Tenda dos Autores – Parte 01|FLIP 2016

Por Caio Lima e Pedro Mário

Que mané diário o quê! A parada é a seguinte: dividi a cobertura pelas áreas diferentes que fomos. Assim consigo captar melhor o clima de cada lugar e não tenho que ficar me repetindo todo a cada texto que lanço.

Então, meus queridos companheiros, a Tenda dos Autores é onde acontecem as mesas principais, com os temas fechadinhos e aquele glamour de evento literário. Tem café-bom-e-caro com pão-de-queijo-ruim-e-caro (complicado isso aí, organização), o estande dos autógrafos e, claro, a livraria. O telão tá bem melhor, o sistema de som não judia mais dos ouvidos da gente e tiraram aquelas televisões onde as pessoas se aglomeravam pra assistir e impediam a circulação da galera. Agora lá estava uma bela exposição de fotos da Ana Cristina César e ficou um corredor bem bonito, convidativo.

Um ponto positivo foi que realmente as mesas foram mais pé no chão, chamando a galera, com os temas elaborados justamente para isso, igual eu havia falado lá na prévia. Isso foi bacana pra caramba e trouxe o público pra perto. Fez com que a gente se sentisse abraçado, protegido e quente. Brincadeira. Mas isso reduz o distanciamento e o sentimento de onipotência que é criado por quem obtém a cultura e quem está buscando obtê-la.

Outro ponto foi que a presença feminina foi muito mais sentida. Ainda foram chamados mais homens que mulheres, mas todo o tempo o assunto era a mulher, encabeçadas pela Ana C., Clarice e a Svetlana (Veveta para os íntimos, Lana para os chegados). Muita força feminina mesmo!

A questão de lidar com poesia marginal e ter essa força feminina atuante durante toda a festa amplificou a sensação de subjetividade que tem os sentimentos e em como isso se desenvolve no contato de pessoa para pessoa. E porque falar nessa filosofia toda? Por causa dos autores independentes, de rua, que vieram em profusão. Muita gente nas ruas divulgando seus trabalhos. Poesia, prosa, cordel, música, pintura, artesanato e até meus concorrentes com o manuseio do cobre para artesanato. As ruas tiveram voz, finalmente. Manifestações artísticas espontâneas em todas as esquinas. A rua voltou a ser palco de uma festa em Paraty. Isso me soa irônico, já que toda festa em Paraty é na rua. Mas é isso mesmo.

Um passo importante foi a abertura para editoras menores entrarem no game do mercado editorial de grandes festivais literários. É óbvio que as grandes oligarquias editoriais ainda dão as cartas e mandam na cena, mas já vi uns livros hipsters tendo seu destaque lá na livraria, sendo referências de algumas mesas. Isso é um avanço. Espero que isso seja intensificado.

Outra parada muito ligada à poesia marginal é a manifestação política. A arte marginal é ligada à política. Não tentem separar isso. E foi muito importante ver isso ressoar nas ruas. Rolaram manifestações, rodas de conversa, teatro, música e os próprios autores deram suas cartas na mesa principal. Infelizmente quem deu voz a isso não foi prestigiado com lugares de destaque na programação da FLIP, mas rolou. É importante que role sempre. Literatura é arte e arte é liberdade de expressão.

No entanto, as comunidades negra e indígena, e a própria cidade de Paraty, não foram representadas. Ficou um vazio ali que ninguém soube explicar. Vai rolar texto sobre isso aqui e outros problemas que notei na organização. Mas fica o aviso: é melhor essa organização da FLIP se mover já para a próxima edição. Errou feio, errou rude demais.

Outro lance que é bem rude é o preço dos livros. Será que não rola um acordo de desconto progressivo pra galera? Tudo bem que esse ano a livraria estava o fervo e tal, mas livros ainda são caros e consumir os autores que conhecemos ali na FLIP se torna algo inviável. Fica a sugestão pra Travessa parar de traquinagem e começar a agir direito com a galera desprovida de cash. Aqui não rola cash em racks on racks on racks, homie.

