José Donoso – O Lugar Sem Limites

Por Caio Lima

A discussão de gênero em plenos anos 60 até agora me parecia algo a ser abordado em grandes centros do mundo. É engraçado e estranho como o excesso de informações também pode te direcionar a núcleos e isso acaba criando estereótipos. Há uma espécie de seletividade na nossa própria desconstrução de preconceitos. É bem isso mesmo, acreditem. Olhamos para as minorias que estão no nosso meio comum, mas já pararam para pensar em quem vive nas mais diversas margens da sociedade? Em quem carrega diversos estigmas e tem de encarar uma sociedade que aponta o dedo para cada um deles? Em como deve ser uma mulher negra? Uma travesti pobre? Então, amiguinhos, pensem muito bem ao falar que são desconstruídos.

Daí me pego lendo um livro de um chileno, esse tal José Donoso, que conta a história dos medos de Manuela. Manuela é uma travesti quarentona, tem uma filha e administra um bordel que herdou após forjar uma relação sexual com a antiga dona, mas isso são outros quinhentos. Esse bordel fica lá em El Olivo. Sabem onde é isso? No interior do interior do Chile, onde as ruas eram de barro e nem energia elétrica tinha, mas estava pra chegar. Don Alejo, em toda sua onipotência, havia garantido.

“E quando ele me imobilizou com os outros homens, bem que me deu uns agarrões, não eram agarrões inocentes, então com a idade e a experiencia a gente não iria perceber? E furioso, porque a gente é bicha nem sei direito o que ele falou que ia fazer comigo. Quero só ver, sem vergonha safado. Me dá vontade de vestir a roupa de espanhola na frente dele para ver o que ele faz. Agora, por exemplo, se estivesse aqui no povoado. Ir para rua enfiada no vestido e com roupas atrás da orelha e toda maquiada, as pessoas na rua dizendo Oi, Manuela, Nossa, Que elegância, posso acompanhá-la? O maior sucesso, euzinha … E ai Pancho, furioso, me encontrara numa esquina e me disse você me dá nojo, vá tirar isso, você é uma vergonha para o povoado.”

A tensão da história é a chegada de Pancho ao vilarejo. Pancho é o maior algoz de Manuela pelo simples fato de há um ano ter rasgado seu vestido de espanhola que lhe caia tão bem. A agressão era o de menos, mas o vestido rasgado era imperdoável. Ao longo do dia, Donoso vai narrando com diversos flashbacks as intrincadas relações entre a ex-dona do bordel, Manuela, Don Alejo e Pancho. É uma velha história de dívidas e cobranças típica de uma vila situada na América Latina. E naquela noite haveria o desfecho desses desmembramentos todos.

José Donoso - O Lugar Sem LimitesPercebem em como o enredo é denso e recheado de questões para debatermos? Manuela é travesti e tem uma filha que a ajuda a cuidar do bordel. Manuela já não tem mais idade para esses desvarios e gera descrédito das suas próprias funcionárias: “se ela ao menos se depilasse”. Don Alejo é aquela velha figura que detém o poder da região toda, um coronel a quem todos recorrem nas horas de desespero. Pancho é o homem da história, o típico homem sem estudo, trabalhador e extremamente másculo, um estereótipo do homem do interior.

José Donoso foi valente ao lançar em 1967, às vésperas da “geração paz e amor” e demais movimentos, um romance que mostrasse a realidade dos preconceitos. Os grandes centros expuseram muitos conceitos que precisavam ser ouvidos. Mas ao ler a naturalidade da convivência com o medo e o quão normal é a violência usada para reagir ao diferente em Um Lugar Sem Limites, a sensação de que as palavras e os pensamentos não atingiram a quem realmente os sofre da forma mais espontânea possível é muito latente.

