Stendhal – O vermelho e o negro

Por Caio Lima

Por muitas vezes uso como abrigo algumas metáforas ou analogias criadas instantaneamente por esse cérebro obscuro e cheio de declives para o nonsense. Não é para ser diferentão, não. Mas é difícil soltar uma resenha sobre pontos diversos que eu percebi durante a leitura de um determinado livro sem ter qualquer tipo de apoio. Caso eu não o faça dessa forma, talvez minhas resenhas se tornem um grande emaranhado de parágrafos vazios, ou seja, uma grande perda de tempo. É por isso que hoje eu farei isso de novo e com um clássico. Acaso não gostem, deixo aqui meu sincero “só lamento”.

Contextualizando ‘o vermelho e o negro’ historicamente, muitos defendem que essa seja a maior obra da literatura francesa do século 19. O que não seria absurdo algum, se pararmos para pensar bem. Mas elevando a conversa para a literatura francesa da época, Stendhal tinha como “concorrentes” caras como Victor Hugo, Balzac e Dumas. Então não estamos falando de torrada com pasta de maionese e atum, estamos falando de canapé com caviar aqui.

Numa breve comparação, o choque entre a literatura produzida por Stendhal e a produzida por Victor Hugo vai muito além das palavras. Os dois oferecem retratos das situações política e social da França tão vívidos e tão diferentes, que formam duas alas de pensamento completamente distintas em forma, concepção e, principalmente, em sensibilidade. Essa concepção centrada na força plena do indivíduo ante ao social de Stendhal, contrapondo a plenitude da sociedade na formação do indivíduo de Victor Hugo, transforma, para nós leitores, a literatura francesa numa espécie de ‘o vermelho e o negro’ também.

Me atendo a Stendhal para não estender muito a conversa, o livro em questão conta a história do jovem Julien Sorel, filho de carpinteiro que possuía uma capacidade fora do comum para guardar informações, um poder de oratória fortíssimo, uma beleza quase feminina, além de ser apaixonado por literatura e ter uma ambição um tanto quanto alta. O reconhecimento de sua capacidade intelectual, acompanhada de sua ambição, o fazem almejar formas de sair do estado de pobreza e subserviência em que foi criado. As únicas maneiras possíveis são através da igreja ou das armas. Daí se dá o nome do livro, batina preta de padre ou uniforme vermelho do exército. Mas isso todo mundo está cansado de saber, claro.

Logo Julien começa a perceber que não é uma simples escolha entre o vermelho e o negro que o tirará de sua situação para ascender socialmente. O livro relata uma coleção de vermelhos e negros que nosso protagonista tem pela frente. E nesse determinismo sobre qual caminho seguir, as escolhas de Julien sempre vão se renovando e aparecendo de diferentes maneiras, colocando-o em xeque, mesmo já tendo determinado, visivelmente, sua predileção pelas armas. Visto sua habilidade natural para a coisa e a veneração, que vem de Stendhal, por Napoleão Bonaparte, a quem o autor serviu durante as guerras napoleônicas e tudo mais.

Esse bonapartismo marca a tendência de Stendhal, durante todo o livro, de denunciar de forma suave a corrupção que se alastrou pelo país com a negociata de cargos políticos e benefícios ou contravenções deliberadas, lugar comum nesses jogos de poder. Dando a entender que a democracia é um jogo de poderosos e para poderosos (ou seja, que ela não existe), Stendhal acumula em suas linhas um sério remorso sobre como o antigo imperador fora injustiçado e em como essa tomada de poder pelos detentores do capital prejudicou a ascensão dos pobres. A trajetória de Sorel e os saltos que ele dá entre o vermelho e o negro são provas cabais disso.

Esses saltos que Julien realiza tentando se equilibrar nessa busca por ascensão, mostram outra dimensão, agora literária, de Stendhal que, pelo meu pouco conhecimento e rápida pesquisa que fiz, era algo novo na literatura da época e que, muito provavelmente, ajudou Stendhal a galgar seu espaço na cena literária de uma França iluminada por caras completamente centrados na ideia de um governo democrático capaz de atender às demandas sociais, tentando agrupar os reflexos ainda existentes da grande revolução para o bem comum. Esses caras escreviam, principalmente Victor Hugo, com classe e muito bem ritmados. Qualquer um que já tenha lido ‘os miseráveis’ sabe que é um livro vagaroso, que faz um mapa social incrível e que tem toda a descrição dos esgotos de Paris, por exemplo. Stendhal fez um bocado diferente, saca só.

