Vladímir Sorókin – Um mês em Dachau

Por Caio Lima

É bem provável que eu tenha sido muito injusto e tenha esquecido de bastante gente boa durante esse mês sobre a literatura russa. Tolstói, Leskov, Tchekhov e Górki são alguns dos caras que eu releguei. Em compensação, elegi a grandiosa Anna Akhmátova, Tynianov, Soljenítsin e Korolenko. Todos sintetizam muito bem a originalidade e a resistência que eu tanto prego aqui no Rede de Intrigas. E depois de passar esse mês todo fazendo essa pesquisa intensa, esse balanço entre prosa e poesia e essa salada entre conto, novela e romance, falta um único aspecto do meu roteiro áspero e confuso: renovação.

Não faço ideia se há algo que comprove o que eu vou falar aqui, mas, aparentemente, existe um período negro após toda uma era artística indefectível. Foi assim com a literatura russa também. O regime soviético, alicerçado em diversas razões, mas principalmente pela guerra tecnológica contra os EUA, parou de produzir qualquer arte em prol do avanço científico. Armas nucleares, corrida espacial, espionagem total e todo aquele clima de guerra fria is the new black fizeram a URSS esquecer de vez da arte, de modo geral, para investir em áreas que realmente produziriam algo concreto para o homem soviético.

Se isso é errado ou não, não preciso nem discutir. É só pegar o resultado de nações munidas de alta tecnologia e pouco acesso à diversidade cultural (ou muito acesso à cultura plastificada) que obtemos a resposta. Mas é um pouco difícil pegar mais de um século de movimento literário intenso-e-brilhante-e-chavoso e, de repente, ver tudo minguar. Triste, né? Mas a arte é um processo cíclico e revolucionário por si só, capaz de revelar caras como Vladímir Sorókin. Para falar em literatura russa contemporânea, temos que falar desse cara. E não, não é nada fácil carregar essa responsabilidade praticamente sozinho, mas ele está aí abrindo portas.

‘Um mês em Dachau’ é um dos contos mais psicodélicos que já li e um dos maiores socos na cara que tomei. O campo de concentração de Dachau já seria impactante o suficiente para tornar qualquer escrito um soco na cara, é óbvio. Segunda Guerra é sempre um tema delicado e triste de passear. Campos de concentração, nem se fala. Mas Sorókin foi um pouco além, reacendendo uma discussão muito em voga nos dias atuais, explorando a questão da gravidade histórica e do legado.

Contrapor o seu processo quase despretensioso de desejar visitar Dachau com a revolução fundamental do seu pensamento, constipado e confuso, a cada nova câmara que visitava, abre um precedente incrível para uma discussão quase banal, mas muito profunda: “o quanto você é capaz de estar inserido na história e de se sensibilizar com isso?”. É nessa massa de pensamentos que Sorókin exibe, com toda psicodelia que envolve a justaposição entre épocas, o quanto carregamos, por herança emocional, o legado da nossa própria maldade. É terrível, doloroso e confuso. Sorókin faz dos seus pensamentos uma massa de palavras jogadas e, muitas vezes, sem muito sentido. São vinte e poucas páginas de literatura à base de opiáceos selvagens que revelam uma alma perturbada e profundamente abalada por um legado tão frio e cruel.

A capacidade de se aprofundar na própria confusão e dor remete a uma velha classe de caras como Dostoiévski, Tolstói e Korolenko. É uma espécie de retomada de direção. Uma modernização da literatura que, arte que é, nunca cessa. Esse novo encaminhamento da literatura russa faz reacender a discussão do que é legado, do que é relevância histórica e a primazia da literatura ante o povo russo. Percebem o quanto passado e presente dialogam na busca de contextualizar o legado e a renovação? Sorókin foi lá e fez. A literatura russa está viva e, mais do que nunca, renovada!

