Jorge Amado – A morte e a morte de quincas berro dágua

Por Caio Lima

Há quem diga que a morte é o fim de tudo. Há quem diga que é o (re)começo, como um portal pelo qual passamos para ressurgirmos numa nova vida, com novas chances e novo tudo. Se falarmos de morte simplesmente como mudança, quantas vezes somos capazes de morrer nessa vida? Não, a resposta não é uma só. Nós já morremos algumas vezes e morreremos outras vezes mais. Por exemplo: o Caio que tinha vergonha de publicar o que escrevia, morreu, para surgir esse Caio aqui, que escreve e torna seus textos cada vez mais públicos. E é nessa sequência de mudanças e passagens que a vida molda nosso caminho. Para além desse período que passamos aqui, respirando e sentindo o coração bater mais forte quando percebemos que fizemos cagada, eu não sei. Isso é uma visão muito particular da crença alheia e, admito, não sou nada religioso para optar em tais questões. Mas pensem um pouco, a nossa expectativa de vida é de 80 anos mais ou menos, certo? Então dá para falar de bastante coisa que acontece nessa vida aqui.

Jorge Amado escreveu sobre ‘a morte e a morte de Quincas berro dágua’. Duas mortes, isso mesmo. Joaquim era funcionário público de carreira, respeitado e pai de família, o famigerado “homem de bem” que algumas pessoas amam defender e tentam, sem muito sucesso, ser. Quando sua filha, Vanda, decide casar com Leonardo, uma versão 2.0 de Joaquim, Joaquim sai de casa e se torna Quincas, sofrendo sua primeira morte. Lenda do subúrbio baiano, Quincas é o completo oposto de Joaquim, boêmio, despreocupado e inconsequente, até que morre de novo. E a história se passa toda em torno da memória e do velório de Joaquim e Quincas, essas duas personalidades tão distintas.

Antes de falar sobre a morte em si, vocês já puderam perceber no parágrafo acima que Quincas viveu os dois lados da moeda. Ao longo dessa novela, isso acontece por diversas vezes com Quincas. Ele sempre, mesmo depois de morto, está à mercê do duplo, ou seja, dos dois extremos da balança, e não há dúvida de que ele sempre opta pelo lado profano, sujo, da coisa. Isso é mais do que perceptível.

Novelas desse tipo, muito bem configuradas e polarizadas de maneira ideológica, podem funcionar como um grande laboratório para o autor e ‘a morte e a morte de Quincas berro d’água’ não foi diferente para Jorge Amado. Dividindo a história de Quincas em dois extremos, Jorge Amado tipifica o sentido de certo e errado na sua visão altamente subversiva para a época, o que, naturalmente, coloca a cena do underground baiano num patamar acima em questões de solidariedade, ética, compaixão e amizade. Fica muito evidente que a mistura calorosa, urbana e intensa dos subúrbios de Salvador moldam uma imagem de uma aceitação, naquele meio caótico, muito despropositada e natural. A ausência de julgamentos e estereótipos, apontadas por Jorge Amado como principal característica desse tórrido cenário, tem um poder quase místico de reacender as pessoas para a vida, sem estigmas e padrões socialmente impostos. Você é o que você e isso basta. Agora chega mais e desce uma branquinha, sacou?

Jorge Amado nem esperava uma ditadura plena, como foi a civil-militar em 1964, quando escreveu essa novela, mas já residia no imaginário tão instável do brasileiro “médio” essa ordem instaurada dos bons costumes reacionários, mais fortes do que nunca, que privavam a manifestação livre de outros estilos de vida. Estilos esses misturados e representados, de certa maneira, pelos becos baianos onde Quincas fez sua fama. Mais do que a crítica às pessoas de bem, essa ode a boemia funciona como uma grande ironia para inflamar o pensamento progressista do qual ele compartilhava.

Mas não para por aí, não. Ao estabelecer essa relação de duplo, fica bastante evidente que o autor sente, nesse laboratório em formato de novela, que há uma expatriação das formas pós-modernas de se convencionar os movimentos diversos que surgiram após a segunda guerra mundial e a polarização de vertentes ideológicas antagônicas, tomando por uma ingerência essa diversidade ideológica. Torna-se urgente a retomada de um pensamento passado, mais básico e razoável, onde há o certo e o errado apenas. Sabemos muito bem o progressismo defendido e praticado por Jorge Amado, por isso não é de se espantar que os becos sujos da Bahia sejam lugar de muito mais conforto, verdade e simpatia que a ordenação familiar e os dogmas sociais praticados por uma família comum.

Eu tenho falado muito sobre o início do período pós-moderno, se não me engano essa é a terceira resenha seguida em que toco no assunto, mas não é despropositado. As movimentações do mundo pós-moderno foram extremamente benéficas no sentido de ampliar e aprofundar causas e objetos de estudos dos quais realmente precisávamos ter mais conhecimento de causa. Porém, o excesso de informação e a nossa incapacidade para captar e dar uma rápida resposta ao que está se desenrolando nos impede de interagir, assim, logicamente, nos separando. Mas essa separação não acontece só no físico, acontece nas propostas ideológicas e isso quebra, principalmente, os movimentos de minorias. Reparem em quantos movimentos ideológicos são divididos os grupos hoje em dia. Não dá nem para contar direito. Essa proposição de Jorge Amado, olhando de forma engraçada, mas afetuosa para os que vivem completamente à margem, tem um poder representativo muito grande na demonstração de que, no fim, as liberdades solicitadas por cada um dos grupos sociais que afloraram e adquiriram independência ideológica, lutando num cada um por si, possuem as mesmas bases. Repare bem nas relações que Quincas estabelece nas ruas baianas, é quase um “classes trabalhadores, uni-vos” o que está, para mim, implicitamente proposto, mas com um sentido bem mais profundo que a luta de classes original.

É meio óbvio que hoje o caldo entornou quase que completamente. O que nos resta é contemplar que todo grande escritor é, antes de qualquer coisa, um visionário. E essa “ode ao sujo” enxerga no periférico o senso de união e a saída de uma sociedade completamente excludente e preconceituosa. Preconceito esse demonstrado com muita ironia e força pela família de Joaquim, quando preferiu dá-lo como morto ao invés de dizerem que ele os abandonou. Afinal, como escapar da infâmia que geraria admitir que o patriarca da família foi ganhar o mundo e cair na esbórnia? Nunca! É preferível mata-lo do que admitir a ausência de afeto e carinho numa instituição familiar normal e extremamente dogmática.