Por falar em “racks on racks on racks”, a poesia marginal trouxe mais música pra FLIP. Incrível como música e literatura se confundem, pelo menos comigo. Com vocês não? Pena. Em cada esquina rolava uma parada diferente e várias misturas de improviso. Que bonito de ver!


Agora vamos ao que interessa. Chega de palhaçada! Direto da Tenda dos Autores (naipe Miguel Fallabella no Vídeo Show naquele quadro “Direto do túnel do tempo”) vão minhas breves impressões:

29/06 – Quarta-feira – 19h|sessão de abertura: Em tecnicolor.

Armando Freitas Filho e Walter Carvalho.

A vida é um filme mal filmado. É uma frase emblemática. Uma mesa visionária sobre poesia e cinema, palavra e imagem. Assim, Godard, por exemplo, poderia muito bem ser colocado como um grande poeta ao invés de cineasta e Armando é um grande cineasta ao invés de poeta, que quando escreve “uma gaivota passa riscada a lápis” deixa tudo extremamente visível. A sinergia entre Armando e Walter é notável e a conversa foi leve, espontânea e solta acerca de como capturar a imagem de um poeta. Todas as homenagens ao Armando são merecidas. O cara é bom demais. Mas aí entra o fator Ana C.. Saca que essa é a mesa de abertura de um evento que essa mulher é a homenageada? Foi muito bonito o Armando tentar recriar a imagem dela através da simplicidade dos seus argumentos, mas ficou aquela sensação de que ele economizou demais nas palavras. Da mesma forma que economizou no prefácio que escreveu para o livro “Poética” (já resenhado aqui). Entendo que deve ser difícil recriar a imagem de alguém que foi tão querida e íntima para um público tão curioso dos porquês, e que o Walter Carvalho entrou nessa barca furada junto ao querer saber como funciona o cotidiano e como se dá o processo criativo do poeta. Mas… não dá pra aliviar. A mesa foi bonita, mas faltou Ana C.!

30/06 – Quinta-feira – 10h|mesa 1: A teus pés

Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia

Uma mesa sutil, querida e forte! As três poetisas deram um show e se mostraram muito à vontade ao falar de suas obras, claro, e principalmente da poesia de Ana C.. É sempre muito importante falar em questões de gênero dentro da própria arte, de desconstrução e de destituir estereótipos. Ana C. fez isso tudo em sua curta obra e as três tiveram a sensibilidade de tratar isso de forma muito espontânea, além de incluir esse elemento na construção de suas próprias obras.

Ana C. também foi transgressora na forma de sua poesia, implodindo padrões para explodir a cabeça dos críticos literários. Seus cortes bruscos e seus versos extremamente claros trazem uma afirmação feminina, uma idealização de um espaço que a mulher deve preencher. A quebra de estereótipos é outro ponto que só pode ser traduzido em confusão para os leitores, entendedores e admiradores da homenageada.

Por fim, Laura Liuzzi resume muito bem o que é a poesia e aonde a poesia quer chegar ao traçar o seguinte paralelo: poesia é documentário, o romance é ficção. Poesia é o íntimo, o real, o ideal. Mesmo quando lançado de forma subjetiva, ele é atraente pelas dimensões da realidade que nos fazem observar. A arte respira na forma dessas três mulheres.

30/06 – Quinta-feira – 15h|mesa 3: Os olhos da rua

Caco Barcellos e Misha Glenny

É meio ridículo que dois caras sabichões do submundo do crime organizado, excelentes escritores e extremamente reconhecidos por tudo isso tenham que passar meia fucking hora explicando o ambiente das grandes cidades, o que acontece quando o Estado não consegue atender parcelas grandes da população e quando o Estado fica a mercê de outra parcela bem menor, mas mais abastada. É mais ridículo ainda pelo fato da mesa durar pouco mais de uma hora. Mas aí entra a questão de que é preciso fazer assim, dessa forma. A parada é que os dois são tão bons, que essa meia hora foi muito boa e os trinta minutos finais foram melhores ainda.

