Charles Dickens – Tempos difíceis

Por Caio Lima

Depois de uma Flip completamente fora das tendências editoriais das grandes máquinas de cuspir livros brasileiras, dois autores em particular chamaram muito a minha atenção pela literatura que praticam, claro, mas não foi só por isso. Marlon James e Paul Beatty expuseram suas contradições sem vergonha de serem felizes. Mais preocupados em fazer algo literariamente relevante que abocanhar fatias de mercado específicas, ambos relataram aspectos importantes do que produzem. Inclusive, o ponto que dá início a esse texto é uma frase que circulou pelas redes sociais do próprio evento, quando Marlon James cita Dickens na seguinte frase: “Charles Dickens defendeu manifestações que mataram mais de 400 jamaicanos. Era um filho da mãe. Ao mesmo tempo, poucos escritores tiveram uma influência tão grande em como estruturo meus livros”.

downloadNum primeiro momento, a frase foi engraçada. Mas, passado o riso, veio uma onda de reflexão profunda e algumas pessoas ao redor foram embora da mesa. Como falar mal do, talvez, maior escritor inglês de todos os tempos? Quem esse jamaicano que escreveu um romancezinho pensa que é?

Tendo lido apenas “Tempos difíceis”, eu não tenho como saber se, dentro de sua vasta obra, Dickens foi racista. Também não me preocupei em pesquisar se há um dossiê que aponta racismo, misoginia, homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito. Provavelmente existe. Dei um google e já apareceu uma infinidade de resultados sobre maus tratos domésticos, racismo e, pasmem, assombrações. O cara batia neurose com fantasmas. Enfim, o relatório parece ser grande. Lerei com calma. O problema todo é: a obra de Dickens, uma vez lida, não há como não passar em branco. E o discurso é tão próximo da nossa realidade atual, que se afeiçoar a Dickens é um passo natural para o leitor.

Pensem em “Tempos difíceis”. A cidade de Coketown, dominada por duas linhagens aristocráticas de origens distintas, se esfacela diante da necessidade de acúmulo de capital e a hipocrisia reinante na cidade. Um retrato das urbes inglesas do século XIX. Um universo micro que pontua características de um novo modelo de sociedade que reproduz práticas antigas, como a educação usada como doutrina de vertentes singulares de pensamento, a escravidão e as injustiças sociais com camadas não contempladas com direitos à cidadania, mas que carregam o fardo mais pesado dos deveres, sem margem para erro.

O martelo bate pesado para quem não pode argumentar, persuadir ou amaciar o ego do juiz. Num simples caso de roubo, o filho do dono dos meios de produção, viciado em jogo e com dívidas altas, preparou evidências para que um funcionário comum levasse a culpa. É incontestável a previsibilidade de culpa no caso. Mínimas evidências são capazes de dissuadir uma forte suspeita nesses casos de maioridade social. Imagine se ele estivesse com uma garrafa de Pinho Sol nas mãos, o escândalo que não fariam. Pena a marca não existir à época, o enredo de Dickens tomaria contornos muito mais dramáticos.

A exploração da miséria humana nas grandes cidades em meio a uma revolução que, a despeito dos meios de produção, acelerou o acúmulo de capital e atrasou o avanço humano, lança sobre o homem uma espécie de dívida inata. Os benefícios para a humanidade citados pelos livros de história citam não são acessíveis à grande parcela das pessoas até hoje. A necessidade de sobreviver não permite que sobre tempo para usufruir de qualquer inovação. A necessidade de ganhar dinheiro para sobreviver não permite que sobre alguma farpela no final do mês para adquirir, de alguma maneira, o direito de usufruir tudo aquilo que fez com que a humanidade evoluísse. Ser humano é cada vez mais complicado. E caro.

As contradições que Dickens impõe a sua produção literária extrapolam o livro em si. Numa época de revolução e ordenação social em castas muito bem fixas e quase intransponíveis, a preferência por ser publicado em fascículos por revistas acessíveis à população de baixa renda e, via de regra, baixa escolaridade, era uma tentativa de equalizar a distribuição de entretenimento, conhecimento e humanidade. Talvez Dickens tenha sido o único da era vitoriana a não erguer uma redoma em torno de si e seus dilemas pessoais, numa autocrítica blasé e sectária. A opção por tratar de contextos puramente sociais com personagens pouco convencionais para a época é, definitivamente, surpreendente.

