Chuck Palahniuk – Clube da Luta

Por Caio Lima

  1. Você não fala sobre o Clube da Luta

Você nem é capaz de imaginar o que eu fiz ontem à noite, cara. Tipo, Tyler Durden, manja quem é? Cara, você precisa conhecer esse maluco. Eu tava no bar e de repente chegou um carinha me falando de um certo… Promete que não fala nada? É papo de irmão mesmo. Não pode falar essa porra pra ninguém, mano. Tô te chamando porque você tá na mesma merda que eu, saca? A gente trabalha junto e sabe do perrengue que tá isso aqui. Esse merda mandando na gente o tempo inteiro… Parece que ele não sabe que tenho que regular na cerveja senão não sobra salário. Tá foda até pra cerveja, mano. A gente sabe. Mas deixa eu te contar, o Tyler Durden…

  1. Você NÃO fala sobre o Clube da Luta

É mano, amanhã rola! Bora, cara! A gente já tá fudido mesmo, que vai mudar? Tu vai ver como é. Quem entra lá se torna obrigatoriamente irmão. Tu não tá ligado na dimensão da parada. Tipo, é de outro mundo, saca? Na hora que o Tyler fala as regras a atmosfera muda, mano. De repente é teu dia de lutar. Tu, um irmão e nada mais importa. Se bater? Bateu, tá valendo. Se apanhar? Rola uns machucados. Outro dia mesmo eu quebrei dois dedos de tanto que soquei a cara do John, aquele maluco. Duro na queda, aquele merda. HEHEHE. Mas nada paga o sentimento de estar livre, chapa. LIVRE. Sem chefe, sem uniforme, sem crachá. Tu, um irmão e as oito regras. Amanhã à noite te espero no bar, a gente toma uma pra relaxar e parte. Já é? Te espero lá, mano. Nove da noite. Na risca.

  1. Quando alguém disser “pare!”, perder os sentidos ou até mesmo fingir, a luta acaba

E aí, mano? Preparado pra tua grande noite? Vai conhecer o cara dos caras, o original… Porra, tô falando do Tyler Durden, mano. Tu não tá botando fé no que eu tô te falando, né? Mano, é surreal a parada. Toma essa parada aí devagar, cara. Hoje é a grande noite. Tô há um mês nesse esquema e, na moral, já me sinto outro homem. Tu vai ver como que é. Viu como eu não ligo praqueles merdas do escritório? Bando de otário. A gente muda, cara. Hoje é tua grande noite de mudar, de se sentir livre! Ué, tá me olhando assim porque, chapa? Não te contei? Você estreia hoje. A gente é assim: quem chega, luta. É tipo uma iniciação, saca? O Tyler que diz, cara. Esse cara é foda. Você vai conhecer e vai ver que eu tô te dando a real aqui. Não, nada de outra cerveja. Vai devagar, cara. Sai dessa lama, jacaré. Tu precisa estar bem e experimentar todas as sensações de uma boa luta. Livre, mano. Hoje tu vai ser livre!

  1. Só duas pessoas em cada luta

Uhuhuhuh aquele desgraçado te fez um estrago, cara. Nossa! Mano, isso tá feio demais. Vai demorar, pelo menos, uns quatro dias pra desinchar. Pensa pelo lado bom, tu poderia ter terminado pior ainda. HEHEHEHEHE. Mas gostei de ver, cara. Foi até o limite. É assim que a gente faz. O Tyler gostou de você, eu vi o olhar dele de aprovação. Na primeira noite tu impressionou o cara, mano! Tu tem muito futuro! Sábado que vem promete, né não? Respeito, cara. Sentiu o que te falei? Ali todo mundo é irmão. Todo mundo quer ser livre! A gente bate nos problemas, cara. A gente desconta tudo e fica mais forte. Daqui a pouco tu tá igual o John, com a cara dura. Aquele merda. HEHEHEHE. E aí? Melhorou um pouco? Vou deixar um analgésico aqui do lado pra tu, mas agora eu preciso meter o pé. Perdi a porra do domingo inteiro te dando uma moral com essa tua cara aí. Te vejo no trampo amanhã, mano.

  1. Uma luta de cada vez

Chuck Palahniuk - Clube da LutaTá sabendo que tem Clube da Luta todo dia da semana? Cada dia num lugar diferente, mano. Que vontade da porra de lutar todo dia. Pior que dá pra ir de graça. Já parou pra olhar o tanto de gente envolvida? Foda, cara… Mas a gente tá desde o começo, né não? No original. Olha o cara que eu lutei semana passada ali. Aquele ali é de fé. Ele que desenrolou o taxi até aqui, mano. Nessa pindaíba que eu tô, só assim mesmo. Quem diria! Mas na verdade eu queria era lutar todo dia, mano. Imagina! Livre dos problemas todo dia. Bater naquele palhaço que é nosso chefe e aquela plateia de idiotas todo dia. Que espetáculo! Sacou? HEHEHEHE. E dizem que violência é ruim. Ruim é o caralho! Duvido algum homem se sentir mais livre que eu! A não ser você, né? Queridinho do Tyler. Tu tá foda, mano. Daqui a pouco vai lutar com o mestre. Aí sim! Imagina amassar a cara de Tyler Durden, mano. Que louco! Tem que deixar acumular raiva, pra aproveitar o momento. Virar irmão do chefe. Contato direto. Enquanto isso a gente fica lá no trampo com aquele monte de merda dando instruções pra outro monte de merda. Nem sei quem fede mais. Enfim, sábado tem mais, queridinho. HEHEHEHE.

  1. Sem camisas, sem sapatos

Que coisa louca essa parada do Tyler, hein? Mas eu tô dentro, mano. Custe o que custar, eu vou lá ajudar o cara. É aquela coisa, eu tô fudido mesmo. O cara me apresentou a única liberdade que eu conheço, mano. Nada que esse salário de merda consiga comprar se compara a ser livre, cara. Já passei os móveis e falta entregar a chave da caxanga, mas eu acho que resolvo essa parada hoje ainda. Só vou andar de preto agora, igual um ninja. HEHEHE. Tu vai também, né? O cara se amarra na tua. Tem que ir, porra. Se a gente se sente alguma coisa hoje, tem que estar lá. Esse lance de produzir sabão, com certeza tem algo por trás. Nada é tão simples assim com Tyler Durden, você já deve saber disso. Enfim, foda-se. Eu tô fechado com o cara e vou lá hoje. Tenho nada pra perder mais, mano. Nada! Depois que minha mina me deixou e levou minha filha, eu virei escravo dessa merda de empresa. O que eu ganhei? Esporro desse cuzão de crachá duro. Eu sei que eu vou estar lá, tu vai estar lá, meus irmãos vão estar lá e o Tyler não vai deixar a gente na mão, mano.