Renovar é resistir. É isso! Nada mais que isso! Finalizando o mês russo no Rede de Intrigas, fica um apelo a uma reflexão profunda sobre todo o legado que nos cerca e o que fazemos com ele. Lutamos por sistemas falidos, numa concepção de mundo falida e por um legado reprovável. Até quando? A arte se renova, a natureza se renova, a ciência se renova. Ambas florescem sob novas formas, mas respeitam o legado que as trouxeram até aqui. É um pecado que não saibamos nos renovar, perpetuando um legado fixado há meio milênio. Sorókin foi para Dachau mostrar que para respeitar um legado, ele não precisou repeti-lo. Num futuro, acompanharemos o tamanho do seu legado.

Alexandre Soljenítsin – Um dia na vida de Ivan Deníssovitch

Por Caio Lima

Kolyma, terça-feira, 27 de Setembro de 1949

São cinco da manhã e a alvorada toca. Aqui todo dia é assim. Nem os guardas gostam de sair para tocar a alvorada. Através das paredes finas, o vento anuncia que hoje é mais um dia frio. No termômetro está marcado 30 graus negativos. Dizem que se a temperatura chegar a menos 45 graus, nos darão folga. No começo eu até acreditava, mas essa terra aqui parece estar mancomunada com o nosso sofrimento. Mesmo nos dias mais frios, nunca chegamos aos 45 graus negativos. Às vezes dá para ouvir um guarda ou outro reclamando enquanto nos vigiam no trabalho e posso garantir que eles não estão mais felizes que eu. Ninguém é feliz aqui. Nem nós, presos. Nem os guardas. Nem o alto comando.

O problema de acordar num lugar desses, é que percebemos que não é só lá fora que é frio. Me sinto cada vez menos humano. Apesar de ter perdido muito peso, me sinto cada vez mais pesado. É um exercício enorme levantar todo dia nesse lugar sem surtar. Não condeno os que não aguentaram isso aqui. Nem a comida é quente mais. Na verdade, nunca foi. E depois da última tentativa de fuga, pararam de entregar nosso pão gelado em fatias. Agora o pão é picado e dividido em porções. O desjejum, o almoço e o jantar são assim. Não esquentam, não enchem e não alimentam. Só trazem o ambiente gélido para dentro de mim e assim me mantenho frio, igual a tudo aqui.

Diferente de todo dia, eu não fui para a fábrica. Hoje eu fui atender ao grande comitê dos que mandam aqui. Ou pensam que mandam, porque só o frio manda nesse lugar. Quando me chamaram, pensei que seria mais um preso aleatório a ir para as masmorras para ser torturado. Talvez por não andar tão asseado quanto deveria, talvez por acharem que olhei torto para o guarda. Se os guardas realmente soubessem o que penso deles, me matariam pela humilhação. Pobres seguidores do regime. Alguns até sabem o lugar em que se meteram. Para esses é até pior, porque não tem jeito de sair mais.

Hoje me mandaram limpar o salão. Pés descalços, para não molhar a bota. Não que ela proteja meus pés do frio. Na verdade, ela traz uma espécie de alívio moral. Em situações assim, nós usamos e fazemos coisas para simplesmente nos mantermos apegados ao que resta de humano em nós mesmos. É um jogo mental dizer “eu faço porque quero, não porque necessito”. Como se eu tivesse alguma escolha. E tenho. Ou faço e mantenho minha esperança de um dia sair desse inferno branco, ou morro de inanição, pelo frio, e nem à minha família contariam. A água correndo pelo chão só fazia aumentar a sensação de frio. Eu falei que sobrevivo assim, mas nessas horas eu só desejo não estar aqui.

Aqui é tudo frio e úmido. A tosse é uma maneira de lembrar que mesmo estando no meio de muitos, lutamos sozinhos. Com o que não posso lutar, sou subserviente. Meu corpo parece anestesiado, mas é resistente. Sofro surtos de febre. Calafrios nem contam. Mergulhado naquele chão do refeitório dos oficiais, a febre e os calafrios voltaram. Não é a primeira vez. Sei que não vai ser a última. Mas o médico daqui só dá atestado aos moribundos. A maioria dos que saem, não voltam. Os que voltam, duram pouco. Aqui o trabalho é a cura para todos os males, até pelos quais foram produzidos pelo próprio trabalho. Então eu trabalho e fico melhor. Ao passo que isso aqui fica mais frio e eu fico mais frio junto.