Tudo muito bonito, é verdade. O problema é que há uma crise de identidade geral entre o olhar que temos sobre a arte e a importância que damos a ela.

Eu não entendo literatura da mesma forma que você, que está lendo esse texto. Muito menos da mesma forma que alguém do século XIX, como o próprio Dickens. Ou como Marlon James, que se inspira em Dickens mesmo sabendo que ele apoiou um massacre contra seu povo e era, muito provavelmente, racista. Afinal, como você enxerga a arte? Mais precisamente, a literatura? É realmente uma pergunta, respondam nos comentários.

Essa é uma excelente temporada para derrubar cânones literários. Ou ao menos reverter sua polaridade e tomar nota de algumas demandas não correspondidas pelas formulações vigentes. Sabemos como nosso cânone ocidental é formado. Sabemos da quantidade de vozes apagadas na história. Isso não desqualifica a literatura produzida por Dickens, absolutamente. Ele tem seu lugar cativo na história da literatura — e na minha estante —, mas se há a possibilidade de contestá-lo, por que não o fazer? Se a arte surge como contestação e quebra de paradigma, seria ilógico eu não poder contestá-la.

As vozes que Dickens abre têm relação intrínseca com um processo de industrialização forçado e a formação de nichos populacionais miseráveis e invisíveis para a sociedade que consumia literatura à época. É difícil reparar numa realidade senão a sua, ainda mais quando a sua é uma realidade de privilégios, sabemos bem. Portanto, muito dessa vontade de escrever sobre a miséria de Londres — ou Coketown, no caso específico de “Tempos difíceis” — é proveniente de uma juventude afetada pela famigerada Revolução Industrial. Tendo que trabalhar desde muito novo, a vivência do autor com a miséria e, mais precisamente, com as pessoas afetadas por essa miséria, fez com que o foco de observação fosse completamente diferente dos seus pares literários. Mas existem misérias, ou nuances, que Dickens jamais conseguiria representar na sua literatura.

A literatura que se busca hoje é, conceitualmente, mais plural e incisiva em questões individuais. Os conceitos puramente classistas do século XIX não conseguem, por mais que se tenha uma dose gigante de boa vontade em empreender sentidos às obras, saciar a fome de representatividade de uma geração que une os conceitos de gênero, raça e classe num caldeirão fervendo, derretendo qualquer suspeita de noções pré-concebidas sobre suas identidades – hoje, tantas, que a gente fica até meio perdido.

Nada mais natural, portanto, que um gênero como a autoficção cresça e se torne a nova tendência literária aqui no Brasil. Suis generis, é o literato brincando com sua própria história e expondo demandas individuais. Num país tão plural e caótico, é difícil ter coragem para expor demandas que não sejam únicas e, principalmente, próximas das vivências de cada autor. De fato, é mais uma tática de defesa do mercado editorial que, além da crise financeira, não sabe se comportar em relação a demandas sociais. Ou simplesmente as ignora, vai saber.

Sabemos que autoficção não nasceu aqui e que não existe apenas isso sendo publicado no país. É uma questão de demanda, de fomento. Um relato individual é incontestável, por mais contestáveis que sejam as ideias expostas pelo autor. Sempre funcionará como um mea culpa bastante eficiente. Isso não quer dizer que sejam produções ruins. É mais uma visão geral. O indivíduo, enquanto unidade produtora/consumidora de literatura, nunca terá contraponto ou oposição plausível a acusações feitas por massas. Afinal, quem pode mensurar o impacto das suas próprias memórias no processo criativo de um livro? A discussão se estenderia pela eternidade. São as grandes editoras fazendo o que sabem fazer de melhor: business.

O que não impede que surja outro fenômeno, numa literatura mais social e politizada, que queira representar nichos específicos da sociedade. Uma literatura endereçada, com representatividade e, normalmente, colaborativa, proveniente de mercados e editoras pequenas, com pouco investimento e que acabam caindo nas graças de nichos cada vez maiores e diversos por apresentarem visões diferentes de mundo, muito particulares e pouco aparentes. Vozes que se erguem.

Nesse samba de uma nota só pelo qual os círculos literários têm passado, Dickens, além de se tornar figura contestável, fica um pouco esquecido, num limbo. Ele não produziu uma autoficção supra individual e incontestável, tampouco foi capaz de atender demandas específicas, apesar de ter tentado dar voz aos excluídos da sociedade inglesa. O que sobra desses dois contextos é literatura. E isso nos leva de volta à frase de Marlon James.