  1. As lutas duram o tempo que for necessário

Mano, que mafuá é esse que o Tyler arranjou? E essa mina doida aí querendo estragar o plantão? Que loucura. Três dias na porta, tomando no cu, pra produzir sabão. Mas nem discuto, mano. É o Tyler e ele manja do que faz. Fiquei sabendo que vocês andam estragando a festa de muita gente aí. Vocês são sujos, cara. Eu queria sair pra rua desse jeito, sabe? Como é ver a cara daqueles palermas que acham que estão pisando em você, enquanto você mija na cerveja deles, hein? É quase um sonho ver os caras bebendo meu mijo. Imagina, a melhor cerveja do mundo é a que eu produzo. HEHEHEHEHEHE. Até que enfim a gente está tomando as rédeas da situação. E o melhor é que eles nem estão vendo. Imundos! Malditos! Mas aqui, fala pra mim, você sabe com certeza… Claro que pode falar, cara. A gente é amigo, fui eu que te coloquei nessa fita! Pra que esse sabão todo? O que o Tyler tá tramando, hein? Eu sei, eu sei, você tá na confiança do cara. Eu confio no Tyler, mano. Confio mesmo. Tô aqui, não tô? Mas, porra, ele não fala nada, cara. Não aparece aqui há dias. E a gente só produzindo sabão e ouvindo essa mina doida dizendo que vai se matar se o Tyler não aparecer logo. Pra mim, que morra! Mas é chato, entende? Eu só quero sair daqui logo, cara. E produzir minha própria cerveja, saca? HEHEHEHE.

  1. Se é sua primeira luta no Clube da Luta, você tem que lutar

Qual foi a do Tyler, mano? Ele achou que ia sumir e deixar a gente cheio de sabão aqui? A revolução começou, cara. Não tem como parar agora! Acho que caras tão poderosos assim, quando percebem o poder que tem nas mãos meio que piram, manja? Eu ficaria maluco, com certeza. Uhum. É, mano… Querer dar pra trás agora. Logo agora que eu descobri pra que serve a porra desse sabão! Tanto sabão, que eu pensei que o cara fosse virar empresário a nossas custas. Tipo, quebrar o mercado entrando no próprio mercado, saca? Implodir o sistema… Eu li umas teorias dessas quando era mais novo e acreditava que as coisas eram possíveis de mudar sem violência. Essa coisa de revolução pacífica. Quem diria! No meio da vida eu tô aqui, mudando o mundo, cara! Saí da minha vida de merda, perdi tudo e agora vou fazer história. Imagina daqui uns anos, meu nome nos livros de história, bonitão. É o que eu falo, mano: violência é liberdade! Um golpe direto no coração. Vagabundos! Imundos! Que orgulho pra família. Se bem que aqueles desgraçados acreditam no sistema. Putos! Direto no coração. BANG! Eles vão reconhecer que eu venci. Venci e que sou livre! LIVRE! Lembra quando eu te falei que você precisava conhecer um cara chamado Tyler Durden? HEHEHEHE.

Svetlana Aleksiévitch – Vozes de Tchernóbil

Por Caio Lima

Pessoas fazem história todo dia. Eu, você, a tia que vende tapioca na faculdade (saudades, tia) e todo mundo. Somos fonte da história que fazemos e das que vamos nos metendo pelo caminho. A dimensão que você dá a sua própria história depende de você e com quem você a divide. A maioria das pessoas pode achar que esse blog é um fracasso, por exemplo. Eu o colocaria como um sucesso. Só as pessoas que me foram trazidas por esse singelo espaço, o tornam um sucesso.

Esses múltiplos sentidos da vida são melhores que qualquer autoajuda. Talvez seja o que dê o reconhecimento (merecido) ao Vozes de Tchernóbil, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, “ouvido e transcrito” pela bielorrussa Svetlana Aleksiévitch. Muito provavelmente esse foi o livro que me causou mais problemas nessa vida de fazer resenhas:

  1. Pelo fato de ter me deixado num estado de morbidez, comfortably numb (Waters, Gilmour, paga nóis), fora do comum;
  2. Após a mesa da Svetlana na FLIP, eu fiquei me perguntando “o que mais eu poderia falar?”. Ela chegou com o pé na porta e amarrou muito bem os assuntos;
  3. É um livro que está sendo tão resenhado, que eu estou com um medo muito sério de ser repetitivo e ficar no lugar comum. O que complica, porque mais do mesmo é muito ruim pra quem lê e para o ego de quem escreve também. Hehehe.

Somos acostumados a aprender a história através dos tecnicismos escolares. Um expoente majoritário que cria as bases/leis/regras, uma situação específica e um lugar no planeta, misture tudo numa bacia e pronto, temos um evento histórico. Vemos tudo de longe, como se teorias políticas, guerras, desastres, civilizações e a própria evolução fossem imbuídas de caracterizar e organizar a história por si só. Talvez seja isso mesmo. Essa história é continuamente escrita e documentada.

Sob essa perspectiva continuamente escrita, ficamos tristes ao ver inocentes mortos pela interminável guerra de poder nas cidades. A falta de segurança e a não perspectiva de uma solução são alarmantes. Mas essa mesma violência é natural. Discutimos a inabilidade do Estado para lidar com isso, como o crime é organizado, corrupção, boas maneiras e qual uva faz o melhor vinho, tudo ao mesmo tempo. Somos capazes de falar que “o João Roleta, irmão do Zé Catraca, lá do morro do Véu Vendado, morreu com um tiro de 12 na cara” com uma indiferença sórdida.

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil.jpgÉ lógico que quando lemos a palavra Tchernóbil, o que vem a mente é a catástrofe. Os fatos e o tempo. Os fatos explicam muito bem o impacto de Tchernóbil para a ciência, a política, enfim, para a história. O tempo, intuitivamente, selecionou cada fato grande o suficiente para fazer valer à pena sua relevância histórica. Há diversos cacoetes e chavões técnicos ao se discutir Tchernóbil, talvez para que a soma entre tempo e fato não nos dê a chance de sofrer além do acidente em si. Nada é mais importante que a história, afinal. Mas é tudo tão distante, ermo e frio.

Dizem que ouvir e colocar os relatos num livro não é literatura, não é livro jornalístico, não é nada além de um documento. Aí você vê um “documento” ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Procurando a história do tal “documento”, eu descobri que isso é fruto de 40 anos de entrevistas que formam uma série de cinco livros chamada Vozes da Utopia (que nome! QUE NOME!). Resultado de jornalismo investigativo puro, sensibilidade, empatia e vontade de realizar um trabalho que não seja apenas transcrever um conjunto de grandes histórias, mas revelar pedaços que a história insiste em suprimir até ocultar. As histórias que sucumbem ante a imponência dos fatos e o poder do tempo.

Da Svetlana, em si, temos um breve prefácio, os títulos dos relatos (magníficos), o discurso feito ao ganhar o Nobel de Literatura e os parênteses com as reações dos entrevistados. E só. Esqueça qualquer ardil literário, manifestação política, aquele estoicismo que encontramos nos nossos historiadores preferidos, o duplipensar de autores medíocres que querem seguidores fiéis e espaço na mídia, os fatos que compõem um artigo científico e a criatividade interminável de um autor de ficção científica. Nada disso existe em Vozes de Tchernóbil. São apenas relatos das pessoas que conviveram ou ainda convivem com a tragédia. A abrangência dos relatos, a urgência, o sentido disso tudo, fica a cargo do leitor.

Em meio aos grandes momentos da história existe algo subjetivo, manipulável e frágil. Cada entrevistado, na profunda dor, na inocência, inconformismo, devoção, incredulidade ou pureza, passou uma visão muito particular do que foi Tchernóbil. De como as vidas foram modificadas, ou não. Essa coleção de relatos profundos, pacientes, que divagam de um ponto ao outro, muitas vezes sem objetivo nenhum, nos colocam frente a frente com a maior deficiência que temos: a capacidade de se colocar no lugar do outro, a falta de empatia com o sofrimento alheio. Não existe uma transferência de culpa ou vitimismo. O livro inteiro é um exercício extremamente físico de como reagimos a cada um daqueles depoimentos. Ou você se rende e se abre para absorver as experiências das pessoas ou você larga o livro.

