Raio-X lírico: Marechal

Por Caio Lima

Quanto mais se personaliza uma função, mais complexo se torna enxergar suas influências e em como elas atuam dentro do processo criativo. Uma tentativa de análise lírica sobre o Marechal é complicada, são poucas letras e tentar desenvolver em cima do que está escrito é tentar desvendar a pessoa, o que torna evidente que a construção lírica de Marechal é muito mais alicerçada nas suas experimentações filosóficas e espirituais que em algum motivo poético ou ficcional.

Eu realmente não sei o motivo de inventar esses textos. Mas desafio lançado tem que ser cumprido. Bora!

Ninguém está preparado para o álbum do Marechal. Nem o próprio Marechal está preparado para o álbum do Marechal. Quer dizer, parece que agora está. O disco está anunciado para esse ano e todo mundo está na expectativa. E essa expectativa é tão alta, mas tão alta, que eu me peguei pensando no porquê de o Marechal ser do tamanho que é dentro da cultura hip hop.

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O rap ganhou novos ares com o Quinto Andar, sem dúvidas. O grupo carioca escalou um 4-3-3 com ataque total (brasfoot rules) e fugiu dos padrões, abrindo espaços no rap nacional. Julgado como rap descompromissado à época, o discurso largado, bem-humorado e audacioso renovou o gênero, abriu a oportunidade para que o rap não fosse um casulo, mas sim uma forma de atacar em todos os espaços possíveis e, claro, ocasionou o surgimento de MC’s que viraram lendas.

Se contarmos que o digníssimo motivo desse texto parou de estudar no meio regular de ensino aos treze anos para cuidar da própria educação, a gênese do QA me parece ter o gosto do sonho de infância: um grupo de rap formado por amigos, sem compromisso com o próprio sistema do rap e que fez sucesso dessa forma. Se parasse por aqui, Marechal já teria o nome escrito na história do rap nacional, bem como todos os outros integrantes do QA o tem. Mas não é bem assim, vocês sabem. Até o Piratão, único álbum do coletivo, os objetivos caminhavam em prol do disco. Após, as coisas se articularam de maneira diferente para os integrantes e Marechal foi um que “levou seus talentos para South Beach”.

Antes de começarmos a escrever sobre os rumos do Marechal pós QA, precisamos conversar sobre alguns aspectos da cultura hip hop pouco abordados nos dias de hoje, porém fundamentais para a formação da cultura; e, consequentemente, para a minha visão do que representa o Marechal dentro da nossa cena.

O legado da luta árdua deixado pelas décadas de 50 e 60 é muito maior que a política. Todos os revolucionários, além de se comunicarem, buscaram longe do padrão americano os pilares para a mudança. O que ficou tanto tempo escondido pelo opressor, começou a ganhar espaço e força como práticas cotidianas, como cultura vivida. As diversas representações culturais africanas, árabes e orientais emergiram com força e passaram a fazer parte do imaginário dos guetos americanos.

Vocês já assistiram The Get Down? Vou me utilizar de dois personagens para salientar dois pontos. O primeiro é o Shaolin Fantastic, influenciado diretamente pela cultura pop nipônica, com toda a adoração por artes marciais, samurais, ninjas e códigos de conduta regidos pelo silêncio e sacrifício. A segunda figura a ser destacada é o Dizzee, o artista, rei da pichação. O estilo good vibes, que apela para a elevação do espírito e autoconhecimento, também é uma influência oriental muito forte, mas aí estão misturadas linhas filosóficas diversas e muito confusas para quem está começando a entender como as doutrinas orientais funcionam (tipo o escritor que aqui vos fala). Taoísmo, islamismo, budismo, hinduísmo e outras práticas, mesmo não sendo seguidas à risca, passaram a fazer a cabeça das pessoas. Não são poucos os que passam essa visão no rap, principalmente os dinossauros como KRS-One, Rakim e Mos Def.

Virando o jogo e olhando para a raiz, a difusão das matrizes culturais africanas como práticas comuns começa a fomentar uma ideia muito concentrada que, salientada por toda essa filosofia de libertação e autoconhecimento, vai moldando as bases do movimento hip hop. E para ser livre, evoluir e entender que seu irmão é exatamente igual a você, é necessário saber de onde veio e saber o porquê te descaracterizaram e arrancaram suas raízes! Como puderam ignorar sua árvore genealógica por tantos séculos? Aqui entra o papel do “griot moderno”, o MC. A função original do griot é a de um transmissor de conhecimento. São sábios, perpetuadores da cultura da forma mais ampla possível. Mas nada disso foi escrito, todo o conhecimento era repassado de forma oral.