Outra linha de pensamento comum e que nos passa despercebido é o desconforto para com o pobre. Vejam bem, Joaquim era um funcionário público de carreira exemplar, mas não era rico. Tinha vida tranquila, mas não havia luxo. Começou de baixo e, se parar para pensar, seu avanço não foi tanto. Parece que sim porque vemos a vida de Joaquim se desenvolver ante uma sociedade completamente desigual. Mas não parece haver indício, ali, de uma família que passasse férias na Europa, por exemplo. Sua realidade era muito mais comum e próxima desse submundo do que sua família acreditava. É uma reflexão importante para que tenhamos a perfeita noção de que a depreciação do olhar da classe trabalhadora que Jorge Amado ambicionava explorar não era uma relação de viés econômico pura e simplesmente, mas sim comportamental. As pessoas que acreditam serem prósperas num sistema reacionário não possuem um padrão de vida esplendoroso, mas seguem toda a doutrina social que as fazem pensar que o progresso é, também, compartilhado por elas. O processo para que haja o velório de Quincas é expositor dessa questão sem muitas dificuldades. As alegorias impostas ali pelo autor dão a perfeita noção de que há uma proximidade muito grande entre a origem dos personagens, mas que há um muro construído através da manifestação desses hábitos, separando-os.

Nesse sentido de demonstrar a afeição de Quincas pelo underground e seus amigos de rua, Jorge Amado acaba unindo o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Através de suas reações durante o velório, encaramos diretamente a opinião de Quincas sobre a própria vida. O que é fantástico, porque nos dá margem para discutir uma coisa muito interessante: o duplo da morte.

Vocês, com certeza, já ouviram o ditado “morreu e virou santo”, certo? E isso acontece para todo mundo, sem distinção. Pois é, amigos, a morte é o ritual ocidental mais ambíguo que existe e as mortes de Joaquim e Quincas provam isso. A morte serve como um instrumento para mostrar o quão frágeis somos, mas também reside nela o eterno, ou a continuidade da propagação de uma faceta a ser lembrada e espalhada indiscriminadamente. Joaquim, logo que dado como morto pela família, estrategicamente, tratou de ser o homem exemplar, chefe de família e funcionário padrão. Não havia uma mácula na sua vida inteira e sua morte foi, com certeza, algo muito muito triste, já que um homem santo, exemplo de vida, havia partido. Em contrapartida, Quincas foi o maior boêmio de toda a Bahia. Lenda do subúrbio, amigo para todas as horas, personalidade generosa, caridosa e indefectível. Cachaceiro de primeira, galã dos becos sujos e patriarca da malandragem. Percebem como a morte pode ser manipulada para tornar o indivíduo eterno? Joaquim e Quincas, apesar de serem a mesma pessoa, possuíam personalidades completamente diferentes. Mais diferentes ainda após se apossarem de suas memórias para recriarem sua imagem e distribuí-la por aí, como a grande figura que, pelo que conta o livro, ele inevitavelmente foi.

Mas o que torna mais interessante a questão da imagem que a morte é capaz de proporcionar da pessoa e de seu sentido duplo, é que, nesse caso, o duplo é comum a qualquer outro duplo colocado por Jorge Amado. É uma maneira de falar da inevitabilidade da morte e de que algumas muitas coisas são de ordem natural e comum à todos nós, reles mortais cheios de diferenças comportamentais e ideológicas. Assim voltamos a questão das diferenças dogmáticas, das separações pós-modernas e do quanto isso não vale minimamente à pena se sua luta segue solitária e ineficaz ao cativar outras pessoas.

Por fim, essa foi a minha primeira experiência com Jorge Amado. Prazeroso e irônico, o cara é sensação do baile da literatura nacional com certeza. Não são todos que tratam assuntos tão delicados como a morte com tanta leveza e desprendimento. Muito menos os que são capazes de fazer críticas sociais tão ferrenhas dentro de uma obra que, com letras capitulares, alcança 110 páginas mais ou menos. Que loucura, vocês devem estar pensando, uma resenha gigante dessas para uma novela tão curtinha. Admito a empolgação, mas ora, vejam só vocês se esse não é o duplo do grande escritor: não é necessário escrever muito para fazer com que nós, leitores, consigamos perceber a profundidade das ideias. Ou nem foi tão profundo assim, mas esse é o duplo da empolgação do leitor: achar coisas que nem estão escritas. E são duplos e duplos e duplos que se sucedem. Nada simples, mas não é tão desarvorado assim, vai.

Ronaldo Correia de Brito – Livro dos Homens

Por Caio Lima

Se eu pudesse mudar alguma coisa na educação virtual dos blogs/vlogs de literatura, era para que não resenhassem livros de contos classificando os contos. Sou a favor de resenhas mais técnicas, não consigo conceber essa ideia de classificar os melhores e os piores ou só falar dos melhores. Todos os contos têm a sua importância para a sociedade e precisam ser demonstrados sem partidarismo. Não dá para escolher um conto e defende-lo assim. Chega de doutrinação literária! Resenhas de livros de contos sem partido já!

Ronaldo Correia de Brito - Livro dos HomensO ‘Livro dos Homens’, escrito pelo Ronaldo Correa de Brito, é a bola da vez. O que mais me chamou para esse ‘Livro dos Homens’ é o simples fato de todos os contos serem ambientados no sertão nordestino. Os contos possuem um ponto no espaço em comum. Involuntariamente eu acabei montando um cenário bem específico, apesar dos contos não serem interligados. Essa identificação do espaço é muito importante, porque a geografia, e consequentemente os costumes em toda sua abrangência, é o que rege cada conto de ponta a ponta. Essa preocupação com o espaço é o que permeia grande parte da obra do Reinaldo, inclusive. E o livro pede essa ambientação rápida.

Contos curtos, incisivos, sem pompa e voluptuosidade e que dão ares de ensaios ou estudos antropológicos (Levi-Strauss manda um salve). Dar vida a um ambiente árido, sofrido e incompreendido por natureza, principalmente por recortes do Brasil que não tentam compreender esse atraso por já serem regiões civilizadas, industriais, progressistas e centros culturais do país. É um olhar atento a costumes de outro recorte da sociedade que ainda não se perderam. Talvez dê pra compreender algumas coisas descritas ali através da novela Velho Chico? Talvez, beeeem talvezado (sim, eu parei para assistir a novela).

Em tons trágicos, com enredos cruéis e pesados, cada conto é desenvolvido como um manifesto de uma cultura muito brasileira fincada numa das nossas raízes sociais. Raiz essa que não deixou de existir. Apesar de alguns avanços, ainda reside essa esfera de um faroeste abrasileirado com chapéu de couro, sandália de dedo e de peixeira na cinta. Os sobreviventes de uma era de coronéis que perpetuam esse mundo retrógrado e sem as pílulas diplomáticas de um bom jornal televisivo.

Além da geografia e a parte cultural durante cada conto do livro, Reinaldo faz uma coisa muito difícil: manter um nível de excelência. O último conto, ‘Livro dos Homens’, é o melhor do livro, mas todos os outros não ficam muito atrás, não. Estamos falando de muita qualidade aqui. Recriar uma região através de palavras é algo extremamente difícil.