Entender as pessoas. Ouvir, absorver, sentir. Foi a única coisa que Svetlana fez ao longo dos anos. A “mulher-ouvido”, sem escrever uma única palavra de sua autoria, provocou esse alarde todo. Deu espaço a todas essas vozes que a grande história ocultou. São essas as pessoas, e outras tantas, atingidas pela catástrofe nuclear de Tchernóbil. Agora todos nós as conhecemos. Eu nunca fui capaz de pensar sob esse aspecto. Acredito que poucos foram.

Ao longo do livro eu fui desarmado. Nenhuma evidência histórica me traria a sensação de desalento ao ver trabalhadores rurais tão apegados a sua terra, agora contaminada até o talo com radiação, voltarem para suas casas e continuarem suas vidas e comerem seus tomates, agora radiativos. O avanço das horas não me fez chorar menos com as crianças, que corriam de peito aberto e não aceitavam serem castigadas por algo que não podem ver, sentir ou tocar. A radiação transformaria a todas, inevitavelmente. Suas esperanças me transformaram, felizmente.

Através da perspectiva de cada um, enxergamos uma hecatombe diferente. Momentos de profunda devastação moral, com os primeiro e último relatos do livro. Momentos de riso frouxo com algumas figuronas. Momentos de esperança com os relatos das crianças. Momentos de ternura, raiva, inconformismo. Uma coleção de visões. É estranho quando você se reconhece capaz de entender outra pessoa plenamente lendo apenas um relato dela, não é? Não somos acostumados a isso no cotidiano. Isso choca.

O evento, em si, desencadeia tudo. Mas o que dá o sentido a tudo são as pessoas. Coisa que a história faz questão de esquecer ou não mostrar. Sempre compramos uma versão técnica, bonita e cheia de correção para fazer jus aos fatos e ao tempo. Mas a história é feita por pessoas, para pessoas e atinge pessoas. Qualquer ideal que deturpe isso nos afasta do que verdadeiramente somos. Vozes de Tchernóbil no traz de volta instantaneamente, assim, finalmente, vemos as nossas imagens refletidas num espelho, quando somos educados para enxergar tudo em vitrines. São iluminados os capazes de provocar isso. Ou são, tão simplesmente, humanos.

O trabalho de Svetlana é tão especial por isso. É uma reeducação do ser humano, uma nova aula de história. Durante três semanas pensei em como resenhar esse livro. Hoje ainda sinto que essa resenha não será capaz de tocar alguém como eu acho que deveria tocar, muito provável que eu tenha ficado no lugar comum. Mas isso deixou de me interessar. Meus olhos se voltam às histórias que vivencio diariamente, nos fatos que a história anda registrando mundo afora e, principalmente, nas milhares de histórias que o tempo e os fatos farão questão de passar por cima. O tempo, o fato e a história. Não, nada disso importa mais.

Irvine Welsh – Trainspotting

Por Caio Lima

O que é sistema? Afinal, o que é que te prende a esse conceito de que há um modus operandi que cerceia tua liberdade e te define um padrão de vida? É a partir do sistema que existe a contracultura. Mas o que é contracultura? Calma, vou tentar explicar tudo isso aí muito rápido. Cultura é um conjunto de práticas realizadas nas mais variadas áreas possíveis que definem um nicho social. Não, cultura não é ouvir música clássica e ler Albert Camus pra gatinha, isso é erudição (que é o acúmulo de diferentes culturas, e não uma norma sobre o que tem mais classe ou é mais elegante) ou vontade de se mostrar para a gatinha mesmo (não caia nessa, chapa. Não funciona. Já tentei :/). A junção de todos os movimentos culturais praticados por uma maioria de pessoas num determinado país, por exemplo, geram os pilares culturais formadores do sistema daquele país.

A contracultura, como você deve estar imaginando nesse momento, é o movimento de ser contra o sistema. De corpo e alma. Todas as suas práticas agridem o sistema pontualmente. Um desafio constante de não se deixar levar pela maioria burra que anda como gado direto para o abatedouro social.

Muitos livros fazem parte do imaginário da contracultura: Na Natureza Selvagem é um protesto solitário e decadente. Walden e A Desobediência Civil são loucura, pureza e guerra. E vou parar com os exemplos para que não denunciem o blog para um órgão de inteligência do governo por atentar contra a ordem pública. Ou vai que minha família tá lendo isso, o que eles pensariam sobre mim?

Daí vem a FLIP 2016 com um escocês chamado Irvine Welsh para fazer uma mesa polêmica junto a um ex-viciado em crack. Daí vem a Bruna (já pode tirar onda na lagoa vermelha, patinha) me falando de Trainspotting. E eu me propus a lê-lo.

Não é à toa que Trainspotting é um dos maiores ícones literários da contracultura. Irvine devia estar sob o efeito de deuses ao escrever esse livro cheio de heroína. Ou estava cheio de heroína mesmo, quem sabe. O lance aqui é: o livro é sujo. Do início ao fim, o livro é sujo. Mas você é quem sabe se a sujeira está nos personagens ou no sistema.

A história gira em Leith, o underground de Edimburgo, e tem umas passagens por Londres também, mas nada demais. E em vários momentos o ambiente é muito mais forte que os próprios personagens. Isso não é incomum em livros sobre contracultura, mas em Trainspotting isso fica mais apurado. É no subúrbio de Edimburgo que todos esses jovens se sentem confortáveis para agir contra o sistema da forma que melhor lhes apetece. Acaba sendo um organismo separado da cidade, onde impera uma lei diferente imposta por seus frequentadores. Mas que leis são essas se todos são avessos às leis, mano?

Manja Raulzito quando diz “faz o que tu queres, pois é tudo da lei“? Vocês já pararam pra pensar, com certeza, que manter o foco quando a função é remar contra a maré é uma parada descomunal de tão difícil. É uma condição de explorar limites. Você testa os limites do sistema enquanto tenta encontrar os próprios limites. Andar na linha tênue entre ser um herói para uns e um bandido e/ou fracassado para a grande maioria, inclusive sua família. Até quando você conseguiria simplesmente ignorar o mundo real e se dar por satisfeito com a aceitação daquela tua galera? Chega uma hora que não é suficiente. Você precisa extravasar. Teu jeito de extravasar sempre vai ser proporcional à pressão que é exercida sobre seus ombros.

Drogas, sexo e violência! Três dos maiores tabus da sociedade e três das práticas culturais com mais desmembramentos a serem explorados como válvula de escape para qualquer pressão. Se for parar pra pensar, historicamente é assim. Num universo onde tuas pressões devem ser proporcionais ao teu alívio, a cocaína é uma droga leve, por exemplo. É isso mesmo. Acho que deu pra sacar o nível das pressões que encaramos aqui, certo?

Quanto mais risco se assume, mais se extravasa. E quanto mais se extravasa, mais dependente do alívio imediato se fica. São miniciclos dentro do grande ciclo que é o contra-o-sistema-way-of-life. Esses miniciclos são cada vez mais constantes pelo simples fato de que a sensação de alívio é cada vez mais necessária. É paradoxal a relação entre bater no sistema e liberdade, já que todas as válvulas de escape aparentemente te aprisionam. Muitas vezes tudo acontece ao mesmo tempo e de forma irreversível. E a vida, num sentido “saudável”, se dá pelos moldes do sistema. É um “prenda-me se for capaz” até você querer ser preso. Realmente paradoxal.