O tempo nos é extremamente relativo, certo? Todo mundo já ouviu falar da teoria da relatividade de Einstein, né? Então, quando estamos completamente imersos na leitura não vemos a hora passar. Foi o que aconteceu comigo nas últimas 250 páginas desse livro, por exemplo. Li e nem senti que li. Em compensação, quando pegamos algo que não nos envolve por inteiro, lemos 10 páginas em 1h que mais parece uma eternidade. Isso porque ficamos ali no celular conferindo o horário, se chegou alguma notificação e vendo as redes sociais.

Stendhal usa dessa relatividade do tempo para construir sua obra de forma muitíssimo exagerada, até. Percebam que os momentos de maior tensão ou êxtase no livro passam voando, em poucas páginas, com parágrafos curtos e diretos. De repente está tudo ali e você que se vire. A tensão do leitor aumenta junto com a do livro, é uma descarga só. Da mesma forma todo o processual até esses momentos de tensão, é muito vagaroso, principalmente na primeira metade do livro. Parágrafos grandes, capítulos grandes e dá, realmente, aquela impressão de que o próprio autor não escreveu aquilo muito animado.

É muito evidente que Stendhal tem um estilo de escrita muito mais livre de estilística que toda a escola francesa da época. Ele deixa bem claro que é um homem simples, inclusive. Então já não seria a coisa mais simples do mundo ele criar cenas e diálogos que transferissem toda a burocracia dos grandes salões nobres de duques e marqueses da França, sempre às voltas com seus jogos de poder, enriquecimento e corrupção, ou da doutrina taciturna e bem regrada dos mosteiros, para o papel. Mas ele foi até o limite para fazer que o leitor sentisse essa burocracia na pele. São realmente longos todos os momentos em que Julien opta pelo negro. Tudo demorado, lento e burocrático.

Em compensação, nos poucos momentos em que Julien tem contato com a parte vermelha da história, a parada fica muito cabulosa. É rápida demais. E se não fosse pela clara ideia de que Julien preferiria sempre ter escolhido o vermelho em todas as opções que faz durante o livro, sentiríamos um grande vazio ao invés de aproveitarmos de sua satisfação, mesmo que rápida.

Essas constantes mudanças de velocidade narrativa aliadas ao jeito livre de Stendhal escrever, proporciona algo que transcende o plano das ideias e toca muito mais o leitor do que as palavras ou o tema central do livro. Há a perda da realidade física e caímos num plano que não há como contabilizar o tempo. O leitor se perde no tempo literalmente, focando intuitivamente nas sensações. A felicidade de Julien, por exemplo, se torna física para o leitor a partir do momento em que deliberadamente fazemos questão de esquecermos o tempo e, mais importante que isso, paramos de raciocinar sobre Julien e passamos a pensar como Julien Sorel.

O exercício de justaposição utilizado como artifício para que cortemos nossa linha de raciocínio é algo um tanto quanto autoritário, mas necessário para entender como Stendhal defende certos posicionamentos completamente paralelos aos famosos autores da época. Então, de repente, defender um monarca não é mais tão absurdo ou assustador assim e as idas e vindas entre democracia e monarquia daquele período da história francesa tornam-se extremamente naturais (ou menos complicadas de entender, daí depende da sua empatia, imersão e coisa e tal) para nós, leitores do século 21 embevecidos com nossa noção completamente deturpada e autoritária de como as coisas devem funcionar não só para nosso país, mas também para o resto do mundo. O tempo, manipulado por Stendhal, deu novos ares à literatura francesa e colocou em xeque uma vertente intelectual ampla e que arrastava seus tentáculos pela nova França, ou França pós-revolução.

Manipular o tempo é, também, manipular o que sentimos, quando e como vemos as coisas e o que traduzimos por certo e errado. Quantos Juliens já não leram esse livro e se pegaram pensando que não aguentariam viver numa sociedade tão blasé, afinal? Eu sou um deles. Você que está lendo agora, também pode ser. Olha que louco você se imaginar numa situação que não concorda! Literatura e seus pequenos milagres.