Tratar o jornalismo investigativo como os olhos da rua, esse é o cerne da mesa. A questão é que no Brasil o jornalismo investigativo está minguando. Misha, ao reviver o debate sobre a romantização de um fora da lei com a biografia do Nem, joga na face da imprensa brasileira que existem pilares sociais muito bem fincados que são verdadeiros berços de caras como o Nem da Rocinha. Caco Barcellos havia feito isso com Marcinho VP, em O Abusado. Dissecar esses pilares é função de vários departamentos, mas mostra-los através da lente mais real possível é função do jornalismo.

Essa mudança de ponto de vista denota as graves falhas latentes do jornalismo brasileiro, principalmente do jornalismo investigativo. Denunciando uma imprensa que trabalha partidariamente, selecionando e picotando os fatos conforme seus interesses. Os veículos de comunicação deixaram de ser os olhos das ruas e passaram a servir como escudos de interesses. Essa inanição do jornalismo faz com que setores totalmente alheios à comunicação exerçam esse papel, exemplo do Ministério Público. Lógico, todos com seus interesses e compromissos.

O exemplo do Caco Barcellos com a empregada doméstica que mora na favela e trabalha na casa de uma patroa rica é fenomenal, até pela sua simplicidade. A empregada convive em mundos paralelos, sabe como os dois sistemas funcionam. A patroa só conhece aquele mundo, a informação que chega até ela só diz respeito a aquilo que ela já convive e conhece. É uma cegueira crônica que foi institucionalizada. Uma das melhores mesas da FLIP, de longe. Não me alongarei mais, porque tem o áudio da mesa no YouTube oficial da FLIP, então ouçam lá! Já!

30/06 – Quinta-feira – 21h30|mesa 6: Na pior em Nova York e Edimburgo

Bill Clegg e Irvine Welsh

A grande decepção da FLIP 2016 para mim. Na boa, me expliquem o que foi aquele mediador, por favor? Até agora não saquei qual foi a dele. Que vacilo, na real. O cara me pergunta para o maior ícone literário da contracultura o porquê dele escrever de uma forma coloquial? Metade da mesa foi embora na segunda pergunta, particularmente, ridícula que o amigão lá fez. Depois de ver o Irvine Welsh dar um show lendo um trecho do seu livro e me fazer acreditar que eu ia pirar assistindo essa mesa, um balde de água fria. Que pecado. Mas mal eu sabia que essa não seria a primeira mesa levada de forma tão escrota pelo mediador…


Esse é só o começo de uma série de posts sobre a FLIP que deve durar o mês inteiro. Se liguem que vai rolar muita coisa diferente pra gente, mas cobertura é cobertura e também temos que mostrar o que rolou de convencional e todos os veículos de comunicação já mostraram pra vocês, mas com a ótica da gente. Prepara o lombo, abestado!

Aguarda na Disciplina|FLIP 2016

A FLIP 2016 terminou e agora começa a nossa jornada de posts. Em termos gerais, foi mesmo o que eu havia previsto: mais interação do público, mesas com assuntos encaixados e mais artistas de rua. Claro que o mundo não é perfeito como eu gostaria que fosse e temos aqui algumas dúzias de problemas, mas isso é papo de futuro.

Antes de falar sobre o evento, existe algo muito mais importante que deve ser colocado aqui: com menos de dois meses, o Rede de Intrigas contou com a colaboração de muita gente e a FLIP 2016 foi o extrato disso. Aos que ajudaram com a cobertura do evento, nas ruas, na correria das mesas super distantes, nos imprevistos, nas caronas e quem estava de longe, sempre me atualizando, solicitando e sugerindo. Agradeço aos autores que tiveram a paciência de ouvir, assimilar e contribuir. E agradeço previamente as pessoas que me ajudarão a organizar todo o mundo de materiais e serão meus revisores, analistas e sempre serão companheiros fieis. Repetindo, com menos de dois meses de história o Rede de Intrigas já pode ser considerado um projeto de extremo sucesso ao conseguir envolver por livre e espontânea vontade uma galera comprometida com a arte. A vocês, meus amigos, faltam palavras de agradecimento.

