Mas é exatamente isso! Mulheres morrendo apenas por serem mulheres! Isso não é vazio de sentido? Homens abusando do seu privilégio social para assassinar mulheres é tão sem sentido, que é real. É desesperador.

Durante toda a narrativa existem críticas ferrenhas ao Estado, ao empresariado, à desigualdade social, aos moldes em que os movimentos sociais se conservam, ao show de horrores que é a imprensa, aos órgãos de segurança públicos, à natureza do homem, aos regimes ditatoriais, à academia, a autores, filósofos e obras consagrados e, por fim, ao próprio mercado editorial. Mas essa discussão sobre violência, morte e vazio, rouba a cena. E isso recai sobre a própria literatura.

Eis que chegamos ao quinto e derradeiro livro, que trata a vida de Archimboldi. Mas, não sei para quem já leu, aqui temos algo muito mais forte que um registro biográfico. É por isso que afirmo: depois de Bolaño, ninguém mais deveria escrever sobre a vida de escritores/poetas.

A literatura gera o contato com a violência antes mesmo de haver qualquer interação interpessoal. Diferente de uma relação comum, o escritor encontra sua “razão de ser” para, aí sim, interagir com as pessoas. O espaço vazio é a voga. A literatura é capaz de levar uma pessoa ao seu extremo e, enquanto o que está escrito não atinge outras pessoas que se identifiquem com aquilo, esse vazio só se agrava. São raros os escritores que querem ser ou se sentem compreendidos, estabelecendo essa relação de troca ainda em vida. É uma troca estabelecida entre o escritor e seu ápice: seu registro será eternamente lembrado como recompensa pelo salto para além do mundano, por ter transcendido à vida, porém, o tempo presente, onde o vazio existe e aumenta progressivamente, nunca será preenchido. Isso é cruel.

Eu tive que reler “2666” para compreender melhor essa relação entre literatura, violência e a busca por “preencher vazios” que ficou dando voltas na minha cabeça. Acontece que, se você ler com atenção, não precisa ler mais que 30 páginas de cada livro para perceber todas essas relações que eu fiz aqui. É tudo jogado na cara.

É, talvez, por isso que Bolaño, em muitos momentos, consome páginas e páginas tecendo críticas ao sistema, elaborando minicontos dentro dos livros e falando sobre vinte mil coisas aleatórias que, aparentemente, não fazem sentido. Mas qual a graça de uma obra tão fechada em si mesmo, tão perfeita? Por que não o leitor sentir na pele a violência de um fluxo de pensamento (ou vários deles)? Por que não o leitor não dar valor à beleza da construção narrativa de um Octávio Paz, fazendo com que soem bonitas partes tão violentas quanto as escritas por Gógol em “Tarás Bulba”? Você, como leitor, pode falar que “2666” poderia ter menos 500 páginas. Mas não tem!

Ah, a adorável perfeição dos pensamentos objetivos demais, que estão enquadrados dentro de uma classificação correta, criada por algum órgão especializado e gabaritado, e provocam certo efeito que deixa a todos a sensação de êxtase pelo mesmo motivo, na mesma parte, do mesmo jeito.

O tino que temos ao definir tecnicamente uma obra, não é o mesmo que temos ao ler e percebe-la como um todo. A necessidade de ler não sobrepuja a necessidade de escrever. A leitura é o fim de uma comunicação em que se espera que se preencha um vazio. Antes de ser analisada, uma obra precisa ser entendida. E entender uma obra que (obviamente) foi escrita por alguém é uma das coisas mais humanas que existe. Vai além de estudos acadêmicos, literários e mercadológicos. Estamos falando de empatia, de se justapor a alguém e, finalmente, de fecharmos um ciclo de interação.

Eu não reli Bolaño para resenhar Bolaño, eu reli porque precisava. Toda essa estrutura recai sobre o que eu realizei com o Rede de Intrigas até aqui. Foi um choque perceber as coisas que eu percebi. E foi um choque necessário. Uma das dádivas que a interação com mortos, através da literatura, produz é a sensação de conforto ao olhar para minha estante e ver como um livro me fez enxergar e aspirar coisas melhores. Ele está aqui do meu lado agora e eu estou extremamente feliz por esse texto, sabe-se lá o porquê.

