Raio-X lírico: Marechal

Por Caio Lima

Quanto mais se personaliza uma função, mais complexo se torna enxergar suas influências e em como elas atuam dentro do processo criativo. Uma tentativa de análise lírica sobre o Marechal é complicada, são poucas letras e tentar desenvolver em cima do que está escrito é tentar desvendar a pessoa, o que torna evidente que a construção lírica de Marechal é muito mais alicerçada nas suas experimentações filosóficas e espirituais que em algum motivo poético ou ficcional.

Eu realmente não sei o motivo de inventar esses textos. Mas desafio lançado tem que ser cumprido. Bora!

Ninguém está preparado para o álbum do Marechal. Nem o próprio Marechal está preparado para o álbum do Marechal. Quer dizer, parece que agora está. O disco está anunciado para esse ano e todo mundo está na expectativa. E essa expectativa é tão alta, mas tão alta, que eu me peguei pensando no porquê de o Marechal ser do tamanho que é dentro da cultura hip hop.

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O rap ganhou novos ares com o Quinto Andar, sem dúvidas. O grupo carioca escalou um 4-3-3 com ataque total (brasfoot rules) e fugiu dos padrões, abrindo espaços no rap nacional. Julgado como rap descompromissado à época, o discurso largado, bem-humorado e audacioso renovou o gênero, abriu a oportunidade para que o rap não fosse um casulo, mas sim uma forma de atacar em todos os espaços possíveis e, claro, ocasionou o surgimento de MC’s que viraram lendas.

Se contarmos que o digníssimo motivo desse texto parou de estudar no meio regular de ensino aos treze anos para cuidar da própria educação, a gênese do QA me parece ter o gosto do sonho de infância: um grupo de rap formado por amigos, sem compromisso com o próprio sistema do rap e que fez sucesso dessa forma. Se parasse por aqui, Marechal já teria o nome escrito na história do rap nacional, bem como todos os outros integrantes do QA o tem. Mas não é bem assim, vocês sabem. Até o Piratão, único álbum do coletivo, os objetivos caminhavam em prol do disco. Após, as coisas se articularam de maneira diferente para os integrantes e Marechal foi um que “levou seus talentos para South Beach”.

Antes de começarmos a escrever sobre os rumos do Marechal pós QA, precisamos conversar sobre alguns aspectos da cultura hip hop pouco abordados nos dias de hoje, porém fundamentais para a formação da cultura; e, consequentemente, para a minha visão do que representa o Marechal dentro da nossa cena.

O legado da luta árdua deixado pelas décadas de 50 e 60 é muito maior que a política. Todos os revolucionários, além de se comunicarem, buscaram longe do padrão americano os pilares para a mudança. O que ficou tanto tempo escondido pelo opressor, começou a ganhar espaço e força como práticas cotidianas, como cultura vivida. As diversas representações culturais africanas, árabes e orientais emergiram com força e passaram a fazer parte do imaginário dos guetos americanos.

Vocês já assistiram The Get Down? Vou me utilizar de dois personagens para salientar dois pontos. O primeiro é o Shaolin Fantastic, influenciado diretamente pela cultura pop nipônica, com toda a adoração por artes marciais, samurais, ninjas e códigos de conduta regidos pelo silêncio e sacrifício. A segunda figura a ser destacada é o Dizzee, o artista, rei da pichação. O estilo good vibes, que apela para a elevação do espírito e autoconhecimento, também é uma influência oriental muito forte, mas aí estão misturadas linhas filosóficas diversas e muito confusas para quem está começando a entender como as doutrinas orientais funcionam (tipo o escritor que aqui vos fala). Taoísmo, islamismo, budismo, hinduísmo e outras práticas, mesmo não sendo seguidas à risca, passaram a fazer a cabeça das pessoas. Não são poucos os que passam essa visão no rap, principalmente os dinossauros como KRS-One, Rakim e Mos Def.

Virando o jogo e olhando para a raiz, a difusão das matrizes culturais africanas como práticas comuns começa a fomentar uma ideia muito concentrada que, salientada por toda essa filosofia de libertação e autoconhecimento, vai moldando as bases do movimento hip hop. E para ser livre, evoluir e entender que seu irmão é exatamente igual a você, é necessário saber de onde veio e saber o porquê te descaracterizaram e arrancaram suas raízes! Como puderam ignorar sua árvore genealógica por tantos séculos? Aqui entra o papel do “griot moderno”, o MC. A função original do griot é a de um transmissor de conhecimento. São sábios, perpetuadores da cultura da forma mais ampla possível. Mas nada disso foi escrito, todo o conhecimento era repassado de forma oral.