É exatamente nesse ponto, tendo pincelado rapidamente a função do griot, a revalorização das raízes culturais africanas e a inserção dessas linhas filosóficas orientais dentro do hip hop, que voltamos a falar sobre o Marechal (finalmente, Caio).

Ainda jovem, Marechal foi caçando seu caminho e sofrendo com algumas pedras no sapato durante a caminhada. Além da saída do QA, o que gerou surpresa, teve a treta com o Cabal. A treta proporcionou um momento histórico para o rap nacional, mas olhando bem para o Marechal de hoje dá para perceber que não era bem esse o caminho. Períodos turbulentos assim podem ser considerados como um inferno astral, onde você mobiliza toda a energia que possui para gerar ações negativas. Mesmo tentando acertar, se não há um alinhamento harmônico das energias que você emana e te envolvem, todas as vibrações são traduzidas em más atitudes.

A necessidade de Marechal ter de explicar sua saída do QA ou sua treta com o Cabal ofusca o surgimento da Batalha do Conhecimento, da filosofia “Um só caminho” e da própria VVAR (Vamos Voltar À Realidade). O interesse do público é direcionado para esse mundo do rap game, do business, da “arte profissional” e seus ramos “colunísticos”.

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Desta forma, para se manter relevante há a necessidade de circular pelo ambiente profissional do rap. Lançar sons constantemente, estar nos canais de mídia especializada, ser participativo nas redes sociais e todo o resto do script do rap. Num período de reorganização espiritual e estudo pesado, essa é a última coisa a se esperar de alguém. E uma vez iniciado o processo da busca pelo próprio caminho, não há mais volta. Segue o jogo, mas agora à própria maneira.

Para mim, o hip hop transforma e liberta antes de educar. Mostrar que as pessoas são capazes de criar o próprio espaço e trilhar o próprio caminho, essa é a essência. E é uma guerra tentar levar esse tipo de pensamento para dentro de espaços em que mentes são dominadas de todas as maneiras possíveis e imagináveis. É tanta energia negativa historicamente aplicada nas pessoas, que é difícil o resgate da autoestima. Alguns possuem essa força de vontade inabalável inata, mas a grande maioria precisa de ajuda.

Entender e viver o hip hop fez com que Marechal reagisse ao mundo como ele é. A primeira reação à indústria musical foi a de sair da indústria musical. Todo mundo conhece a frase clássica “lanço uma música por ano e você não fica uma semana sem ouvir”. Eu não parei para contar as músicas do Marechal, mas as poucas músicas têm mais implicações que apenas ser um revoltado com o sistema. É difícil se manter relevante lançando pouquíssimas músicas e fazer com que elas permaneçam atrativas, mantenham a identidade e atravessem o tempo.

E para atrair um público que precisa da cultura hip hop, é necessário sair do público de rap. O MC deve se reinventar a todo momento para atingir mais pessoas. Enxergar uma realidade, traduzir em poucas linhas e prover o resgate do brio e ao mesmo tempo entregar esperança. É uma constante troca, é um constante aprendizado. É necessário se permitir mudar junto com a mudança que o MC é capaz de provocar, saber lidar com as energias diferentes, se adaptar, repelir o que é lúgubre para, aí sim, gerar mudança. Não é fácil se colocar em posição tão vulnerável numa cultura onde o sentido de H.aço foi se tornando algo radical.

O problema é que o mundo exige organização, profissionalização, consumo e massificação. Sem isso você vira um errante da cultura, uma personalidade caricata que só fala em coisas que não podemos tocar e acaba isolado nos seus próprios ideais. Então o “trabalho de formiguinha” não tem alcance se a criançada que recebeu os livros do Projeto Livrar não pode encontrar as músicas do Marechal no YouTube. Hoje a identificação se dá pelo consumo. O que eu posso consumir é o que trará a certeza da minha identificação. É triste? Sim, mas é real. Qual o segredo para fugir do sistema, então? Descentralizar os conceitos.