Distopia em Black Mirror

Por Caio Lima

Todo mundo está aí vendo Black Mirror e se espantando com essa relação paradoxal entre comportamento e tecnologia. Esse tipo de realidade totalitária e indissolúvel é assustadora, claro. Ninguém gosta de estar preso a alguma coisa ou alguém, a não ser que você não perceba que está preso à coisa, certo? A tecnologia é algo assombroso por conta disso, é impossível perceber o quanto somos dependentes da tecnologia, aliada à comunicação global e instantânea, até ela ser cortada, vide casos de bloqueio do whatsapp, ou um acontecimento muito fora da curva, tipo aquela brincadeira que meninos se enforcam e um morreu, daí veio aquela corrente de programas iguais ao da Fátima Bernardes discutir os limites da tecnologia, principalmente para as crianças.

Black Mirror vem mostrando os extremos disso aí, aparentemente. Fazendo projeções do nosso presente e de um futuro regrado pela nova ordem tecnológica, a série vem cheia de situações intrigantes mostrando que ninguém está a salvo do poder que a tecnologia é capaz de oferecer. Nem o primeiro ministro inglês. Então, a tecnologia se mostra tão soberana que não dá folga nem a quem detém o poder. Qualquer um que saiba, minimamente, controlar a rede, é capaz de mudar a ordem do mundo que vive. Ninguém mais possui privacidade para nada, muito menos liberdade. Todos os desejos são guiados pela tecnologia, através do entretenimento e das redes de comunicação de massas.

Isso me fez retomar algumas distopias e obras de ficção científica clássicas para tentar contextualizar meu ponto de vista sobre a série. É meio impossível não aliar a série a Aldous Huxley. Sim, ao autor. A série apresenta pontos fortíssimos de toda a sua obra, claro que o principal é a dominação pelo prazer, a ditadura perfeita, apresentada em ‘Admirável mundo novo’. A tecnologia é capaz de condensar todo nosso prazer num espaço muito reduzido, uma das principais características da série.

A tecnologia ganhando luz própria me faz lembrar Asimov e seu incrível gosto por robôs, a ponto de achar, falando bastante por alto, que robôs seriam o futuro da humanidade a ponto de domina-la e substitui-la muito bem, obrigado. No caso, essa trinca formada pela rede, entretenimento e comunicação é o futuro robótico de Asimov. Podemos citar, também, Phillip K. Dick e sua mente perturbada. Ele foi autor de uma obra bem extensa e que versa muito sobre inteligência artificial e sistemas integrados que tem vida própria (quem nunca assistiu Minority Report aí?) e acabam tomando o controle de tudo, como verdadeiros déspotas em cabos de rede.

Muitos outros autores como Margareth Atwood, Ray Bradbury e, o maior deles, Orwell, escreveram sobre uma ditadura cruel, perfeita e cíclica. Cíclica porque até seus rompantes aparentam ser previamente programados, fazendo os ciclos passados parecerem uma fase de treinamento para a verdadeira ditadura perfeita, que é sempre a atual. O sistema é capaz de absorver, exterminar e melhorar seu meio de subjugar as pessoas. Somos como ratos correndo naquela roda e com um pedacinho de queijo pendurado, pra ficar mais cruel.

Não citei muitos autores aqui, apesar da literatura sobre esses temas ser vasta, mas todos esses que citei, tem, em comum, o fato de levarem três fatores muito humanos ao escrever: o medo, a liberdade e a esperança. Trabalhar essas três palavras pode ser muito mais difícil do que aparenta. Apesar de estarem intimamente ligadas, são palavras que possuem significados pessoais demais para serem levadas ao pé da letra. Se juntarmos o fato de que essas pessoas não se sentem controladas pelo sistema, pois sentem prazer nele, fica mais difícil ainda utilizar do argumento de que devem sofrer para procurar a verdade. Se fosse assim, a opus dei já deveria ter dominado o mundo há séculos. Podemos elevar o nível da conversa para desbaratinar pela filosofia de que prazer é liberdade, mesmo quando há uma sensação de prazer programada, e não estaríamos tratando, assim, de uma distopia tecnológica mais. Mas aí não teria esse texto aqui e nem hype nenhum.

A questão é que, mesmo literariamente no seu sem fim de páginas e tempo para escrever, é impossível dar o sentido exato da liberdade para quem se mantém alinhado ao sistema. Se você falar o que pensa realmente, essas pessoas não vão entender o que estão lendo. É como briga política de facebook: se você não é capaz de explicar sua posição da forma mais geral e simples possível, não se manifeste. Se você pensar um pouco, não há como ser determinista quando se fala de pessoas. A sociedade é composta por infinitos pensamentos que, tolhidos, são condensados para um bem-estar social comum. Ninguém está 100% satisfeito. Quando há alguém 100% satisfeito, há despotismo.

