Leonid Tsípkin – Verão em Baden-Baden

Por Caio Lima

11530_ggA rotina, com seus milhares de tentáculos, nos afasta dos prazeres que a vida oferece. Não rola ir num show terça, porque na quarta você tem que levantar às 5:30 da manhã e encarar trânsito, van, ônibus, trem ou metrô cheios para chegar na escola, faculdade ou trabalho e viver um dia que, de tão previsível, já é passado. Nada impede que nesse caminho até o trabalho você ouça um novo disco ou leia um livro completamente fora do que é habitual ou que observe e imagine o ambiente ao seu redor. A rotina proporciona várias fugas. Como quase tudo no mundo, nosso algoz também é um poço de contradições. Mas o hoje começou como ontem, então é passado. Não há motivo plausível para essas pequenas fugas do cotidiano.

Trens me fascinam. Não a máquina em si. O ambiente de um trem. Utilizei muito pouco na vida. Quem mora em Paraty não tem esse privilégio. Mas, das vezes que utilizei, acabei comprovando e adicionando pontos para fascínio. O principal deles é o ritmo constante. Não da máquina em si. Dos vagões quase sempre cheios, do entrar e sair de pessoas, dos ambulantes e dos olhares que se cruzam e se perdem. De como um ritmo quase constante se adequa ao ritmo de uma boa leitura, a ponto de me causar um efeito tão imersivo quanto ler em casa, no silêncio absoluto. Parece um bom free jazz, instrumental puro, onde cada instrumento entra no tempo e a sonoridade muda, o ritmo muda, mas a imersão só aumenta. Tudo se conecta e se arranja.

Verão em Baden-Baden, de Leonid Tsípkin é um livro que eu chamaria de trem-jazz.

O médico que lê os diários de Anna Grigorievna, esposa de Dostoiévski, durante sua viagem, rapidamente toma forma no meu imaginário. Eu poderia ser aquele médico. Leves olhadelas pela janela, daquelas que desviam a atenção da leitura para mostrar que, por mais profundo que seja o processo imersivo de um livro, ainda estamos conectados com o mundo lá fora. Um princípio do que poderia ser algo autobiográfico. Ou autoficcional. Mesmo que em situações tensas, o ritmo do trem me fazia relaxar. É uma sensação de conforto bastante esquisita, já que os trens no Rio de Janeiro estão abaixo do que pode ser considerado aceitável. Ainda assim era bastante confortável. Lembrar dessas viagens, relativamente curtas, ainda me causa essa sensação. Talvez seja por isso que o romance de Tsípkin tenha me soado tão familiar.

Mas nas mãos do médico estão as memórias de Anna Grigorievna. E, supondo que Tsípkin seja esse médico e que eu poderia sê-lo da mesma forma, seria infantil e inoportuno deixar que minha atenção se desprendesse das memórias de um dos autores que mais me causa fascínio. Tanto quanto o trem. Ou o jazz.

Escrever é uma maneira de perpetuar a história, mas não através de uma simples reprodução. Escrever é um processo de entendimento, de reflexão e, principalmente, de saber dialogar. Funciona como maldição, na maioria das vezes. Por isso é um alento tão grande quando escrever é capaz de salvar. É por isso que o diário de Anna Grigorievna ganha vida pelas mãos de Tsípkin, que o enxerga através do médico. O médico permite a Anna e a Dostoiévski uma reconstituição própria das passagens. É um diálogo primário, direto. Mesmo que ficcionais, ousando jogar com situações não factuais, o médico não se arrisca a dizer que leu algo nos diários. Ele empresta seu espaço para que as personagens apareçam pelas mãos de Tsípkin. É um processo complexo, encoberto por espessa névoa e certa confusão entre os parágrafos.

O médico no vagão é um veículo que dita o ritmo das memórias. É a cozinha de uma boa jam session, que prepara tudo para que outros elementos brilhem. Mas, um pouco diferente de uma sessão de free jazz, as memórias não vão e voltam, desorganizadas, de improviso, como numa reunião de amigos que só querem se divertir e entreter. Há um sério compromisso com o que é veiculado e levado a cabo pelo médico, ou por mim mesmo. Essa locomotiva, como outra qualquer, segue em frente, compondo quadros que se sucedem, numa sequência de estações predeterminadas e observações pontuais. Aqui vai entrar isso, porque ali na frente tem aquilo, e uma coisa é incapaz de ser relatada sem a outra. As vozes, inexplicavelmente separadas pelos parágrafos incomumente divididos, são guiadas por uma ordem muito bem estabelecida. Nenhuma cela é tão prisão, nem toda liberdade é desoladora. É apenas uma ordem natural, de preferência. Um trem-jazz.

A ordenação desse médico viajante para o que lembrar é tão subjetiva quanto poderia ser. Mesmo que a locomotiva só ande para frente, não é necessariamente um evento marcante que será lembrado. Algumas coisas são mais importantes que as datas de lançamento dos livros ou o número de exemplares vendidos no lançamento. Existem estações menos medíocres onde pegar bagagem. Algo como o próprio processo de escrita do cara. Como o próprio Dostoiévski. Nem tudo que é ficcional é ficção. Nem tudo que é ficcional e possui alguma carga autobiográfica é autoficção também. Sosseguem o facho. E o autor russo talvez seja a maior prova disso.