Agora é hora de dormir. Os dias aqui são feitos para que você perca as esperanças. O regime não admite oposição. Até onde não existe oposição. O estado me tomou quase tudo o que tenho. A hora de dormir é a única coisa que eu não permito que me retirem. No meu sono eu tenho sonhos de liberdade. E é nesse último fio de esperança que me atenho, em ser de novo livre.

Literatura e o indivíduo

Por Caio Lima

Nessa programação de resenhas e artigos sobre a literatura russa durante todo o mês de setembro, chegamos ao último artigo. Depois de ter passado por tantos assuntos para tentar explicar minimamente no que a literatura russa pode nos ajudar a compreender em tempos nefastos (como o que estamos vivendo), finalizo falando da parte mais importante de qualquer resistência, o indivíduo. É muito contestável o argumento de que não se faz uma revolução sozinho. Tão contestável quanto argumentar que golpes de estado só se dão quando há militares na rua. Além de contestável, é um tipo de fala ingênua. E, sendo possível promover uma revolução solitária, é perfeitamente cabível que exista, tão efetiva quanto, uma resistência solitária. Sendo brasileiro, sabemos muito bem como funciona o esquema do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Esses são tempos de “farinha pouca, meu pirão primeiro”, aliás. Por mais que haja um cunho egoísta nessa frase, há um sentido primário que mostra luta, pobreza (de espírito também, mas quem liga?) e resistência quando o assunto é sobreviver em meio ao caos da vida moderna.

Na literatura russa, essa análise do comportamento individual na sociedade, de uma maneira geral, cai muito sobre os ombros do mestre Dostoiévski. Dostô para os íntimos, obrigado. De nada. Dostô, muito provavelmente, foi o escritor russo que mergulhou mais fundo no que é ser humano. E extraiu lá um material bem denso e consistente. A extensa obra com, basicamente, todos os títulos explorando essa interiorização do indivíduo o credenciam a esse papel de embaixador do indivíduo, mister depressão e senhor “olho para mim e sinto um vazio enorme”. Mas não é bem assim que a banda toca. A literatura russa, em toda a sua movimentação desde Púchkin, nunca tomaria essa proporção se não soubesse conversar com cada indivíduo russo e, assim, fomentar gerações marcadas pelas revoluções promovidas e pela resistência altiva.

Ao olharmos para cada escritor russo, com suas convicções e obras em separado, montamos perfis muito distintos. Mas quando falamos aqui em literatura russa, não falamos de um ou dois autores em separado. É o legado maravilhoso que nos foi deixado pelas diferentes vertentes do pensamento russo. A literatura russa atua de forma tão contraditória dentro dela mesma, que se assemelha a um indivíduo tão profundo, lúgubre e complexo quanto os descritos por Dostô. E essa é a mágica da resistência através da literatura, a materialização da arte como indivíduo. Isso não quer dizer que ela seja pura e simplesmente política. A literatura descortina uma visão de indivíduo que o russo comum não tinha conhecimento. A síntese perfeita entre a liberdade de criação, a assimilação da informação e a proliferação disso como produto inicial de discussões profundas que modificaram a forma de enxergar o russo comum pelos seus semelhantes.

Falar com o indivíduo através da literatura não é tarefa das mais fáceis. Mais difícil ainda é a árdua tarefa de apresentar a esse ser uno e solidificado, que metamorfoses o farão enxergar em si mesmo a resposta para os seus problemas e, de quebra, que seu problema é o mesmo do vizinho e de 90% da Rússia. Do indivíduo à unidade de um movimento social ou revolucionário, por exemplo, é um longo caminho. Há um amadurecimento natural, um reconhecimento instantâneo e, o principal, a redescoberta do limite entre o ser coletivo e o ser individual. Transferir para a literatura a responsabilidade moral dessa metamorfose russa durante o século XIX e seu legado é algo muito pesado, porém muito justo.

Nesse redemoinho de acontecimentos, a literatura tem o papel fundamental de explorar a profundeza do senso crítico num indivíduo subestimado, explorado e inutilizado socialmente, para ascende-lo à esfera da resistência por meio da sua afirmação como indivíduo capaz de guiar o próprio destino, de reconhecer a urgência do que reivindica e, principalmente, que consegue se colocar no lugar do próximo e entender que a estrutura formadora da Rússia czarista torna-se, efetivamente, cada vez mais nociva ao indivíduo que se reconhece e reconhece a plenitude da sua liberdade. Essa transformação é fantástica e é a razão do mês russo aqui no Rede de Intrigas.