Agora a FLIP. Ah, a FLIP. Foi uma festa diferente, mais humana, mais próxima das pessoas. A opção pela poesia marginal com a cara e a voz de uma mulher encurtou o distanciamento natural que a arte promove entre o receptor e o autor. Foi uma FLIP mais quente e até o clima ajudou.

Claro que alguns erros estruturais aconteceram e serão falados por aqui, porque aqui a gente não tem medo de meter o dedo na ferida. Tem bastante coisa pra falar e todas serão tratadas separadamente e de forma construtiva. Mas a mensagem foi dada e a FLIP, que via um público mais distante ano após ano, conseguiu ver uma aproximação muito clara. Mesmo com uma cidade mais vazia por conta de vários fatores, principalmente a crise, houve um massivo aumento da participação das pessoas. Não houve sensação de vazio em momento algum (a não ser em algumas mesas podres).

Os eventos aconteceram em todas as partes do centro histórico da cidade, então imaginem a correria que foi e o estado dos pés de todos que colaboraram para trazer uma cobertura da forma mais completa possível para vocês. Pois é, mas valeu a pena e o saldo foi extremamente positivo. Não apenas pelo material que coletamos, mas pela satisfação de cada um em estar ali. Valeu o cansaço e agora vem à próxima parte do trabalho, que é passar essa satisfação e o saldo disso tudo para vocês.

Para dar um gostinho do que foi essa FLIP e do que está por vir, rolou cobertura em quinze das vinte mesas da Tenda dos Autores, Casa Folha, Casa Rocco, Casa de Cultura, Casa SESC, lançamento de livro e muita coisa na rua, com os artistas que vieram por conta própria buscar o seu espaço. Passando esse estado letárgico que fica após cinco dias alucinantes, tô vendo que vou ter que escrever pra cacete!

É isso aí, galera. Aguardem na disciplina que tá saindo parada boa com as impressões da FLIP, resenhas exclusivas e muitas novidades do Rede de Intrigas para vocês.

Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

Escalada Literária

“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.”

Sigmund Freud

Conversar literatura abre espaço para uma série de interações. Obtemos pontos de vista novos e completamente diferentes, uma construção mais ampla e sólida do senso crítico e aprendemos a ouvir e interagir com o próximo. Isso tudo vem agregado, também, da busca natural por referências de novas obras e autores impulsionando a tão famosa ‘Escalada Literária’.

Tomando como ponto de partida um lugar comum, é bem natural que comecemos a ler ou quando crianças ou a partir de alguma recomendação de um livro que está vendendo muito, sendo muito comentado. Normalmente algum desses best-sellers que viram filmes e séries e possuem toda aquela estrutura enorme, mas com conteúdo bem insosso. É o que eu considero boa literatura? Não. É um começo? É. Ao começar a ler, você naturalmente sai do ponto zero. Ponto positivo.

Naturalmente, quanto mais gostamos de um assunto, mais lemos sobre. Então quanto mais Percy Jackson eu leio, por exemplo, mais obras do Rick Riordan eu irei buscar. Isso é legal? É muito legal. Mas e depois? Das duas uma: ou você vai procurar um autor que tenha escrita parecida ao Rick Riordan ou vai buscar as referências que o próprio autor usou para poder escrever seus livros, correto? Beleza, beleza, beleza. Outro ponto positivo.

Nessa busca por novas referências, pintou algum autor mais maduro, né? Bernard Cornwell, M.K. Hume, Robin Hobb, George R.R. Martin, Tolkien, Stephen King. E o que você fez? Anotou? Foi pesquisar sobre os livros? Muito bem. Ponto positivo. Mesmo assim não se sentiu seguro para arriscar na leitura? Tudo bem, sem problemas. Mas deixa lá anotadinho que uma hora você cria coragem.