A junção do espaço, dos costumes e da excelência literária, fez com que eu devorasse um conto atrás do outro. Normalmente, o recomendável é ler um conto por dia, por semana, sei lá. Mas aqui você não tem tempo para ruminar cada conto, é instintivo que você emende um conto no outro e só pare por motivos de força maior. Mas, na boa, vale uma pausa no trabalho para ler um continho, aquela fugidinha marota no meio do expediente, atrasar trabalho da faculdade, esquecer de buscar o filho na escola e essas coisas que não valem, nem de longe, o prazer de um conto muito bem escrito. Brincadeira. Ou não.

O ‘Livro dos Homens’ era um desejo literário antigo meu e tem sempre aquele papo de que gerar expectativas é ruim e aquela coisa de página de Facebook que gosta de dar pitaco na vida dos outros. Esquece isso! Pode botar expectativa sim! A raça humana ainda é capaz de corresponder toda a fé que eu tenho nela! Obrigado, humanidade! Obrigado, Reinaldo! Pai, mãe, amo vocês! Esse mês a empresa me paga em dia! Um dia esse blog faz sucesso!

Patativa Moog – No Fim das Contas Ninguém Sai Vivo

Por Caio Lima

Eu nunca consigo cumprir desafios longos de leitura. Esse ano mesmo me propus a fazer o desafio Livrada! 2016, mas já abortei a missão. Não é má vontade, preguiça, falta de disciplina ou que eu não tenha entrado no espírito da brincadeira. Isso acontece porque a literatura já me salvou tantas e tantas vezes, até de mim mesmo, que eu não ouso deixar passar algum livro que me aparece pela frente e eu me sinta atraído. Dá para perceber pelas minha resenhas que eu trato o livro como algo muito mais espiritual, sempre tentando abordar contextos e mensagens que são o ponto alto da obra. Por vezes eu não chego nem a falar do livro em si. Olha que bizarro! E vocês aqui lendo minhas viagens… Bando de desocupados! Brincadeira! Fiquem aqui, por favor.

Morte é uma coisa recorrente nas nossas vidas. Até porque o sentido de morte é extremamente amplo para ser aplicado somente à perda da vida. Todos os dias matamos algo de forma voluntária ou não. Matamos sonhos de crianças, oportunidades para quem realmente precisa e a esperança dos crushes. A questão é: como você lida com a morte? O que você faz com tudo o que morre e te envolve? Eu fiquei muito triste quando tiraram TV Globinho (lê-se Golpinho) do ar, mas após dois anos de terapia eu consegui assistir a rede Globo (lê-se Golpe) sem quebrar a televisão. Hoje eu só quebro a TV por causa do Jornal Nacional. Vocês não?

Patativa Moog - No Fim das Contas Ninguém Sai VivoNesse lance de tratar sobre a morte, acabei pegando o ‘No Fim das Contas Ninguém Sai Vivo’, do Patativa Moog, lá no sebo Capolavoro Livros. Sim, mais um sebo parceiro e que fortalece o Rede de Intrigas nos projetos mirabolantes que vão surgindo por aí. E esse livro é uma profunda ode à geração beat e a contracultura em geral, lembrando dos anos 90 com maestria. Uma coletânea de referências geniais que vocês precisam conhecer e levar para a vida de vocês. Sério, são muitas referências lindas!

Claro que, pra quem me conhece, contracultura é comigo mesmo, mas não foi esse o maior ponto que eu tenho para destacar no livro. Poderia ser a narrativa, rápida e concisa, e que tem o poder de transportar de forma muito cristalina o período e as ideias ou a ordem nada cronológica e extremamente prazerosa que segue o livro, com viagens aleatórias que vão montando um verdadeiro quebra cabeça. Mas não é esse o ponto. Em livros desse tipo, eu tenho uma pequena teoria que é a seguinte: quanto mais o livro se mostra para o leitor, algo mais profundo existe ali para ser descoberto. Pode parecer viagem minha, talvez até seja, mas esse livro não fugiu à essa teoria.

A forma como Patativa dá vazão as emoções de todas as personagens, ficcionais ou não (isso pouco importa), guarda muito dessa questão de que a morte é gradativa. Todo santo dia vamos matando e morrendo em pequenas doses. É um agregado de abdicações, frustrações, raivas e de naturalidade também. O próprio conceito de livre arbítrio é uma forma de preterir algo que pode não mais aparecer como opção num futuro qualquer. Lembre-se: escolhas matam. Agora posso fazer propaganda para o PROERD.

Da mesma forma que Patativa demonstra por minúcias e pequenas tramas, eu passei a refletir sobre a morte a partir do momento que tive de lidar com a perda. Sim, sabemos muito bem como matar coisas, de uma maneira geral. O problema mora quando matamos algo que não gostaríamos ou quando algo que gostamos morre. É difícil lidar quando o ocorrido é alheio ao que desejamos. A frase emblemática “também morre quem atira” versa bastante sobre isso.

A morte não pode vir a ser uma condição supérflua, abominável, indesejável e muito menos inexorável. A morte é um processo. Uns dizem que é transição, fim de um ciclo, fim da vida, recomeço ou fim do fim. Não interessa. De todas as perdas sofridas, fica a sua forma de lidar com o processo. É aí que mora a reverência aos amigos no livro. As boas lembranças, carinhosas que só e cheias de emoção. Discussões filosóficas cheias de dualidade e da pureza de estarem programando uma revolução na esquina do bairro. Da tristeza seca de narrar as mortes e todas as dificuldades, passadas rápida e diretamente porque ninguém é obrigado a ressuscitar o que já morreu na memória. Ficou o caderno de Ed, de capa azul, com milhares de escritos em migalhas, publicados no final do livro. Lidar com a morte preservando a obra de Ed. Patativa decidiu prosseguir assim. Eu sempre tentei fazer da mesma forma e espero estar conseguindo. Por todas as mortes que Patativa me falou. Por todas as mortes que vivi e que causei. Lido com o melhor que guardo e exponho o melhor das minhas reservas, porque Renato Russo já dizia que no fim das contas ninguém sai vivo.

P.S.: A foto é lá da Capolavoro! Como não amar, né?

Tenda dos Autores – Parte 02|FLIP 2016

Por Caio, Pedro, Patrick, Flor, Yumi, Paula e tô com preguiça. Depois passo a senha e daí tu inclui o nome aqui, já é? Já é.

Qual é a da parada, rapeize? Vamos continuando os trabalhos falando das outras mesas que cobrimos na Tenda dos Autores. Se liga só:

01/07 – Sexta-feira – 10h|mesa 7: Breviário do Brasil

Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

Meu amigo Pedro Mário, que estava com uma flor de pessoa, deu o papo: é um tanto difícil discutir o atual momento da Terra de Vera Cruz em pouco mais de uma hora. Mas esses dois caras são corajosos e botaram a cara no sol pra falar o que eles conseguem concluir lá de fora. Ou seja, NADA. E não é brincadeira, não. Eles falaram várias paradas certas, mas nada que não saibamos. Lógico que esse ponto de vista de fora desenvolve alguns conceitos. Mas deu pra perceber que é muito difícil interpretar o que tá rolando por aqui.