A literatura russa é tão abrangente que esses quatro artigos e esse monte de resenhas não são suficientes. Mas espero, de coração, que os artigos, principalmente, tenham conseguido passar a mensagem primordial do que a literatura pode representar num período onde todos os explorados são incapazes de se reconhecerem como iguais. Mostrar-se livre de conceitos fechados e cíclicos, além de evitar disparates, permite que você possa aplicar a maior resistência que existe no mundo: a tua liberdade de pensamento. Mudar de ideia, arrumar novos ares e discordar de antigas posições, é algo perfeitamente natural e libertador. Esquecer do social, polarizar o mundo em duas frentes e esquecer do indivíduo, é desumanizar-se em prol de quem te explora. Literatura russa, resistência e liberdade se misturam, se confundem e nos confundem. Mas vendo pelo lado dos russos, estar confuso é o primeiro passo para a resistência. Então aqui seguimos, livres.

Fiódor Dostoiévski – O idiota

Por Caio Lima

Como vocês fazem para ler todos os livros que ganham? Sério. Eu tenho um certo desconforto em ganhar o livro e deixa-lo na estante mofando. Talvez seja porque eu sempre ache que o livro possui uma mensagem que a pessoa quis me passar além da boa literatura. E eu penso assim, porque todos os livros que dou tem um motivo por trás. Então se alguém que já ganhou livro meu estiver lendo, saiba que o livro foi pensado justamente para você sob algum aspecto muito específico. Livros tem esse poder de abordar pontos muito específicos de uma forma que as pessoas permaneçam na leitura e, quando percebem, saem completamente mudadas. Acho essa questão do auto reconhecimento com a obra uma coisa fantástica. E, não, não falo do fato de achar que “nossa, isso é tão eu”. É um muito mais profundo dentro da própria consciência.

Foi essa a minha experiência com ‘O idiota’ do nosso queridíssimo mestre dos males da alma, Fiódor Dostoiévski. E pode-se falar que o romance gira em torno de um triângulo amoroso entre o bobo Príncipe Míchkin, a inconstante Nastácia Filippóvna e o truculento Rogójin, que não seria errado contar a partir desse ponto de vista. Pode-se contar o livro a partir da ótica da construção da personagem do Príncipe Míchkin, quando falamos da inspiração em desatino do nosso parça Dostô ao misturar numa personagem características de Don Quixote de la Mancha e Jesus Cristo. Seria bastante correto também, já que é um personagem tão bem trabalhado que dá um nó no leitor. Nó daqueles que até dói a cabeça durante a leitura.

Eu sempre digo que o exercício da leitura é um exercício de justaposição. Hoje eu gostaria de analisar ‘O idiota’ tentando trazer a realidade de Dostoiévski para perto da gente. Sei que isso soa ambicioso, mas é uma tentativa. Se eu quebrar a cara aqui, não me arrisco mais. Prometo!

Dostoiévski era um cara bem esquisito, cheio de manias, epiléptico e revoltado da vida com um monte de coisas. Mas em todos os artigos, matérias, reportagens e trechos biográficos que vi, ele não era tido como uma má pessoa. Apenas um cara solitário que, com o passar do tempo, ficou cada vez mais preso às suas convicções. Principalmente às de cunho religioso. Veja bem, isso não o separava de seu desejo de mudança naqueles idos pré-revolucionários. Ele era, simplesmente, a principal força para contrapor as ideias progressistas da época, afloradas pela busca de uma ordem econômica e social mais justas, mas que coibiam organizações básicas de ordenamento social, como a nossa querida, sagrada e santa igreja.