A mesma descentralização cultural que firmou as bases do hip hop é o que Marechal faz com a realidade do mercado brasileiro. Ele não é o diferentão roots do rap nacional até o osso. Temos aqui uma pessoa que tem fé nos seus valores, que estuda muito e que está disposta a estabelecer uma troca sincera com todo tipo de público. Marechal torna-se, então, uma personificação da cultura hip hop sem parecer mórbido ou estacionado nos anos 90. O mesmo choque cultural que o movimento hip hop tomou, absorveu, fincou suas bases e foi perpetuado é o que Marechal emprega até o atual momento no seu “um só caminho”. Entre pontos altos e a possibilidade de estar “se vendendo”, ele tenta encontrar brechas no mercado que permitam a grande massa ouvir o famoso “rap de mensagem”.

Isso acontece na música “Guerra”, que fez parte de trilha sonora de filme e série; acontece com a gravadora que vende uns panos irados, a VVAR; acontece com a participação na música do Costagold, “Quem tava lá”; acontece na nova Batalha do Real, que virou um grande circuito, com rimadores selecionados à dedo, todos já bastante conhecidos do público. Isso tudo é transformar seu ideal em produto. É o que permite as pessoas consumirem e criarem vínculos com o que ouviram num primeiro contato. É mercado. E não é ruim, não é pecado e não é desrespeito!

A questão é: ninguém sabe o quão próprio é algum produto após tê-lo colocado na rua, sabemos apenas que existe um ideal por trás do que foi lançado. Talvez seja por isso que Marechal ainda não lançou seu álbum. Durante esses longos anos de trabalho ininterrupto com a cultura hip hop, estudando continuamente e sentindo que o que for lançado pode não ser forte o bastante para manter suas raízes ideológicas frente a esse mercado emergente, maluco e megalomaníaco chamado “rap nacional”, ele refugou diversas vezes.

Todo o trabalho feito até aqui se resume a lançar um disco? Qual a importância do registro físico, afinal? Eu não me surpreenderia que novamente o CD não saísse. É uma questão de sentimento; e se sentir bem para lançar uma obra envolve plenitude. Não creio que um disco seja capaz de traduzir a linha de pensamento seguida por uma vida. É um recorte momentâneo que estará registrado para sempre. Se o Marechal achar que ainda existe algo a ser trabalhado, ele irá refugar novamente e é assim que será.

Por outro lado, existe a pressão externa e o reconhecimento de tudo aquilo que o trouxe até aqui. Seria bonito ter um disco. Digo mais, seria justo. Nem vou falar que a geração de novos ouvintes meio que exige trampo na rua. O consumo proporciona ídolos e essa coisa imagética é capaz de transformar tudo em tendência. Um exemplo é o próprio público de rap, pouquíssimos reconhecem a literatura como hábito salutar sem ter alguém famoso falando sobre ou vão pesquisar sem ouvir referências nas letras dos MC’s. Usar da própria imagem para propagar a mensagem é uma espécie de mal necessário, por mais terrível que isso soe para mim. Em 2017 é complicado ser Madlib, MF Doom ou Mahal. Marechal sabe muito bem disso.

Tudo é cíclico. Para propagar uma mensagem, é necessário reconhecer que as pessoas querem mudança. As pessoas para reivindicarem mudança, precisam de algo que as desperte. E assim segue o Ouroboros do hip hop. Ataques cada vez mais pesados são lançados contra a cultura, mas ainda resistimos. Marechal soube captar a mudança e se permitiu mudar, com fluidez. No fim, tudo é literatura e terá cura, tudo flui, apesar da literatura ter me pregado uma peça com esse texto, que acabou sendo muito mais jornalístico que literário. Culpa do Marechal, que não lança esse álbum logo.

Roberto Bolaño – 2666

Por Caio Lima

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Eu estava observando pela vida afora, e não encontrei muitas resenhas sobre o romance psicodélico de Roberto Bolaño, “2666”. E, curiosamente, a que eu mais gostei foi a mais curtinha e chegou por e-mail, me convencendo a ler Bolaño de uma vez por todas. Eu acho que enxergo uma espécie de urgência e verdade por detrás das palavras, que sobrepujam os aspectos técnicos dos livros. Isso me inspira. Não interessa o que a pessoa quis dizer, a partir daqui é comigo e o que eu faço com as palavras dela. Da mesma forma, não interessa, absolutamente, o que Bolaño quis escrever, mas é perfeitamente plausível que eu me inspire ao falar de “2666” e crie teorias absurdas sobre o livro. Para quem já leu, no segundo livro Amalfitano pendura um livro de geometria no varal, lembram? A partir dessa cena, eu comecei a traçar paralelos que me ajudarão a explicar o que eu consegui compreender de “2666” tanto em sentido quanto em estrutura. Vamos? Vamos.