Ainda hoje, apesar de toda a rede vasta de informação que possuímos através da internet, somos extremamente desfocados ao que não nos é comum. A desconstrução é muito parcial e extremamente seletiva. Há quem defendas os gays, mas despreze os “viados”. Entendem a subjetividade desse desprezo? Isso é preconceito.

Donoso nos bate ao deixar evidente esse preconceito cego que atinge as grandes massas e que violenta todo dia quem vive à margem dos nossos olhos. Os limites se tornam inexistentes quando os estereótipos são naturais e os conceitos de certo e errado são excludentes dentro das próprias minorias. O pobre que olha torto e aponta o “defeito” de outro pobre por algum comportamento diferente se esquece de que ambos são pobres. Pior, se esquece de que ambos são humanos.

Ítalo Calvino – O Visconde Partido ao Meio

Por Caio Lima

“Cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração.”

Eu admiro as pessoas capazes de fazer soar simples qualquer história que contam. É sério, não existe hora ruim pra ouvi-las. Ítalo Calvino é um desses caras. É meio que uma receita de bolo: tá sem paciência, ressaca ou sem ânimo pra nada, então vai lá e pega um Calvino pra respirar, ler uma grande história e ainda tomar tapas e tapas e tapas na cara, mesmo com toda a sensibilidade que transborda desse cara. E numa situação dessas de ressaca literária que, num belo domingo, eu fui procurar O Visconde Partido ao Meio na minha prateleira.

Ítalo Calvino - O Visconde Partido ao MeioEu encaixei esse livro na categoria de “Livro Bobo” do Desafio Livrada! 2016, mas já me adianto que de bobo, em essência, o livro não tem nada. Eu já sabia o que esperar do livro, pois é de Calvino (claro!). Mas o encaixei como “Livro Bobo” pela escrita despretensiosa, simples e bem-humorada do autor. Fica aqui meu mea-culpa.

Primeira coisa: Medardo di Terralba! Você pensaria num nome melhor pra um nobre qualquer? Eu não. Não colocaria num futuro filho meu (bem futuro) pelos trocadilhos com merda, mas quem sabe num peixe beta. Estou refletindo sobre.

Enfim, o Visconde tomou um tiro de canhão no meio do peito enquanto lutava contra os turcos, em prol dos cristãos. Nessa loucura, só acharam a metade direita dele. Após recuperar-se parcialmente (porque essa é só a metade dele, sacou?), o Visconde se revela um personagem oblíquo aos olhos dos demais. Ninguém entende tanta crueldade e autoritarismo. O sentimento de revolta é crescente entre seus subordinados. É muita maldade para uma metade só.

Mas e a outra metade? A metade esquerda é bem vendedora de miçangas. Sumido pelo meio do mato, vive falando com plantas e cuidando de animais por aí. É uma parte excelente no âmago do seu ser. Ternura, arco-íris pela boca e mais miçangas no ar. Mas é tão bom que atrapalha e é tão chato que enjoa. É uma metade que gera revolta. Cansativa, superficial e suas boas intenções só interferem (muito) negativamente nas ações alheias.

“Ó Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desrraigado, mas você também, e todos. Mas, isso agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer com os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.”

Os antagonismos que carregamos nos servem de balança e são os limitadores das ações extremas que, por ventura, somos tentados a tomar. Isso vem muito de encontro a algumas filosofias orientais. Vocês que já leram Calvino já perceberam isso nos livros dele? Talvez seja só uma impressão minha, mas fica o questionamento.

Como eu disse lá em cima, Calvino tem esse poder de simplificar as coisas. Aqui, de forma leve, bem humorada e rápida, ele nos dá uma aula de que o indivíduo é indivisível e, desta forma, não se pode defini-lo a partir de conceitos tão puramente simples como o bom e o mau. Nós temos o nosso próprio “controle de qualidade” (a não ser que você seja diagnosticado com uma patologia, claro). É uma análise do ser humano como um todo, desmistificando conceitos e julgamentos superficiais. O que acreditamos é construído dentro de bases muito profundas que, além de se interligarem, são continuamente moldadas por uma série de fatores ao longo da vida.