E lendo ‘O idiota’ eu me peguei pensando em como o Príncipe Míchkin funciona como uma alegoria perfeita do próprio Dostoiévski em seu ambiente social. Um jovem religioso, de 25 anos mas conservador, com um título de nobreza ou status social e uma suposta herança, com crises severas de epilepsia que lhe são “revelações” e, como ponto principal, a incapacidade de desfrutar de maus modos. Percebam que as alusões a Don Quixote e Jesus Cristo se tornam bastante secundárias agora, já que situamos nossa personagem com base no seu criador. Míchkin funciona dessa forma, porque Dostoiévski parece, a todo momento, falar de si mesmo dessa maneira.

O que separa Míchkin de ser um bobo completo, apesar de passar por otário durante o livro todo, é a capacidade de analisar as atitudes à sua volta e não replicar ou descontar, de forma alguma, todos os maus costumes que ele observa ou que são direcionados a ele. Costumes esses impregnados às mais diversas camadas sociais possíveis, já que há, na obra, uma infinidade de personagens bem específicos, pintando um quadro sobre a sociedade russa do século XIX. Isso é um ponto de vista muito específico e sempre atribuído ao autor, que sempre foi acusado de ser opositor a tudo, inclusive da oposição. Abrindo esse leque de opções, podemos contar com um Dostoiévski mais solitário do que nunca, ora por sua doença, ora pela incapacidade das pessoas o entenderem e deixarem de trata-lo como um completo maluco ou idiota incapaz de enxergar o mundo como ele é, mesmo ele se esforçando, até o limite do amor humano, para perdoar todo o mal que lhe fizeram. Não, não vou entregar spoiler.

Passemos de Dostoiévski para nós. Interiorizemos. Quantas vezes não nos isolamos dentro da nossa própria incapacidade de cativar e semear a ternura e a nossa bondade? Quantas vezes o mundo nos isola por justamente demonstrarmos isso? Impossível contar, acontece todo dia. Mas que esse manifesto puramente confessional de Dostoiévski em todas as esferas, mas principalmente na esfera pessoal, sirva para nós como um exemplo de que precisamos aprender a ouvir e levar a sério a melhor das intenções e atitudes. Sempre. E, talvez, consigamos aprender com elas. Já que as piores nós estamos acostumados a praticar. É degradante.

Literatura e história

Por Caio Lima

O ato da leitura é um esforço integrado entre se colocar no lugar das personagens, se colocar no lugar do autor e entender aquele contexto específico da história. Nos dois primeiros artigos passei rapidinho justamente essa relação entre personagem-leitor e autor-leitor. Claro, não foi um baita estudo, mas espero ter deixado perceptível que essas relações, na literatura russa, foram exploradas ao máximo para extrair alguns conceitos arraigados da sociedade russa à tona. As ações e as nuances pelas quais cada indivíduo passa, são exercícios constantes de resistência. Reparem que, raramente, os grandes autores russos criam personagens bons de tudo e quando criam… é um verdadeiro drama, como o príncipe Míchkin, em ‘O Idiota’. Mas isso é papo para a resenha de quinta-feira e para o texto do próximo domingo.

Indo um pouco além nessa coisa de “em como a história interage com as obras russas e o efeito único produzido por isso”, já que os russos bebem de uma fonte comum à escola francesa, por exemplo, mas a utilizam de maneira diferente ao meu ver. Enquanto fatos históricos e momentos marcantes normalmente servem como um pano de fundo para a construção e desenvolvimento do enredo, na literatura russa a história chega de uma forma mais incisiva e de duas maneiras primordiais.

A primeira forma que eu vejo como bastante particular da literatura russa é em como a história passa a fazer um papel além de ser apenas pano de fundo para a trama. Fatos históricos, ou até um enredo que cubra todo um período, agem diretamente dentro de todo o contexto criado, mas não que tenhamos em mãos um romance de ficção histórica, propriamente dito. É meio esquisito, mas a história se transforma em mais uma personagem, tão complexo quanto quaisquer outros criados e regada de olhares tão críticos quanto os que são jogados para o indivíduo. Quer ver um exemplo bem claro e curtinho? O Soldado Quetange, do Iúri Tynianóv, que coloca como similares a burocracia da União Soviética no regime stalinista e do regime czarista de cem anos antes. O regime czarista deixa de ser o background, para exercer uma função muito vívida dentro da trama. Toda a ironia e o humor da novela passam pelo olhar aprofundado que damos entre as duas épocas.