Irvine Welsh - TrainspottingEntre casos de internação, detenção, HIV, amputação, morte, reabilitação e rendição, existem clamores muito grandes quanto à revisão imediata dos pilares culturais que são tomados como senso comum. Alguns protestam escrevendo textos no facebook, outros protestam escrevendo livros, corajosos punem o sistema com o próprio corpo. É assim que Rents passa o livro todo tentando se afastar da heroína e continuar no seu protesto, recebendo cinco benefícios de seguro-desemprego através de um esquema maroto para fraudar o governo. Mas ali no quintal de casa, em Leith, é impossível (como eu havia dito, o ambiente suga o personagem o tempo todo). Os ciclos de Rents são cada vez mais curtos, até uma overdose. Ele chegou ao limite. Mas sabe que em Leith não conseguiria ficar limpo. Se muda para Londres, sem pressões e inserido no sistema, e se estabelece plenamente.

Spud, Begbie e Sick Boy não chegaram ao limite, talvez nunca tenham tempo de reconhecer o limite. Viver no limite tem dessas coisas. Spud é um ladrão com muito potencial e viciado, Begbie é o valentão mais valentão do mundo e bem cheio de si, Sick Boy é o zé bonitinho da galera com faro para negócios escusos. São dezenas de vidas que se misturam. Todas elas buscando uma liberdade que o sistema não dá, então a tomam à força. Eles pagam o preço, claro. O corpo cobra, o tempo cobra, a sociedade cobra. Mas e daí? Eles construíram a própria liberdade. Ou simplesmente estão presos, mas na prisão que escolheram estar. E isso não é liberdade? Eu, sinceramente, não faço ideia da resposta e acho que levaria uma vida para chegar numa argumentação plausível.

O Matty, depois que terminou com a Lizzie, se afundou na heroína até a morte. Maldito show do Iggy Pop. Eu compreendo Matty no seu sofrimento e no seu querer. Não o seguiria ou incentivaria, mas o compreendo. Rents também o entendeu. E essa é só mais uma das vidas que se cruzam toda hora em Leith, esse lugar sagrado. Ou amaldiçoado. Tudo depende de como se vê o sistema.

Tenda dos Autores – Parte 02|FLIP 2016

Por Caio, Pedro, Patrick, Flor, Yumi, Paula e tô com preguiça. Depois passo a senha e daí tu inclui o nome aqui, já é? Já é.

Qual é a da parada, rapeize? Vamos continuando os trabalhos falando das outras mesas que cobrimos na Tenda dos Autores. Se liga só:

01/07 – Sexta-feira – 10h|mesa 7: Breviário do Brasil

Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

Meu amigo Pedro Mário, que estava com uma flor de pessoa, deu o papo: é um tanto difícil discutir o atual momento da Terra de Vera Cruz em pouco mais de uma hora. Mas esses dois caras são corajosos e botaram a cara no sol pra falar o que eles conseguem concluir lá de fora. Ou seja, NADA. E não é brincadeira, não. Eles falaram várias paradas certas, mas nada que não saibamos. Lógico que esse ponto de vista de fora desenvolve alguns conceitos. Mas deu pra perceber que é muito difícil interpretar o que tá rolando por aqui.

Uma tarefazinha ingrata, cara. Existem muitos Brasis dentro do Brasil. É um país difícil de explicar em anos, imagine numa mesa. A única coisa que fica evidente é a perplexidade quanto ao colapso político que vivemos. Na verdade, os colapsos políticos são recorrentes por diferentes motivos e cada geração tem suas esperanças perdidas. Apesar do olhar racional e da defesa ferrenha pelo término dessa história de “complexo de vira-lata”, é muito evidente que não há resposta de fora para o que acontece por aqui. As indignações parecem ser gritantes demais para que haja espaço para soluções, visto de dentro ou visto de fora.

Um lance bem irado é explicar o conceito da criação de Brasília e é bem real essa parada. Viajei por horas nisso. Os governantes ficam totalmente isolados. Que bizarro isso, cara. Os caras não temem o povo porque nada chega até eles. E a gente aqui batendo panela…

Enfim, é uma mesa que ajudou a observar o que rola por aqui através de um view gringo, mas não foram novidades. Foram pontos de vista mais aprofundados e sob uma ótica não usual, o que é bom também. Tá valendo.

01/07 – Sexta-feira – 15h|mesa 9: O show do eu

Christian Dunker e Paula Sibilia

Ousadia e alegria. É a espetacularização do cotidiano. A necessidade de se autopromover é cada vez mais forte e explorar os limites disso é muito importante. O livro da Paula dá o nome à mesa. Ela, inclusive, lança os tópicos da mesa mais que a mediadora. Já disse, ousadia e alegria.

Mas o papo é bem sério agora. Qual o poder adquirido através das redes sociais e de toda essa onda digital que deixa confortável e natural essa necessidade de expor o privado? Afinal, quais são os novos limites do público e do privado? Com a tecnologia os conceitos se misturam, até.

E a validade dos argumentos sobre esse tipo de doença tecnológica interferem até no modelo de escola que temos, cara. É agressivo estar nos moldes atuais da escola. As ocupações são um retrato disso.

O deslocamento do eixo que constrói o que nós somos (ficou poético isso, cara) sai de valores interiores para valores exteriores sem qualquer tipo de filtro, o indivíduo passa a ficar muito vulnerável porque perde a subjetividade. Então o vazio criado gera uma série de novos problemas. Os males do novo século. Daí você faz assim: senta, absorve, chora, reflete, chora, pensa na vida, chora, olha no espelho, chora e daí bate palma.

01/07 – Sexta-feira – 17h15|mesa 10: Encontro com Karl Ove Knausgard

Então, o cara chega aqui no Brasa cheio de fama, com uma das obras mais aclamadas dos últimos anos e geral querendo ouvir o que o caboclo tem pra falar. Esse lance da FLIP de “Encontro com” foi uma jogada de risco, mas que deu certo. A mesa do cara foi um sucesso. Eu fiquei muito na pilha de ler a série do cara ali na hora.

A história dele com o pai, o que deu assunto para que escrevesse a série “Minha Luta”, é uma parada bem cabulosa. Uma juventude reprimida em todos os sentidos. Família religiosa e tal. Pra ter uma ideia, o amigo explana que tocou uma só aos dezenove anos. É irmão, as coisas não são fáceis na família tradicional norueguesa.

Mas duas paradas me incomodaram. A primeira é que o cara, para compensar toda a repressão, timidez e sei lá mais o que, tem uns devaneios meio megalomaníacos, saca? Meio que o Exodia (entendedores entenderão) dentro daquele mundo que ele enxerga (e vive). Pode ser impressão, mas isso cortou essa vibe bacana de aproximação entre autor e leitor, convidado e público, que eu tanto falei por aí.

Outra parada foi a Cia. das Letras que avacalhou com os autógrafos. Eu não faço questão de assinatura de ninguém, mas vi muita gente bolada porque só receberam uma rubrica e nem contato com o autor tiveram. Um aperto de mão não mata ninguém, po. Tudo bem que o cara deve ter n compromissos, mas e a galera pega fila, paga caro no livro e cria expectativa por um rabisco do cacique da Noruega? Não concordo muito com essa parada não, na boa.