Criou coragem, leu, curtiu e quer mais? Mais uma rodada de busca por referências. Mas esses autores não se limitam ao mundo da fantasia e ficção histórica. Agora começam a surgir alguns clássicos. Bram Stoker, Mary Shelley, Jane Austen, George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Henry James, Franz Kafka e por aí vai. Então você começa a compreender que a partir desses clássicos mais acessíveis, esses grandes autores ao escrever usavam e abusavam de referências. Um grande passo.

Ao chegar nesse ponto você já compreendeu que para escrever, deve-se ler muito. Inclusive os autores pioneiros, inovadores, passaram por todo esse processo de construção de referências a partir das leituras que fizeram ao longo da vida. Então se torna natural buscar cada vez mais referências, ser cada vez mais curioso. É perceptível como você se torna mais exigente a cada obra, não é? E sua sede natural por sempre ir mais a fundo. Isso é uma maravilha! E nem doeu. Dá pra notar as mudanças na estante, a variedade maior de livros e assuntos, em como você passa a construir teu pensamento e em como você, naturalmente, se aproxima do mundo. A literatura tem essa capacidade que transcende o puro entretenimento.

Não adianta pular de Como Eu Era Antes de Você para Graça Infinita de uma vez. Pode até ser feito, mas as dificuldades serão enormes e às vezes tão grandes que causam a interrupção da leitura e uma quebra do processo de evolução, criando bloqueios gravíssimos e dificílimos de transpor. É um trabalho árduo. Cada obra tem o seu valor, cada autor tem seu estilo de escrever e uma mensagem para passar. Ir com calma, dentro do próprio ritmo, e construir gradativamente o conhecimento necessário para ler, digerir e conseguir dialogar com qualquer autor que seja é o caminho pelo qual segui e o caminho que recomendo e tento demonstrar às pessoas. Desta forma, ler Bernard Cornwell não perde a graça mesmo quando você é capaz de ler, com plenitude de absorção, Homero. Dá pra apreciar a literatura em todos os seus níveis. Nada é nulo. Pode ser ruim, muito ruim, mas não nulo.

Essa escalada tem um tempo que é muito pessoal, mas a coleta de informações quase sempre vem do meio em que estamos inseridos. A importância de apresentar referências, de conversar sobre o que se lê e de extrair o máximo de cada obra tem o poder transformador de inspirar outros. É uma lição de empatia e humildade das maiores. Algo que muito falta hoje em dia, inclusive. Por isso, repito, sou fã de leituras coletivas (o projeto do blog tá amadurecendo) e debates. No fim, junto com a ‘Escalada Literária’, podemos praticar uma série de valores que tanto sentimos falta no cotidiano. Adquirimos o hábito de sermos cada vez mais contestadores, solícitos e compreensivos. Viu como todas as ideias até aqui se misturam? É um conjunto de ações que gera um conjunto de resultados. O pensamento é disseminar a ideia e devagarinho a gente vai colhendo os frutos.

Americanização da Literatura e Senso Crítico

Por Caio Lima

“Quando não somos inteligíveis é porque não somos inteligentes.”

Victor Hugo

As editoras injetam no mercado cada vez mais marcas literárias. No labirinto que é o mercado editorial brasileiro, muitas editoras apontam para apenas uma saída. Existe toda uma padronização midiática que só difere pelo meio em que está inserida. No caso deste texto, lembrando sempre, a inclusão da literatura nessa poderosíssima rede de entretenimento norte-americana.

Essa exploração comercial de marcas e ícones funciona como uma ode ao consumo. Há uma rápida identificação entre produto e consumidor, gerando a primeira safra de consumo. Rapidamente os acomete outra onda e consome-se muito mais, com velocidade ainda maior, outra marca. Até a criação de tantos objetos de desejo que não é possível consumir tudo e todos ao mesmo tempo, pois as condições financeiras, psicológicas e espaciais não coexistem. Desta forma a indústria do entretenimento inibe a formação de uma mentalidade crítica acerca da abrangência do valor artístico, cultural e social do que é produzido. É uma ação direta num tipo de carência intelectual que é fomentada historicamente por lideranças em busca da não formação plena da sociedade, excluindo sua noção mais básica e imprescindível, que é o senso crítico.