Dessa forma, ‘o vemelho e o negro’ deixa de ser uma obra sobre uma escolha e torna-se um grande simulacro da vida vista por Stendhal, onde as escolhas se repetem em diferentes níveis e formas, e isso emulará todo seu tempo. Por definição, então, o tempo encurtará ou aumentará de acordo com a sua satisfação. Não duvido que, acaso Julien conseguisse seguir pelo “vermelho” e conquistasse tudo o que quisesse, o livro teria menos de 200 páginas e seria daqueles livros para se ler numa sentada. Só não faria muito sentido. Nem teria repercutido tanto, óbvio.

O negro nem sempre é opção, é necessidade. A vida nem sempre dá as opções. O indivíduo deve se adaptar ao que lhe é ofertado ou não conseguir nada, e isso pode ser interpretado como uma espécie de o vermelho e o negro, claro. No fim das contas, com todas as divergências possíveis entre obra e ideia, Stendhal carrega para dentro do panteão dos grandes autores franceses de todos os tempos, um novo elemento até então utilizado de forma separada ou subutilizado: a relação entre escolha, o que sentimos e tempo. O quão grande somos é uma determinação do quão satisfeito estamos, mesmo que a satisfação discorra de forma trágica como foi com Julien. É interessante pensar nos limites que somos capazes de explorar e por quantas vezes optamos pelo vermelho ou pelo negro ao longo do tempo. Numa reflexão rápida, fico feliz em dizer que meu tempo é curto.

Marie Ndiaye – Três mulheres fortes

Por Caio Lima

A televisão estava ligada num filme de época enquanto eu tomava café da tarde. É sempre bom ir para a faculdade sem um rombo no estômago. E, enquanto como, a mãe fala para a filha que ela não deve mostrar demais, é sempre melhor deixar o rapaz imaginando a moça e tudo o que ela poderia oferecer a ele. Cenas clássicas de casamentos arranjados na aristocracia de algum país ocidental. Rapidamente me lembrei de Marie Ndiaye e o livro que eu acabara de ler, ‘Três mulheres fortes’. Calma, Marie não escreveu um romance de época, bem estilo Jane Austen. Não foi dessa vez, aos esperançosos. Quem sabe um dia. Ou não. Mas ela emulou bastante esse conceito bem casto de não mostrar demais e deixar o rapaz imaginando. Mas, pelo andar da carruagem, ela não me parece gostar muito das mocinhas indefesas, dos rapazes valentes e das matronas experientes e sabidas da sociedade.

Igual a um filme antigo, Marie utiliza nos três contos que compõem a obra, a visão de um homem sobre histórias nada felizes. Há um quê de vitoriano, uns traços góticos e aquela coisa exagerada de ‘Os sofrimentos do jovem Werther’. São três contos lúgubres, asfixiantes, intrigantes e nada esperançosos numa Paris moderna em tempo, antiga em modos. Todos os três tomando o homem como o centro das atenções. O homem sofre, se desespera e é mártir. É o comum, talvez. Na minha mente, esse concatenar de ideias entre cinema, literatura e costumes não cola muito. Fica capenga, sabe? Não pela arte. Não que não seja arte. Não que ela não possa fazê-lo. Mas fica algo preso, singelo e expresso.

Eu até poderia pensar “bom, são contos, o título tá meio nada a ver, mas também é mais uma daquelas autoras experimentais e excêntricas que a Cosac lança e não encaixou com meu gosto”, mas não. Eu não conseguiria passar assim. Na minha cabeça não faz sentido nenhum. A conta não fecha. Veja bem, Marie escreve de uma forma moderna, rápida, ágil e objetiva. Os contos se arrastam, vegetam, num arremedo de tristezas, sob apenas uma perspectiva. Não há cabimento entre a escrita e a estrutura. Ação e ideia completamente diferentes. Uma não é fechamento da outra. Das duas uma: ou eu não entendi o livro, ou havia algo implícito. Como eu sou bastante turrão, com certeza havia algo implícito, como a moça de um filme antigo deixa para o pretendente.

