Lima Barreto e a loucura: os porões da escravidão no século XX

Por Caio Lima

Hospício Nacional do alienados - Acervo do IPHAN, Inventário

Admito: estava tentando fazer deste texto tudo o que eu nunca fiz na vida: um texto sério. Verdade! Eu juro que tentei. Mas a medida em que me aprofundava no tema, mais pessoal minha linguagem ficava e, de repente, o texto parecia um grande amontoado de parágrafos escritos por várias personalidades, mas nenhuma sequer continha minha essência ou personalidade ou alma ou jeito. Por isso desmanchei absolutamente tudo e resolvi reescrever do jeito de sempre. Me desculpem se isso os frustra, mas não dá para ser crítico sério nesse espaço altamente subversivo. Seria tanto loucura quanto a morte do Rede de Intrigas, o queridinho do submundo literário.

Por falar em loucura e morte, ambas motivam esse texto. Numa sequência biológica/patológica/qualquer-coisa-lógica, uma leva a outra num processo irreversível (não importa a ordem). Numa sequência histórica, as duas se confundem e se completam ao designar o destino de milhares. Acredito que o grande problema aqui é definirmos o que é loucura e o que é morte, afinal.

Em “O cemitério dos vivos”, de Lima Barreto, comecei a identificar a loucura como sendo mais uma questão social-normativa que patológica. Afinal, quem nunca fez uma loucura de amor? Ou quem nunca ficou louco na balada, chapadão mesmo? E aquela amiga desbocada que fala o que pensa, né, “miga, sua louca”? Pois é, a loucura é vivenciada comumente por nós e muito bem aceita, aliás. Tem lá seu charme com um pouco de malemolência.

Também vem misturada com uma porção de raiva e pitadas de preconceito, já que talvez aquela mina que tenha se recusado a ficar contigo na balada precise de uma camisa-de-força, porque ela é uma “feminazi histérica”. Ou “aquele bando de faveladinhos imitando bandido, tudo marginal e maluco, porque se a polícia chega vai derrubar sem dó”. “Acho que minha empregada tá louca, disse que o filho dela vai comprar um carro zero. Que absurdo!”

Voltemos um pouco no tempo.

O processo de abolição da escravatura, formalizado em 1889, não foi tão seguro e correto na prática quanto parecia ser em aspectos morais. A população negra, já num processo contínuo de alforria, continuou sendo explorada, agora vivendo com um soldo irrisório (isso quando conseguiam emprego) para declarar que os escravos libertos teriam algum padrão de vida que não fosse a miséria.

Um retrato atual do centro do Rio de Janeiro não seria tão diferente da imagem que temos do centro no início do século 20. Mudam-se as proporções, mas não a composição do quadro. Classe, raça e gênero muito bem definidos, até em estereótipos, se cruzando. Do dono do meio de produção até o mendigo.

Com essa quantidade de mendicantes, os aglomerados periféricos cada vez maiores, a ascensão de uma classe criminosa assolando a cidade e milhares de trabalhadores em regime de servidão consentida (não dá nem para chamar de subemprego); meios de controle populacional tiveram de ser estabelecidos. Primeiro, o embrutecimento policial entrou em voga. A repressão brutal de uma miséria criada pelos próprios mandatários do Estado é uma alternativa óbvia desde sempre, mas não o suficiente para essa nova época de “liberdade e progresso”.

Uma das muitas soluções foi a internação em hospícios. Afinal, é muito fácil ser declarado louco quando se está morto de fome e morando na rua. Uma miséria, repito, induzida, porém não programada. Das condições descritas por Lima Barreto, o quão ser declarado louco e jogado num sanatório não é uma maneira de extermínio? Qual a possibilidade real de reintegração na sociedade ou, mais simples, de ser tratado como um simples ser humano?

Antes de Lima Barreto se internar e resolver escrever sobre o sanatório e a loucura, Machado de Assis, no conto “O alienista”, já havia tocado na ferida da loucura como regimento social. Quem não riu do auto-diagnóstico do louquíssimo dr. Simão Bacamarte? É lógico que a superficialidade dos questionamentos filosóficos ali escritos é interessantíssima. De médico e de louco todo mundo tem um pouco, já diz o ditado. Mas esse é só o começo de uma longa reflexão, é raso. “O alienista” não existe à toa. Talvez fosse o objeto do desejo machadiano abrir uma outra discussão: já que todos somos um tanto quanto “loucos”, por qual razão aqueles internos estão presos? Qual medicina é capaz de diagnosticar a loucura? Por que aceitar o diagnóstico de forma tão passiva? Qual o perfil dos internos?