Assim, escritores preocupados em denunciar uma onda crescente de despotismo e servidão, ao invés de fazerem valer seu ponto de vista de forma combativa, decidiram aplacar seu discurso e procuraram um ponto comum para que pudessem validar seu discurso entre as massas dominadas, que é o que interessa, afinal. Reduzir a um ponto comum é simplificar demais as obras dos caras, mas para esse texto vale uma só, beleza? Voltando, para conduzir a argumentação de dominação iminente, todos esses autores utilizaram o ser humano de forma primitiva. Isso não é tão intuitivo assim. Na verdade, é bem revolucionário. Imagine você equiparar um ser completamente inadequado para o ambiente moderno ao homem urbano e social. Pois é, inusitado e complicadíssimo.

Essa inadequação do ser humano ao avanço radical da modernidade (não digo tecnologia. Vejam bem, modernidade e tecnologia são coisas completamente diferentes), como é hoje, é o que mais me assusta em Black Mirror. Não por ser minha maior preocupação pelo que foi mostrado na série. Mas por, justamente, não ter sido mostrado de forma clara, contundente. Para mim, não foi sequer mostrado. Dentro da série qualquer homem está subjugado à ditadura tecnológica, seja pela servidão, seja pelo desejo de poder. Ao mesmo tempo que há uma denúncia exposta ao absurdo, há uma inanição ao valor do homem ante à tecnologia crescente. Não como luta, já que falamos de ditaduras perfeitas aqui, mas como valor do homem em relação ao mundo que se transforma. Os pontos de mutação do sistema são criados pelo próprio sistema embevecido de si mesmo e de sua capacidade de mutação. Um sistema lógico que atua fora da própria lógica.

A partir do momento que sua advertência toma esse caminho, significa que já estamos dentro do sistema e correndo contra o tempo para cavar nosso próprio espaço como autômatos. Uma denúncia que não permite investigação, muito menos uma mudança de hábitos sequer. Esse é o real perigo da ausência de uma exposição aprofundada sobre o homem, retomando tudo o que já conhecemos nele. Os capítulos são, de certa forma, muito reais. Espionagem, vazamento de informações, reputações aniquiladas, prisão tecnológica, servidão voluntária para meios de prazer instantâneos, grupos de hackers, desafio ao eterno e tudo mais. O mundo está um caos e no meio de um processo de revolução que se estica desde a revolução industrial. Mas, repito, deixam o papel do homem em xeque. Não só o homem autômato, ou nossa corrida contra o tempo para sê-lo. Mas o homem que opera a máquina. Ficam lacunas vazias sobre o homem que é capaz de controlar os sistemas de informação e o que é controlado. Seria uma espécie de seleção natural, talvez. Os que nascem para comandar e os que nascem para servir.

A tecnologia seria a forma final da manifestação do ser humano. É o que aparenta pelos episódios. Ela é capaz de encerrar os jogos de poder a partir do ilimitado número de informações que é capaz de fornecer e se torna cada dia mais fácil ter acesso a essa tecnologia. Assim, numa guerra de egos geral, o ser humano seria causador da sua própria extinção, acaso tomemos o ponto de vista de que a humanidade é vil e inescrupulosa. Sendo assim, Black Mirror jamais seria capaz de atuar como advertência, mas como afirmação. Afirmando a faceta nazista e narcisista do ser humano, o que estamos fazendo aqui, então? Entramos numa questão dialética muito forte: se somos maus, porque lutamos? se estamos sendo subjugados pela tecnologia e não nos resta opção, porque a denúncia? se renegamos nossa própria natureza, porque nos preocupamos?

Voltamos ao medo, a esperança, a liberdade e ao homem primitivo que citei aqui, presentes nos clássicos literários. Aprofundar o sentido disso nos faz pensar sobre em como é importante nos identificarmos com o próximo a ponto de não o fazer aceitar servir a ninguém que não seja a ele mesmo. Se você é capaz de olhar, ler, ver ou ouvir algo que te coloque como dono de si, mesmo quando não existe solução aparente e concreta (caso da grande maioria das distopias), desperta reflexão, empatia e mudança, por mínima que seja.