Toda relação interpessoal pode ser considerada uma reta. Existe uma pessoa A que direciona a sua atenção para uma pessoa B. Porém, todo esse direcionamento para a outra pessoa existe por conta de uma atividade fim, um objetivo comum. A atividade fim do ser humano é a sua essência, sua razão de ser, existir, socializar e tudo mais. No caso de “2666”, Bolaño assume a violência como atividade fim do ser humano. Nossas relações sempre buscam formas de manifestar o que há de mais violento entre nós. Vejam bem, “entre nós” e não “em nós”. A violência, como razão, produto e derrocada do ser humano, é obtida através da troca.

Voltando às formas geométricas, temos as pessoas A e B, mais a violência como vértices, portanto as relações interpessoais se dão em triângulos. Triângulos são as formas geométricas planas mais simples que temos. Toda figura geométrica plana produz uma área na sua superfície, e essa área é preenchida com o que idealizamos ou sentimos nesse triângulo de relações. Seria mais ou menos o seguinte: se eu, pessoa A, amo pessoa B, toda troca entre nós teria, como fim, a violência, e o amor que sentimos um pelo outro funcionaria como força motriz e justificativa para a violência cometida. O amor foi só um exemplo, mas não interessa o sentimento ou desejo que habite essa área criada pelo triângulo, por mais bonito que seja.

Outro aspecto da obra que a teoria dos triângulos pode ajudar é na sensação de solidão e vazio constantes ao longo dos cinco livros. Podemos considerar a violência como inviolável. Essas quebras de relação acontecem, então, quando chegamos ao estado fim do homem e finalmente rompemos certo paradigma, ou quando há uma separação abrupta das pessoas que se relacionam. O triângulo, uma vez formado, jamais será desfeito, mas quando não se consegue atingir a esse objetivo fim das relações humanas, os sentidos de incompreensão e vazio se aguçam. É como se tudo perdesse o sentido, tudo ficasse incompleto.

A relação com a morte como forma de rompimento dessa busca pela origem do ser, me fez lembrar de uma frase de Malcolm X: “Se você não está pronto para morrer por ela, risque a palavra ‘liberdade’ do seu vocabulário. ”

O cultivo da violência é uma das coisas mais abominadas pelo mundo ocidental, porém é o meio pelo qual o mundo ocidental foi criado. A não expressão da nossa natureza violenta é o meio mais eficaz de controle social possível. Foi assim que os países europeus mudaram o mapa do mundo e colonizaram toda a América e a África, por exemplo. Agiram com violência, implantaram a filosofia ocidental de vida e, de repente, a violência não seria mais tolerada.

Logo no primeiro livro, Bolaño retrata a busca até os confins do México, em Santa Teresa, de quatro pós-doutores em literatura alemã – um espanhol, um italiano, uma britânica e outro francês – pelo autor (alemão, claro) que é objeto de estudo e da admiração deles, o famoso Archimboldi. Essa busca pelo autor alemão não permite que eles percebam o que se passa na cidade, com os eventos constantes de mulheres abusadas e mortas de forma muito violenta.

Num paralelo, a busca por sonhos impossíveis toma o lugar da realidade. Mulheres morrem misteriosamente a todo momento, mas a busca por Archimboldi tira, inclusive do leitor, a sensação de gravidade sobre os acontecimentos em Santa Teresa. As expressões violentas ficam em segundo plano, sempre. E quando os pós-doutores praticam a violência de forma vazia, ela vem contextualizada, como se fosse uma expressão não natural movida por forças que tomaram o lugar da razão. Pós-doutores europeus seriam incapazes de tal ferocidade.

Já no segundo livro, com Amalfitano, essa violência é ofuscada, mais uma vez, por um paternalismo enorme e alguns transtornos gigantescos do mesmo. Pode não parecer, mas todos os extremos, das suas confusões com a esposa até a cisma com o livro de geometria (e o que pode ser tratado como loucura), são traços que validam, ao meu ver, a teoria dos triângulos e o rompimento das relações de forma abrupta. Revelam o vazio da morte e em como é dialética a questão entre a plenitude do ser e o conforto dos limites.