O questionamento à loucura já existia às beiras da abolição da escravatura, denunciada muito sutilmente por um autor negro. Coincidência, será? Obviamente que não. Se levantarmos dados dos registros das casas psiquiátricas do Rio de Janeiro desde 1880, descobriremos que os internos negros são sempre maioria. Não estaria Machado denunciando, com toda sua habilidade narrativa, um processo crescente de higienização social? A mesma denúncia que faz Lima Barreto três décadas depois, quando sentiu na pele o duro processo que seus iguais passavam. Vemos que a ficção, mais uma vez, além de ter a função de sensibilizar, funciona como denúncia.

Lima Barreto se internou voluntariamente por conta do alcoolismo, que o estava esgotando até os últimos recursos. Não que ele tenha vivido muito após sua internação (entrou em dezembro de 1919 e morreu em meados de 1921), mas foi o suficiente para deixar anotações de um diário e um romance incompleto, os quais o permitiram momentos de frágil sanidade no meio de um ambiente mais parecido com uma catacumba.

Conforme Lima relata no seu livro, sob o pseudônimo de Vicente Mascarenhas (um dos tantos pseudônimos encontrados nas anotações, sendo este o adotado oficialmente), os internos variavam de causa e origem, mas a grande maioria presente no pátio era de negros com problemas diversos que acabavam por desenvolver a “loucura” num ambiente que mais lembrava uma masmorra; muito parecido com um campo de concentração, ou com uma senzala. Os maus tratos, a falta de assistência médica, a alimentação ridícula, enfim, a falta do básico em se tratando de um lugar que supostamente deveria ajudar “loucos” a viverem com alguma dignidade.

Os manuscritos de Lima Barreto já funcionavam como olhos dentro de uma realidade tão periférica, mas tão periférica, que se torna inexistente às vistas do cidadão médio brasileiro. Talvez, em certo momento tenha ocorrido um clamor tão grande pelo achado dos manuscritos, que as letras foram mais relevantes que a condição humana, e “O cemitério dos mortos” acabou passando por mais um livro ficcional de Lima Barreto com cunho político-social, não obtendo a atenção devida.

Lima Barreto, 1914 - Acervo do IPHAN, Inventário_350

Um de nossos maiores autores teve a sensibilidade de, mesmo num período crítico de sua vida, relatar de forma tão singela e vívida um processo maligno que objetivava tornar invisível e justificar o contínuo extermínio de negros, em sua maioria. A loucura se confunde com a morte a partir do momento em que o louco se torna invisível aos nossos olhos. As portas das casas psiquiátricas são as portas do próprio purgatório, onde almas errantes devem passar por provações que nós, dentro de toda nossa normalidade, não temos noção do que seja. Até porque, nós não tratamos dos loucos, não sabemos o que fazer com eles, como reagir, como falar-lhes ou como olhá-los. Eles não existem para nós. São apenas loucos e fogem da nossa alçada. E essa loucura abrange tantas misérias humanas que se reconhecer num louco é desumanizar-se. O que não é normal não é norma, não é aceito, não é padrão e, logo, não é humano.

Já havia um minidocumentário, de 1979, intitulado “Em nome da razão – Os porões da loucura” (facilmente encontrado na internet), denunciando as condições subumanas em que internos do Hospital Colônia, incapacitados, segundo laudos, de manifestarem cuidados próprios eram tratados. Porém, em fins de ditadura, sabemos que o jornalismo investigativo não era visto com bons olhos, ainda mais em se tratando de unidades mantidas pelo Estado e que promoviam a nossa famigerada higiene social em busca de ordem e paz nos grandes centros urbanos.

Eis que em 2013, quase 100 anos após a segunda internação de Lima Barreto no sanatório, foi lançado o livro “Holocausto Brasileiro”, da Daniela Arbex. Mais uma denúncia contra o sistema de extermínio de pobres, negros, mulheres e demais minorias através de uma casa psiquiátrica, pontuando a loucura como justificativa. Como no documentário de 1979, há pela jornalista um reaproveitamento e aprofundamento do holocausto acontecido no Hospital Colônia, em Barbacena, Minas Gerais.

A barbárie a que foram levados os internos do Hospital Colônia ao longo dos séculos em nada difere da que Lima Barreto passou em 1919. Por isso me pergunto se a denúncia sobre o Hospital Colônia e suas práticas, em Barbacena, realmente chocou a nós todos com a força que deveria, ou se a descrença natural que o leitor médio brasileiro mantém na literatura de ficção como meio de apontar feridas é tão grande que, apesar de termos lido tanto sobre a realidade social brasileira, só acreditamos que essa realidade tão cruel existe quando esfregada na nossa cara por meio de um texto jornalístico. Ainda prefiro me forçar a acreditar na humanidade da classe literária por aqui, apesar de minha intuição apontar o contrário.