Metaliteratura é a técnica de você falar sobre as implicações do livro dentro do próprio livro. Um exemplo bacana é ‘A menina que roubava livros’. A menina fala, o tempo inteiro, sobre como os livros que ela lia alteravam seu universo. Isso é, de forma muito (MUITO) básica, metaliteratura. Se você não sabia, já pode tirar onda nos seus círculos sociais de leitores e parentes baba-ovo. E o que metaliteratura tem a ver com Marie Ndiaye, filmes antigos e minha pulga atrás da orelha? (Ah, minha mente sórdida… sempre me dando trabalho).

Marie, ao escrever os três contos, sempre coloca o narrador se misturando ao protagonista. É um bololô desgraçado, mas que fixa muito bem o ponto de vista masculino da história. Nada mais comum, mesmo nos dias de hoje. Na verdade, ela reforça muito esse poder do homem de guiar uma família de acordo com as suas ambições e sentimentos. Essa capacidade inefável do condutor da casa, da moral e da família em conduzir, inclusive espiritualmente, todos ligados à ele, independentemente do tipo de vínculo gerado. Já pararam para observar em como os humores das nossas famílias giram em torno de um expoente masculino? Mesmo quando há uma esposa que cria os filhos sozinha, sempre há essa aura do pai, do esposo, do homem. Marie é insistente nisso.

Conforme o desenrolar das histórias, vemos que todos os homens sofrem por “serem homens”. Existe uma prisão interior que se chama ‘Unidade Penitenciária Macho Alpha’. Essa unidade força a tomarem decisões rápidas, lancinantes e decisivas. Mas a pressa é inimiga da perfeição e do bem-estar, portanto, na maioria das vezes, essas decisões sacrificam o próprio homem e a todos que estão vinculados a ele. É claro que essa prisão espiritual, fruto de uma cultura milenar, dá ao homem a salvaguarda necessária para que ele acredite piamente que aquilo precisava ser feito, abstendo-se das consequências. Até na nossa forma de fazer política, 500 anos atrasada, é assim, vide às reformas arbitrárias aprovadas sem consentimento da população. São homens tomando decisões pelo simples fato de serem homens. Mas para quem convive, é dependente e cria laços com esse homem, fica um vazio completo e quase nunca notado. Uma mudança radical. Cortar na carne sem chances de restituir o que foi tirado. Uma jogada de risco quase sempre malsucedida.

Mas a roleta russa da vida é muito mais cruel que a original, ela te deixar ali, sofrendo, nas sombras, sem que ninguém te note. É aí que entra a “metamulher” da metaliteratura (sim, eu acabei de subverter o sentido de metaliteratura) de Marie Ndiaye. É como um filme antigo, onde sempre há a donzela para o cara valente e destemido. Esse cara se arrisca sem pensar no dia de amanhã e a donzela, cheia de amor e zelo, fica apavorada, sem saber o que fazer. Você sempre pensa nos grandes desafios do cara, mas as dores que a moça carrega sempre são deixadas de lado. Afinal, ela não travou batalha alguma, não se arriscou, não deu tudo de si por uma ideia, mesmo que esdrúxula.

Uma mulher que, ao escrever, simula as consequências das atitudes do homem na própria mulher, mas ninguém vê. A não ser que você entenda o método de Marie, você se compadecerá do homem. A metamulher que Marie desenha é, simplesmente, a mulher comum. A mulher que segura a barra do pai e do marido. A mulher que abdica da família por falsas promessas. A mulher que perdoa esse homem e o enxerga com compaixão e tenta, por si só e pelo próprio causador disso tudo, reestruturar e redescobrir o sentido de tudo. Conhecemos mulheres assim aos montes. Só aqui na minha rua tem algumas. Mas a gente nem nota. A gente nem quer saber o tamanho do piano que essas mulheres carregam.

Marie fala de si e fala de todas as mulheres, porque é necessário falar. Imagine o quão pesado é o fardo de ser válvula de escape, ser apontada como causadora, ter de carregar esse estigma e ninguém, absolutamente ninguém, em pleno século XXI, reparar que há protagonismo aí. Não são meras coadjuvantes no meio do “errei tentando, pelo menos”. São vítimas de escolhas visivelmente erradas, mas empurradas goela abaixo por uma necessidade de ser, por um apego a uma liderança que dizem ser natural.