Essa característica está em obras que permeiam o imaginário da literatura russa. A maior delas, muito provavelmente, é ‘Guerra e Paz’, do velho do saco, opa, do Tolstói. Essa elevação da história para algo além da contextualização do leitor, da formação de uma simples trama, proporciona uma nova maneira de apreciação da leitura em si. A leitura fica, normalmente, muito mais densa e nebulosa. A história tem essa função de nos intrigar e ir desenvolvendo a leitura, reconhecendo como a história age sobre cada personagem e sobre si mesma, como organismo vivo que é, intriga mais ainda. Essa fábrica de fazer intrigas, sempre com os olhos voltados para o passado e elevando a história a um status maior que o comum dentro da literatura, nos obrigam (sim, obrigam) a enxergar pontos cruciais da sociedade russa.

O segundo ponto que eu observo dentro de como os autores russos, de uma maneira geral, se utilizam da história é quando se prendem no presente e pensam no seu legado. Não, não se embole. Mas com uma obra tão vasta e contemporânea, eles são historiadores de seu tempo, deixando registros e mais registros das profundas mudanças na Rússia do século XIX em diante. Não é à toa que ‘Pais e Filhos’, do Turguêniev, nasceu um clássico. São como os rappers de hoje em dia, saca? Dropping dimes and classics errrrrday.

Por isso, já fica o aviso, não desprezem as notas de rodapé dos livros. Apesar de serem muitas, via de regra elas contextualizam e explicam algumas situações primordiais para uma experiência de leitura completa. Lembrem-se que ler é, acima de tudo, um exercício de justaposição com as personagens, com o autor e com a história, portanto fazer vista grossa para os detalhes que formam a obra é abdicar de tentar entender o próximo. E isso é muito grave. Tão grave quanto açaí aguado ou churrasco sem pão de alho.

Entre trazer a história para nós e retratar a história no ato, sem deixar lacunas em branco ou pedaços soltos, os russos foram mestres. A história nos desafia a fazermos diferente, sermos criativos e a evoluir. A literatura russa, além de lembrar isso muito bem, escreveu sua história e o que vemos é uma farta produção literária que vai muito além dos próprios livros. Temos que sair do mundo literário e pesquisar fontes, correr atrás da informação e ler mais um emaranhado de referências. Mas obra boa é assim, transcende o ambiente físico para se materializar num lugar que condiz à grandiosidade dos russos: a história. E é assim que literatura e história se confundem e nos carregam para um novo mundo. Para os russos, estudar história é resistência. Fazer história, também.

Anna Akhmátova – Antologia Poética

Por Caio Lima

Eu estava meio chateado com o mês russo. Não pelo fato de fazê-lo, de forma alguma. Mas eu pesquisei tanta coisa diferente para tentar fazer um apanhado da literatura russa como forma de resistência e, ainda assim, alguns pontos me pareciam meio soltos. Fica um vazio chato pra caramba. Eis que eu, procurando ‘O Uivo’, do Allen Ginsberg, despretensiosamente, me deparo com uma tal de Anna Akhmátova. Essa é daquelas coisas que sempre acontecem comigo, de um livro brotar na minha frente e fisgar toda a minha atenção de forma instantânea. E é por isso que eu não consigo realizar desafios grandes de leitura. É complicado, mas é algo muito feliz. Com a ‘Antologia Poética’ da Anna foi muito mais que feliz. Passou a sensação de vazio. Na verdade, se eu postasse um poesia dela por dia ao longo desse mês, vocês todos teriam a noção perfeita do que é literatura de resistência.

Na Rússia efervescente daqueles tempos, algumas mulheres conseguiram certo destaque, mas sempre ofuscadas por seus pares homens. É como se cada tentativa de produzir uma obra que tivesse a mesma qualidade de um Púchkin, habitasse a sombra do pai da literatura russa como uma assombração. As comparações eram inevitáveis e aí apareciam aqueles dedos apontados acusando falta de originalidade e a infinidade de argumentos que uma sociedade patriarcal usa para destituir o poder de mulheres que ousam exercer qualquer voz num contexto social (percebem alguma semelhança?). Eu ressalto o argumento da “falta de originalidade”, porque veja bem que merda era tentar ser escritora àquela época: qualquer coisa que você escrevesse, homens já teriam feito melhor do que você. Imagina quantas autoras russas não nos são ofertadas justamente porque suas obras foram julgadas como não-originais.