O jogo entre colonizado e colonizador não existe pela relação direta de servidão. O homem, quando muito pressionado em suas relações, tende a alcançar a violência como meio de libertação. O que fazer, então? Permitir que essas pessoas em estado servil encontrem na sua realidade alguma forma de poder, de ser autoridade. De repente, os servos são o principal método de controlar outros servos. Acaso exista violência, ela seria deliberadamente direcionada para o espelho. É o jogo do “mata ou morre”. Ou melhor, pessoas que tem algum privilégio mínimo se aproveitam das lacunas que o sistema propositalmente possibilita para violentar pessoas socialmente menos privilegiadas. A morte de mulheres em Santa Teresa começa a ganhar espaço.

Espaço esse que lança a Santa Teresa um jornalista negro para cobrir a luta de boxe do século e que acaba se perturbando e, por que não, se identificando pela questão das mulheres mortas. Além de deflagrar toda a questão da imprensa americana, suja como ela sempre foi, essa parte coloca muito em xeque a posição e importância que damos ao que chamamos de potências mundiais. Os problemas relatados por Bolaño são parte de países colonizados, não de países pobres. Os EUA entram nessa questão de país colonizado e que vive sob constante tensão por viver de forma muito latente os efeitos de um processo forçoso e muito mal resolvido de colonização. X morreu há 50 anos apenas, emboscado por negros num país onde negros eram mortos por brancos apenas por serem negros. Mais um caso de violência contra o espelho. Quer mais terceiro mundo que isso?

Na entrevista que faz com o líder do Panteras Negras fica evidente que a desnaturalização da violência se impôs até dentro da célula mais belicosa no movimento de luta pelos direitos dos negros americanos. E é importante como Bolaño trabalha isso com humor. O pensamento do colonizador é tão, mas tão costurado ao ideal da perfeição da vida, que gera caos e seletividade. São poucos os colonizados qualificados para usufruírem dos poderes de um colonizador. É engraçado, é irônico, é peculiar, é excêntrico e é caótico. E, particularmente, o caos é uma maravilha.

Refletir sobre o caos e seus múltiplos conceitos é refletir sobre as origens da cultura em si. E reparem em como as relações entre diferentes culturas são completamente desiguais. Essas culturas europeias, colonizadoras, ditam o ritmo do que acontece no mundo e são puras, quase impenetráveis. A não permeabilidade cultural gera, de forma sistêmica, falta de entendimento, de empatia. A reprodução de uma cultura considerada como correta, gera opressão. Hoje há a admissão de diferentes culturas no espaço, mas não no pensamento. A predominância cultural é o ponto base do autoritarismo, que leva, num ponto extremo, ao nazismo, um dos pontos chave de toda a obra de Bolaño.

A violência como fim, como razão de ser do homem, só é capaz de existir quando há troca. É um fim alavancado pelas interações pessoais e por forças e desejos que não somos capazes de compreender à luz da ciência. Sabem a teoria do super-homem, de Nietzsche? É um fim violento, agressivo. Ele se desgarra de todo conceito cultural do homem ocidental e ressurge para uma nova era. A violência com que Malcolm X tratava o desejo pela liberdade é um fim, uma quebra de paradigma, um rompimento do que foi estabelecido não importando o seu custo.

Sem estabelecer trocas, o nazismo almeja a purificação cultural. É um conceito muito maior do que a simples superioridade de raça. Não existe nada sobre violência como fim, trata-se da morte como meio. E a morte atua como ponto de ruptura das relações, gerando vazios. Impor-se como única cultura e postura aceitáveis, inibe a troca. A postura autoritária gera esse tipo de vazio sem matar, por exemplo. Inibir a troca é tornar uma cultura incapaz de evolução. É um processo lento, que demora séculos, mas nada que é hermético sobrevive, por mais que demore a ruir. A cultura, quando viva, não é pura.

