Aguarda na Disciplina|FLIP 2016

A FLIP 2016 terminou e agora começa a nossa jornada de posts. Em termos gerais, foi mesmo o que eu havia previsto: mais interação do público, mesas com assuntos encaixados e mais artistas de rua. Claro que o mundo não é perfeito como eu gostaria que fosse e temos aqui algumas dúzias de problemas, mas isso é papo de futuro.

Antes de falar sobre o evento, existe algo muito mais importante que deve ser colocado aqui: com menos de dois meses, o Rede de Intrigas contou com a colaboração de muita gente e a FLIP 2016 foi o extrato disso. Aos que ajudaram com a cobertura do evento, nas ruas, na correria das mesas super distantes, nos imprevistos, nas caronas e quem estava de longe, sempre me atualizando, solicitando e sugerindo. Agradeço aos autores que tiveram a paciência de ouvir, assimilar e contribuir. E agradeço previamente as pessoas que me ajudarão a organizar todo o mundo de materiais e serão meus revisores, analistas e sempre serão companheiros fieis. Repetindo, com menos de dois meses de história o Rede de Intrigas já pode ser considerado um projeto de extremo sucesso ao conseguir envolver por livre e espontânea vontade uma galera comprometida com a arte. A vocês, meus amigos, faltam palavras de agradecimento.

Agora a FLIP. Ah, a FLIP. Foi uma festa diferente, mais humana, mais próxima das pessoas. A opção pela poesia marginal com a cara e a voz de uma mulher encurtou o distanciamento natural que a arte promove entre o receptor e o autor. Foi uma FLIP mais quente e até o clima ajudou.

Claro que alguns erros estruturais aconteceram e serão falados por aqui, porque aqui a gente não tem medo de meter o dedo na ferida. Tem bastante coisa pra falar e todas serão tratadas separadamente e de forma construtiva. Mas a mensagem foi dada e a FLIP, que via um público mais distante ano após ano, conseguiu ver uma aproximação muito clara. Mesmo com uma cidade mais vazia por conta de vários fatores, principalmente a crise, houve um massivo aumento da participação das pessoas. Não houve sensação de vazio em momento algum (a não ser em algumas mesas podres).

Os eventos aconteceram em todas as partes do centro histórico da cidade, então imaginem a correria que foi e o estado dos pés de todos que colaboraram para trazer uma cobertura da forma mais completa possível para vocês. Pois é, mas valeu a pena e o saldo foi extremamente positivo. Não apenas pelo material que coletamos, mas pela satisfação de cada um em estar ali. Valeu o cansaço e agora vem à próxima parte do trabalho, que é passar essa satisfação e o saldo disso tudo para vocês.

Para dar um gostinho do que foi essa FLIP e do que está por vir, rolou cobertura em quinze das vinte mesas da Tenda dos Autores, Casa Folha, Casa Rocco, Casa de Cultura, Casa SESC, lançamento de livro e muita coisa na rua, com os artistas que vieram por conta própria buscar o seu espaço. Passando esse estado letárgico que fica após cinco dias alucinantes, tô vendo que vou ter que escrever pra cacete!

É isso aí, galera. Aguardem na disciplina que tá saindo parada boa com as impressões da FLIP, resenhas exclusivas e muitas novidades do Rede de Intrigas para vocês.

Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

Escalada Literária

“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.”

Sigmund Freud

Conversar literatura abre espaço para uma série de interações. Obtemos pontos de vista novos e completamente diferentes, uma construção mais ampla e sólida do senso crítico e aprendemos a ouvir e interagir com o próximo. Isso tudo vem agregado, também, da busca natural por referências de novas obras e autores impulsionando a tão famosa ‘Escalada Literária’.

Tomando como ponto de partida um lugar comum, é bem natural que comecemos a ler ou quando crianças ou a partir de alguma recomendação de um livro que está vendendo muito, sendo muito comentado. Normalmente algum desses best-sellers que viram filmes e séries e possuem toda aquela estrutura enorme, mas com conteúdo bem insosso. É o que eu considero boa literatura? Não. É um começo? É. Ao começar a ler, você naturalmente sai do ponto zero. Ponto positivo.