É exatamente nesse ponto, tendo pincelado rapidamente a função do griot, a revalorização das raízes culturais africanas e a inserção dessas linhas filosóficas orientais dentro do hip hop, que voltamos a falar sobre o Marechal (finalmente, Caio).

Ainda jovem, Marechal foi caçando seu caminho e sofrendo com algumas pedras no sapato durante a caminhada. Além da saída do QA, o que gerou surpresa, teve a treta com o Cabal. A treta proporcionou um momento histórico para o rap nacional, mas olhando bem para o Marechal de hoje dá para perceber que não era bem esse o caminho. Períodos turbulentos assim podem ser considerados como um inferno astral, onde você mobiliza toda a energia que possui para gerar ações negativas. Mesmo tentando acertar, se não há um alinhamento harmônico das energias que você emana e te envolvem, todas as vibrações são traduzidas em más atitudes.

A necessidade de Marechal ter de explicar sua saída do QA ou sua treta com o Cabal ofusca o surgimento da Batalha do Conhecimento, da filosofia “Um só caminho” e da própria VVAR (Vamos Voltar À Realidade). O interesse do público é direcionado para esse mundo do rap game, do business, da “arte profissional” e seus ramos “colunísticos”.

Marechal

Desta forma, para se manter relevante há a necessidade de circular pelo ambiente profissional do rap. Lançar sons constantemente, estar nos canais de mídia especializada, ser participativo nas redes sociais e todo o resto do script do rap. Num período de reorganização espiritual e estudo pesado, essa é a última coisa a se esperar de alguém. E uma vez iniciado o processo da busca pelo próprio caminho, não há mais volta. Segue o jogo, mas agora à própria maneira.

Para mim, o hip hop transforma e liberta antes de educar. Mostrar que as pessoas são capazes de criar o próprio espaço e trilhar o próprio caminho, essa é a essência. E é uma guerra tentar levar esse tipo de pensamento para dentro de espaços em que mentes são dominadas de todas as maneiras possíveis e imagináveis. É tanta energia negativa historicamente aplicada nas pessoas, que é difícil o resgate da autoestima. Alguns possuem essa força de vontade inabalável inata, mas a grande maioria precisa de ajuda.

Entender e viver o hip hop fez com que Marechal reagisse ao mundo como ele é. A primeira reação à indústria musical foi a de sair da indústria musical. Todo mundo conhece a frase clássica “lanço uma música por ano e você não fica uma semana sem ouvir”. Eu não parei para contar as músicas do Marechal, mas as poucas músicas têm mais implicações que apenas ser um revoltado com o sistema. É difícil se manter relevante lançando pouquíssimas músicas e fazer com que elas permaneçam atrativas, mantenham a identidade e atravessem o tempo.

E para atrair um público que precisa da cultura hip hop, é necessário sair do público de rap. O MC deve se reinventar a todo momento para atingir mais pessoas. Enxergar uma realidade, traduzir em poucas linhas e prover o resgate do brio e ao mesmo tempo entregar esperança. É uma constante troca, é um constante aprendizado. É necessário se permitir mudar junto com a mudança que o MC é capaz de provocar, saber lidar com as energias diferentes, se adaptar, repelir o que é lúgubre para, aí sim, gerar mudança. Não é fácil se colocar em posição tão vulnerável numa cultura onde o sentido de H.aço foi se tornando algo radical.

O problema é que o mundo exige organização, profissionalização, consumo e massificação. Sem isso você vira um errante da cultura, uma personalidade caricata que só fala em coisas que não podemos tocar e acaba isolado nos seus próprios ideais. Então o “trabalho de formiguinha” não tem alcance se a criançada que recebeu os livros do Projeto Livrar não pode encontrar as músicas do Marechal no YouTube. Hoje a identificação se dá pelo consumo. O que eu posso consumir é o que trará a certeza da minha identificação. É triste? Sim, mas é real. Qual o segredo para fugir do sistema, então? Descentralizar os conceitos.