Um livro bem-humorado e bem levinho, mas não se esqueçam de que quem o escreveu foi Calvino. Nunca esperem nada menos que reflexões profundas durante a noite tirando seu sono e a excelência de quem entende as mazelas da alma como poucos.

Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

Escalada Literária

“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.”

Sigmund Freud

Conversar literatura abre espaço para uma série de interações. Obtemos pontos de vista novos e completamente diferentes, uma construção mais ampla e sólida do senso crítico e aprendemos a ouvir e interagir com o próximo. Isso tudo vem agregado, também, da busca natural por referências de novas obras e autores impulsionando a tão famosa ‘Escalada Literária’.

Tomando como ponto de partida um lugar comum, é bem natural que comecemos a ler ou quando crianças ou a partir de alguma recomendação de um livro que está vendendo muito, sendo muito comentado. Normalmente algum desses best-sellers que viram filmes e séries e possuem toda aquela estrutura enorme, mas com conteúdo bem insosso. É o que eu considero boa literatura? Não. É um começo? É. Ao começar a ler, você naturalmente sai do ponto zero. Ponto positivo.

Naturalmente, quanto mais gostamos de um assunto, mais lemos sobre. Então quanto mais Percy Jackson eu leio, por exemplo, mais obras do Rick Riordan eu irei buscar. Isso é legal? É muito legal. Mas e depois? Das duas uma: ou você vai procurar um autor que tenha escrita parecida ao Rick Riordan ou vai buscar as referências que o próprio autor usou para poder escrever seus livros, correto? Beleza, beleza, beleza. Outro ponto positivo.

Nessa busca por novas referências, pintou algum autor mais maduro, né? Bernard Cornwell, M.K. Hume, Robin Hobb, George R.R. Martin, Tolkien, Stephen King. E o que você fez? Anotou? Foi pesquisar sobre os livros? Muito bem. Ponto positivo. Mesmo assim não se sentiu seguro para arriscar na leitura? Tudo bem, sem problemas. Mas deixa lá anotadinho que uma hora você cria coragem.

Criou coragem, leu, curtiu e quer mais? Mais uma rodada de busca por referências. Mas esses autores não se limitam ao mundo da fantasia e ficção histórica. Agora começam a surgir alguns clássicos. Bram Stoker, Mary Shelley, Jane Austen, George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Henry James, Franz Kafka e por aí vai. Então você começa a compreender que a partir desses clássicos mais acessíveis, esses grandes autores ao escrever usavam e abusavam de referências. Um grande passo.

Ao chegar nesse ponto você já compreendeu que para escrever, deve-se ler muito. Inclusive os autores pioneiros, inovadores, passaram por todo esse processo de construção de referências a partir das leituras que fizeram ao longo da vida. Então se torna natural buscar cada vez mais referências, ser cada vez mais curioso. É perceptível como você se torna mais exigente a cada obra, não é? E sua sede natural por sempre ir mais a fundo. Isso é uma maravilha! E nem doeu. Dá pra notar as mudanças na estante, a variedade maior de livros e assuntos, em como você passa a construir teu pensamento e em como você, naturalmente, se aproxima do mundo. A literatura tem essa capacidade que transcende o puro entretenimento.

Não adianta pular de Como Eu Era Antes de Você para Graça Infinita de uma vez. Pode até ser feito, mas as dificuldades serão enormes e às vezes tão grandes que causam a interrupção da leitura e uma quebra do processo de evolução, criando bloqueios gravíssimos e dificílimos de transpor. É um trabalho árduo. Cada obra tem o seu valor, cada autor tem seu estilo de escrever e uma mensagem para passar. Ir com calma, dentro do próprio ritmo, e construir gradativamente o conhecimento necessário para ler, digerir e conseguir dialogar com qualquer autor que seja é o caminho pelo qual segui e o caminho que recomendo e tento demonstrar às pessoas. Desta forma, ler Bernard Cornwell não perde a graça mesmo quando você é capaz de ler, com plenitude de absorção, Homero. Dá pra apreciar a literatura em todos os seus níveis. Nada é nulo. Pode ser ruim, muito ruim, mas não nulo.