James não relativiza um Dickens racista na sua frase. Na verdade, ele expõe uma face que muito incomodou boa parte do público, que fez bico e ficou meio estupefato. Seu romance sofre influência direta de Dickens, é perceptível. Mas o contexto, a reinvindicação, o sentido da escrita de Marlon é completamente distinto. A influência não descaracteriza o desprezo, o desagrado. E, por mais que achem, não é engraçado, peculiar ou oblíquo que James tenha se inspirado em Dickens para se formar autor. Essa história de superação digna de programas de auditório transmitidos aos domingos à tarde só pode ser contada graças a visão crítica de James sobre Dickens.

Ler “Tempos difíceis” só me provou duas coisas: a primeira — e óbvia — é que Dickens é um grande escritor e eu deveria ter começado a ler sua obra mais cedo; a segunda passa pelas falhas de construção do nosso senso crítico como leitores e a formação e a falta de conhecimento que temos do nosso poder de disseminar informação. Somos veículos muito frágeis no que tange ao diálogo, incapazes de construir pontes permanentes que privilegiam a compreensão de outros mundos, tempos e ideais. A verdadeira revolução não carece de mais energia. Carece, sim, de onde e como concentrar essa energia.

É aí que o imponderável de Dickens aparece. A menina rica, criada para ser uma esposa perfeita, dentro de uma educação completamente tecnicista e que pretere o irmão à luz da justiça e da própria consciência. Os processos desenvolvidos até o desfecho, as ações desencadeadas por um senso incomum de liberdade de pensamento e justiça social e, finalmente, a revolução em Coketown. Sim, revolução. O processo que se passa em “Tempos difíceis” é revolucionário, crítico e silencioso.

Isso não anula nem por um momento sequer a verdadeira face de Dickens. Essa face racista que eu estou indo pesquisar agora. É apenas literatura. E literatura é tudo o que sobra. Se você não souber aprecia-la e critica-la, fatalmente Dickens ou seu autor favorito perderão completamente o sentido. Os alicerces para a contestação também se perdem no processo, rapidamente colocando o leitor numa bolha de privilégios onde ele não sabe exatamente contra quem ou o que lutar. E as teorias, o desagrado e a luta se tornam tão vazias de razão que o sentimento revolucionário, aquele romântico, se esvai junto. São muitos os exemplos dos que se tornaram ditadores de si mesmos por terem perdido a conexão com seus alicerces.

Num mundo literário tão cobiçado por seu comportamento piramidal, acabamos por esquecer que praticar a literatura no cotidiano é um ato de retratação e justiça contínuos. Após um século e meio, enxergamos faces de Dickens expostas por vozes que se levantam na busca de retratar e preencher as lacunas deixadas pelo escritor inglês e, não menos importante, balançar as bases já pouco sólidas do cânone (não vou esticar o assunto sobre a criação de um contracânone, isso fica para outro texto, mas que é bastante interessante, é). Gerar incômodo, provocar discussão, bagunçar a ordem. Ora, ora, se não é exatamente por isso que Dickens é louvado.

Marlon James se inspira em Dickens, e, aqui, Dickens é tratado não como um autor do cânone literário ocidental, mas como um autor de reconhecida importância e que deve ter sua obra revista e confrontada por olhos que enxergam além do que era visto no século XIX, olhos esses que caem nas redes de um mercado que enxerga dois polos distintos pelo simples fato disso ser melhor pros negócios, mercado do qual o Rede de Intrigas foge para trazer esse tipo de texto que era para ser apenas sobre um livro, mas que começou com uma frase de Marlon James, que se inspira em Dickens. Ciclos que se renovam. São tempos difíceis.

O Sebo Rede de Intrigas está de volta! Confiram!

Lima Barreto e a loucura: os porões da escravidão no século XX

Por Caio Lima

Hospício Nacional do alienados - Acervo do IPHAN, Inventário

Admito: estava tentando fazer deste texto tudo o que eu nunca fiz na vida: um texto sério. Verdade! Eu juro que tentei. Mas a medida em que me aprofundava no tema, mais pessoal minha linguagem ficava e, de repente, o texto parecia um grande amontoado de parágrafos escritos por várias personalidades, mas nenhuma sequer continha minha essência ou personalidade ou alma ou jeito. Por isso desmanchei absolutamente tudo e resolvi reescrever do jeito de sempre. Me desculpem se isso os frustra, mas não dá para ser crítico sério nesse espaço altamente subversivo. Seria tanto loucura quanto a morte do Rede de Intrigas, o queridinho do submundo literário.