Obviamente ninguém nasceu lendo Guerra e Paz, do Tolstói. Mas, dentro do que observo, a massa de novos leitores é tratada como órfã de boa literatura e esse entretenimento viral veio suprir essa carência. É isso que aparenta. Essa orfandade tem ar de necessidade, ar de falta de incentivo à cultura. É um pensamento doente, torpe, degenerativo e funciona como uma epidemia. Em questão de poucos anos as estantes dos novos leitores brasileiros se renderam (quase) única e exclusivamente a marcas, em que alguns de seus produtos são livros.

Podemos chamar essa busca incessante por informações mastigadas, ruminadas, processadas e coadas de colonização cultural. Em países de terceiro mundo, com uma crise gritante de identidade (Brasil? Oi?), isso se torna uma arma extremamente eficaz no que tange à manutenção sistêmica de uma massa que esteja sempre abaixo de qualquer crítica. Evitar que haja contestação de políticas degradantes à população como um todo através dos véus do entretenimento de massas é uma das blindagens mais eficazes criadas. E se não há soberania na produção de nossa própria arte, imagine agora se há soberania sobre nossa maneira de decidir o destino político do país, por exemplo.

Essa viagem toda explicita o papel vital que a literatura sempre teve para a formação do pensar. Ao deixarmos o entretenimento sem critério ser reconhecido como algo extremamente natural, há uma identificação com uma cultura e realidade totalmente genéricas.  Cortamos uma via poderosíssima de formação do senso crítico permitindo que esses véus cubram todo o meio literário que tem por função não só o entretenimento, mas também mostrar diversos aspectos que influenciam o desenvolvimento pessoal e social. Há um reforço de ideal quanto à literatura brasileira, pelo fato do Brasil ser celeiro de autores fenomenais. Além de haver um dever de todos quanto a um melhor desenvolvimento do cenário editorial brasileiro, de fomentar autores brasileiros. Debater sobre nosso ambiente ajuda (e muito!!!) a criarmos uma identidade mais una como cidadãos.

“Odeio os livros; ensinam apenas a falar daquilo que não se sabe.”

Jean-Jacques Rousseau

Consumir (no sentido mais abjeto da palavra) literatura não é o ideal, mas já que é o principal viés do mercado editorial hoje, que saibamos aproveitar as brechas que nos são dadas. Que esses “livros-produto” sejam uma porta de entrada, e não uma razão de viver para os que se iniciam no mundo mágico e democrático da literatura. Quanto mais literatura que estimule o pensar, a arte, a criatividade e os sentimentos, melhor. O conhecimento passado em vias mais pessoais de comunicação, como os próprios blogs, são de fundamental importância para incentivar a busca por novas referências e novos caminhos. Esse é meu objetivo com este espaço, da mesma forma que fui inspirado por muitos da mesma maneira.

P.S.: Para maiores dados sobre o mercado editorial do Brasil é recomendada a leitura da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, com última edição lançada agora, em 2016. Aproveitem enquanto o café tá fresco, meu povo.

Americanização da Literatura

Por Caio Lima

“(…) um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias (…)”.

Mario Vargas Llosa

A virada do milênio, além de ter possibilitado nossa terna continuidade neste planeta achatado nos polos (já que o mundo não acabou em 2000), veio carregada de uma nova era para o entretenimento de massas. Há uma profusão de sagas em longas-metragens e séries com intermináveis temporadas fidelizando cada vez mais admiradores e demarcando no mercado marcas criadas para explorar uma complexa rede. E com o passar da primeira década o volume de séries aumentou a cada virada de estação. Antes de acabar a temporada de uma, já estão sendo anunciadas as premières de três ou quatro novas séries que você, como imposição, precisa acompanhar.