Naturalmente, quanto mais gostamos de um assunto, mais lemos sobre. Então quanto mais Percy Jackson eu leio, por exemplo, mais obras do Rick Riordan eu irei buscar. Isso é legal? É muito legal. Mas e depois? Das duas uma: ou você vai procurar um autor que tenha escrita parecida ao Rick Riordan ou vai buscar as referências que o próprio autor usou para poder escrever seus livros, correto? Beleza, beleza, beleza. Outro ponto positivo.

Nessa busca por novas referências, pintou algum autor mais maduro, né? Bernard Cornwell, M.K. Hume, Robin Hobb, George R.R. Martin, Tolkien, Stephen King. E o que você fez? Anotou? Foi pesquisar sobre os livros? Muito bem. Ponto positivo. Mesmo assim não se sentiu seguro para arriscar na leitura? Tudo bem, sem problemas. Mas deixa lá anotadinho que uma hora você cria coragem.

Criou coragem, leu, curtiu e quer mais? Mais uma rodada de busca por referências. Mas esses autores não se limitam ao mundo da fantasia e ficção histórica. Agora começam a surgir alguns clássicos. Bram Stoker, Mary Shelley, Jane Austen, George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Henry James, Franz Kafka e por aí vai. Então você começa a compreender que a partir desses clássicos mais acessíveis, esses grandes autores ao escrever usavam e abusavam de referências. Um grande passo.

Ao chegar nesse ponto você já compreendeu que para escrever, deve-se ler muito. Inclusive os autores pioneiros, inovadores, passaram por todo esse processo de construção de referências a partir das leituras que fizeram ao longo da vida. Então se torna natural buscar cada vez mais referências, ser cada vez mais curioso. É perceptível como você se torna mais exigente a cada obra, não é? E sua sede natural por sempre ir mais a fundo. Isso é uma maravilha! E nem doeu. Dá pra notar as mudanças na estante, a variedade maior de livros e assuntos, em como você passa a construir teu pensamento e em como você, naturalmente, se aproxima do mundo. A literatura tem essa capacidade que transcende o puro entretenimento.

Não adianta pular de Como Eu Era Antes de Você para Graça Infinita de uma vez. Pode até ser feito, mas as dificuldades serão enormes e às vezes tão grandes que causam a interrupção da leitura e uma quebra do processo de evolução, criando bloqueios gravíssimos e dificílimos de transpor. É um trabalho árduo. Cada obra tem o seu valor, cada autor tem seu estilo de escrever e uma mensagem para passar. Ir com calma, dentro do próprio ritmo, e construir gradativamente o conhecimento necessário para ler, digerir e conseguir dialogar com qualquer autor que seja é o caminho pelo qual segui e o caminho que recomendo e tento demonstrar às pessoas. Desta forma, ler Bernard Cornwell não perde a graça mesmo quando você é capaz de ler, com plenitude de absorção, Homero. Dá pra apreciar a literatura em todos os seus níveis. Nada é nulo. Pode ser ruim, muito ruim, mas não nulo.

Essa escalada tem um tempo que é muito pessoal, mas a coleta de informações quase sempre vem do meio em que estamos inseridos. A importância de apresentar referências, de conversar sobre o que se lê e de extrair o máximo de cada obra tem o poder transformador de inspirar outros. É uma lição de empatia e humildade das maiores. Algo que muito falta hoje em dia, inclusive. Por isso, repito, sou fã de leituras coletivas (o projeto do blog tá amadurecendo) e debates. No fim, junto com a ‘Escalada Literária’, podemos praticar uma série de valores que tanto sentimos falta no cotidiano. Adquirimos o hábito de sermos cada vez mais contestadores, solícitos e compreensivos. Viu como todas as ideias até aqui se misturam? É um conjunto de ações que gera um conjunto de resultados. O pensamento é disseminar a ideia e devagarinho a gente vai colhendo os frutos.

Americanização da Literatura e Senso Crítico

Por Caio Lima

“Quando não somos inteligíveis é porque não somos inteligentes.”

Victor Hugo

As editoras injetam no mercado cada vez mais marcas literárias. No labirinto que é o mercado editorial brasileiro, muitas editoras apontam para apenas uma saída. Existe toda uma padronização midiática que só difere pelo meio em que está inserida. No caso deste texto, lembrando sempre, a inclusão da literatura nessa poderosíssima rede de entretenimento norte-americana.