A mesma descentralização cultural que firmou as bases do hip hop é o que Marechal faz com a realidade do mercado brasileiro. Ele não é o diferentão roots do rap nacional até o osso. Temos aqui uma pessoa que tem fé nos seus valores, que estuda muito e que está disposta a estabelecer uma troca sincera com todo tipo de público. Marechal torna-se, então, uma personificação da cultura hip hop sem parecer mórbido ou estacionado nos anos 90. O mesmo choque cultural que o movimento hip hop tomou, absorveu, fincou suas bases e foi perpetuado é o que Marechal emprega até o atual momento no seu “um só caminho”. Entre pontos altos e a possibilidade de estar “se vendendo”, ele tenta encontrar brechas no mercado que permitam a grande massa ouvir o famoso “rap de mensagem”.

Isso acontece na música “Guerra”, que fez parte de trilha sonora de filme e série; acontece com a gravadora que vende uns panos irados, a VVAR; acontece com a participação na música do Costagold, “Quem tava lá”; acontece na nova Batalha do Real, que virou um grande circuito, com rimadores selecionados à dedo, todos já bastante conhecidos do público. Isso tudo é transformar seu ideal em produto. É o que permite as pessoas consumirem e criarem vínculos com o que ouviram num primeiro contato. É mercado. E não é ruim, não é pecado e não é desrespeito!

A questão é: ninguém sabe o quão próprio é algum produto após tê-lo colocado na rua, sabemos apenas que existe um ideal por trás do que foi lançado. Talvez seja por isso que Marechal ainda não lançou seu álbum. Durante esses longos anos de trabalho ininterrupto com a cultura hip hop, estudando continuamente e sentindo que o que for lançado pode não ser forte o bastante para manter suas raízes ideológicas frente a esse mercado emergente, maluco e megalomaníaco chamado “rap nacional”, ele refugou diversas vezes.

Todo o trabalho feito até aqui se resume a lançar um disco? Qual a importância do registro físico, afinal? Eu não me surpreenderia que novamente o CD não saísse. É uma questão de sentimento; e se sentir bem para lançar uma obra envolve plenitude. Não creio que um disco seja capaz de traduzir a linha de pensamento seguida por uma vida. É um recorte momentâneo que estará registrado para sempre. Se o Marechal achar que ainda existe algo a ser trabalhado, ele irá refugar novamente e é assim que será.

Por outro lado, existe a pressão externa e o reconhecimento de tudo aquilo que o trouxe até aqui. Seria bonito ter um disco. Digo mais, seria justo. Nem vou falar que a geração de novos ouvintes meio que exige trampo na rua. O consumo proporciona ídolos e essa coisa imagética é capaz de transformar tudo em tendência. Um exemplo é o próprio público de rap, pouquíssimos reconhecem a literatura como hábito salutar sem ter alguém famoso falando sobre ou vão pesquisar sem ouvir referências nas letras dos MC’s. Usar da própria imagem para propagar a mensagem é uma espécie de mal necessário, por mais terrível que isso soe para mim. Em 2017 é complicado ser Madlib, MF Doom ou Mahal. Marechal sabe muito bem disso.

Tudo é cíclico. Para propagar uma mensagem, é necessário reconhecer que as pessoas querem mudança. As pessoas para reivindicarem mudança, precisam de algo que as desperte. E assim segue o Ouroboros do hip hop. Ataques cada vez mais pesados são lançados contra a cultura, mas ainda resistimos. Marechal soube captar a mudança e se permitiu mudar, com fluidez. No fim, tudo é literatura e terá cura, tudo flui, apesar da literatura ter me pregado uma peça com esse texto, que acabou sendo muito mais jornalístico que literário. Culpa do Marechal, que não lança esse álbum logo.

Desafio Livrada! 2016 + Jaroslav Hasek – As Aventuras do Bom Soldado Svejk

Por Caio Lima

Antes da primeira resenha do blog, vim expor a minha seleção para o Desafio Livrada! 2016, do blog Livrada!.A grande graça do desafio é ser dividido em 15 categorias com apenas um livro obrigatório e não precisar ler tudo na ordem, ajudando a pesquisa de novos títulos, escolas literárias e afins. Além de ser flexível com quem participa ao permitir que adapte títulos de sua própria estante que, talvez, ficassem para depois. Já li boa parte dos que selecionei para o desafio, mas caso alguém se interesse, essas são minhas escolhas (e a garantia de 15 resenhas aqui hahaha):

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann

2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski

3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe

4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko

5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino

6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade

7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg

10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein

12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino

13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal

15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Aproveitando o ensejo, a primeira resenha do blog será do livro obrigatório do Desafio Livrada! 2016, As Aventuras do Bom Soldado Svejk, escrito por Jaroslav Hasek e que estava parado aqui na minha estante.