Repare bem que todas essas séries/sagas seguem um padrão, uma estilística comercial, bem semelhantes umas às outras. Formam, hoje, a principal rede de entretenimento massivo e, com o advindo do Netflix, isso tem se expandido de forma absurda. O lastro para crescimento num curto período é vertiginoso e as previsões são extremamente otimistas para os entusiastas do mercado. Mas falando em roteiros e tramas, um ponto que é de comum acordo é: quando não são simples adaptações ou superlativos, essas séries/sagas são em parte inspiradas em livros, sejam clássicos ou contemporâneos. A indústria do entretenimento foi capaz de se utilizar do espaço literário e fazer ser consumido um produto eficazmente mastigado e de assimilação instantânea.

LEMBRANDO QUE: a questão aqui é em como a máquina do entretenimento gira, e não contestar a qualidade de obras que para mim são incontestáveis.

Partindo desse pressuposto, existe uma logística reversa, já que tudo (ou quase tudo) nesse mundo é uma via (crucis) de duas mãos. Com a simplificação do meio literário massificado pelos filmes e séries, as pessoas que consomem os livros querem, exigem, necessitam e defendem a ideia de que os livros devem ter semelhante poder de compactação, o mesmo poder “miojístico” de assimilação. Assim, o meio literário cai na mesma roda do entretenimento de massas. A emergente produção de sagas literárias, os textos amplamente descritivos e visuais e tramas roteirizadas (quase cinemáticas) focadas numa estrutura pré-moldada de escrever, garantem o sucesso de um mercado tido como emergente.

Então é gerada uma nova ordem onde a literatura é escrita para o entretenimento audiovisual e o entretenimento audiovisual é criado de forma a ser reproduzido, também, pela via literária. Vendo os autores que mais lucraram em 2015 (Tabela 1) pode-se notar que todos têm seus trabalhos traduzidos em filmes e séries de TV e esses trabalhos se enquadram nas obras que mais arrecadaram nos dois meios. Existe uma tendência que presta mais e mais atenção no estímulo dessa correlação entre os meios de entretenimento para fidelizar e comercializar marcas e doutrinar a distribuição de entretenimento mundial.

Autor

Lucro no Ano de 2015

País de Origem Principais Obras
James Patterson US$ 89 milhões EUA Trilogia Bruxos e Bruxas; Romances policiais
John Green US$ 26 milhões EUA A Culpa é das Estrelas; Cidades de Papel
Veronica Roth US$ 25 milhões EUA Trilogia Divergente
Danielle Steel US$ 25 milhões EUA Um Longo Caminho para Casa; Cinco Dias em Paris
Jeff Kinney US$ 23 milhões EUA O Diário de um Banana
Janet Evanovich US$ 21 milhões EUA Saga Stephanie Plum
J. K. Rowling US$ 19 milhões Reino Unido Saga Harry Potter
Stephen King US$ 19 milhões EUA O Iluminado; It – A Coisa; Sob a Redoma
Nora Roberts US$ 18 milhões EUA Série Mortal; Trilogia O Círculo
10º John Grisham US$ 14 milhões EUA Tempo de Matar; O Júri; A Confissão
11º Dan Brown US$ 13 milhões EUA O Código da Vinci; Inferno; Ponto de Impacto
Gillian Flynn US$ 13 milhões EUA Garota Exemplar; Lugares Escuros
Rick Riordan US$ 13 milhões EUA Série Percy Jackson; Série de Apolo
Suzanne Collins US$ 13 milhões EUA Trilogia Jogos Vorazes
15º E. L. James US$ 12 milhões Reino Unido Trilogia 50 Tons de Cinza
George R. R. Martin US$ 12 milhões EUA Série As Crônicas de Gelo e Fogo

Tabela 1: Autores que mais arrecadaram em 2015, segundo matéria da Forbes.

Mas o que é consumir literatura? Quais tipos de obras entram no país de forma massiva? O que isso tudo tem a ver com a formação dos novos leitores brasileiros?

Os diversos segmentos de entretenimento emergentes são todos baseados no mercado e nos moldes do entretenimento norte-americano. As portas, hoje, estão escancaradas para qualquer produto que nos entretenha produzido por eles ou nos seus padrões. Isso influencia absurdamente o mercado editorial do país. Fez-se um ciclo em que o consumo de um produto se dá por todas as vias possíveis: filmes, séries, artigos diversos, jogos e, finalmente, os livros.