Essa escalada tem um tempo que é muito pessoal, mas a coleta de informações quase sempre vem do meio em que estamos inseridos. A importância de apresentar referências, de conversar sobre o que se lê e de extrair o máximo de cada obra tem o poder transformador de inspirar outros. É uma lição de empatia e humildade das maiores. Algo que muito falta hoje em dia, inclusive. Por isso, repito, sou fã de leituras coletivas (o projeto do blog tá amadurecendo) e debates. No fim, junto com a ‘Escalada Literária’, podemos praticar uma série de valores que tanto sentimos falta no cotidiano. Adquirimos o hábito de sermos cada vez mais contestadores, solícitos e compreensivos. Viu como todas as ideias até aqui se misturam? É um conjunto de ações que gera um conjunto de resultados. O pensamento é disseminar a ideia e devagarinho a gente vai colhendo os frutos.

João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro

Por Caio Lima

Literatura nacional nunca foi meu forte. É até engraçado, porque eu sempre tive algum contato, principalmente na época pavorosa dos vestibulares. Várias bancas, cada uma com uma lista de livros diferente e lá vai Caio tentar ler aquilo tudo. Claro que eu coloquei os mais curtinhos como prioridade. Quando eu vi o absurdo de colocarem um livro de quase 700 páginas numa dessas listas, mas é claro (muita ênfase nesse claro) que eu nem toquei no livro. E assim os anos correram e eis que agora, sem leituras obrigatórias, esse calhamaço me aparece novamente. O momento não poderia ser mais oportuno.

Capa_Viva o povo brasileiro - Edicao especial.inddViva o Povo Brasileiro é um grande romance de formação sobre o Brasil. Do Brasil colônia até a ditadura (o livro foi lançado em 1984), o livro traça do nascimento das raízes do país até o século XX, revelando um estágio de maturidade que nunca foi atingido.

É complicado falar sobre as personagens do livro pelo fato de encontrarmos essas personagens todos os dias na rua. O Brasil não mudou tanto assim do século XVI para cá. Não mesmo. Somos um padrão completamente arcaico de sociedade, justamente por não reconhecermos a nossa formação. Nossa evolução como sociedade acontece a passos vagarosos. Passos esses que só são dados após muita luta, mas que logo retrocedem pela falta de vontade e paciência de um povo criado para ser arcaico, conservador e fechado. E, nessa missão de elucidar o que deveria ser óbvio, Viva o Povo Brasileiro é simplesmente fenomenal.

Quem foi incumbido de colonizar o país, continua colonizando. Quem foi escolhido para ser colonizado, continua tomando na cabeça. Os reguladores entre ‘quem manda’ e ‘quem obedece’ também mantém um padrão bem identificável. Em todos os diferentes estágios dos quase 500 anos de Brasil retratados no livro, muitas coisas mudaram, mas os valores sociais sempre foram mantidos.

“Sabe como é a baleia que se apelida toadeira? É o mais valente ser vivente existente, que recebe pelo flanco as arpoadas, que se vê cercado dos inimigos mais mortais que qualquer bicho pode ter, que vê o mar virado num espinheiro fatal e então, levantando o dorso como um cavalo de nobreza, sacudindo a cabeça como um combatente que não se rende, não dá ousadia de bufar, não dá ousadia de gemer, mas segura o ardor de tantos dardos lhe mordendo as costas, manda que seu sangue lhe seja fiel naquela hora e, com um arranco a que nada na Terra pode resistir, estraçalha o que estiver à frente e leva barco, leva gente, leva corda, leva tudo, num carreirão de espuma e água pelos sete mares, vencendo assim quem quer que pensa que é vencido aquele que vencido não vai ser, pela força do orgulho e da resistência.”