Mas antes, sendo estreia (mais fogos [ano novo chinês] e chuva de papel picado [os boletos já estavam vencidos mesmo]), explicito que minhas “resenhas” são apenas pontos que observei durante a leitura e resolvi destacar aqui. Não tem sinopse e ficha técnica com o peso do livro depois de juntar poeira por cinco anos na estante da livraria. Grato desde já.

Agora vamos ao que interessa.


“que tendo há anos abandonado o serviço militar, depois de definitivamente ser declarado idiota pela junta médica militar, ganhava o seu sustento com a venda de cães, feios monstros de sangue impuro, aos quais ele falsificava as árvores genealógicas”

02 - Desafio Livrada! 2016 + As Aventuras do Bom Soldado Svejk.jpgAo me deparar com o bom soldado Svejk eu fiquei muito relutante quanto ao atestado de idiota que lhe foi conferido pelo exército tcheco. Suas “aventuras” são fruto das maiores confusões que só uma mente completamente desprovida de bom senso poderia causar. Sua salvação sempre vem de uma esperteza extrema e de uma sorte que só acompanha os muito competentes. Vai entender. Mas é assim, após ser preso (são incontáveis vezes durante o livro) pelo seu esquema de fraudulência canina e voltar para o exército através do capelão do batalhão, que Svejk age durante todo o livro.

Durante seu percurso hilário com inúmeras sátiras sociais, mãozadas de humor negro e pastelão, Svejk lança um olhar muito sutil para as mazelas da Primeira Guerra em seus bastidores, antes do massacre. Existe um pré-guerra tenebroso e cruel, talvez mais cruel que a própria luta. Logo na fila de exames, tchecos loucos por escapar da guerra iminente pagam para injetar parafina em seus membros, mesmo sabendo que isso poderia custar suas vidas. Os que passam são transportados como gado, amontoados em vagões, com comida extremamente racionada, sendo obrigados a usar restos de agasalhos para se aquecer (requerer um novo uniforme no exército tcheco era quase impossível), tendo que ocupar lugares piores que os dos cavalos dos comandantes e subordinados a oficiais desumanos, imorais e mais cruéis que a própria guerra. Deflagra com ternura, e até inocência, um sistema de organização arcaico e comandado por homens sem capacidade para tal numa guerra sem motivo. Principalmente para os tchecos.

“Para o senhor general tudo era simples. O caminho para a glória bélica repousava nesta receita: As seis os soldados recebem gulache com batatas, às oito e meia fazem cocô nas latrinas e às nove se retiram para dormir. Diante de um exército como este, o inimigo foge assustado.”

Hasek, com toda sua biografia extravagante e ensandecida, impôs à sua narrativa um tom tão natural que choca. Choca ao ver que passamos pelos horrores da guerra rindo de Svejk. Choca ao confiar a um personagem tão caricato a tarefa de mostrar um cenário tão degradante. Choca ao mostrar que o extremo da guerra aparece antes da guerra em si. E o que choca mais é o fato de acontecerem absurdos tão exuberantes que eu não percebi por muitas vezes o tom sempre irônico da narrativa.

Svejk é malandrão no aperto, bobo quando não deve, mas é bom sempre. Não vê maldade, não vê malícia e, muito menos, problemas. Passa por tudo e todos com a mesma cara inchada ou por ser rechonchudo ou um bêbado inveterado. Nunca chegou a ir pra guerra, mesmo com as quase 700 páginas do livro inacabado. Mas foi capaz de tornar divertido um ambiente podre. Tal qual uma criança, Svejk tem na pureza a explicação da sua bondade. Isso não o impede de cometer pequenas transgressões, de mentir e dissimular, mas os pequenos erros não podem ser simples maldade. Talvez só evidencie o lado bom de ser bom.

 “Se me pedissem que apontasse três obras literárias deste século que, em minha opinião, farão parte da literatura universal, diria que uma delas é, sem dúvida, “As aventuras do bom soldado Svejk”.

Bertold Brecht

P.S.: E é bom lembrar que nunca se deve confiar num húngaro.