Uma tarefazinha ingrata, cara. Existem muitos Brasis dentro do Brasil. É um país difícil de explicar em anos, imagine numa mesa. A única coisa que fica evidente é a perplexidade quanto ao colapso político que vivemos. Na verdade, os colapsos políticos são recorrentes por diferentes motivos e cada geração tem suas esperanças perdidas. Apesar do olhar racional e da defesa ferrenha pelo término dessa história de “complexo de vira-lata”, é muito evidente que não há resposta de fora para o que acontece por aqui. As indignações parecem ser gritantes demais para que haja espaço para soluções, visto de dentro ou visto de fora.

Um lance bem irado é explicar o conceito da criação de Brasília e é bem real essa parada. Viajei por horas nisso. Os governantes ficam totalmente isolados. Que bizarro isso, cara. Os caras não temem o povo porque nada chega até eles. E a gente aqui batendo panela…

Enfim, é uma mesa que ajudou a observar o que rola por aqui através de um view gringo, mas não foram novidades. Foram pontos de vista mais aprofundados e sob uma ótica não usual, o que é bom também. Tá valendo.

01/07 – Sexta-feira – 15h|mesa 9: O show do eu

Christian Dunker e Paula Sibilia

Ousadia e alegria. É a espetacularização do cotidiano. A necessidade de se autopromover é cada vez mais forte e explorar os limites disso é muito importante. O livro da Paula dá o nome à mesa. Ela, inclusive, lança os tópicos da mesa mais que a mediadora. Já disse, ousadia e alegria.

Mas o papo é bem sério agora. Qual o poder adquirido através das redes sociais e de toda essa onda digital que deixa confortável e natural essa necessidade de expor o privado? Afinal, quais são os novos limites do público e do privado? Com a tecnologia os conceitos se misturam, até.

E a validade dos argumentos sobre esse tipo de doença tecnológica interferem até no modelo de escola que temos, cara. É agressivo estar nos moldes atuais da escola. As ocupações são um retrato disso.

O deslocamento do eixo que constrói o que nós somos (ficou poético isso, cara) sai de valores interiores para valores exteriores sem qualquer tipo de filtro, o indivíduo passa a ficar muito vulnerável porque perde a subjetividade. Então o vazio criado gera uma série de novos problemas. Os males do novo século. Daí você faz assim: senta, absorve, chora, reflete, chora, pensa na vida, chora, olha no espelho, chora e daí bate palma.

01/07 – Sexta-feira – 17h15|mesa 10: Encontro com Karl Ove Knausgard

Então, o cara chega aqui no Brasa cheio de fama, com uma das obras mais aclamadas dos últimos anos e geral querendo ouvir o que o caboclo tem pra falar. Esse lance da FLIP de “Encontro com” foi uma jogada de risco, mas que deu certo. A mesa do cara foi um sucesso. Eu fiquei muito na pilha de ler a série do cara ali na hora.

A história dele com o pai, o que deu assunto para que escrevesse a série “Minha Luta”, é uma parada bem cabulosa. Uma juventude reprimida em todos os sentidos. Família religiosa e tal. Pra ter uma ideia, o amigo explana que tocou uma só aos dezenove anos. É irmão, as coisas não são fáceis na família tradicional norueguesa.

Mas duas paradas me incomodaram. A primeira é que o cara, para compensar toda a repressão, timidez e sei lá mais o que, tem uns devaneios meio megalomaníacos, saca? Meio que o Exodia (entendedores entenderão) dentro daquele mundo que ele enxerga (e vive). Pode ser impressão, mas isso cortou essa vibe bacana de aproximação entre autor e leitor, convidado e público, que eu tanto falei por aí.

Outra parada foi a Cia. das Letras que avacalhou com os autógrafos. Eu não faço questão de assinatura de ninguém, mas vi muita gente bolada porque só receberam uma rubrica e nem contato com o autor tiveram. Um aperto de mão não mata ninguém, po. Tudo bem que o cara deve ter n compromissos, mas e a galera pega fila, paga caro no livro e cria expectativa por um rabisco do cacique da Noruega? Não concordo muito com essa parada não, na boa.

01/07 – Sexta-feira – 21h30|mesa 12: Sexografias

Gabriele Wiener e Juliana Frank

Manja quando eu falei dos mediadores que estragam tudo? Toma outra dose aí. O cara deu umas trezentas bolas fora. A pior delas foi insinuar que a Gabriela Wiener é pervertida por praticar o poliamor. Faltou cara pra ficar vermelha. Vergonha alheia total.

A leitura intercalada dos trechos dos livros das duas convidadas foi bem fraca. As duas atrizes se confundiram, erraram no tom e deixaram as coisas bem sem sal. Prelúdio de um desastre.

Em se tratando da mesa, depois do ano passado a expectativa estava como? Lá no alto. Geral saindo da Tenda dos Autores direto pra pousada e tal. Mas aí convidaram a Juliana Frank, que escreve livros eróticos e é bem descolada. A Juliana roubou a cena desde o primeiro momento pelo simples fato de aparentar viver num mundo anos luz à frente do nosso. Vida avançada total. A mina a cada pergunta viajava para um mundo totalmente dela. O problema é que ninguém tinha acesso. O pior é que ela começava bem as respostas, criava aquela expectativa na galera. Mas daí o caldo entornava e, ou a gente ficava puto, ou ria. Eu, particularmente, me diverti demais. Quero muito usar o que ela usa ou aprender a elevar meu espírito dessa maneira. Meta da vida é ler os livros dessa mulher, na moral.

A Gabriela ficou intimidada, mas depois mostrou a que veio. Pena que isso rolou faltando cinco minutos para acabar a mesa. Mas deu pra sacar qual é a dela e fiquei muito interessado no seu trabalho.

Era uma mesa que tinha tudo para ser um sucesso absoluto, mas causou vergonha alheia por vários motivos. FLIP, qual o seu problema com as mesas que deveriam ser polêmicas?

Ô Yumi, ô Paula, o que é o brechó?

02/07 – Sábado – 10h|mesa 13: Encontro com Leonardo Fróes

Sempre que perguntarem se esse tipo de mesa “Encontro com” deu certo, usem essa mesa com o Fróes. Que cara bacana. Na boa. Vontade de chama-lo para tomar um café e ficar ali papeando com o cara, só ouvindo as experiências dele. Tranquilão no baile.