Ao atribuir o valor social, histórico e cultural de todos os povos que formaram o Povo Brasileiro, numa Bahia que resume toda a miscigenação que nos identifica, durante todo o livro é bem latente como foram suprimidos e marginalizados a cultura e costumes dos colonizados, escravizados e servidores. Mas essa marginalização não é fruto, simplesmente, da relação entre dominado e dominante (explica muita coisa, mas não é só), existe algo bastante arraigado no inconsciente coletivo que normaliza, relativiza e apazigua algumas atitudes antissemitas, até. Um povo tão mestiço, tão plural e tão criativo não deveria ser refém de certos pensamentos que são elaborados e ratificados por fundamentações tão desumanas e de ideologia tão rasteira. É usar o povo como agente regulador do próprio povo.

Tenho que ressaltar a parte dos orixás na Guerra do Paraguai. Mas que sequência magnífica! Admito conhecer muito pouco das religiões e cultura africanas, mas após isso é basicamente impossível não ir buscar mais referências. É deslumbrante, envolvente e de uma escrita soberba!

Os pulos temporais durante todo o livro, de um século para outro a todo o momento, continuam a explicitar a questão de que o Povo Brasileiro, mesmo com o passar dos séculos, tem suas raízes formadoras muito evidentes. Que a ordenação social, a partir de todo o processo de colonização do país, continua ali historicamente e que, apesar dos avanços e das incursões e inversão de posições de elementos desse grande agrupamento social em agrupamentos sociais antes inacessíveis, a grande massa continua estática sofrendo dos antigos males.

É uma história de gerações seculares, profunda e bonita. Tem amor, tem luta, tem injustiça, tem briga, tem guerra e tem alma. Ubaldo só precisava de um grande romance para consolidar a carreira, mas acabou escrevendo uma carteira de identidade que precisa ser lida. O povo brasileiro é plural, bonito, cheio de influências e capaz de pensar por si só, mas precisa se desfazer de muitas vendas ainda. Viva o Povo Brasileiro é um grande caminho para olharmos nossas raízes.

P.S.: Notaram que só resenhei autores que começam pela letra J? É coincidência pura e simples. Não há nada de conspiração por aqui. Nada que vocês saibam, evidentemente.

Enquanto isso o Desafio Livrada! 2016 segue assim:

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann
2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski
3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe
4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko
5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino
6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade
7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex
8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro
9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg
10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein
12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino
13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger
14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal
15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Segue o baile.

Americanização da Literatura

Por Caio Lima

“(…) um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias (…)”.

Mario Vargas Llosa

A virada do milênio, além de ter possibilitado nossa terna continuidade neste planeta achatado nos polos (já que o mundo não acabou em 2000), veio carregada de uma nova era para o entretenimento de massas. Há uma profusão de sagas em longas-metragens e séries com intermináveis temporadas fidelizando cada vez mais admiradores e demarcando no mercado marcas criadas para explorar uma complexa rede. E com o passar da primeira década o volume de séries aumentou a cada virada de estação. Antes de acabar a temporada de uma, já estão sendo anunciadas as premières de três ou quatro novas séries que você, como imposição, precisa acompanhar.

Repare bem que todas essas séries/sagas seguem um padrão, uma estilística comercial, bem semelhantes umas às outras. Formam, hoje, a principal rede de entretenimento massivo e, com o advindo do Netflix, isso tem se expandido de forma absurda. O lastro para crescimento num curto período é vertiginoso e as previsões são extremamente otimistas para os entusiastas do mercado. Mas falando em roteiros e tramas, um ponto que é de comum acordo é: quando não são simples adaptações ou superlativos, essas séries/sagas são em parte inspiradas em livros, sejam clássicos ou contemporâneos. A indústria do entretenimento foi capaz de se utilizar do espaço literário e fazer ser consumido um produto eficazmente mastigado e de assimilação instantânea.