Marie, nas suas personagens, protagoniza os contos. Não só por ser essa metamulher, mas por sua excelência ao escrever. Uma concepção moderna num ritmo de filme antigo. Para mim, isso pode ser chamado de metaliteratura. Um filme antigo que se repete. Autossuficiente. Que gira sob os mesmos aspectos após quase um século. Esse filme procura as películas antigas todos os dias, conversando com suas versões ultrapassadas. Ora porque os tempos mudam, a velocidade e os outros filmes vêm como um rolo compressor e é preciso inovar. Ora porque o roteiro precisa ser o original, nada pode fugir ao script. Como manter esse equilíbrio? Difícil, mas se mantém até hoje. Inexplicavelmente. Mas Marie se fez metamulher, já que ela não poderia mudar o roteiro original. E ao produzir essa metaliteratura (minha licença poética, relembrando), ela me fez enxergar de outra forma os filmes antigos. Uma pena o roteiro ser sempre igual. Marie Ndiaye é resistência.

José Donoso – O Lugar Sem Limites

Por Caio Lima

A discussão de gênero em plenos anos 60 até agora me parecia algo a ser abordado em grandes centros do mundo. É engraçado e estranho como o excesso de informações também pode te direcionar a núcleos e isso acaba criando estereótipos. Há uma espécie de seletividade na nossa própria desconstrução de preconceitos. É bem isso mesmo, acreditem. Olhamos para as minorias que estão no nosso meio comum, mas já pararam para pensar em quem vive nas mais diversas margens da sociedade? Em quem carrega diversos estigmas e tem de encarar uma sociedade que aponta o dedo para cada um deles? Em como deve ser uma mulher negra? Uma travesti pobre? Então, amiguinhos, pensem muito bem ao falar que são desconstruídos.

Daí me pego lendo um livro de um chileno, esse tal José Donoso, que conta a história dos medos de Manuela. Manuela é uma travesti quarentona, tem uma filha e administra um bordel que herdou após forjar uma relação sexual com a antiga dona, mas isso são outros quinhentos. Esse bordel fica lá em El Olivo. Sabem onde é isso? No interior do interior do Chile, onde as ruas eram de barro e nem energia elétrica tinha, mas estava pra chegar. Don Alejo, em toda sua onipotência, havia garantido.

“E quando ele me imobilizou com os outros homens, bem que me deu uns agarrões, não eram agarrões inocentes, então com a idade e a experiencia a gente não iria perceber? E furioso, porque a gente é bicha nem sei direito o que ele falou que ia fazer comigo. Quero só ver, sem vergonha safado. Me dá vontade de vestir a roupa de espanhola na frente dele para ver o que ele faz. Agora, por exemplo, se estivesse aqui no povoado. Ir para rua enfiada no vestido e com roupas atrás da orelha e toda maquiada, as pessoas na rua dizendo Oi, Manuela, Nossa, Que elegância, posso acompanhá-la? O maior sucesso, euzinha … E ai Pancho, furioso, me encontrara numa esquina e me disse você me dá nojo, vá tirar isso, você é uma vergonha para o povoado.”

A tensão da história é a chegada de Pancho ao vilarejo. Pancho é o maior algoz de Manuela pelo simples fato de há um ano ter rasgado seu vestido de espanhola que lhe caia tão bem. A agressão era o de menos, mas o vestido rasgado era imperdoável. Ao longo do dia, Donoso vai narrando com diversos flashbacks as intrincadas relações entre a ex-dona do bordel, Manuela, Don Alejo e Pancho. É uma velha história de dívidas e cobranças típica de uma vila situada na América Latina. E naquela noite haveria o desfecho desses desmembramentos todos.

José Donoso - O Lugar Sem LimitesPercebem em como o enredo é denso e recheado de questões para debatermos? Manuela é travesti e tem uma filha que a ajuda a cuidar do bordel. Manuela já não tem mais idade para esses desvarios e gera descrédito das suas próprias funcionárias: “se ela ao menos se depilasse”. Don Alejo é aquela velha figura que detém o poder da região toda, um coronel a quem todos recorrem nas horas de desespero. Pancho é o homem da história, o típico homem sem estudo, trabalhador e extremamente másculo, um estereótipo do homem do interior.