Essa exploração comercial de marcas e ícones funciona como uma ode ao consumo. Há uma rápida identificação entre produto e consumidor, gerando a primeira safra de consumo. Rapidamente os acomete outra onda e consome-se muito mais, com velocidade ainda maior, outra marca. Até a criação de tantos objetos de desejo que não é possível consumir tudo e todos ao mesmo tempo, pois as condições financeiras, psicológicas e espaciais não coexistem. Desta forma a indústria do entretenimento inibe a formação de uma mentalidade crítica acerca da abrangência do valor artístico, cultural e social do que é produzido. É uma ação direta num tipo de carência intelectual que é fomentada historicamente por lideranças em busca da não formação plena da sociedade, excluindo sua noção mais básica e imprescindível, que é o senso crítico.

Obviamente ninguém nasceu lendo Guerra e Paz, do Tolstói. Mas, dentro do que observo, a massa de novos leitores é tratada como órfã de boa literatura e esse entretenimento viral veio suprir essa carência. É isso que aparenta. Essa orfandade tem ar de necessidade, ar de falta de incentivo à cultura. É um pensamento doente, torpe, degenerativo e funciona como uma epidemia. Em questão de poucos anos as estantes dos novos leitores brasileiros se renderam (quase) única e exclusivamente a marcas, em que alguns de seus produtos são livros.

Podemos chamar essa busca incessante por informações mastigadas, ruminadas, processadas e coadas de colonização cultural. Em países de terceiro mundo, com uma crise gritante de identidade (Brasil? Oi?), isso se torna uma arma extremamente eficaz no que tange à manutenção sistêmica de uma massa que esteja sempre abaixo de qualquer crítica. Evitar que haja contestação de políticas degradantes à população como um todo através dos véus do entretenimento de massas é uma das blindagens mais eficazes criadas. E se não há soberania na produção de nossa própria arte, imagine agora se há soberania sobre nossa maneira de decidir o destino político do país, por exemplo.

Essa viagem toda explicita o papel vital que a literatura sempre teve para a formação do pensar. Ao deixarmos o entretenimento sem critério ser reconhecido como algo extremamente natural, há uma identificação com uma cultura e realidade totalmente genéricas.  Cortamos uma via poderosíssima de formação do senso crítico permitindo que esses véus cubram todo o meio literário que tem por função não só o entretenimento, mas também mostrar diversos aspectos que influenciam o desenvolvimento pessoal e social. Há um reforço de ideal quanto à literatura brasileira, pelo fato do Brasil ser celeiro de autores fenomenais. Além de haver um dever de todos quanto a um melhor desenvolvimento do cenário editorial brasileiro, de fomentar autores brasileiros. Debater sobre nosso ambiente ajuda (e muito!!!) a criarmos uma identidade mais una como cidadãos.

“Odeio os livros; ensinam apenas a falar daquilo que não se sabe.”

Jean-Jacques Rousseau

Consumir (no sentido mais abjeto da palavra) literatura não é o ideal, mas já que é o principal viés do mercado editorial hoje, que saibamos aproveitar as brechas que nos são dadas. Que esses “livros-produto” sejam uma porta de entrada, e não uma razão de viver para os que se iniciam no mundo mágico e democrático da literatura. Quanto mais literatura que estimule o pensar, a arte, a criatividade e os sentimentos, melhor. O conhecimento passado em vias mais pessoais de comunicação, como os próprios blogs, são de fundamental importância para incentivar a busca por novas referências e novos caminhos. Esse é meu objetivo com este espaço, da mesma forma que fui inspirado por muitos da mesma maneira.

P.S.: Para maiores dados sobre o mercado editorial do Brasil é recomendada a leitura da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, com última edição lançada agora, em 2016. Aproveitem enquanto o café tá fresco, meu povo.

Americanização da Literatura

Por Caio Lima

“(…) um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias (…)”.

Mario Vargas Llosa

A virada do milênio, além de ter possibilitado nossa terna continuidade neste planeta achatado nos polos (já que o mundo não acabou em 2000), veio carregada de uma nova era para o entretenimento de massas. Há uma profusão de sagas em longas-metragens e séries com intermináveis temporadas fidelizando cada vez mais admiradores e demarcando no mercado marcas criadas para explorar uma complexa rede. E com o passar da primeira década o volume de séries aumentou a cada virada de estação. Antes de acabar a temporada de uma, já estão sendo anunciadas as premières de três ou quatro novas séries que você, como imposição, precisa acompanhar.