Por falar em loucura e morte, ambas motivam esse texto. Numa sequência biológica/patológica/qualquer-coisa-lógica, uma leva a outra num processo irreversível (não importa a ordem). Numa sequência histórica, as duas se confundem e se completam ao designar o destino de milhares. Acredito que o grande problema aqui é definirmos o que é loucura e o que é morte, afinal.

Em “O cemitério dos vivos”, de Lima Barreto, comecei a identificar a loucura como sendo mais uma questão social-normativa que patológica. Afinal, quem nunca fez uma loucura de amor? Ou quem nunca ficou louco na balada, chapadão mesmo? E aquela amiga desbocada que fala o que pensa, né, “miga, sua louca”? Pois é, a loucura é vivenciada comumente por nós e muito bem aceita, aliás. Tem lá seu charme com um pouco de malemolência.

Também vem misturada com uma porção de raiva e pitadas de preconceito, já que talvez aquela mina que tenha se recusado a ficar contigo na balada precise de uma camisa-de-força, porque ela é uma “feminazi histérica”. Ou “aquele bando de faveladinhos imitando bandido, tudo marginal e maluco, porque se a polícia chega vai derrubar sem dó”. “Acho que minha empregada tá louca, disse que o filho dela vai comprar um carro zero. Que absurdo!”

Voltemos um pouco no tempo.

O processo de abolição da escravatura, formalizado em 1889, não foi tão seguro e correto na prática quanto parecia ser em aspectos morais. A população negra, já num processo contínuo de alforria, continuou sendo explorada, agora vivendo com um soldo irrisório (isso quando conseguiam emprego) para declarar que os escravos libertos teriam algum padrão de vida que não fosse a miséria.

Um retrato atual do centro do Rio de Janeiro não seria tão diferente da imagem que temos do centro no início do século 20. Mudam-se as proporções, mas não a composição do quadro. Classe, raça e gênero muito bem definidos, até em estereótipos, se cruzando. Do dono do meio de produção até o mendigo.

Com essa quantidade de mendicantes, os aglomerados periféricos cada vez maiores, a ascensão de uma classe criminosa assolando a cidade e milhares de trabalhadores em regime de servidão consentida (não dá nem para chamar de subemprego); meios de controle populacional tiveram de ser estabelecidos. Primeiro, o embrutecimento policial entrou em voga. A repressão brutal de uma miséria criada pelos próprios mandatários do Estado é uma alternativa óbvia desde sempre, mas não o suficiente para essa nova época de “liberdade e progresso”.

Uma das muitas soluções foi a internação em hospícios. Afinal, é muito fácil ser declarado louco quando se está morto de fome e morando na rua. Uma miséria, repito, induzida, porém não programada. Das condições descritas por Lima Barreto, o quão ser declarado louco e jogado num sanatório não é uma maneira de extermínio? Qual a possibilidade real de reintegração na sociedade ou, mais simples, de ser tratado como um simples ser humano?

Antes de Lima Barreto se internar e resolver escrever sobre o sanatório e a loucura, Machado de Assis, no conto “O alienista”, já havia tocado na ferida da loucura como regimento social. Quem não riu do auto-diagnóstico do louquíssimo dr. Simão Bacamarte? É lógico que a superficialidade dos questionamentos filosóficos ali escritos é interessantíssima. De médico e de louco todo mundo tem um pouco, já diz o ditado. Mas esse é só o começo de uma longa reflexão, é raso. “O alienista” não existe à toa. Talvez fosse o objeto do desejo machadiano abrir uma outra discussão: já que todos somos um tanto quanto “loucos”, por qual razão aqueles internos estão presos? Qual medicina é capaz de diagnosticar a loucura? Por que aceitar o diagnóstico de forma tão passiva? Qual o perfil dos internos?

O questionamento à loucura já existia às beiras da abolição da escravatura, denunciada muito sutilmente por um autor negro. Coincidência, será? Obviamente que não. Se levantarmos dados dos registros das casas psiquiátricas do Rio de Janeiro desde 1880, descobriremos que os internos negros são sempre maioria. Não estaria Machado denunciando, com toda sua habilidade narrativa, um processo crescente de higienização social? A mesma denúncia que faz Lima Barreto três décadas depois, quando sentiu na pele o duro processo que seus iguais passavam. Vemos que a ficção, mais uma vez, além de ter a função de sensibilizar, funciona como denúncia.