José Donoso foi valente ao lançar em 1967, às vésperas da “geração paz e amor” e demais movimentos, um romance que mostrasse a realidade dos preconceitos. Os grandes centros expuseram muitos conceitos que precisavam ser ouvidos. Mas ao ler a naturalidade da convivência com o medo e o quão normal é a violência usada para reagir ao diferente em Um Lugar Sem Limites, a sensação de que as palavras e os pensamentos não atingiram a quem realmente os sofre da forma mais espontânea possível é muito latente.

Ainda hoje, apesar de toda a rede vasta de informação que possuímos através da internet, somos extremamente desfocados ao que não nos é comum. A desconstrução é muito parcial e extremamente seletiva. Há quem defendas os gays, mas despreze os “viados”. Entendem a subjetividade desse desprezo? Isso é preconceito.

Donoso nos bate ao deixar evidente esse preconceito cego que atinge as grandes massas e que violenta todo dia quem vive à margem dos nossos olhos. Os limites se tornam inexistentes quando os estereótipos são naturais e os conceitos de certo e errado são excludentes dentro das próprias minorias. O pobre que olha torto e aponta o “defeito” de outro pobre por algum comportamento diferente se esquece de que ambos são pobres. Pior, se esquece de que ambos são humanos.

Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

Toine Heijmans – No Mar

Por Caio Lima

Uma das questões que eu mais destaco aqui (e que não permeiam o mundo literário) é a nossa tão querida rotina. Claro que a manifestação de algumas rotinas faz muito bem, principalmente quando aliado a isso está o hábito da leitura. Algumas são excelentes para o desenvolvimento e boa manutenção tanto do corpo quanto da alma. Mas a rotina a qual me refiro é aquele conjunto de ações que são indiferentes por serem completamente inúteis ou aquelas ações que praticamos por livre e espontânea pressão, nos sendo extremamente desagradáveis, e que o tempo faz o favor de transformar em algo corriqueiro.

Um dos grandes males do século é que para sobreviver necessitamos cada vez mais de cair na rotina e isso nos apaga. Ronald é um cara apagado pela rotina. Aos quarenta anos, é um funcionário de carreira exemplar, tem uma bela esposa e uma linda filha. Existe a insatisfação por ver funcionários mais novos conseguirem promoções, mesmo quando não se dedicam tanto quanto ele e sendo bem mais jovens e inexperientes. Assim ele se desgarra do trabalho, passa mais tempo em casa cuidando da filha e se dedicando à tarefa nada fácil de ser um bom pai. Mas mesmo assim nada adianta, sua decisão tardia abriu espaço para que a rotina o apagasse e criasse uma mente sempre insatisfeita, mas conformada.

“Se não fizer como combinado, eles arrastam meu barco para dentro. De volta às pessoas e suas coisas. Um barco pode zarpar, mas no fim tem que retornar a um porto. O mundo é assim. Os únicos barcos que permanecem no mar são os que naufragaram.”

11 - Toine Heijmans - No Mar (17-06-2016)Ao receber uma licença de três meses da empresa, Ronald opta por realizar um de seus maiores sonhos: velejar, sozinho, por toda Europa enquanto sua licença durasse. É uma tentativa de se reencontrar, pois os sonhos e desejos continuam ali apesar da rotina nos engolir. Sua esposa vê como uma última tentativa de resgate.

Nesse processo de resgate interior, Ronald percebe que seu mundo gira em torno da família. Seu objetivo é cumprir sua viagem e reencontrar sua esposa e filha. Ele as queria junto dele. Ele queria levar sua filha e ensina-la a velejar, ensina-la os segredos do mar.

É aí que, para mim, o livro se monta. A questão de redescobrir sua identidade, esquecer os problemas por três meses e estar sozinho, completamente livre, navegando meio que transformaram todas as suas ausências numa prisão, junto à exaustão física e mental causadas naturalmente por uma viagem dessas. Ele se obriga a novas rotinas, fazendo registros e observações das condições do mar e da embarcação de hora em hora e outras múltiplas tarefas que o prendam. Isso faz com que ele acredite que esse “caos controlado” é a volta de sua vitalidade. Mas basta um erro causado por um cochilo não programado para que ele, já completamente instável, veja sua rotina quebrada e há o extremo de sua insanidade.