Ver o sistema ser retratado num plano absurdo me despertou autocomiseração e desprezo desde o primeiro minuto. Aquela coisa de “é isso aí que a gente merece mesmo, tá certo”. As pessoas comentam e reconhecem a realidade distópica que viram e continuam mergulhando de cabeça dentro dessa realidade cada vez mais virtual e tecnológica. Sem mudar hábitos ou estimular outros tipos de interação. Nada de reflexão. Parece que as pessoas estão esperando acontecer tudo o que se passa nos episódios (algumas coisas já até aconteceram, é só pesquisar) para dizer: “black mirror já havia previsto isso lá em 2016”. Esse mesmo fenômeno que acontece com Os Simpsons e a eleição do Trump.

Afirmar e advertir tem funções completamente diferentes e, para mim, Black Mirror funciona como afirmação. Afirmar o futuro da tecnologia é, pelas entrelinhas, admitir condições inerentes ao ser humano que são imutáveis daqui em diante. Isso causa desconsolo, além de não provocar mudança. Constatar que o mundo é corruptível e que a tecnologia tem o poder de modificar a ordem do mundo que conhecemos (é um processo em andamento, como eu disse acima), ok, mas quais os hábitos seus você foi capaz de analisar sob uma ótica de mudança? Depois não vale usar a série como uma espécie de oráculo. Ela fez o fácil para adquirir audiência e caiu no clichê que todos caem hoje em dia: determinar o medo, a esperança e a liberdade.

Black Mirror funciona muito bem como bom entretenimento, mas peca ao defender um ponto crítico como uma determinação inexorável da nova era globalizada sem levar em conta o ser humano, mesmo num ambiente em que nenhuma retaliação pudesse dar certo. Se há o crivo de um futuro distópico, é um erro causal dizer que a série foi feita como alerta ou advertência ao que está acontecendo no mundo em sua relação cada vez mais íntima com a tecnologia. E foi isso que eu observei nos comentários feitos em resenhas e redes sociais: a determinação de um futuro desolador, não importando a condição individual de ser humano, nem aquele ser humano primitivo que eu tanto falei. É uma sala de espelhos, daqueles que distorcem você de todas as maneiras, que impressionam e tudo mais, mas você sai de lá de dentro a mesma pessoa. Viver no absurdo é diferente de constatar. E o sistema não é absurdo. Absurdo é, como diria Camus, viver acima do sistema. Elevação, loucura, consciência. Não importa o nome, só trate como absurdo o que merece ser tratado. Por isso, se meu texto lhe parecer absurdo, ficarei extremamente feliz.

P.S.: quando utilizo o termo “homem primitivo”, é uma licença poética que faz referência ao resgate das qualidades mais básicas do homem, sem estar sob o jugo das normas sociais modernas.

P.S. 2: lembrando que eu assisti apenas a primeira temporada. Assistirei as outras temporadas e, acaso mude minha visão sobre a série, farei um texto comentando aqui.

Deixem os robôs para as fábricas

Por Caio Lima

Eu, às voltas com minhas leituras amontoadas, vivo inventando projetos literários e deixando pronto um arsenal de resenhas para o blog. Sabe como é, né? Vai que rola uma semana corrida, tudo dá errado e, de repente, o blog fica lá, às moscas. Isso não é legal. Eu levo essa parada muito a sério para deixar as coisas correrem soltas desse jeito. Essa semana eu comecei mais um, muito específico, que é a leitura de ‘Em busca do tempo perdido’, do Proust, o cara que escreve parágrafos tão longos quanto bonitos. E me peguei pensando em fazer um diário de leitura, uma parada com metas e toda subordinada. Mas desisti na hora. Não rola comigo. A literatura, para mim, tem um valor intrínseco muito latente para definir metas. Claro, rolará uma parada toda especial aqui para o blog ao fim de cada um dos sete livros que compõem a saga mais caudalosa da história da literatura, mas não vai ser algo tão regrado assim.

Indo na onda de tentar colocar metas, fui para Petrópolis e decidi levar somente ‘homens em guerra’, do Andreas Latzko, e ‘o vermelho e o negro’, classicão que estava pegando no meu pé desde setembro. Do Latzko, só faltava o último conto, tranquilo e favorável. Um dos grandes livros do ano e provocou uma revolução aqui no Rede de Intrigas que vocês não fazem ideia, nem vão fazer por agora. Do Stendhal faltavam umas 250 páginas ainda. Bagulho estava neurótico. Eis que no ambiente sempre chuvoso da serra, dei cabo do calhamaço mais dolorido de ler no decorrer desse ano. Não se enganem, faz jus ao status de clássico e rolará aquela resenha mafiosa aqui no Rede de Intrigas. Não sei se foi o clima da serra, se eu que estava muito inspirado, mas fluiu. Li as 250 páginas com um prazer enorme.