01/07 – Sexta-feira – 21h30|mesa 12: Sexografias

Gabriele Wiener e Juliana Frank

Manja quando eu falei dos mediadores que estragam tudo? Toma outra dose aí. O cara deu umas trezentas bolas fora. A pior delas foi insinuar que a Gabriela Wiener é pervertida por praticar o poliamor. Faltou cara pra ficar vermelha. Vergonha alheia total.

A leitura intercalada dos trechos dos livros das duas convidadas foi bem fraca. As duas atrizes se confundiram, erraram no tom e deixaram as coisas bem sem sal. Prelúdio de um desastre.

Em se tratando da mesa, depois do ano passado a expectativa estava como? Lá no alto. Geral saindo da Tenda dos Autores direto pra pousada e tal. Mas aí convidaram a Juliana Frank, que escreve livros eróticos e é bem descolada. A Juliana roubou a cena desde o primeiro momento pelo simples fato de aparentar viver num mundo anos luz à frente do nosso. Vida avançada total. A mina a cada pergunta viajava para um mundo totalmente dela. O problema é que ninguém tinha acesso. O pior é que ela começava bem as respostas, criava aquela expectativa na galera. Mas daí o caldo entornava e, ou a gente ficava puto, ou ria. Eu, particularmente, me diverti demais. Quero muito usar o que ela usa ou aprender a elevar meu espírito dessa maneira. Meta da vida é ler os livros dessa mulher, na moral.

A Gabriela ficou intimidada, mas depois mostrou a que veio. Pena que isso rolou faltando cinco minutos para acabar a mesa. Mas deu pra sacar qual é a dela e fiquei muito interessado no seu trabalho.

Era uma mesa que tinha tudo para ser um sucesso absoluto, mas causou vergonha alheia por vários motivos. FLIP, qual o seu problema com as mesas que deveriam ser polêmicas?

Ô Yumi, ô Paula, o que é o brechó?

02/07 – Sábado – 10h|mesa 13: Encontro com Leonardo Fróes

Sempre que perguntarem se esse tipo de mesa “Encontro com” deu certo, usem essa mesa com o Fróes. Que cara bacana. Na boa. Vontade de chama-lo para tomar um café e ficar ali papeando com o cara, só ouvindo as experiências dele. Tranquilão no baile.

O cara é o homem natureza e baseou sua poesia nas experiências transcendentais de sua jornada que já rodou o mundo inteiro. Numa escalada ou na horta de casa, tudo inspira Fróes. A natureza lhe é íntima e compõe cada cenário da sua poesia.

É incrível as relações que ele faz entre a natureza e a política, até. O cara é de uma sabedoria absurda. A simplicidade no modo de ver a vida. Manja quando tu olha pra pessoa e vê uma pessoa realizada? Isso dá maior satisfação, não dá? Então, esse é o poeta Leonardo Fróes.

Cara, pare e ouça. Vai lá. O cara é demais e participar disso foi mágico!

02/07 – Sábado – 12h|mesa14: De Clarice a Ana C.

Benjamin Moser e Heloísa Buarque de Hollanda

“Se Heloísa descobriu Ana C., Benjamin redescobriu Clarice”. Essa frase resume a mesa, né? Tá bom, posso ir embora, tchau. Sacanagem. A parada é que traçando um perfil dessas duas escritoras, há uma questão interessante e eu acho que seja o motivo de terem elaborado essa mesa. Ambas, Clarice e Ana C., foram consumidas pela literatura que produziram. É uma obsessão que só cresce a partir do momento que você produz mais. Clarice tem uma vasta obra e Ana C. tem um legado curto, mas muito imponente. Essa obsessão das duas pode ser percebida, bem como os efeitos dessa compulsão pela literatura que produziram. Isso abre o prisma de significados que toma uma das frases preferidas de Ana C.: “o poeta é um fingidor”.

Questões religiosas, de gerações e da própria vida, vão afastando as duas, mas a obsessão pela literatura as une com uma força brutal. O envolvimento passado para o leitor ao lê-las é onde elas se encontram no panteão das gigantes da literatura.

Ressalto o total preparo da mediadora, que conduziu a mesa de forma divina. E os convidados que são duas almas iluminadas e profundamente conhecedoras das duas autoras. Mesa pra não botar defeito.

02/07 – Sábado – 17h15|mesa 16: Encontro com Svetlana Aleksiévitch

O que falar da Veveta? Não é à toa que ela teve que dar quase mil autógrafos, coitada (Cia. das Letras prejudicou a galera de novo com a organização, quase teve treta). Conquistou o coração de geral. Uma recém-premiada com o Nobel de Literatura em Paraty. As expectativas eram estrogonoficamente altas. Aí ela chega naquele jeito manso de ser e deixa todo mundo com a cara no chão ao dar uma aula de humanismo, empatia, história e amor.

Ela veio por conta do Vozes de Tchernóbil, título que a fez ser premiada, mas ela escreveu cinco obras acerca do período que abrange o fim da Segunda Guerra e a queda da URSS. A essa reunião de cinco pontos de vista diferentes, ela chama de Vozes da Utopia. Na moral, uma mulher que lança uma série sobre esse período e batiza sua série como VOZES DA UTOPIA. Precisa de mais alguma coisa?

Dois volumes já foram lançados pela Cia. das Letras (paga nóis pelo merchan, po) e eu já os devorei (em breve resenhas, mês da FLIP e tal). Os outros devem sair ano que vem. Só façam o seguinte: procurem a mesa no YouTube, assistam, caiam de amores, comprem os livros, leiam freneticamente e consumam tudo que essa mulher produz. Que coisa maravilhosa.

Ela é a verdadeira resistência nesse mundo, cara. Na boa, máximo respeito pela Veveta. As definições de “homem vermelho” e “homem consumo”, ela dissertando sobre liberdade. Aaaaah, vou parar por aqui. Vão caçar a mesa e ganhar uma hora de vida.

02/07 – Sábado – 19h30|mesa 17: O Falcão e a Fênix

Helen Macdonald e Maria Esther Maciel

Eu quero ler F de Falcão, e acho que quero ter um falcão só pra pegar os trejeitos dele e ficar assustando o público quando me convidarem para a FLIP algum dia.

Foi uma mesa surpreendente. Tanto que nem estava na minha programação. Mas a Helen tem um talento para falar em público e seu relacionamento com seu falcão é uma parada muito bonita.

A brazuca tomou chá de Juliana e, numa mistura de nonsense total e academicismo avançado, deu umas escapadas na hora de fazer a curva. Algumas onomatopeias foram irresistíveis e rolou uma aulinha de história bem maneira. Chá de Juliana tem poder.

Mas a mesa, num contexto geral, foi bem bacana. O vinho de 10 conto tava bão também!

02/07 – Sábado – 21h30|mesa 18: O palco é a página

Kate Tempest e Ramon Nunes Mello

A grande surpresa da FLIP para mim e, presumo, para a crítica, foi a britânica Kate Tempest. Eu já ouvi uns trampos dela com rap, mas nem me ligava que ela estava escrevendo. Ainda bem que ela está escrevendo, cara! Escreve muito! Que presença e que palavras. Ela põe muito sentimento em tudo que faz e dá um show.

O Ramon estava ali só esperando a deixa dele e marcou boa presença também. O lance de revelar que é soropositivo foi surpreendente para uma boa galera no telão. Mas é mais uma daquelas aulas que a poesia insiste em dar: o maluco escreve com tanto amor, de forma tão bonita, que esse distanciamento que a frase “eu tenho aids” provoca, virou pó.