O que nos leva ao livro quatro, que nada mais é que uma sucessão de registros sobre mulheres assassinadas. Ao dissecar cada caso, ao contar cada história até onde se sabe, as ideias sobre a mentalidade do colonizador e da natureza da violência são escancaradas. Poucas vezes eu senti um vazio tão grande lendo alguma coisa. Os relatos são crus e apenas se sucedem, um atrás do outro, sem pausa e sem um fim, um objetivo. Mas é exatamente isso! Mulheres morrendo apenas por serem mulheres! Isso não é vazio de sentido? Homens abusando do seu privilégio social para assassinar mulheres é tão sem sentido, que é real. É desesperador.

Durante toda a narrativa existem críticas ferrenhas ao Estado, ao empresariado, à desigualdade social, aos moldes em que os movimentos sociais se conservam, ao show de horrores que é a imprensa, aos órgãos de segurança públicos, à natureza do homem, aos regimes ditatoriais, à academia, a autores, filósofos e obras consagrados e, por fim, ao próprio mercado editorial. Mas essa discussão sobre violência, morte e vazio, rouba a cena. E isso recai sobre a própria literatura.

Eis que chegamos ao quinto e derradeiro livro, que trata a vida de Archimboldi. Mas, não sei para quem já leu, aqui temos algo muito mais forte que um registro biográfico. É por isso que afirmo: depois de Bolaño, ninguém mais deveria escrever sobre a vida de escritores/poetas.

A literatura gera o contato com a violência antes mesmo de haver qualquer interação interpessoal. Diferente de uma relação comum, o escritor encontra sua “razão de ser” para, aí sim, interagir com as pessoas. O espaço vazio é a voga. A literatura é capaz de levar uma pessoa ao seu extremo e, enquanto o que está escrito não atinge outras pessoas que se identifiquem com aquilo, esse vazio só se agrava. São raros os escritores que querem ser ou se sentem compreendidos, estabelecendo essa relação de troca ainda em vida. É uma troca estabelecida entre o escritor e seu ápice: seu registro será eternamente lembrado como recompensa pelo salto para além do mundano, por ter transcendido à vida, porém, o tempo presente, onde o vazio existe e aumenta progressivamente, nunca será preenchido. Isso é cruel.

Eu tive que reler “2666” para compreender melhor essa relação entre literatura, violência e a busca por “preencher vazios” que ficou dando voltas na minha cabeça. Acontece que, se você ler com atenção, não precisa ler mais que 30 páginas de cada livro para perceber todas essas relações que eu fiz aqui. É tudo jogado na cara.

É, talvez, por isso que Bolaño, em muitos momentos, consome páginas e páginas tecendo críticas ao sistema, elaborando minicontos dentro dos livros e falando sobre vinte mil coisas aleatórias que, aparentemente, não fazem sentido. Mas qual a graça de uma obra tão fechada em si mesmo, tão perfeita? Por que não o leitor sentir na pele a violência de um fluxo de pensamento (ou vários deles)? Por que não o leitor não dar valor à beleza da construção narrativa de um Octávio Paz, fazendo com que soem bonitas partes tão violentas quanto as escritas por Gógol em “Tarás Bulba”? Você, como leitor, pode falar que “2666” poderia ter menos 500 páginas. Mas não tem!

Ah, a adorável perfeição dos pensamentos objetivos demais, que estão enquadrados dentro de uma classificação correta, criada por algum órgão especializado e gabaritado, e provocam certo efeito que deixa a todos a sensação de êxtase pelo mesmo motivo, na mesma parte, do mesmo jeito.

O tino que temos ao definir tecnicamente uma obra, não é o mesmo que temos ao ler e percebe-la como um todo. A necessidade de ler não sobrepuja a necessidade de escrever. A leitura é o fim de uma comunicação em que se espera que se preencha um vazio. Antes de ser analisada, uma obra precisa ser entendida. E entender uma obra que (obviamente) foi escrita por alguém é uma das coisas mais humanas que existe. Vai além de estudos acadêmicos, literários e mercadológicos. Estamos falando de empatia, de se justapor a alguém e, finalmente, de fecharmos um ciclo de interação.

Eu não reli Bolaño para resenhar Bolaño, eu reli porque precisava. Toda essa estrutura recai sobre o que eu realizei com o Rede de Intrigas até aqui. Foi um choque perceber as coisas que eu percebi. E foi um choque necessário. Uma das dádivas que a interação com mortos, através da literatura, produz é a sensação de conforto ao olhar para minha estante e ver como um livro me fez enxergar e aspirar coisas melhores. Ele está aqui do meu lado agora e eu estou extremamente feliz por esse texto, sabe-se lá o porquê.