É nesse bosque das ilusões que Anna Akhmátova desenvolve toda a sua obra e se torna um expoente quase que metafísico da literatura russa. E isso, talvez, tenha acontecido porque sua poesia é um reflexo não só de sua forma de pensar, das suas dores e da sua visão de mundo. É bem maior que isso. Na poesia de Anna, habitam suas ações. Ler Anna Akhmátova é estar com Anna Akhmátova. É compartilhar de seu tempo. É exercitar a empatia na sua forma mais básica e verdadeira.

A vida de Anna Akhmátova é uma loucura só. Ela se casou três vezes e se separou três vezes, perdeu o filho preso e morto pelo serviço secreto russo, foi condenada ao exílio, passou fome, não teve onde cair morta, sentiu de forma muito vívida as duas guerras mundiais, sofreu censura da polícia política soviética e por isso, além de ter boa parte das suas obras impedidas de serem publicadas durante um bom tempo, teve que regular na caneta para continuar escrevendo, já que ela nunca aceitou fazer a arte partidária que o governo soviético impôs à época e só lá no fim da vida, após o abrandamento da censura, suas obras foram relançadas e ela pôde desfrutar de todo o frenesi que sua literatura foi capaz de causar à Rússia. Ufa!

Diante disso tudo, Anna Akhmátova teve a oportunidade de sair da Rússia e ir para um exílio em algum país mais quente, mais liberal e menos perdido na maneira própria e quase única de criar inimigos. Mas ela decidiu ficar e isso tem um efeito no imaginário do povo muito grande. Releia o parágrafo acima e me responda uma coisinha: se fosse você que tivesse sofrido isso tudo, você ainda pensaria que deve alguma coisa ao teu povo, ou teu país, de uma maneira geral? Tem que ter muita resiliência, paciência, proficiência, malemolência, criatividade para sair da crise e todos os outros tópicos enumerados por palestrantes de auto ajuda e livros de como se dar bem nos negócios.

Eu estou aqui divagando pela vida da Anna Akhmátova não é por falta de assunto, é que essa é a poesia dela mesmo. Ela escreve sobre a vida, sobre a realidade dela, sobre o que viu, o que sentiu e sobre a Rússia. Sem precisar apelar para o substrato do subconsciente em subatividade. É seco, reto e à flor da pele. Isso não quer dizer que ela não abuse da técnica. Mas, na real, quem quer saber de técnica quando essa mulher tá falando? É leitura e sentimento. É sentimento na caneta. É literatura como forma de propagar mensagem. É a mensagem que se transforma em resistência.

Alguns preferem chama-la de Púchkin mulher, outros de mãe da literatura russa. Mas acho que é muito cabível que aprendamos, de uma vez por todas, que ela é Anna Akhmátova. Sem comparativos e superlativos. Sua poesia não necessita disso. E, pensando um bocado, nem eu, nem você, nem ninguém. Você transgride, eleva o patamar, abre espaço para milhões de vozes e dá conforto e carinho para todo um povo através da sua poesia, que nada mais é do que um retrato das próprias ações. O mais importante é que ela me faz acreditar que eu posso fazer isso também e olha eu aqui, todo bobo, tentando explicar para vocês o porquê do mês russo não parecer vazio.

 

Literatura e diversão

Por Caio Lima

Você já parou pra pensar no quanto somos sistemáticos sobre como tratamos a cultura e, consequentemente, as nossas formas de lazer, na busca pela diversão e sensações extremamente prazerosas? Pois é. Pensa aí. É meio decepcionante quando percebemos que tudo é meio padronizado, robótico. Que mudamos pouco e essas mudanças são bem lineares via de regra, nos deixando numa zona de conforto até com algo que muito provavelmente nos proporcionaria felicidade. É como se o novo fosse algo clandestino, ilegal e, acima de tudo, existe aquela máxima de “não troque o certo pelo duvidoso”. Se você sabe que A é bom, pra que procurar pelo B?