Ambos falaram muita coisa sobre a representatividade da arte num contexto de quebrar preconceitos e estigmas sociais. Mas acho que a Kate resumiu bem a função da poesia em essência: “a poesia nunca está completa se não é compartilhada, se ninguém a ouve. O trabalho da poesia só se torna completo quando atinge um receptor”.

A poesia agradece a presença dos dois fechando o glorioso dia de sábado. Foram mais que excelentes ao cumprir o seu papel.

P.S.: Só a Yumi teve grana pra levar o livro da Kate, cobrem resenha dela.

03/07 – Domingo – 10h|mesa 19: Síria mon amour

Abud Said e Patrícia Campos Mello

A Patrícia chegou falando da experiência dela como correspondente de guerra e empolgou. Logo na primeira pergunta ela já fez um link com vários assuntos, como sensacionalismo da imprensa em cima da imagem do menino Aylan Kurdi, o menino refugiado encontrado morto na praia que virou manchete no mundo inteiro, e extremismo religioso. Mandou bem demais. Domingo de manhã, cheio de ressaca, mas estava eu lá cheio de disposição. Pensei comigo assim que ela acabou de falar “sáparada vai ser como, quente”.

Aí o querido mediador, que levou um baile da Juliana (Drunk) Frank, tomou outro baile. O Abud, o cara mais esperto do Facebook (deixa nóis promover a página de graça), só falou o seguinte: “Eu não sou escritor. Uma alemão encontrou meus textos no Facebook, pediu para traduzir e eu fui morar na Alemanha. Agora me convidam para eventos como a FLIP, num hotel cinco estrelas e ontem fiquei três horas na sauna. Então isso é o que importa para mim. O confronto na Síria não tem a ver comigo. Eu, particularmente, não me importo e não vou responder sobre a Síria. Então não me façam perguntas sobre a Síria que eu não vou responder.”.

A mesa acabou! Aguentar uma hora dessa ladainha desse Sírio mequetrefe anulando uma baita jornalista é brincadeira. Todo mundo constrangido. Eu fui embora após ele fazer a comparação entre o profissionalismo alemão e o brasileiro, num discurso cheio de preconceito. Bola fora total. Pior mesa da FLIP de longe.

“Ei, Abud, vai tomar café”, gritava a plateia ensandecida ao desejar que Abud ficasse pobre instantaneamente.

03/07 – Domingo – 12h|mesa 20: Sessão de encerramento: Luvas de pelica

Sérgio Alcides e Vilma Arêas

A mesa mais bonita da FLIP. O Sérgio é crítico literário e estudioso de Ana C., a Vilma foi professora e amiga da mulher. Era para ser uma mesa técnica pra caramba. Mas veja do que excelentes professores são capazes. Ao esmiuçar Ana Cristina Cesar para o público, eles tornaram sua obra cada vez mais humana. A cada camada de Ana C. eles explicavam tecnicamente tudo o que eu senti lendo. Algo absurdo e surpreendente para mim.

E, do nada, Ana Cristina ficou entendível para todos. Sérgio foi muito feliz ao falar das referências perdidas na poesia de Ana C. e em como faz bem não reconhecer todas as referências. Essa é a mutação da poesia dela e o que há de eterno em sua obra. O segredo, a provocação, o íntimo e a aproximação com o receptor da mensagem, independente do sentido dado às palavras.

Vilma foi pela mesma linha e ainda disse mais sobre como Ana Cristina tinha esse poder de provocar e de fingir, na sua escrita, diversos estados da alma. Essa capacidade de mover palavras e deixar sensações implícitas é algo extremamente difícil e literário.

Enfim, vale a pena ver de novo. Vejam! É de aplaudir de pé todas as vezes.

E quando Vilma lê o poema de Cacaso para Ana Cristina, escrito após seu suicídio. Aquilo é a magia da literatura. Aquilo é amor. Sintetizou o que foi a mesa e encerrou a FLIP 2016 com chave de ouro. Ver pessoas que não faziam ideia de quem era Ana Cristina César antes da FLIP saírem chorando copiosamente é a prova viva de que o legado da autora é eterno. Que espetáculo! Que coisa linda!

É isso, meu povo! Essa foi a cobertura redondinha que o Rede de Intrigas fez da Tenda dos Autores. Nem mencionamos a Mesa 21: Livro de cabeceira, porque ficar falando de escritor lendo enche o saco. Muito chato isso.

Aguardem que agora vem as outras mesas, o que achamos nas ruas e uma colab com a Yumi e a Paula, queridas demais, do blog Me formo em 2080. Chora, que esse é só o começo!

Tenda dos Autores – Parte 01|FLIP 2016

Por Caio Lima e Pedro Mário

Que mané diário o quê! A parada é a seguinte: dividi a cobertura pelas áreas diferentes que fomos. Assim consigo captar melhor o clima de cada lugar e não tenho que ficar me repetindo todo a cada texto que lanço.

Então, meus queridos companheiros, a Tenda dos Autores é onde acontecem as mesas principais, com os temas fechadinhos e aquele glamour de evento literário. Tem café-bom-e-caro com pão-de-queijo-ruim-e-caro (complicado isso aí, organização), o estande dos autógrafos e, claro, a livraria. O telão tá bem melhor, o sistema de som não judia mais dos ouvidos da gente e tiraram aquelas televisões onde as pessoas se aglomeravam pra assistir e impediam a circulação da galera. Agora lá estava uma bela exposição de fotos da Ana Cristina César e ficou um corredor bem bonito, convidativo.

Um ponto positivo foi que realmente as mesas foram mais pé no chão, chamando a galera, com os temas elaborados justamente para isso, igual eu havia falado lá na prévia. Isso foi bacana pra caramba e trouxe o público pra perto. Fez com que a gente se sentisse abraçado, protegido e quente. Brincadeira. Mas isso reduz o distanciamento e o sentimento de onipotência que é criado por quem obtém a cultura e quem está buscando obtê-la.

Outro ponto foi que a presença feminina foi muito mais sentida. Ainda foram chamados mais homens que mulheres, mas todo o tempo o assunto era a mulher, encabeçadas pela Ana C., Clarice e a Svetlana (Veveta para os íntimos, Lana para os chegados). Muita força feminina mesmo!

A questão de lidar com poesia marginal e ter essa força feminina atuante durante toda a festa amplificou a sensação de subjetividade que tem os sentimentos e em como isso se desenvolve no contato de pessoa para pessoa. E porque falar nessa filosofia toda? Por causa dos autores independentes, de rua, que vieram em profusão. Muita gente nas ruas divulgando seus trabalhos. Poesia, prosa, cordel, música, pintura, artesanato e até meus concorrentes com o manuseio do cobre para artesanato. As ruas tiveram voz, finalmente. Manifestações artísticas espontâneas em todas as esquinas. A rua voltou a ser palco de uma festa em Paraty. Isso me soa irônico, já que toda festa em Paraty é na rua. Mas é isso mesmo.

Um passo importante foi a abertura para editoras menores entrarem no game do mercado editorial de grandes festivais literários. É óbvio que as grandes oligarquias editoriais ainda dão as cartas e mandam na cena, mas já vi uns livros hipsters tendo seu destaque lá na livraria, sendo referências de algumas mesas. Isso é um avanço. Espero que isso seja intensificado.