LEMBRANDO QUE: a questão aqui é em como a máquina do entretenimento gira, e não contestar a qualidade de obras que para mim são incontestáveis.

Partindo desse pressuposto, existe uma logística reversa, já que tudo (ou quase tudo) nesse mundo é uma via (crucis) de duas mãos. Com a simplificação do meio literário massificado pelos filmes e séries, as pessoas que consomem os livros querem, exigem, necessitam e defendem a ideia de que os livros devem ter semelhante poder de compactação, o mesmo poder “miojístico” de assimilação. Assim, o meio literário cai na mesma roda do entretenimento de massas. A emergente produção de sagas literárias, os textos amplamente descritivos e visuais e tramas roteirizadas (quase cinemáticas) focadas numa estrutura pré-moldada de escrever, garantem o sucesso de um mercado tido como emergente.

Então é gerada uma nova ordem onde a literatura é escrita para o entretenimento audiovisual e o entretenimento audiovisual é criado de forma a ser reproduzido, também, pela via literária. Vendo os autores que mais lucraram em 2015 (Tabela 1) pode-se notar que todos têm seus trabalhos traduzidos em filmes e séries de TV e esses trabalhos se enquadram nas obras que mais arrecadaram nos dois meios. Existe uma tendência que presta mais e mais atenção no estímulo dessa correlação entre os meios de entretenimento para fidelizar e comercializar marcas e doutrinar a distribuição de entretenimento mundial.

Autor

Lucro no Ano de 2015

País de Origem Principais Obras
James Patterson US$ 89 milhões EUA Trilogia Bruxos e Bruxas; Romances policiais
John Green US$ 26 milhões EUA A Culpa é das Estrelas; Cidades de Papel
Veronica Roth US$ 25 milhões EUA Trilogia Divergente
Danielle Steel US$ 25 milhões EUA Um Longo Caminho para Casa; Cinco Dias em Paris
Jeff Kinney US$ 23 milhões EUA O Diário de um Banana
Janet Evanovich US$ 21 milhões EUA Saga Stephanie Plum
J. K. Rowling US$ 19 milhões Reino Unido Saga Harry Potter
Stephen King US$ 19 milhões EUA O Iluminado; It – A Coisa; Sob a Redoma
Nora Roberts US$ 18 milhões EUA Série Mortal; Trilogia O Círculo
10º John Grisham US$ 14 milhões EUA Tempo de Matar; O Júri; A Confissão
11º Dan Brown US$ 13 milhões EUA O Código da Vinci; Inferno; Ponto de Impacto
Gillian Flynn US$ 13 milhões EUA Garota Exemplar; Lugares Escuros
Rick Riordan US$ 13 milhões EUA Série Percy Jackson; Série de Apolo
Suzanne Collins US$ 13 milhões EUA Trilogia Jogos Vorazes
15º E. L. James US$ 12 milhões Reino Unido Trilogia 50 Tons de Cinza
George R. R. Martin US$ 12 milhões EUA Série As Crônicas de Gelo e Fogo

Tabela 1: Autores que mais arrecadaram em 2015, segundo matéria da Forbes.

Mas o que é consumir literatura? Quais tipos de obras entram no país de forma massiva? O que isso tudo tem a ver com a formação dos novos leitores brasileiros?

Os diversos segmentos de entretenimento emergentes são todos baseados no mercado e nos moldes do entretenimento norte-americano. As portas, hoje, estão escancaradas para qualquer produto que nos entretenha produzido por eles ou nos seus padrões. Isso influencia absurdamente o mercado editorial do país. Fez-se um ciclo em que o consumo de um produto se dá por todas as vias possíveis: filmes, séries, artigos diversos, jogos e, finalmente, os livros.