Livre Pensar

Por Caio Lima

Nos meus textos os leitores fieis do Rede de Intrigas devem ter percebido que eu repito algumas vezes a frase “a literatura liberta”. Pode parecer uma ideia muito romântica sobre um objeto e é até contraditório para alguém que se julga iconoclasta. Mas o que seria da vida se não fossem nossas contradições, né? Eu nunca me preocupei muito em me contradizer. Muito disso se deve à minha relação com a literatura ter se tornado tão estreita e ter influenciado diretamente no meu amadurecimento. Usar os livros como um simulacro de mim mesmo, criar essa espécie de observatório da minha consciência, me abriu novas perspectivas em momentos de tensão extrema e totalmente adversos. O blog é uma criação de momentos assim, inclusive.

Em tempos de inclusão digital, de dar uma importância maior às silhuetas, à forma e ao que chama a atenção visualmente, há uma tendência de atribuirmos o conceito de liberdade dentro das nossas possibilidades físicas ou táteis. Tudo aquilo que desenvolvemos com nosso corpo ou que podemos visualizar facilmente nos é mais agradável, mais palatável e suficientemente satisfatório para justificar o modo que escolhemos viver. Expressamos a nossa liberdade e satisfação com o corpo quando, através dele, conseguimos expressar o que pensamos. Através de tatuagens, da roupa, da forma, do penteado, da cor dos cabelos e assim vai. Mas é extremamente tênue a linha entre expressar a tua liberdade através do corpo e acreditar que a liberdade se dá através do corpo, do físico, em absoluto.

Todo período de recessão provoca correntes que distribuem algo visualmente simples e de fácil assimilação intelectual. Essas correntes tendem a fortalecer que tudo o que te liberta é físico, que todas as soluções são visíveis e palpáveis. Isso reforça o sentido da liberdade ser algo físico e produz um reducionismo de conceito completamente torpe. Gera estereótipos, gera padrões de comportamento e designam ações que induzem ao perigosíssimo senso comum. “Bandido bom é bandido morto”, “todos os políticos são corruptos”, “isso é mimimi”, “eu não preciso do feminismo”, “escola sem partido já”, “minha bandeira não é vermelha”, “menos Paulo Freire, mais Alexandre Frota”, “o almoço não é de graça”, “ler é perda de tempo, prefiro fazer algo realmente produtivo” e “pessoas com dinheiro investem nas pessoas, por isso temos que ajudar os ricos”. Vocês percebem como cada uma dessas frases é visual, cria estereótipos e reduz problemas gravíssimos da nossa formação (em todos os aspectos) como algo simples de resolver?

É muito natural enxergar isso tudo e querer estar recluso, evitar a fadiga e dar importância às coisas que realmente são suas e não ligar mais para o resto, já que sua oposição não teve força para mudar o que quer que seja. O grande problema de nos fecharmos é que tratamos a liberdade dessa mesma forma simplista, o que é uma grande contradição de quem procura liberdade de pensamento.  Fazemos do que amamos uma muleta para não encararmos de frente tudo o que nos incomoda. Mergulhamos na rotina, no trabalho, nos estudos, nas relações confiáveis e as usamos como escora. Nisso ficamos cada vez mais restritos, cada vez mais presos.

A literatura não permitiu que eu tivesse uma recaída e enveredasse pelo caminho dessa falsa liberdade que vendem por aí e também não permitiu que eu me isolasse do mundo, conservando apenas os que tem pensamento semelhante por perto. Não que eu me considere um ser humano elevado ou algo do tipo, mas através da literatura eu aprendi a questionar, analisar, filtrar e a ponderar e corrigir minhas opiniões e visão de mundo. Isso me dá a liberdade de me contradizer e mudar de opinião com a tranquilidade e serenidade de não dever e não (fora) temer ninguém. A literatura me ensina de diferentes maneiras que o livre pensar conduz todo e qualquer outro tipo de liberdade. Se eu conseguir transmitir através desse blog o tanto que a literatura foi capaz de transformar a mim e ao meu meio, sinto que minha missão com esse projeto de literatura de guerrilha, além de um sucesso, seria a realização de um sonho.

E você, é livre de verdade?