Outra parada muito ligada à poesia marginal é a manifestação política. A arte marginal é ligada à política. Não tentem separar isso. E foi muito importante ver isso ressoar nas ruas. Rolaram manifestações, rodas de conversa, teatro, música e os próprios autores deram suas cartas na mesa principal. Infelizmente quem deu voz a isso não foi prestigiado com lugares de destaque na programação da FLIP, mas rolou. É importante que role sempre. Literatura é arte e arte é liberdade de expressão.

No entanto, as comunidades negra e indígena, e a própria cidade de Paraty, não foram representadas. Ficou um vazio ali que ninguém soube explicar. Vai rolar texto sobre isso aqui e outros problemas que notei na organização. Mas fica o aviso: é melhor essa organização da FLIP se mover já para a próxima edição. Errou feio, errou rude demais.

Outro lance que é bem rude é o preço dos livros. Será que não rola um acordo de desconto progressivo pra galera? Tudo bem que esse ano a livraria estava o fervo e tal, mas livros ainda são caros e consumir os autores que conhecemos ali na FLIP se torna algo inviável. Fica a sugestão pra Travessa parar de traquinagem e começar a agir direito com a galera desprovida de cash. Aqui não rola cash em racks on racks on racks, homie.

Por falar em “racks on racks on racks”, a poesia marginal trouxe mais música pra FLIP. Incrível como música e literatura se confundem, pelo menos comigo. Com vocês não? Pena. Em cada esquina rolava uma parada diferente e várias misturas de improviso. Que bonito de ver!


Agora vamos ao que interessa. Chega de palhaçada! Direto da Tenda dos Autores (naipe Miguel Fallabella no Vídeo Show naquele quadro “Direto do túnel do tempo”) vão minhas breves impressões:

29/06 – Quarta-feira – 19h|sessão de abertura: Em tecnicolor.

Armando Freitas Filho e Walter Carvalho.

A vida é um filme mal filmado. É uma frase emblemática. Uma mesa visionária sobre poesia e cinema, palavra e imagem. Assim, Godard, por exemplo, poderia muito bem ser colocado como um grande poeta ao invés de cineasta e Armando é um grande cineasta ao invés de poeta, que quando escreve “uma gaivota passa riscada a lápis” deixa tudo extremamente visível. A sinergia entre Armando e Walter é notável e a conversa foi leve, espontânea e solta acerca de como capturar a imagem de um poeta. Todas as homenagens ao Armando são merecidas. O cara é bom demais. Mas aí entra o fator Ana C.. Saca que essa é a mesa de abertura de um evento que essa mulher é a homenageada? Foi muito bonito o Armando tentar recriar a imagem dela através da simplicidade dos seus argumentos, mas ficou aquela sensação de que ele economizou demais nas palavras. Da mesma forma que economizou no prefácio que escreveu para o livro “Poética” (já resenhado aqui). Entendo que deve ser difícil recriar a imagem de alguém que foi tão querida e íntima para um público tão curioso dos porquês, e que o Walter Carvalho entrou nessa barca furada junto ao querer saber como funciona o cotidiano e como se dá o processo criativo do poeta. Mas… não dá pra aliviar. A mesa foi bonita, mas faltou Ana C.!

30/06 – Quinta-feira – 10h|mesa 1: A teus pés

Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia

Uma mesa sutil, querida e forte! As três poetisas deram um show e se mostraram muito à vontade ao falar de suas obras, claro, e principalmente da poesia de Ana C.. É sempre muito importante falar em questões de gênero dentro da própria arte, de desconstrução e de destituir estereótipos. Ana C. fez isso tudo em sua curta obra e as três tiveram a sensibilidade de tratar isso de forma muito espontânea, além de incluir esse elemento na construção de suas próprias obras.

Ana C. também foi transgressora na forma de sua poesia, implodindo padrões para explodir a cabeça dos críticos literários. Seus cortes bruscos e seus versos extremamente claros trazem uma afirmação feminina, uma idealização de um espaço que a mulher deve preencher. A quebra de estereótipos é outro ponto que só pode ser traduzido em confusão para os leitores, entendedores e admiradores da homenageada.

Por fim, Laura Liuzzi resume muito bem o que é a poesia e aonde a poesia quer chegar ao traçar o seguinte paralelo: poesia é documentário, o romance é ficção. Poesia é o íntimo, o real, o ideal. Mesmo quando lançado de forma subjetiva, ele é atraente pelas dimensões da realidade que nos fazem observar. A arte respira na forma dessas três mulheres.

30/06 – Quinta-feira – 15h|mesa 3: Os olhos da rua

Caco Barcellos e Misha Glenny

É meio ridículo que dois caras sabichões do submundo do crime organizado, excelentes escritores e extremamente reconhecidos por tudo isso tenham que passar meia fucking hora explicando o ambiente das grandes cidades, o que acontece quando o Estado não consegue atender parcelas grandes da população e quando o Estado fica a mercê de outra parcela bem menor, mas mais abastada. É mais ridículo ainda pelo fato da mesa durar pouco mais de uma hora. Mas aí entra a questão de que é preciso fazer assim, dessa forma. A parada é que os dois são tão bons, que essa meia hora foi muito boa e os trinta minutos finais foram melhores ainda.

Tratar o jornalismo investigativo como os olhos da rua, esse é o cerne da mesa. A questão é que no Brasil o jornalismo investigativo está minguando. Misha, ao reviver o debate sobre a romantização de um fora da lei com a biografia do Nem, joga na face da imprensa brasileira que existem pilares sociais muito bem fincados que são verdadeiros berços de caras como o Nem da Rocinha. Caco Barcellos havia feito isso com Marcinho VP, em O Abusado. Dissecar esses pilares é função de vários departamentos, mas mostra-los através da lente mais real possível é função do jornalismo.

Essa mudança de ponto de vista denota as graves falhas latentes do jornalismo brasileiro, principalmente do jornalismo investigativo. Denunciando uma imprensa que trabalha partidariamente, selecionando e picotando os fatos conforme seus interesses. Os veículos de comunicação deixaram de ser os olhos das ruas e passaram a servir como escudos de interesses. Essa inanição do jornalismo faz com que setores totalmente alheios à comunicação exerçam esse papel, exemplo do Ministério Público. Lógico, todos com seus interesses e compromissos.

O exemplo do Caco Barcellos com a empregada doméstica que mora na favela e trabalha na casa de uma patroa rica é fenomenal, até pela sua simplicidade. A empregada convive em mundos paralelos, sabe como os dois sistemas funcionam. A patroa só conhece aquele mundo, a informação que chega até ela só diz respeito a aquilo que ela já convive e conhece. É uma cegueira crônica que foi institucionalizada. Uma das melhores mesas da FLIP, de longe. Não me alongarei mais, porque tem o áudio da mesa no YouTube oficial da FLIP, então ouçam lá! Já!