Repare bem que todas essas séries/sagas seguem um padrão, uma estilística comercial, bem semelhantes umas às outras. Formam, hoje, a principal rede de entretenimento massivo e, com o advindo do Netflix, isso tem se expandido de forma absurda. O lastro para crescimento num curto período é vertiginoso e as previsões são extremamente otimistas para os entusiastas do mercado. Mas falando em roteiros e tramas, um ponto que é de comum acordo é: quando não são simples adaptações ou superlativos, essas séries/sagas são em parte inspiradas em livros, sejam clássicos ou contemporâneos. A indústria do entretenimento foi capaz de se utilizar do espaço literário e fazer ser consumido um produto eficazmente mastigado e de assimilação instantânea.

LEMBRANDO QUE: a questão aqui é em como a máquina do entretenimento gira, e não contestar a qualidade de obras que para mim são incontestáveis.

Partindo desse pressuposto, existe uma logística reversa, já que tudo (ou quase tudo) nesse mundo é uma via (crucis) de duas mãos. Com a simplificação do meio literário massificado pelos filmes e séries, as pessoas que consomem os livros querem, exigem, necessitam e defendem a ideia de que os livros devem ter semelhante poder de compactação, o mesmo poder “miojístico” de assimilação. Assim, o meio literário cai na mesma roda do entretenimento de massas. A emergente produção de sagas literárias, os textos amplamente descritivos e visuais e tramas roteirizadas (quase cinemáticas) focadas numa estrutura pré-moldada de escrever, garantem o sucesso de um mercado tido como emergente.

Então é gerada uma nova ordem onde a literatura é escrita para o entretenimento audiovisual e o entretenimento audiovisual é criado de forma a ser reproduzido, também, pela via literária. Vendo os autores que mais lucraram em 2015 (Tabela 1) pode-se notar que todos têm seus trabalhos traduzidos em filmes e séries de TV e esses trabalhos se enquadram nas obras que mais arrecadaram nos dois meios. Existe uma tendência que presta mais e mais atenção no estímulo dessa correlação entre os meios de entretenimento para fidelizar e comercializar marcas e doutrinar a distribuição de entretenimento mundial.

Autor

Lucro no Ano de 2015

País de Origem Principais Obras
James Patterson US$ 89 milhões EUA Trilogia Bruxos e Bruxas; Romances policiais
John Green US$ 26 milhões EUA A Culpa é das Estrelas; Cidades de Papel
Veronica Roth US$ 25 milhões EUA Trilogia Divergente
Danielle Steel US$ 25 milhões EUA Um Longo Caminho para Casa; Cinco Dias em Paris
Jeff Kinney US$ 23 milhões EUA O Diário de um Banana
Janet Evanovich US$ 21 milhões EUA Saga Stephanie Plum
J. K. Rowling US$ 19 milhões Reino Unido Saga Harry Potter
Stephen King US$ 19 milhões EUA O Iluminado; It – A Coisa; Sob a Redoma
Nora Roberts US$ 18 milhões EUA Série Mortal; Trilogia O Círculo
10º John Grisham US$ 14 milhões EUA Tempo de Matar; O Júri; A Confissão
11º Dan Brown US$ 13 milhões EUA O Código da Vinci; Inferno; Ponto de Impacto
Gillian Flynn US$ 13 milhões EUA Garota Exemplar; Lugares Escuros
Rick Riordan US$ 13 milhões EUA Série Percy Jackson; Série de Apolo
Suzanne Collins US$ 13 milhões EUA Trilogia Jogos Vorazes
15º E. L. James US$ 12 milhões Reino Unido Trilogia 50 Tons de Cinza
George R. R. Martin US$ 12 milhões EUA Série As Crônicas de Gelo e Fogo

Tabela 1: Autores que mais arrecadaram em 2015, segundo matéria da Forbes.

Mas o que é consumir literatura? Quais tipos de obras entram no país de forma massiva? O que isso tudo tem a ver com a formação dos novos leitores brasileiros?