O cara é o homem natureza e baseou sua poesia nas experiências transcendentais de sua jornada que já rodou o mundo inteiro. Numa escalada ou na horta de casa, tudo inspira Fróes. A natureza lhe é íntima e compõe cada cenário da sua poesia.

É incrível as relações que ele faz entre a natureza e a política, até. O cara é de uma sabedoria absurda. A simplicidade no modo de ver a vida. Manja quando tu olha pra pessoa e vê uma pessoa realizada? Isso dá maior satisfação, não dá? Então, esse é o poeta Leonardo Fróes.

Cara, pare e ouça. Vai lá. O cara é demais e participar disso foi mágico!

02/07 – Sábado – 12h|mesa14: De Clarice a Ana C.

Benjamin Moser e Heloísa Buarque de Hollanda

“Se Heloísa descobriu Ana C., Benjamin redescobriu Clarice”. Essa frase resume a mesa, né? Tá bom, posso ir embora, tchau. Sacanagem. A parada é que traçando um perfil dessas duas escritoras, há uma questão interessante e eu acho que seja o motivo de terem elaborado essa mesa. Ambas, Clarice e Ana C., foram consumidas pela literatura que produziram. É uma obsessão que só cresce a partir do momento que você produz mais. Clarice tem uma vasta obra e Ana C. tem um legado curto, mas muito imponente. Essa obsessão das duas pode ser percebida, bem como os efeitos dessa compulsão pela literatura que produziram. Isso abre o prisma de significados que toma uma das frases preferidas de Ana C.: “o poeta é um fingidor”.

Questões religiosas, de gerações e da própria vida, vão afastando as duas, mas a obsessão pela literatura as une com uma força brutal. O envolvimento passado para o leitor ao lê-las é onde elas se encontram no panteão das gigantes da literatura.

Ressalto o total preparo da mediadora, que conduziu a mesa de forma divina. E os convidados que são duas almas iluminadas e profundamente conhecedoras das duas autoras. Mesa pra não botar defeito.

02/07 – Sábado – 17h15|mesa 16: Encontro com Svetlana Aleksiévitch

O que falar da Veveta? Não é à toa que ela teve que dar quase mil autógrafos, coitada (Cia. das Letras prejudicou a galera de novo com a organização, quase teve treta). Conquistou o coração de geral. Uma recém-premiada com o Nobel de Literatura em Paraty. As expectativas eram estrogonoficamente altas. Aí ela chega naquele jeito manso de ser e deixa todo mundo com a cara no chão ao dar uma aula de humanismo, empatia, história e amor.

Ela veio por conta do Vozes de Tchernóbil, título que a fez ser premiada, mas ela escreveu cinco obras acerca do período que abrange o fim da Segunda Guerra e a queda da URSS. A essa reunião de cinco pontos de vista diferentes, ela chama de Vozes da Utopia. Na moral, uma mulher que lança uma série sobre esse período e batiza sua série como VOZES DA UTOPIA. Precisa de mais alguma coisa?

Dois volumes já foram lançados pela Cia. das Letras (paga nóis pelo merchan, po) e eu já os devorei (em breve resenhas, mês da FLIP e tal). Os outros devem sair ano que vem. Só façam o seguinte: procurem a mesa no YouTube, assistam, caiam de amores, comprem os livros, leiam freneticamente e consumam tudo que essa mulher produz. Que coisa maravilhosa.

Ela é a verdadeira resistência nesse mundo, cara. Na boa, máximo respeito pela Veveta. As definições de “homem vermelho” e “homem consumo”, ela dissertando sobre liberdade. Aaaaah, vou parar por aqui. Vão caçar a mesa e ganhar uma hora de vida.

02/07 – Sábado – 19h30|mesa 17: O Falcão e a Fênix

Helen Macdonald e Maria Esther Maciel

Eu quero ler F de Falcão, e acho que quero ter um falcão só pra pegar os trejeitos dele e ficar assustando o público quando me convidarem para a FLIP algum dia.

Foi uma mesa surpreendente. Tanto que nem estava na minha programação. Mas a Helen tem um talento para falar em público e seu relacionamento com seu falcão é uma parada muito bonita.

A brazuca tomou chá de Juliana e, numa mistura de nonsense total e academicismo avançado, deu umas escapadas na hora de fazer a curva. Algumas onomatopeias foram irresistíveis e rolou uma aulinha de história bem maneira. Chá de Juliana tem poder.

Mas a mesa, num contexto geral, foi bem bacana. O vinho de 10 conto tava bão também!

02/07 – Sábado – 21h30|mesa 18: O palco é a página

Kate Tempest e Ramon Nunes Mello

A grande surpresa da FLIP para mim e, presumo, para a crítica, foi a britânica Kate Tempest. Eu já ouvi uns trampos dela com rap, mas nem me ligava que ela estava escrevendo. Ainda bem que ela está escrevendo, cara! Escreve muito! Que presença e que palavras. Ela põe muito sentimento em tudo que faz e dá um show.

O Ramon estava ali só esperando a deixa dele e marcou boa presença também. O lance de revelar que é soropositivo foi surpreendente para uma boa galera no telão. Mas é mais uma daquelas aulas que a poesia insiste em dar: o maluco escreve com tanto amor, de forma tão bonita, que esse distanciamento que a frase “eu tenho aids” provoca, virou pó.

Ambos falaram muita coisa sobre a representatividade da arte num contexto de quebrar preconceitos e estigmas sociais. Mas acho que a Kate resumiu bem a função da poesia em essência: “a poesia nunca está completa se não é compartilhada, se ninguém a ouve. O trabalho da poesia só se torna completo quando atinge um receptor”.

A poesia agradece a presença dos dois fechando o glorioso dia de sábado. Foram mais que excelentes ao cumprir o seu papel.

P.S.: Só a Yumi teve grana pra levar o livro da Kate, cobrem resenha dela.

03/07 – Domingo – 10h|mesa 19: Síria mon amour

Abud Said e Patrícia Campos Mello

A Patrícia chegou falando da experiência dela como correspondente de guerra e empolgou. Logo na primeira pergunta ela já fez um link com vários assuntos, como sensacionalismo da imprensa em cima da imagem do menino Aylan Kurdi, o menino refugiado encontrado morto na praia que virou manchete no mundo inteiro, e extremismo religioso. Mandou bem demais. Domingo de manhã, cheio de ressaca, mas estava eu lá cheio de disposição. Pensei comigo assim que ela acabou de falar “sáparada vai ser como, quente”.

Aí o querido mediador, que levou um baile da Juliana (Drunk) Frank, tomou outro baile. O Abud, o cara mais esperto do Facebook (deixa nóis promover a página de graça), só falou o seguinte: “Eu não sou escritor. Uma alemão encontrou meus textos no Facebook, pediu para traduzir e eu fui morar na Alemanha. Agora me convidam para eventos como a FLIP, num hotel cinco estrelas e ontem fiquei três horas na sauna. Então isso é o que importa para mim. O confronto na Síria não tem a ver comigo. Eu, particularmente, não me importo e não vou responder sobre a Síria. Então não me façam perguntas sobre a Síria que eu não vou responder.”.