30/06 – Quinta-feira – 21h30|mesa 6: Na pior em Nova York e Edimburgo

Bill Clegg e Irvine Welsh

A grande decepção da FLIP 2016 para mim. Na boa, me expliquem o que foi aquele mediador, por favor? Até agora não saquei qual foi a dele. Que vacilo, na real. O cara me pergunta para o maior ícone literário da contracultura o porquê dele escrever de uma forma coloquial? Metade da mesa foi embora na segunda pergunta, particularmente, ridícula que o amigão lá fez. Depois de ver o Irvine Welsh dar um show lendo um trecho do seu livro e me fazer acreditar que eu ia pirar assistindo essa mesa, um balde de água fria. Que pecado. Mas mal eu sabia que essa não seria a primeira mesa levada de forma tão escrota pelo mediador…


Esse é só o começo de uma série de posts sobre a FLIP que deve durar o mês inteiro. Se liguem que vai rolar muita coisa diferente pra gente, mas cobertura é cobertura e também temos que mostrar o que rolou de convencional e todos os veículos de comunicação já mostraram pra vocês, mas com a ótica da gente. Prepara o lombo, abestado!

Aguarda na Disciplina|FLIP 2016

A FLIP 2016 terminou e agora começa a nossa jornada de posts. Em termos gerais, foi mesmo o que eu havia previsto: mais interação do público, mesas com assuntos encaixados e mais artistas de rua. Claro que o mundo não é perfeito como eu gostaria que fosse e temos aqui algumas dúzias de problemas, mas isso é papo de futuro.

Antes de falar sobre o evento, existe algo muito mais importante que deve ser colocado aqui: com menos de dois meses, o Rede de Intrigas contou com a colaboração de muita gente e a FLIP 2016 foi o extrato disso. Aos que ajudaram com a cobertura do evento, nas ruas, na correria das mesas super distantes, nos imprevistos, nas caronas e quem estava de longe, sempre me atualizando, solicitando e sugerindo. Agradeço aos autores que tiveram a paciência de ouvir, assimilar e contribuir. E agradeço previamente as pessoas que me ajudarão a organizar todo o mundo de materiais e serão meus revisores, analistas e sempre serão companheiros fieis. Repetindo, com menos de dois meses de história o Rede de Intrigas já pode ser considerado um projeto de extremo sucesso ao conseguir envolver por livre e espontânea vontade uma galera comprometida com a arte. A vocês, meus amigos, faltam palavras de agradecimento.

Agora a FLIP. Ah, a FLIP. Foi uma festa diferente, mais humana, mais próxima das pessoas. A opção pela poesia marginal com a cara e a voz de uma mulher encurtou o distanciamento natural que a arte promove entre o receptor e o autor. Foi uma FLIP mais quente e até o clima ajudou.

Claro que alguns erros estruturais aconteceram e serão falados por aqui, porque aqui a gente não tem medo de meter o dedo na ferida. Tem bastante coisa pra falar e todas serão tratadas separadamente e de forma construtiva. Mas a mensagem foi dada e a FLIP, que via um público mais distante ano após ano, conseguiu ver uma aproximação muito clara. Mesmo com uma cidade mais vazia por conta de vários fatores, principalmente a crise, houve um massivo aumento da participação das pessoas. Não houve sensação de vazio em momento algum (a não ser em algumas mesas podres).

Os eventos aconteceram em todas as partes do centro histórico da cidade, então imaginem a correria que foi e o estado dos pés de todos que colaboraram para trazer uma cobertura da forma mais completa possível para vocês. Pois é, mas valeu a pena e o saldo foi extremamente positivo. Não apenas pelo material que coletamos, mas pela satisfação de cada um em estar ali. Valeu o cansaço e agora vem à próxima parte do trabalho, que é passar essa satisfação e o saldo disso tudo para vocês.

Para dar um gostinho do que foi essa FLIP e do que está por vir, rolou cobertura em quinze das vinte mesas da Tenda dos Autores, Casa Folha, Casa Rocco, Casa de Cultura, Casa SESC, lançamento de livro e muita coisa na rua, com os artistas que vieram por conta própria buscar o seu espaço. Passando esse estado letárgico que fica após cinco dias alucinantes, tô vendo que vou ter que escrever pra cacete!

É isso aí, galera. Aguardem na disciplina que tá saindo parada boa com as impressões da FLIP, resenhas exclusivas e muitas novidades do Rede de Intrigas para vocês.

Ítalo Calvino – O Visconde Partido ao Meio

Por Caio Lima

“Cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração.”

Eu admiro as pessoas capazes de fazer soar simples qualquer história que contam. É sério, não existe hora ruim pra ouvi-las. Ítalo Calvino é um desses caras. É meio que uma receita de bolo: tá sem paciência, ressaca ou sem ânimo pra nada, então vai lá e pega um Calvino pra respirar, ler uma grande história e ainda tomar tapas e tapas e tapas na cara, mesmo com toda a sensibilidade que transborda desse cara. E numa situação dessas de ressaca literária que, num belo domingo, eu fui procurar O Visconde Partido ao Meio na minha prateleira.

Ítalo Calvino - O Visconde Partido ao MeioEu encaixei esse livro na categoria de “Livro Bobo” do Desafio Livrada! 2016, mas já me adianto que de bobo, em essência, o livro não tem nada. Eu já sabia o que esperar do livro, pois é de Calvino (claro!). Mas o encaixei como “Livro Bobo” pela escrita despretensiosa, simples e bem-humorada do autor. Fica aqui meu mea-culpa.

Primeira coisa: Medardo di Terralba! Você pensaria num nome melhor pra um nobre qualquer? Eu não. Não colocaria num futuro filho meu (bem futuro) pelos trocadilhos com merda, mas quem sabe num peixe beta. Estou refletindo sobre.

Enfim, o Visconde tomou um tiro de canhão no meio do peito enquanto lutava contra os turcos, em prol dos cristãos. Nessa loucura, só acharam a metade direita dele. Após recuperar-se parcialmente (porque essa é só a metade dele, sacou?), o Visconde se revela um personagem oblíquo aos olhos dos demais. Ninguém entende tanta crueldade e autoritarismo. O sentimento de revolta é crescente entre seus subordinados. É muita maldade para uma metade só.

Mas e a outra metade? A metade esquerda é bem vendedora de miçangas. Sumido pelo meio do mato, vive falando com plantas e cuidando de animais por aí. É uma parte excelente no âmago do seu ser. Ternura, arco-íris pela boca e mais miçangas no ar. Mas é tão bom que atrapalha e é tão chato que enjoa. É uma metade que gera revolta. Cansativa, superficial e suas boas intenções só interferem (muito) negativamente nas ações alheias.

“Ó Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desrraigado, mas você também, e todos. Mas, isso agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer com os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.”

Os antagonismos que carregamos nos servem de balança e são os limitadores das ações extremas que, por ventura, somos tentados a tomar. Isso vem muito de encontro a algumas filosofias orientais. Vocês que já leram Calvino já perceberam isso nos livros dele? Talvez seja só uma impressão minha, mas fica o questionamento.

Como eu disse lá em cima, Calvino tem esse poder de simplificar as coisas. Aqui, de forma leve, bem humorada e rápida, ele nos dá uma aula de que o indivíduo é indivisível e, desta forma, não se pode defini-lo a partir de conceitos tão puramente simples como o bom e o mau. Nós temos o nosso próprio “controle de qualidade” (a não ser que você seja diagnosticado com uma patologia, claro). É uma análise do ser humano como um todo, desmistificando conceitos e julgamentos superficiais. O que acreditamos é construído dentro de bases muito profundas que, além de se interligarem, são continuamente moldadas por uma série de fatores ao longo da vida.

Um livro bem-humorado e bem levinho, mas não se esqueçam de que quem o escreveu foi Calvino. Nunca esperem nada menos que reflexões profundas durante a noite tirando seu sono e a excelência de quem entende as mazelas da alma como poucos.