Literatura, antes de função, é prazer. E o prazer é uma coisa complexa, cheia de picos e nuances que nem mesmo nós entendemos. De repente, bate aquela vontade e pronto, você termina 250 páginas de um livro que estava num ritmo bastante vagaroso, rápida e facilmente. Mas vocês já repararam que a absorção da leitura prazerosa é muito maior, que quando lemos algo por obrigação? Isso é bem óbvio, eu sei. Talvez. Não tanto, vai. Eu fico imaginando essa galera que tem parceria com todas as editoras do planeta e não consegue ler o que realmente quer, para meio que suprir uma demanda de livros recebidos, que precisam ser lidos e resenhados rapidamente, já que o mercado exige cada vez mais velocidade nas respostas. Ou aquelas pessoas que seguem fielmente as dicas de blogueiros e só leem o que já foi lido, e opinado, por outros. Assim não caem na tentação de ler algo que, por ventura, não venham a gostar. Imagina perder tempo com um livro que fulano não gostou, cruzes. Ou, pior, os alunos do ensino fundamental e ensino médio que são obrigados a ler, tanto no colégio quanto, principalmente, para vestibulares, livros que eles sequer conseguem contextualizar. Pior ainda, fazem uma leitura rápida, tentando absorver o máximo possível daquele arremedo de palavras soltas que estão numa outra conjuntura, completamente estranha, para responder uma ou duas perguntas de uma prova gigantesca! E cada prova tem sua própria lista de livros! (Milhares de exclamações!)!

Os tempos mudam, os hábitos nem tanto. Hoje o tempo é dos números e dos gráficos irrefutáveis. Inclusive, o Dallagnol está ministrando um curso sobre isso, online e totalmente de graça. Não percam! Voltando, as estatísticas mostram tudo o que acontece a todo o momento e é impossível refutá-las. Argumentos irrefutáveis geram autômatos. E é uma sociedade de leitores autômatos, pragmáticos, quadrados e técnicos que estamos criando. Mais uma vez, vemos uma crescente onda de recortes niilistas, onde um livro sobre teoria política tem valor muito maior que um livro de poesia, por exemplo, pois é a economia que faz o mundo girar e a poesia é coisa de desocupado que não está nem aí para o futuro, só querem saber de fazer ciranda para protestar contra o governo golpista e acampar na praia do sono.

Isso não é uma condição única e exclusiva do nosso tempo. Isso é cíclico. Aqui no Brasil, então… acontece de ano em ano. Só muda a forma. Mas é certo que a sociedade sempre tem que estar num estado de inércia intelectual e sempre combativa entre iguais. Somos os maiores reguladores de um regime democrático que não nos serve. Isso acontece, dentre diversos motivos e técnicas de manipulação de massas, porque não sentimos prazer algum em desfrutar da única coisa que todos podem produzir à sua maneira e difundir de forma gratuita e interminável, nossa cultura. Dentro desse contexto de cultura, a literatura é o movimento que sofre cada vez mais com essa lobotomia generalizada. Erros de interpretação simples, a necessidade de sempre ser literal, reto, conciso e estreito. Não há oportunidade de defesa para quem desperta dúvida. Alimentar a dúvida é o grande crime social. Tem dúvida disso? Pegue qualquer notícia de qualquer portal no Facebook e abra os comentários.

Se há uma tendência geral, mesmo naqueles que dizem lidar com literatura por amor, a girar em torno de um ciclo, torna-se simples a dedução de que a liberdade promovida pela literatura, como arte que é, tem sido amplamente cerceada. Mas é mais bonito falar que é chato ou desnecessário, assim você só se preocupa com o que interessa. Falar sobre literatura não interessa. Impor sua opinião e se fechar num círculo comum, sim. Ver a cultura, na sua manifestação mais individual, simples e livre, ser podada dessa forma é a maior comprovação de que a sociedade está sofrendo com um sério problema de identidade. Não nos reconhecemos mais, mesmo com um espelho gigantesco na nossa frente e nas nossas estantes.