É claro que o aporte midiático e material quase 100 anos depois de Lima Barreto ter sido um interno, é algo infinitamente maior que o disponível à época. Porém, reparem bem, que o projeto de compensar mazelas criadas por uma sociedade extremamente desigual com o diagnóstico de “loucura” se mantém intacto. A loucura e a morte sempre andaram de mãos dadas, mas nunca se misturaram de forma tão homogênea quanto o que podemos ver por meio de “O cemitério dos vivos” e “Holocausto brasileiro”. O laudo emitido pelo médico é uma condenação. Existe um tribunal funcional, com um processual bastante veloz e que atua à margem da lei sem a interferência de terceiros, executando sentenças de morte ao bel prazer do Estado e seus pares.

Muito se pode falar dos motivos pelos quais uma sociedade chega a esse estágio de indiferença para com as parcelas miseráveis da população. Teorizar e justificar comportamentos doentios, definitivamente, não é o caso do Rede de Intrigas. Confabulamos sobre a origem da vida, sobre o amor e a saudade por aqui, mas este nunca será um espaço para a racionalização da agressão, do desprezo, da indiferença e do preconceito. Nunca será! Entretanto, apontar algumas verdades históricas é necessário nesses casos. Afinal, após todo esse alinhamento histórico, um texto que de tão organizadinho chega a dar orgulho, eu não ficaria sem estragar toda a organização e definhar o texto em milhares de questões que vocês não vão me responder, mas com certeza irão refletir sobre.

Esse sou eu e vocês já deveriam estar acostumados. Hehehe.

Apesar dos sanatórios terem sido derrubados, o processo de higienização social continua. O show tem que continuar, não é mesmo? O que o atual prefeito de São Paulo fez em maio deste ano tentando “livrar” a área da cracolândia dos moradores de rua é um ato fascista e, naturalmente (como convém à raça), covarde contra o qual não se tem defesa, já que o próprio Estado é o mediador das ações. É uma prática comum no país e tende a ser cada vez mais enfática. Os monstros sempre serão os que não podem falar. A caça aos menos favorecidos alimentada pela desculpa da limpeza social, nada mais é que uma limpeza étnica que vira e mexe assola a cabeça do brasileiro médio. Nada saiu do lugar, apenas os motivos mudaram.

Para além disso tudo, há o contínuo desrespeito com as “minorias” que buscam espaço e direitos, já que nem todos são iguais perante a lei (Rafa Braga que o diga). O sentido de loucura tem desertado os drogados, doentes e miseráveis vagarosamente para ocupar-se de abranger os grupos sociais que lutam ativamente por uma sociedade realmente igualitária, educada e respeitosa para com todos os seus cidadãos, sem ressalva ou asterisco. Não se assustem se negros, o movimento LGBT, mulheres, índios, deficientes físicos e outros forem comumente taxados de malucos e colocados como extremistas sanguinários por pedirem igualdade, apenas. É o novo sentido que a loucura se apossa para ferir mais e mais as liberdades de quem procura e precisa de voz.

Num sentido social, a loucura parece ser uma licença poética para uma ordem de extermínio. Após passar tanto tempo estudando para esse texto, sinto que todo os caminhos da contracultura, que se torna uma cena cada vez mais sólida no país, convergem para um natural enfrentamento à loucura e ao caos que tentam nos impor como norma. É um processo mais espiritual que físico e tenho acompanhado avanços significativos nessa busca, pelo menos em mim mesmo. No fim, somos um enorme universo e precisamos aceitar essa condição. Ou seremos induzidos à loucura da rotina, do consumo, da competição e de todos os outros processos escravagistas aos quais temos cada vez mais acesso.

Autores como Lima Barreto são o verdadeiro motivo do Rede de Intrigas existir. Não que eu possa encarnar as vozes que gritam por baixo das palavras escritas, como é o caso de “O cemitério dos vivos”. Nem nos meus melhores dias eu me sinto capaz de tanto. Mas existe uma motivação grande demais em que a literatura seja mais instintiva que investigada, mais sentida que reproduzida. Preencher vazios, ser real, ser humano. São o que essas vozes me dizem e eu tento erguer a minha própria. Podem me chamar de louco.

Viva, Lima Barreto! A Flip está chegando!