Com um mercado reduzido ao longo da história, as editoras brasileiras viram nessa indústria emergente de entretenimento a oportunidade de angariar recursos para se estabilizar no mercado (Tabela 2). É difícil culpa-las, afinal, tudo se resume em negócios, em cifras. A responsabilidade do que é lido é de quem lê… É? Não necessariamente.

Título Autor Número de Exemplares Vendidos Nacionalidade Editora
Grey E. L. James 174.796 Reino Unido Intrínseca
Se Eu Ficar Gayle Forman 100.757 EUA Novo Conceito
Cidades de Papel John Green 94.771 EUA Intrínseca
Toda Luz que Não Podemos Ver Anthony Doerr 71.954 EUA Intrínseca
Para Onde Ela Foi Gayle Forman 65.371 EUA Novo Conceito
Cinquenta Tons de Cinza E. L. James 43.096 Reino Unido Intrínseca
A Garota no Trem Paula Hawkins 42.023 Zimbábue Record
Simplesmente Acontece Cecelia Ahern 40.216 Irlanda Novo Conceito
Cinquenta Tons Mais Escuros E. L. James 36.443 Reino Unido Intrínseca
10º Como Eu Era Antes de Você Jojo Moyes 34.033 Reino Unido Intrínseca
11º Número Zero Umberto Eco 31.878 Itália Record
12º A Garota na Teia de Aranha David Lagercrantz 28.634 Suécia Companhia das Letras
13º Guerra Civil Stuart Moore 27.229 EUA Novo Século
14º Cinquenta Tons de Liberdade E. L. James 26.299 Reino Unido Intrínseca
15º Somente Sua Silvia Day 19.713 EUA Paralela
16º As Espiãs do Dia D Ken Follett 19.250 Reino Unido Arqueiro
17º A Guerra dos Tronos George R. R. Martin 18.388 EUA LeYa
18º O Irmão Alemão Chico Buarque 17.853 Brasil Companhia das Letras
19º Para Sempre Alice Lisa Genova 17.033 EUA Nova Fronteira
20º Paraíso Perdido – Filhos do Éden Volume Dois Eduardo Spohr 16.171 Brasil Verus

Tabela 2: Os 20 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2015, segundo contagem do Publishnews.

A questão é que estamos nos enganando quando dizemos que há um crescimento “fora da curva” de leitores. Há uma unilateralidade bem evidente no mercado editorial atual, onde o montante de vendas de autores norte-americanos (ou que elaboram suas obras com esse conceito) é clamorosamente maior que as publicações dos próprios autores brasileiros. Não que não existam autores de best-sellers lendários, mas há de se reparar que a grande maioria das obras são provenientes desse modelo “livro-produto” com marcas já consolidadas, best-sellers com uma estratégia de mercado embutida.

Alguns autores trataram de se apoderar desse fanatismo pelo consumo e desse endeusamento que o capital é capaz de proporcionar para escrever suas marcas literárias. Desta forma, fenômenos editoriais mundiais surgiram da noite para o dia, fomentados pela cultura poderosa do entretenimento de massas norte-americano.  Fenômenos estes que em menos de uma década tem lançados: uma série de televisão com 15 temporadas garantidas por contrato, uma sequência de filmes, o dia especial da marca (vulgo “título da obra literária de maior reconhecimento do século segundo o The New York Times”) e produtos e mais produtos empanturrando o mercado, de cereais ao enxoval. Vale tudo. São clássicos forjados pela força do mercado. Então o crescimento que existe hoje é de consumidores de certo produto ou marca. Os livros deixaram de ser uma via principal e independente, e se tornaram itens no meio de uma demanda gigantesca de artigos diversos criados especialmente para seguidores fieis.

E esse é o post de inauguração!!! (Fogos [as drogas chegaram] e chuva de papel picado [feita com títulos de eleitor]).  Comentem, critiquem e compartilhem, pois criar uma via de debate amplo é a intenção do canal. Alimentem a intriga!