Se esse quadro é reversível ou não, eu não sei. Aparentemente, não. Essa onda pragmática em tempos de crise econômica é muito forte: o mercado editorial precisa lucrar desesperadamente, o número de brasileiros leitores está diminuindo e a receita disso tudo você vê na vitrine das livrarias. Fica meio rap de mensagem, saca? Tipo aqueles grupos que só falam do menor da favela que busca redenção na sociedade durante um disco inteiro. Mas é necessário haver resistência para mostrar que literatura é um prazer, acima de tudo. E que, com prazer, somos capazes de ir muito mais além do que pela obrigação. A literatura precisa de mais leitores assim, que sintam prazer ao ler. Sem preconceitos ou círculos fechados. Se a arte imita a vida, sabemos onde vai parar uma pessoa que sente prazer com a arte que produz e que consome. No mais, deixem os robôs para as fábricas.

Fazer sentido é para os fracos

Por Caio Lima

O mais legal de escrever um artigo é que, a cada semana que passa, fica cada vez mais difícil escrever algo inédito. As resenhas não são mais fáceis, mas me dão um porto seguro, que é o livro. Sempre posso voltar para o livro e continuar a desenvolver. Mas essa coluna de domingo não me permite esse luxo. Todo domingo é uma coisa nova. Back to zero. Apesar da dificuldade de explorar um tema por semana, eu me torno cada vez mais sensível aos acontecimentos cotidianos. São esses acontecimentos, notícias, notas e fatos que me dão assunto suficiente para preencher os domingos do Rede de Intrigas.

Enxergar as coisas de forma literária tem me ajudado a traçar algumas linhas de raciocínio que eu jamais pensaria em condições naturais, ainda mais nas atuais condições. Acaso não houvesse mergulhado profundamente na literatura, muito provavelmente eu estaria hibernando numa dicotomia travestida de mundo, país e bairro. Não que esteja errado. Só não está completo. A vida não é um cara ou coroa ou um banco de apostas. A vida é liberdade e liberdade é uma palavra tão cheia de significados, que eu não seria capaz de falar sobre qualquer outra liberdade, senão a minha liberdade de pensamento e de ação.

Não que eu seja totalmente livre. São várias as amarras do sistema. Algumas são muito confortáveis, aliás. O pensamento tacanho nos é muito lógico, inerente à nossa tendência natural para a inércia. É como se Newton fosse mais antropólogo do que físico. Suas ideias são maiores que o físico. Suas ideias são maiores que a física. A liberdade de pensamento me fez chegar a essa conclusão, um tanto óbvia, talvez, mas existem tantas coisas óbvias que passam desapercebidas que talvez revelar-lhes que Newton é muito maior que a matéria, cátedra ou física, seja um ato contra esse sistema que me amarra e assim eu acabe saindo da inércia. A necessidade de liberdade acaba falando mais alto nesses casos. Preciso de espaço.

Eu gostaria de ampliar e criar espaços para os livros, as páginas e as capas duras. Mas eu compreendo que essa criação não seria de todo livre. Um espaço criado por mim, seria um espaço com a minha identidade e, apesar das pessoas que admiram meu gosto por livros, não atingiria a todos de forma igual. Eu curto capas muito esquisitas, odeio folhas brancas e vocês nunca veriam os mais vendidos por lá. Se eu ampliar esse espaço para as ideias, novas ideias sempre seriam bem recebidas, desde que não contassem com um comportamento tacanho, mesquinho e totalitário. E assim eu me mantenho na inercia, com um pensamento tacanho, mesquinho e totalitário. Me agrada a criação de um espaço meu para leitura, livros e ideias. Da mesma forma que me agrada ser um poço de contradições.

Contradições fazem parte do processo. São elas que te colocam contra a parede e fazem você pular o muro das antigas convicções para descobrir um mundo novo. Não tenham medo de entrar em contradição, desde que você não seja um político em meio de campanha. Se você for um pastor com um projeto de poder político ou um professor de história que ignora o quão nocivo pode ser seu projeto se alguma coisinha der errado. Nos anos 80 deu e a gente sabe como o mundo está hoje, né? É muito complicado não entrar em contradição, eu acho. Mas são as contradições que revelam uma das coisas mais bonitas que existem, que é o respeito pela própria necessidade de mudança.