Ronald é um retrato de como nossos hábitos e ações levam a uma rotina doentia e não consegue se emancipar disso de jeito maneira. Qualquer fato que atenue seus desejos de se libertar dessa vida cíclica, acaba desestabilizando-o brutalmente. Mesmo quando a própria psique o sabota e seu corpo o obriga, a quebra da rotina se torna uma transgressão mortal, suplantando preocupações primárias como sua saúde ou satisfação. Ronald é um escravo do próprio modo de vida que escolheu. É triste ler sobre alguém com quarenta anos sendo subjugado dessa forma. Eu tenho pena dos Ronalds que conheço. Eu tento não me tornar um Ronald.

Julio Cortázar – O Perseguidor

Por Caio Lima

Somos criados de forma a possuir um teto evolutivo. Sempre usamos parâmetros, estabelecemos metas, fazemos comparativos a troco de conhecermos nossos limites. Desde crianças ouvimos dos nossos pais, professores e do meio que o certo é definirmos uma meta até consegui-la. Escolher um caminho, traçar a meta e só descansar quando chegar lá. Quando chegamos é consenso geral de que fomos consagrados, que poderemos olhar para trás e nos sentir realizados. Mas e quando os limites são cada vez mais fáceis de serem alcançados? Quando os tetos são cada vez menores em vista do talento, da capacidade?

Bruno, o narrador, conta muito bem como a genialidade transcende esses conceitos ao relatar a vida do grande jazzista Johnny Carter. Autor de uma biografia minuciosa sobre o artista, ídolo e amigo, Bruno passa o conto todo colocando sua própria biografia à prova. Na verdade a biografia não é tão exata assim. Johnny é famoso porque teve sua genialidade reconhecida, mas é pobre, depressivo e viciado.

Sempre permutando entre a visão do ídolo (e amigo) e do artista, a história é narrada em altos e baixos. Toda a depressão da vida do jazzista consagrado é rapidamente cortada com o encantamento que toca a todos quando Johnny começa a praticar o jazz. Essa sensibilidade de Bruno mostra que Johnny é um gênio fracassado, mas ainda um gênio.

“(…) invejo Johnny, esse Johnny do outro lado, sem que ninguém saiba exatamente o que é esse outro lado. Invejo tudo menos a sua dor, coisa que ninguém deixará de compreender, mas mesmo em sua dor deve haver o vislumbre de algo que me é negado. Invejo Johnny e ao mesmo tempo me dá raiva que esteja se destruindo pelo mau emprego dos seus dons, pela estúpida acumulação de insensatez que a pressão da sua vida requer.”

Johnny,03 - Julio Cortázar - O Perseguidor quando toca, não vê limites. Não existe teto para sua genialidade. Ele busca explorar os territórios que não conhece. Quando volta ao mundo real, ele se depara com todos os tetos que lhe são impostos e não suporta a pressão. Sua autodestruição é um protesto que ninguém é capaz de reconhecer. Seu aprisionamento é um poço do qual ele não é capaz de sair. Por isso seus vícios, rebeldia, depressão e miséria gritam tão alto. Há um Johnny além do que se pode ver, alheio aos julgamentos em que é réu todos os dias da sua vida. Bruno, ao narrar tudo isso, foi o que chegou mais perto, mas ainda assim, os sentimentos se misturam durante todas as páginas.

Como no mais puro jazz, o livro segue sua trajetória de menos de 100 páginas nos envolvendo em excessos e improvisos. Cortázar improvisou ao se chamar de Bruno para relatar a vida de Charlie Parker, nosso Johnny. Sim, esse conto é uma homenagem e, com um enredo tão denso, facilmente se desenrolaria num romance. Mas Cortázar foi sábio ao manter assim. O jazz não permite falta de intensidade, não permite falta de inventividade e não permite de forma alguma, falta de gênio. Gênio em todos os sentidos da palavra.