A mesa acabou! Aguentar uma hora dessa ladainha desse Sírio mequetrefe anulando uma baita jornalista é brincadeira. Todo mundo constrangido. Eu fui embora após ele fazer a comparação entre o profissionalismo alemão e o brasileiro, num discurso cheio de preconceito. Bola fora total. Pior mesa da FLIP de longe.

“Ei, Abud, vai tomar café”, gritava a plateia ensandecida ao desejar que Abud ficasse pobre instantaneamente.

03/07 – Domingo – 12h|mesa 20: Sessão de encerramento: Luvas de pelica

Sérgio Alcides e Vilma Arêas

A mesa mais bonita da FLIP. O Sérgio é crítico literário e estudioso de Ana C., a Vilma foi professora e amiga da mulher. Era para ser uma mesa técnica pra caramba. Mas veja do que excelentes professores são capazes. Ao esmiuçar Ana Cristina Cesar para o público, eles tornaram sua obra cada vez mais humana. A cada camada de Ana C. eles explicavam tecnicamente tudo o que eu senti lendo. Algo absurdo e surpreendente para mim.

E, do nada, Ana Cristina ficou entendível para todos. Sérgio foi muito feliz ao falar das referências perdidas na poesia de Ana C. e em como faz bem não reconhecer todas as referências. Essa é a mutação da poesia dela e o que há de eterno em sua obra. O segredo, a provocação, o íntimo e a aproximação com o receptor da mensagem, independente do sentido dado às palavras.

Vilma foi pela mesma linha e ainda disse mais sobre como Ana Cristina tinha esse poder de provocar e de fingir, na sua escrita, diversos estados da alma. Essa capacidade de mover palavras e deixar sensações implícitas é algo extremamente difícil e literário.

Enfim, vale a pena ver de novo. Vejam! É de aplaudir de pé todas as vezes.

E quando Vilma lê o poema de Cacaso para Ana Cristina, escrito após seu suicídio. Aquilo é a magia da literatura. Aquilo é amor. Sintetizou o que foi a mesa e encerrou a FLIP 2016 com chave de ouro. Ver pessoas que não faziam ideia de quem era Ana Cristina César antes da FLIP saírem chorando copiosamente é a prova viva de que o legado da autora é eterno. Que espetáculo! Que coisa linda!

É isso, meu povo! Essa foi a cobertura redondinha que o Rede de Intrigas fez da Tenda dos Autores. Nem mencionamos a Mesa 21: Livro de cabeceira, porque ficar falando de escritor lendo enche o saco. Muito chato isso.

Aguardem que agora vem as outras mesas, o que achamos nas ruas e uma colab com a Yumi e a Paula, queridas demais, do blog Me formo em 2080. Chora, que esse é só o começo!

Tenda dos Autores – Parte 01|FLIP 2016

Por Caio Lima e Pedro Mário

Que mané diário o quê! A parada é a seguinte: dividi a cobertura pelas áreas diferentes que fomos. Assim consigo captar melhor o clima de cada lugar e não tenho que ficar me repetindo todo a cada texto que lanço.

Então, meus queridos companheiros, a Tenda dos Autores é onde acontecem as mesas principais, com os temas fechadinhos e aquele glamour de evento literário. Tem café-bom-e-caro com pão-de-queijo-ruim-e-caro (complicado isso aí, organização), o estande dos autógrafos e, claro, a livraria. O telão tá bem melhor, o sistema de som não judia mais dos ouvidos da gente e tiraram aquelas televisões onde as pessoas se aglomeravam pra assistir e impediam a circulação da galera. Agora lá estava uma bela exposição de fotos da Ana Cristina César e ficou um corredor bem bonito, convidativo.

Um ponto positivo foi que realmente as mesas foram mais pé no chão, chamando a galera, com os temas elaborados justamente para isso, igual eu havia falado lá na prévia. Isso foi bacana pra caramba e trouxe o público pra perto. Fez com que a gente se sentisse abraçado, protegido e quente. Brincadeira. Mas isso reduz o distanciamento e o sentimento de onipotência que é criado por quem obtém a cultura e quem está buscando obtê-la.

Outro ponto foi que a presença feminina foi muito mais sentida. Ainda foram chamados mais homens que mulheres, mas todo o tempo o assunto era a mulher, encabeçadas pela Ana C., Clarice e a Svetlana (Veveta para os íntimos, Lana para os chegados). Muita força feminina mesmo!

A questão de lidar com poesia marginal e ter essa força feminina atuante durante toda a festa amplificou a sensação de subjetividade que tem os sentimentos e em como isso se desenvolve no contato de pessoa para pessoa. E porque falar nessa filosofia toda? Por causa dos autores independentes, de rua, que vieram em profusão. Muita gente nas ruas divulgando seus trabalhos. Poesia, prosa, cordel, música, pintura, artesanato e até meus concorrentes com o manuseio do cobre para artesanato. As ruas tiveram voz, finalmente. Manifestações artísticas espontâneas em todas as esquinas. A rua voltou a ser palco de uma festa em Paraty. Isso me soa irônico, já que toda festa em Paraty é na rua. Mas é isso mesmo.

Um passo importante foi a abertura para editoras menores entrarem no game do mercado editorial de grandes festivais literários. É óbvio que as grandes oligarquias editoriais ainda dão as cartas e mandam na cena, mas já vi uns livros hipsters tendo seu destaque lá na livraria, sendo referências de algumas mesas. Isso é um avanço. Espero que isso seja intensificado.

Outra parada muito ligada à poesia marginal é a manifestação política. A arte marginal é ligada à política. Não tentem separar isso. E foi muito importante ver isso ressoar nas ruas. Rolaram manifestações, rodas de conversa, teatro, música e os próprios autores deram suas cartas na mesa principal. Infelizmente quem deu voz a isso não foi prestigiado com lugares de destaque na programação da FLIP, mas rolou. É importante que role sempre. Literatura é arte e arte é liberdade de expressão.

No entanto, as comunidades negra e indígena, e a própria cidade de Paraty, não foram representadas. Ficou um vazio ali que ninguém soube explicar. Vai rolar texto sobre isso aqui e outros problemas que notei na organização. Mas fica o aviso: é melhor essa organização da FLIP se mover já para a próxima edição. Errou feio, errou rude demais.

Outro lance que é bem rude é o preço dos livros. Será que não rola um acordo de desconto progressivo pra galera? Tudo bem que esse ano a livraria estava o fervo e tal, mas livros ainda são caros e consumir os autores que conhecemos ali na FLIP se torna algo inviável. Fica a sugestão pra Travessa parar de traquinagem e começar a agir direito com a galera desprovida de cash. Aqui não rola cash em racks on racks on racks, homie.