E se mudar é necessário, se respeitar é mais ainda. É um exercício espiritual bastante virtuoso e honrado. Isso soa meio oriental, talvez até seja. São umas das muitas referências que eu pesquei pelo caminho, apesar de ter lido, ao meu ver, quase nada de literatura oriental. Erro meu. Mas as coisas boas impregnam na gente e criam raízes mais fortes do que podemos imaginar. Coisas ruins também impregnam, mas não combinam com respeito. Não faria sentido alguém respeitar minhas mudanças, contradições e espaço, e sair por aí espalhando pensamentos atrasados e mesquinhos como um político. Ou como eu mesmo sou capaz de produzir. Ninguém está livre disso. Aí a liberdade não se torna mais tão legal assim, porque até mesmo a sagrada liberdade cai em contradição e exige, toda hora, mudanças na sua interpretação e respeito por cada uma delas.

A literatura é assim, um espaço amplo e criativo. Foi ela que me ensinou que todos esses parágrafos se encaixam, sim. Talvez você leia e não veja sentido algum. No futuro eu posso pensar que essa foi a coisa mais idiota que eu já escrevi e me tornar a pessoa mais inerte do mundo, contradizendo tudo o que está escrito aqui. Não tem problema. Problema será se faltar respeito. Problema será se me faltar liberdade para mudar através das minhas contradições. Problema será se eu me tornar um político e fazer das minhas contradições uma grande arma para agradar a gregos e troianos. A literatura une, contradiz, muda, aceita, respeita e liberta. Isso não significa fazer sentido. Isso significa que você é capaz de pensar por si só. Sem usar terceiros como muletas. Quanto à fazer sentido, bom, fazer sentido é para os fracos.

Pós-ópio

Por Caio Lima

Eu parei de assistir televisão há um bom tempo. Não que eu fosse assíduo telespectador e, numa onda de esquerdismo momentânea, quisesse mostrar como sou mentalmente evoluído e não sou manipulado pelas bravatas da rede globo. Eu só nunca curti muito mesmo. Mas esses dias dei um pulo em Itaguaí para fazer a vistoria do GNV do carro e na recepção estava passando o programa matinal da record. Eu estava lendo, mas as reportagens me chamaram a atenção. A primeira falando sobre um jovem negro morto por um policial, apenas pelo fato de ter pulado o muro de uma escola para jogar basquete à noite. A segunda sobre um policial morto por bandidos, cujas características se assemelhavam às do jovem morto na primeira notícia. E, por fim, a aquisição de uma lancha pelo Rodrigo Faro no valor de seis milhões de reais.

Para registro: as duas primeiras notícias foram rápidas, 3 minutos e só. Miojo. Voltei a ler e ainda falavam sobre a lancha.

A primeira reação que eu vi foi a de indignação. Num momento de crise, com o brasileiro poupando o que pode com medo de perder o emprego, acaso já não tenha perdido, é deselegante mostrar o quanto um apresentador de televisão pode ostentar com seus rendimentos milionários. A segunda reação que me chamou a atenção, ressaltou a deselegância em descortinar a vida do cara desse jeito. Afinal, ele trabalhou e conquistou o bem e ninguém tem o direito de invadir a sua privacidade dessa maneira. A última reação que merece observação aqui é a de satisfação. É muito esquisita essa história de assumir a titularidade da satisfação de alguém que você não conhece, que depende diretamente da sua atenção (audiência) e que adquiriu um bem que você jamais poderá usufruir, seja a convite dele ou pelo seu próprio esforço.

É sintomático que as três reações não levaram em conta as duas primeiras notícias. Você não liga para o que já lhe é natural. A violência é algo cada vez mais naturalizado. Percebam em como é natural falar que a favela perto da sua faculdade é pior do que a favela da faculdade do amigo. Rola até um comparativo entre as atrocidades cometidas. Um tira onda com o outro enquanto tomam cerveja e falam sobre como é natural correr de tiroteio e se proteger do arrastão dos pivetes ali da praça XI. Não há sensibilidade para com a desgraça de quem está na mesma situação que você. A retórica nunca varia. Vai de “se estava lá, é porque boa coisa não estava fazendo” para “essa história está muito mal contada”, passando por “bandido bom, é bandido morto” e fechando com “lá no meu bairro tem desses aos montes, tem que matar tudo mesmo”.