Tratar somente da literatura russa ao longo desse mês tem uma função que vai muito além do lado professoral, até porque não posso passar nada além das minhas impressões sobre o que leio e contextualiza-las à história. Os livros foram escolhidos pela facilidade de acesso, preço, ideias claras e linguagem simples. À exceção de ‘O Idiota’, do Dostoiévski, todos seguem essa linha. Faço isso, porque gostaria que tivessem feito isso por mim quando passei a me interessar por literaturas além dos best-sellers. Muito provavelmente não teria quebrado tanto a cabeça ao tentar entender outras escolas literárias e movimentos literários por intermédio das obras mais complicadas possíveis. E minha implicância com as castas da erudição literária seria potencialmente menor. HAHAHA.

Podemos utilizar a literatura russa como referência para tentar discutir essa abordagem ao novo sob diversos aspectos. O fato é que existe uma restrição cultural. Essa segue os mesmos moldes de uma restrição física, o que é potencialmente devastador quando tornamos a cultura, o lazer, o prazer e o entretenimento como algo que possa ser pura e simplesmente adquirido e modificado como uma mercadoria de determinado valor e que não agrega em outros aspectos, senão o de um produto monumental para o acesso e deleite de poucos. Olhando de fora para dentro, a literatura russa é realmente assustadora como produto, não? Esse terror todo se dá por muitos e muitos e muitos motivos e a discussão é bem longa, permeada de pontos polêmicos e que farão parte de outro texto do Rede de Intrigas, porque não somos ‘Casos de Família’, mas adoramos uma polêmica.

E pra quem já está dentro da literatura russa? Provavelmente já começou com algumas coisas bem pesadas, profundas e de pirar o cabeção. É horrível isso. Normalmente pegamos as dicas com blogueiros (paga nóis, pode ser em livros), professores e parentes. E é aquela coisa, né, a pessoa fala que amou, fala que é uma uva, fala que é um tesouro literário, mas não fala sobre o processo de leitura, que é o mais importante. Daí a gente chega todo faceiro para ler ‘Os Irmãos Karamázov’ logo de primeira, sem mimimi, achando que é apenas uma história de três irmãos na Rússia e, de repente, estamos pensando em cada detalhe, em cada aspecto mínimo que nosso amigo boladão Dostoiévski aborda. Perdemos o sono, ficamos de ressaca e BANG!, ouvimos Anitta.

A literatura russa é um exercício de constante reflexão. Mas a diferença se dá de dentro para fora. Não temos mais o olhar seguro e quentinho de analisarmos o comportamento humano dentro dos mais diversos meios, mesmo que fantásticos, do lado de fora. Há uma inserção profunda do eu-autor, capaz de levar à imersão profunda do eu-leitor, então somos colocados frente à frente a um espelho da nossa própria alma e isso, naturalmente, causa repulsa. Não adianta dizer que não, porque um dos arquétipos formadores da visão de mundo ocidental é, sim, o embate entre o indivíduo ideal e a sociedade, levando sempre a noção de perfeição como um contexto unilateral.

Até progredirmos com a leitura e com a aceitação dos valores que reconhecemos como sendo nossos, talvez inatos, existe um profundo processo de estranheza, de choro embargado e perplexidade seguida de não aceitação. E é aí que não podemos parar de ler os russos. As dificuldades de estilo e de técnica são muito poucas frente ao que acabamos de descobrir sobre nós mesmos a cada página virada. O deleite de nos descobrirmos, de refletirmos sobre nós mesmos ao invés de apontar para o próximo e a eterna questão do quanto a sociedade interfere no indivíduo e o tanto de indivíduo que há na sociedade. Tudo isso se embaraça no ser, no estar e nas atitudes que tomamos, construindo nossa personalidade e enraizando nosso pequeno legado nesse mundo. Questionar nossos pilares é sentir prazer em olhar para dentro, apesar da inquietude. É não ter medo do que é novo e olhar como oportunidade, recomeço e diversão cada mudança. É tratar o lazer como algo maior que o preço tabelado. É ser revolução e ser resistência todo dia. É literatura. Russa, principalmente.