Os diversos segmentos de entretenimento emergentes são todos baseados no mercado e nos moldes do entretenimento norte-americano. As portas, hoje, estão escancaradas para qualquer produto que nos entretenha produzido por eles ou nos seus padrões. Isso influencia absurdamente o mercado editorial do país. Fez-se um ciclo em que o consumo de um produto se dá por todas as vias possíveis: filmes, séries, artigos diversos, jogos e, finalmente, os livros.

Com um mercado reduzido ao longo da história, as editoras brasileiras viram nessa indústria emergente de entretenimento a oportunidade de angariar recursos para se estabilizar no mercado (Tabela 2). É difícil culpa-las, afinal, tudo se resume em negócios, em cifras. A responsabilidade do que é lido é de quem lê… É? Não necessariamente.

Título Autor Número de Exemplares Vendidos Nacionalidade Editora
Grey E. L. James 174.796 Reino Unido Intrínseca
Se Eu Ficar Gayle Forman 100.757 EUA Novo Conceito
Cidades de Papel John Green 94.771 EUA Intrínseca
Toda Luz que Não Podemos Ver Anthony Doerr 71.954 EUA Intrínseca
Para Onde Ela Foi Gayle Forman 65.371 EUA Novo Conceito
Cinquenta Tons de Cinza E. L. James 43.096 Reino Unido Intrínseca
A Garota no Trem Paula Hawkins 42.023 Zimbábue Record
Simplesmente Acontece Cecelia Ahern 40.216 Irlanda Novo Conceito
Cinquenta Tons Mais Escuros E. L. James 36.443 Reino Unido Intrínseca
10º Como Eu Era Antes de Você Jojo Moyes 34.033 Reino Unido Intrínseca
11º Número Zero Umberto Eco 31.878 Itália Record
12º A Garota na Teia de Aranha David Lagercrantz 28.634 Suécia Companhia das Letras
13º Guerra Civil Stuart Moore 27.229 EUA Novo Século
14º Cinquenta Tons de Liberdade E. L. James 26.299 Reino Unido Intrínseca
15º Somente Sua Silvia Day 19.713 EUA Paralela
16º As Espiãs do Dia D Ken Follett 19.250 Reino Unido Arqueiro
17º A Guerra dos Tronos George R. R. Martin 18.388 EUA LeYa
18º O Irmão Alemão Chico Buarque 17.853 Brasil Companhia das Letras
19º Para Sempre Alice Lisa Genova 17.033 EUA Nova Fronteira
20º Paraíso Perdido – Filhos do Éden Volume Dois Eduardo Spohr 16.171 Brasil Verus

Tabela 2: Os 20 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2015, segundo contagem do Publishnews.

A questão é que estamos nos enganando quando dizemos que há um crescimento “fora da curva” de leitores. Há uma unilateralidade bem evidente no mercado editorial atual, onde o montante de vendas de autores norte-americanos (ou que elaboram suas obras com esse conceito) é clamorosamente maior que as publicações dos próprios autores brasileiros. Não que não existam autores de best-sellers lendários, mas há de se reparar que a grande maioria das obras são provenientes desse modelo “livro-produto” com marcas já consolidadas, best-sellers com uma estratégia de mercado embutida.

Alguns autores trataram de se apoderar desse fanatismo pelo consumo e desse endeusamento que o capital é capaz de proporcionar para escrever suas marcas literárias. Desta forma, fenômenos editoriais mundiais surgiram da noite para o dia, fomentados pela cultura poderosa do entretenimento de massas norte-americano.  Fenômenos estes que em menos de uma década tem lançados: uma série de televisão com 15 temporadas garantidas por contrato, uma sequência de filmes, o dia especial da marca (vulgo “título da obra literária de maior reconhecimento do século segundo o The New York Times”) e produtos e mais produtos empanturrando o mercado, de cereais ao enxoval. Vale tudo. São clássicos forjados pela força do mercado. Então o crescimento que existe hoje é de consumidores de certo produto ou marca. Os livros deixaram de ser uma via principal e independente, e se tornaram itens no meio de uma demanda gigantesca de artigos diversos criados especialmente para seguidores fieis.

E esse é o post de inauguração!!! (Fogos [as drogas chegaram] e chuva de papel picado [feita com títulos de eleitor]).  Comentem, critiquem e compartilhem, pois criar uma via de debate amplo é a intenção do canal. Alimentem a intriga!