Mais paradoxal que isso, é a relação que essas pessoas tem com a palavra prosperidade. Sabe essas coisas todas sobre ser alguém na vida? Ser chamado de doutor pelo porteiro, de patrão pela empregada e de chefe pelo funcionário? Há torcida por isso. O sonho de ver um filho importante, circulando pela alta sociedade e cercado de mimos, criados e dinheiro. Atrelada à prosperidade há sempre o usufruto do trabalho de outrem. A reposição do seu sofrimento para chegar ali, pelo sofrimento de outras pessoas. Quantas mais, melhor. Esses sofrimentos o tornam mais próspero. Talvez, um dos seus funcionários seja visionário a ponto de conseguir transformar seu sofrimento em vários sofrimentos alheios e seja um homem de sucesso, tanto quanto você o é. Mas é difícil. É raro achar verdadeiros guerreiros capazes de ascender às camadas mais desejadas pelos brasileiros. Os que conseguem, normalmente, herdam essa capacidade. Não intelectual, mas financeira.

É lógico que isso é entretenimento. Existem Datenas preparados para explorar e naturalizar as dores das pessoas que não tem condições, nas regras atuais (há 500 anos as regras são atuais) do “jumanji da evolução”, de prosperar. O show tem que se vender para poder se pagar. Mas a televisão mostra, sim, o que acontece. Podemos acusar de tendencioso? Podemos, claro. É muito tendencioso. Mas está ali, claro, evidente, descrito e mastigado. Mesmo com as palavras do repórter, dá para assistir e conseguir entender o que aconteceu por conta própria. O estudante foi assassinado a sangue frio por estar no local errado, na hora errada e por ser negro. O policial é mais uma vítima de uma guerra sem precedentes e sem razão. Ambos os lados são sucateados, pisoteados e colocados de lado pelo Estado. Apenas são usados de maneiras diferentes. Isso acontece do lado da casa de muitos. E muitos naquela sala de espera falariam isso naturalmente, acaso eu perguntasse.

Após as três notícias voltei a ler meu livro, mas essa última reação de realização ficou entranhada na minha cabeça. Como ficar feliz com uma lancha de seis milhões que você nunca verá na vida, conquistada à base da sua atenção e servidão intelectual, e não se entristecer com, talvez, dois conhecidos mortos? Que dúvida cruel. Que questionamento terrível. Mexer nesse vespeiro não é legal, mas já cheguei até aqui, então continuo. A dor do questionamento me fez repensar meus hábitos para que eu achasse toda essa cena tão perturbadora assim. Talvez minha relação com a literatura seja capaz de me explicar um pouco esse quadro. Acredito que o maior poder que a literatura tem é o de sensibilizar. Quando lemos um livro com atenção, existe a ação individual e insubstituível de sentir cada personagem, cada passagem e todo o contexto descrito ali. Cada um sente à sua maneira, mas sente. A sensibilidade abre portas a novos sentimentos diversos. Articula novas zonas de interesse. E invadem todas as convicções, quebrando-as. E aí está o ponto crucial da literatura: desfazer convicções.

Desfazer convicções é, de repente, sentir tudo o que lhe é ofertado de uma só vez. E, parando para pensar, é algo difícil controlar. Mas lidar com os sentimentos requer paciência mesmo. É um processo vagaroso e perturbador, que fica ali martelando e tirando suas noites de sono para lhe colocar posições, deveres e direitos no mundo. E, pensando nisso, sucumbi à triste realidade. Aquelas pessoas não eram capazes de se sensibilizar com as duas primeiras notícias, por não saberem sentir pelo semelhante. Não há possibilidade de se justapor a algo que lhe é indiferente. O exercício individual de se sensibilizar, foi substituído por um exercício de sentir direcionado a quem realmente merece.

Felizmente, através dos tempos, vozes se levantam para apoiar os seus semelhantes. São chamados “movimentos sociais” ou “coletivos”. Alguns conseguiram, através dos tempos, vitórias enormes. Outros sucumbiram ante a dura realidade da visão coletivizada de quem merece respeito da sociedade. Mas eles existem. Não são mitos. Nem lendas urbanas. Mas sua força reside na sensibilidade para com o próximo. Na necessidade de dar ao próximo a liberdade de respeitar a si, ao invés de cultivar uma autocomiseração inescrupulosa. Ser livre para ser o que quiser e ser sensível a ponto de enxergar a necessidade do outro de ser também. Direitos, deveres, dívidas, espaço, voz, atitude e sensibilidade. Refletindo sobre essas questões e a urgência de relações mais sensíveis e livres, que o Rede de Intrigas vai correr atrás de levar a literatura para os mais diversos meios, programas e coletivos sociais em busca de ouvir as mais diversas vozes. Vamos ver o que sai dessa mistura e o que podemos fazer para mudar um pouco o clima do baile. Tá tudo muito frio. Mas relaxem e podem ficar tranquilos, o Rede de Intrigas é o fervo.