Por falar em “racks on racks on racks”, a poesia marginal trouxe mais música pra FLIP. Incrível como música e literatura se confundem, pelo menos comigo. Com vocês não? Pena. Em cada esquina rolava uma parada diferente e várias misturas de improviso. Que bonito de ver!


Agora vamos ao que interessa. Chega de palhaçada! Direto da Tenda dos Autores (naipe Miguel Fallabella no Vídeo Show naquele quadro “Direto do túnel do tempo”) vão minhas breves impressões:

29/06 – Quarta-feira – 19h|sessão de abertura: Em tecnicolor.

Armando Freitas Filho e Walter Carvalho.

A vida é um filme mal filmado. É uma frase emblemática. Uma mesa visionária sobre poesia e cinema, palavra e imagem. Assim, Godard, por exemplo, poderia muito bem ser colocado como um grande poeta ao invés de cineasta e Armando é um grande cineasta ao invés de poeta, que quando escreve “uma gaivota passa riscada a lápis” deixa tudo extremamente visível. A sinergia entre Armando e Walter é notável e a conversa foi leve, espontânea e solta acerca de como capturar a imagem de um poeta. Todas as homenagens ao Armando são merecidas. O cara é bom demais. Mas aí entra o fator Ana C.. Saca que essa é a mesa de abertura de um evento que essa mulher é a homenageada? Foi muito bonito o Armando tentar recriar a imagem dela através da simplicidade dos seus argumentos, mas ficou aquela sensação de que ele economizou demais nas palavras. Da mesma forma que economizou no prefácio que escreveu para o livro “Poética” (já resenhado aqui). Entendo que deve ser difícil recriar a imagem de alguém que foi tão querida e íntima para um público tão curioso dos porquês, e que o Walter Carvalho entrou nessa barca furada junto ao querer saber como funciona o cotidiano e como se dá o processo criativo do poeta. Mas… não dá pra aliviar. A mesa foi bonita, mas faltou Ana C.!

30/06 – Quinta-feira – 10h|mesa 1: A teus pés

Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia

Uma mesa sutil, querida e forte! As três poetisas deram um show e se mostraram muito à vontade ao falar de suas obras, claro, e principalmente da poesia de Ana C.. É sempre muito importante falar em questões de gênero dentro da própria arte, de desconstrução e de destituir estereótipos. Ana C. fez isso tudo em sua curta obra e as três tiveram a sensibilidade de tratar isso de forma muito espontânea, além de incluir esse elemento na construção de suas próprias obras.

Ana C. também foi transgressora na forma de sua poesia, implodindo padrões para explodir a cabeça dos críticos literários. Seus cortes bruscos e seus versos extremamente claros trazem uma afirmação feminina, uma idealização de um espaço que a mulher deve preencher. A quebra de estereótipos é outro ponto que só pode ser traduzido em confusão para os leitores, entendedores e admiradores da homenageada.

Por fim, Laura Liuzzi resume muito bem o que é a poesia e aonde a poesia quer chegar ao traçar o seguinte paralelo: poesia é documentário, o romance é ficção. Poesia é o íntimo, o real, o ideal. Mesmo quando lançado de forma subjetiva, ele é atraente pelas dimensões da realidade que nos fazem observar. A arte respira na forma dessas três mulheres.

30/06 – Quinta-feira – 15h|mesa 3: Os olhos da rua

Caco Barcellos e Misha Glenny

É meio ridículo que dois caras sabichões do submundo do crime organizado, excelentes escritores e extremamente reconhecidos por tudo isso tenham que passar meia fucking hora explicando o ambiente das grandes cidades, o que acontece quando o Estado não consegue atender parcelas grandes da população e quando o Estado fica a mercê de outra parcela bem menor, mas mais abastada. É mais ridículo ainda pelo fato da mesa durar pouco mais de uma hora. Mas aí entra a questão de que é preciso fazer assim, dessa forma. A parada é que os dois são tão bons, que essa meia hora foi muito boa e os trinta minutos finais foram melhores ainda.

Tratar o jornalismo investigativo como os olhos da rua, esse é o cerne da mesa. A questão é que no Brasil o jornalismo investigativo está minguando. Misha, ao reviver o debate sobre a romantização de um fora da lei com a biografia do Nem, joga na face da imprensa brasileira que existem pilares sociais muito bem fincados que são verdadeiros berços de caras como o Nem da Rocinha. Caco Barcellos havia feito isso com Marcinho VP, em O Abusado. Dissecar esses pilares é função de vários departamentos, mas mostra-los através da lente mais real possível é função do jornalismo.

Essa mudança de ponto de vista denota as graves falhas latentes do jornalismo brasileiro, principalmente do jornalismo investigativo. Denunciando uma imprensa que trabalha partidariamente, selecionando e picotando os fatos conforme seus interesses. Os veículos de comunicação deixaram de ser os olhos das ruas e passaram a servir como escudos de interesses. Essa inanição do jornalismo faz com que setores totalmente alheios à comunicação exerçam esse papel, exemplo do Ministério Público. Lógico, todos com seus interesses e compromissos.

O exemplo do Caco Barcellos com a empregada doméstica que mora na favela e trabalha na casa de uma patroa rica é fenomenal, até pela sua simplicidade. A empregada convive em mundos paralelos, sabe como os dois sistemas funcionam. A patroa só conhece aquele mundo, a informação que chega até ela só diz respeito a aquilo que ela já convive e conhece. É uma cegueira crônica que foi institucionalizada. Uma das melhores mesas da FLIP, de longe. Não me alongarei mais, porque tem o áudio da mesa no YouTube oficial da FLIP, então ouçam lá! Já!

30/06 – Quinta-feira – 21h30|mesa 6: Na pior em Nova York e Edimburgo

Bill Clegg e Irvine Welsh

A grande decepção da FLIP 2016 para mim. Na boa, me expliquem o que foi aquele mediador, por favor? Até agora não saquei qual foi a dele. Que vacilo, na real. O cara me pergunta para o maior ícone literário da contracultura o porquê dele escrever de uma forma coloquial? Metade da mesa foi embora na segunda pergunta, particularmente, ridícula que o amigão lá fez. Depois de ver o Irvine Welsh dar um show lendo um trecho do seu livro e me fazer acreditar que eu ia pirar assistindo essa mesa, um balde de água fria. Que pecado. Mas mal eu sabia que essa não seria a primeira mesa levada de forma tão escrota pelo mediador…


Esse é só o começo de uma série de posts sobre a FLIP que deve durar o mês inteiro. Se liguem que vai rolar muita coisa diferente pra gente, mas cobertura é cobertura e também temos que mostrar o que rolou de convencional e todos os veículos de comunicação já mostraram pra vocês, mas com a ótica da gente. Prepara o lombo, abestado!