Lima Barreto se internou voluntariamente por conta do alcoolismo, que o estava esgotando até os últimos recursos. Não que ele tenha vivido muito após sua internação (entrou em dezembro de 1919 e morreu em meados de 1921), mas foi o suficiente para deixar anotações de um diário e um romance incompleto, os quais o permitiram momentos de frágil sanidade no meio de um ambiente mais parecido com uma catacumba.

Conforme Lima relata no seu livro, sob o pseudônimo de Vicente Mascarenhas (um dos tantos pseudônimos encontrados nas anotações, sendo este o adotado oficialmente), os internos variavam de causa e origem, mas a grande maioria presente no pátio era de negros com problemas diversos que acabavam por desenvolver a “loucura” num ambiente que mais lembrava uma masmorra; muito parecido com um campo de concentração, ou com uma senzala. Os maus tratos, a falta de assistência médica, a alimentação ridícula, enfim, a falta do básico em se tratando de um lugar que supostamente deveria ajudar “loucos” a viverem com alguma dignidade.

Os manuscritos de Lima Barreto já funcionavam como olhos dentro de uma realidade tão periférica, mas tão periférica, que se torna inexistente às vistas do cidadão médio brasileiro. Talvez, em certo momento tenha ocorrido um clamor tão grande pelo achado dos manuscritos, que as letras foram mais relevantes que a condição humana, e “O cemitério dos mortos” acabou passando por mais um livro ficcional de Lima Barreto com cunho político-social, não obtendo a atenção devida.

Lima Barreto, 1914 - Acervo do IPHAN, Inventário_350

Um de nossos maiores autores teve a sensibilidade de, mesmo num período crítico de sua vida, relatar de forma tão singela e vívida um processo maligno que objetivava tornar invisível e justificar o contínuo extermínio de negros, em sua maioria. A loucura se confunde com a morte a partir do momento em que o louco se torna invisível aos nossos olhos. As portas das casas psiquiátricas são as portas do próprio purgatório, onde almas errantes devem passar por provações que nós, dentro de toda nossa normalidade, não temos noção do que seja. Até porque, nós não tratamos dos loucos, não sabemos o que fazer com eles, como reagir, como falar-lhes ou como olhá-los. Eles não existem para nós. São apenas loucos e fogem da nossa alçada. E essa loucura abrange tantas misérias humanas que se reconhecer num louco é desumanizar-se. O que não é normal não é norma, não é aceito, não é padrão e, logo, não é humano.

Já havia um minidocumentário, de 1979, intitulado “Em nome da razão – Os porões da loucura” (facilmente encontrado na internet), denunciando as condições subumanas em que internos do Hospital Colônia, incapacitados, segundo laudos, de manifestarem cuidados próprios eram tratados. Porém, em fins de ditadura, sabemos que o jornalismo investigativo não era visto com bons olhos, ainda mais em se tratando de unidades mantidas pelo Estado e que promoviam a nossa famigerada higiene social em busca de ordem e paz nos grandes centros urbanos.

Eis que em 2013, quase 100 anos após a segunda internação de Lima Barreto no sanatório, foi lançado o livro “Holocausto Brasileiro”, da Daniela Arbex. Mais uma denúncia contra o sistema de extermínio de pobres, negros, mulheres e demais minorias através de uma casa psiquiátrica, pontuando a loucura como justificativa. Como no documentário de 1979, há pela jornalista um reaproveitamento e aprofundamento do holocausto acontecido no Hospital Colônia, em Barbacena, Minas Gerais.

A barbárie a que foram levados os internos do Hospital Colônia ao longo dos séculos em nada difere da que Lima Barreto passou em 1919. Por isso me pergunto se a denúncia sobre o Hospital Colônia e suas práticas, em Barbacena, realmente chocou a nós todos com a força que deveria, ou se a descrença natural que o leitor médio brasileiro mantém na literatura de ficção como meio de apontar feridas é tão grande que, apesar de termos lido tanto sobre a realidade social brasileira, só acreditamos que essa realidade tão cruel existe quando esfregada na nossa cara por meio de um texto jornalístico. Ainda prefiro me forçar a acreditar na humanidade da classe literária por aqui, apesar de minha intuição apontar o contrário.