Com um mercado reduzido ao longo da história, as editoras brasileiras viram nessa indústria emergente de entretenimento a oportunidade de angariar recursos para se estabilizar no mercado (Tabela 2). É difícil culpa-las, afinal, tudo se resume em negócios, em cifras. A responsabilidade do que é lido é de quem lê… É? Não necessariamente.

Título Autor Número de Exemplares Vendidos Nacionalidade Editora
Grey E. L. James 174.796 Reino Unido Intrínseca
Se Eu Ficar Gayle Forman 100.757 EUA Novo Conceito
Cidades de Papel John Green 94.771 EUA Intrínseca
Toda Luz que Não Podemos Ver Anthony Doerr 71.954 EUA Intrínseca
Para Onde Ela Foi Gayle Forman 65.371 EUA Novo Conceito
Cinquenta Tons de Cinza E. L. James 43.096 Reino Unido Intrínseca
A Garota no Trem Paula Hawkins 42.023 Zimbábue Record
Simplesmente Acontece Cecelia Ahern 40.216 Irlanda Novo Conceito
Cinquenta Tons Mais Escuros E. L. James 36.443 Reino Unido Intrínseca
10º Como Eu Era Antes de Você Jojo Moyes 34.033 Reino Unido Intrínseca
11º Número Zero Umberto Eco 31.878 Itália Record
12º A Garota na Teia de Aranha David Lagercrantz 28.634 Suécia Companhia das Letras
13º Guerra Civil Stuart Moore 27.229 EUA Novo Século
14º Cinquenta Tons de Liberdade E. L. James 26.299 Reino Unido Intrínseca
15º Somente Sua Silvia Day 19.713 EUA Paralela
16º As Espiãs do Dia D Ken Follett 19.250 Reino Unido Arqueiro
17º A Guerra dos Tronos George R. R. Martin 18.388 EUA LeYa
18º O Irmão Alemão Chico Buarque 17.853 Brasil Companhia das Letras
19º Para Sempre Alice Lisa Genova 17.033 EUA Nova Fronteira
20º Paraíso Perdido – Filhos do Éden Volume Dois Eduardo Spohr 16.171 Brasil Verus

Tabela 2: Os 20 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2015, segundo contagem do Publishnews.

A questão é que estamos nos enganando quando dizemos que há um crescimento “fora da curva” de leitores. Há uma unilateralidade bem evidente no mercado editorial atual, onde o montante de vendas de autores norte-americanos (ou que elaboram suas obras com esse conceito) é clamorosamente maior que as publicações dos próprios autores brasileiros. Não que não existam autores de best-sellers lendários, mas há de se reparar que a grande maioria das obras são provenientes desse modelo “livro-produto” com marcas já consolidadas, best-sellers com uma estratégia de mercado embutida.

Alguns autores trataram de se apoderar desse fanatismo pelo consumo e desse endeusamento que o capital é capaz de proporcionar para escrever suas marcas literárias. Desta forma, fenômenos editoriais mundiais surgiram da noite para o dia, fomentados pela cultura poderosa do entretenimento de massas norte-americano.  Fenômenos estes que em menos de uma década tem lançados: uma série de televisão com 15 temporadas garantidas por contrato, uma sequência de filmes, o dia especial da marca (vulgo “título da obra literária de maior reconhecimento do século segundo o The New York Times”) e produtos e mais produtos empanturrando o mercado, de cereais ao enxoval. Vale tudo. São clássicos forjados pela força do mercado. Então o crescimento que existe hoje é de consumidores de certo produto ou marca. Os livros deixaram de ser uma via principal e independente, e se tornaram itens no meio de uma demanda gigantesca de artigos diversos criados especialmente para seguidores fieis.

E esse é o post de inauguração!!! (Fogos [as drogas chegaram] e chuva de papel picado [feita com títulos de eleitor]).  Comentem, critiquem e compartilhem, pois criar uma via de debate amplo é a intenção do canal. Alimentem a intriga!