Aguarda na Disciplina|FLIP 2016

A FLIP 2016 terminou e agora começa a nossa jornada de posts. Em termos gerais, foi mesmo o que eu havia previsto: mais interação do público, mesas com assuntos encaixados e mais artistas de rua. Claro que o mundo não é perfeito como eu gostaria que fosse e temos aqui algumas dúzias de problemas, mas isso é papo de futuro.

Antes de falar sobre o evento, existe algo muito mais importante que deve ser colocado aqui: com menos de dois meses, o Rede de Intrigas contou com a colaboração de muita gente e a FLIP 2016 foi o extrato disso. Aos que ajudaram com a cobertura do evento, nas ruas, na correria das mesas super distantes, nos imprevistos, nas caronas e quem estava de longe, sempre me atualizando, solicitando e sugerindo. Agradeço aos autores que tiveram a paciência de ouvir, assimilar e contribuir. E agradeço previamente as pessoas que me ajudarão a organizar todo o mundo de materiais e serão meus revisores, analistas e sempre serão companheiros fieis. Repetindo, com menos de dois meses de história o Rede de Intrigas já pode ser considerado um projeto de extremo sucesso ao conseguir envolver por livre e espontânea vontade uma galera comprometida com a arte. A vocês, meus amigos, faltam palavras de agradecimento.

Agora a FLIP. Ah, a FLIP. Foi uma festa diferente, mais humana, mais próxima das pessoas. A opção pela poesia marginal com a cara e a voz de uma mulher encurtou o distanciamento natural que a arte promove entre o receptor e o autor. Foi uma FLIP mais quente e até o clima ajudou.

Claro que alguns erros estruturais aconteceram e serão falados por aqui, porque aqui a gente não tem medo de meter o dedo na ferida. Tem bastante coisa pra falar e todas serão tratadas separadamente e de forma construtiva. Mas a mensagem foi dada e a FLIP, que via um público mais distante ano após ano, conseguiu ver uma aproximação muito clara. Mesmo com uma cidade mais vazia por conta de vários fatores, principalmente a crise, houve um massivo aumento da participação das pessoas. Não houve sensação de vazio em momento algum (a não ser em algumas mesas podres).

Os eventos aconteceram em todas as partes do centro histórico da cidade, então imaginem a correria que foi e o estado dos pés de todos que colaboraram para trazer uma cobertura da forma mais completa possível para vocês. Pois é, mas valeu a pena e o saldo foi extremamente positivo. Não apenas pelo material que coletamos, mas pela satisfação de cada um em estar ali. Valeu o cansaço e agora vem à próxima parte do trabalho, que é passar essa satisfação e o saldo disso tudo para vocês.

Para dar um gostinho do que foi essa FLIP e do que está por vir, rolou cobertura em quinze das vinte mesas da Tenda dos Autores, Casa Folha, Casa Rocco, Casa de Cultura, Casa SESC, lançamento de livro e muita coisa na rua, com os artistas que vieram por conta própria buscar o seu espaço. Passando esse estado letárgico que fica após cinco dias alucinantes, tô vendo que vou ter que escrever pra cacete!

É isso aí, galera. Aguardem na disciplina que tá saindo parada boa com as impressões da FLIP, resenhas exclusivas e muitas novidades do Rede de Intrigas para vocês.

Ana Cristina Cesar – Poética|FLIP 2016

Por Caio Lima

“E penso

a face fraca do poema/ a metade na página

partida

Mas calo a face dura

flor apagada no sonho

Eu penso

A dor visível do poema/ a luz prévia

Dividida

Mas calo a superfície negra

pânico iminente do nada.”

 

Poética não é apenas uma compilação física elaborada com primor estético de toda a obra da renomada poetisa marginal Ana Cristina César, homenageada da FLIP 2016. Pode parecer efeito de um afeto-relâmpago devido a minha recente experiência, mas Ana C. se materializa para além do imaginário a todo o momento, numa espécie de espectro que insiste em aparecer toda vez que o livro é aberto. Esse espectro funciona como uma espécie de atlas do corpo humano, saca? Indica os músculos que devem ser movidos, as artérias que devem se dilatar e os órgãos que reagem à leitura de cada fragmento escrito. E isso tende a mudar dentro dos contextos que ela aplica dentro de um único escrito. É uma leitura intensa, física.

É impossível tentar compreender qualquer coisa da poesia e dos fragmentos de Ana C. sem saber absolutamente nada sobre a vida dela. Armando de Freitas Filho fez um prefácio sucinto, talvez até demais. Seja em respeito à pessoalidade da sua memória, seja a falta de palavras para tentar justificar sua presença ali ou a dificuldade de externar aspectos da revolução que é Ana C.. Não que exista muita coisa dela circulando por aí, mas é bom dar uma pesquisada.

Ana Cristina Cesar - Poética.jpgLendo, eu só consegui chegar à conclusão de que essa mulher é fascinante. Por vezes eu leio duas páginas de uma carta que versava sobre vários nadas. É interessante, mas o cunho pessoal e literário é separado e essas cartas e fragmentos tomam o sentido de piadinha interna que seus amigos soltam numa conversa aleatória e você fica com cara de nádegas. Por vezes no sentido de duas linhas reside o universo, amplo e inexplorado, provocando uma viagem guiada por suas palavras. Daí é advindo todo o encantamento que sua poesia causa, pelo menos em mim.

É uma obra que pede releituras por diferentes momentos da vida. Suas formulações são tão pessoais que o sentido de algumas palavras soltas que eu absorvo agora se confunde com o sentido das minhas próprias formulações. É arte e é conversa ao mesmo tempo.

Existem gritos de Ana C. que ela precisa que ouçam e sejam espalhados. Isso não significa sofrimento. São gritos de quem precisa gritar, quaisquer sejam os motivos. Tampouco há a necessidade de que sejam muitos os ouvintes, desde que esses poucos estejam propostos a ouvir.

Impossível não condicionar cada parágrafo desse texto aos verbos ser e existir no tempo presente. A atemporalidade das suas palavras reside na pureza de intenção ao escrevê-las. Pureza em meio ao ar lúgubre. Sob um céu acinzentado e funesto, seus relatos são doses arrebatadoras de si. Leve em conta que cada pessoa é um universo e há uma bela dimensão dos infinitos caminhos que Ana C. me leva a percorrer para entendê-la. Ela não foge. Ela grita, expõe, escancara. Mas seria eu capaz de entender seu universo?

De livro aberto nas mãos, me pego ainda pensando no seu universo e nos seus gritos. As questões sobre universos pessoais são tão paradoxais, que resolvo me ater ao presente. Agora, com o livro fechado, estão ali gritos do meu universo que Ana C. trata de ouvir e registrar, para que quando eu abra sua Poética novamente, ela me grite de volta.