É claro que o aporte midiático e material quase 100 anos depois de Lima Barreto ter sido um interno, é algo infinitamente maior que o disponível à época. Porém, reparem bem, que o projeto de compensar mazelas criadas por uma sociedade extremamente desigual com o diagnóstico de “loucura” se mantém intacto. A loucura e a morte sempre andaram de mãos dadas, mas nunca se misturaram de forma tão homogênea quanto o que podemos ver por meio de “O cemitério dos vivos” e “Holocausto brasileiro”. O laudo emitido pelo médico é uma condenação. Existe um tribunal funcional, com um processual bastante veloz e que atua à margem da lei sem a interferência de terceiros, executando sentenças de morte ao bel prazer do Estado e seus pares.

Muito se pode falar dos motivos pelos quais uma sociedade chega a esse estágio de indiferença para com as parcelas miseráveis da população. Teorizar e justificar comportamentos doentios, definitivamente, não é o caso do Rede de Intrigas. Confabulamos sobre a origem da vida, sobre o amor e a saudade por aqui, mas este nunca será um espaço para a racionalização da agressão, do desprezo, da indiferença e do preconceito. Nunca será! Entretanto, apontar algumas verdades históricas é necessário nesses casos. Afinal, após todo esse alinhamento histórico, um texto que de tão organizadinho chega a dar orgulho, eu não ficaria sem estragar toda a organização e definhar o texto em milhares de questões que vocês não vão me responder, mas com certeza irão refletir sobre.

Esse sou eu e vocês já deveriam estar acostumados. Hehehe.

Apesar dos sanatórios terem sido derrubados, o processo de higienização social continua. O show tem que continuar, não é mesmo? O que o atual prefeito de São Paulo fez em maio deste ano tentando “livrar” a área da cracolândia dos moradores de rua é um ato fascista e, naturalmente (como convém à raça), covarde contra o qual não se tem defesa, já que o próprio Estado é o mediador das ações. É uma prática comum no país e tende a ser cada vez mais enfática. Os monstros sempre serão os que não podem falar. A caça aos menos favorecidos alimentada pela desculpa da limpeza social, nada mais é que uma limpeza étnica que vira e mexe assola a cabeça do brasileiro médio. Nada saiu do lugar, apenas os motivos mudaram.

Para além disso tudo, há o contínuo desrespeito com as “minorias” que buscam espaço e direitos, já que nem todos são iguais perante a lei (Rafa Braga que o diga). O sentido de loucura tem desertado os drogados, doentes e miseráveis vagarosamente para ocupar-se de abranger os grupos sociais que lutam ativamente por uma sociedade realmente igualitária, educada e respeitosa para com todos os seus cidadãos, sem ressalva ou asterisco. Não se assustem se negros, o movimento LGBT, mulheres, índios, deficientes físicos e outros forem comumente taxados de malucos e colocados como extremistas sanguinários por pedirem igualdade, apenas. É o novo sentido que a loucura se apossa para ferir mais e mais as liberdades de quem procura e precisa de voz.

Num sentido social, a loucura parece ser uma licença poética para uma ordem de extermínio. Após passar tanto tempo estudando para esse texto, sinto que todo os caminhos da contracultura, que se torna uma cena cada vez mais sólida no país, convergem para um natural enfrentamento à loucura e ao caos que tentam nos impor como norma. É um processo mais espiritual que físico e tenho acompanhado avanços significativos nessa busca, pelo menos em mim mesmo. No fim, somos um enorme universo e precisamos aceitar essa condição. Ou seremos induzidos à loucura da rotina, do consumo, da competição e de todos os outros processos escravagistas aos quais temos cada vez mais acesso.

Autores como Lima Barreto são o verdadeiro motivo do Rede de Intrigas existir. Não que eu possa encarnar as vozes que gritam por baixo das palavras escritas, como é o caso de “O cemitério dos vivos”. Nem nos meus melhores dias eu me sinto capaz de tanto. Mas existe uma motivação grande demais em que a literatura seja mais instintiva que investigada, mais sentida que reproduzida. Preencher vazios, ser real, ser humano. São o que essas vozes me dizem e eu tento erguer a minha própria. Podem me chamar de louco.

Viva, Lima Barreto! A Flip está chegando!