Através das memórias de Anna Grigorievna, é perceptível que estar próximo do autor desmembra partes de sua personalidade acessíveis por toda sua obra, porém nada é tão óbvio assim. Não convivemos com ele para além do papel. É de uma singeleza comovente os que reconhecem traços do autor para além da própria literatura, pescando sentimentos que ficam fora do foco, abaixo dos radares. E por não ser tão óbvio, literatos recorrem a materiais e enormes pesquisas para relacionar Dostoiévski com suas personagens. Textos e mais textos de apoio devem servir de alguma coisa quando não se pode sentir o impacto de pequenas atitudes que evidenciam o estado de espírito volátil do escritor. É surpreendente como tudo é tão explicável e cheio de sentido estando numa nota simples de um diário. Ler também funciona como maldição, tanto quanto escrever. Talvez seja por isso que tantos leiam apenas o que está escrito, mantendo tudo sob uma superfície segura.

O Dostoiévski que fica ressentido e raivoso após a esposa lhe negar o resto do pouco dinheiro que tinham para que tentasse a sorte no jogo, é o próprio Raskólnikov ou o homem mais-que-revoltado de Memórias do Subsolo. Ou quando em Baden-Baden, apertado por prazos e ávido no seu vício pelo jogo, tratado nos romances Os demônios e Um jogador, o último escrito em Baden-Baden. Ou, ainda, quase no fim, em que todas as lembranças lhe traziam os arrependimentos de uma vida desequilibrada e intensa, o desarvorar do homem e a semelhança com o divino, em busca da redenção pela sua natureza, um homem que se vê bom e puro tal qual o Príncipe Míchkin, de O idiota. A mesquinhez do pensamento aparente, o resguardo ao qual se força para atenuar a ponte entre realidade e ficção, denotam que Dostoiévski esteve, de fato, nos seus livros.

A escrita fluida de Tsípkin contrasta muito bem com as guerras internas de Dostoiévski e com o ar admirado do médico, que varia entre a surpresa pela descoberta e a sapiência de saber por onde guiar o próprio Tsípkin. São três momentos narrativos distintos, mas apenas um está impresso. Apesar de ser um livro, não se faz necessário, em absoluto, que tudo esteja escrito.

Verão em Baden-Baden fez com que eu fosse além. Nessa toada de identificar elementos diferentes que se sobrepõe e harmonizam um enredo que corre sem parar e sempre em frente. Avante, avante, avante. Rápido, rápido, rápido. Ei, olha que paisagem linda. Já passou. Foco no livro. Eu bem que poderia ser o médico. Levo jeito para essa coisa de viajar de trem lendo. Enquanto o médico lê (ou eu aqui, ó), Dostoiévski briga consigo mesmo o tempo inteiro. Não é fácil ser um baú de tanto remorso, de tantas dívidas acumuladas e de tão pouco crédito pela pessoa que se apresenta. O ser humano estava em baixa. Mas a literatura estava em alta conta, pelo menos. Há um canal de diálogo aberto. Uma esperança se apresenta. Um alívio imediato. O que separa o dedo do gatilho. Ou o que separa Dostoiévski de Raskólnikov. Infelizmente eram poucos os que entendiam que existe um momento de Dostoiévski dentro de cada personagem central de suas tramas tão profundamente humanas. Os livros estavam ali, alta literatura. Tecnicamente indiscutíveis. Mas o humano nunca era contemplado, não tanto quanto deveria. A literatura, que se apresentava como salvação, funcionava como maldição tempos depois. O mesmo texto. A mesma angústia. A mesma incompreensão. Tratado com a mesma indiferença.

A lembrança que me fica é a da casa em que Dostoiévski morreu. Vista de fora, algo tão simples. Fechada para visitação. Parece incapaz de caber tanto talento. Incapaz de caber, também, gênio tão hábil e perverso. Se não fosse o diário de Anna Grigorievna, eu não o teria encontrado tão felizmente contraditório.

Vale lembrar que é exatamente por isso que não se deve acreditar em “maneiras de ler Dostoiévski”. Esses tutoriais engessam uma experiência que não tem nada de robótica. Numa literatura em que é aplicada uma carga tão grande de si mesmo, por onde quer que comece, você, caro amigo leitor, estará lidando com um desconhecido. E a cada livro, apesar de certas características sempre presentes, é um novo momento de Dostoiévski. E pessoas não são fáceis de entender. Não existem manuais para pessoas. Apenas se deixem levar e o leiam. Ninguém, senão o próprio, poderia dizer para vocês por onde começar a lê-lo. E bom, até onde sei, mortos não falam. Sendo assim, desconfie de quem fala por eles. Que pausa triste de fazer nesse trem-jazz. Mas necessária.

As vozes entrelaçadas por Tsípkin guiam até um final que não termina. A última estação é a primeira. Verão em Baden-Baden não é um livro cíclico, nisso eu não me contradisse. Não é necessário que um livro comece onde terminou para que, assim que terminado, ele reinicie. É a graça da coisa. Um free jazz nunca acaba, apesar da música terminar. Nesse trem-jazz, a viagem é contínua e, acredito eu, se estenderá ao longo de uma vida. A cada novo Dostoiévski lido, eu revisito aspectos, memórias, cheiros e experiências que a viagem me proporcionou e que me previnem de estabelecer uma comunicação superficial com a obra. Não é só a obra, não sou só eu lendo a obra. É um diálogo muito mais amplo. Talvez essa seja a sensibilidade que tanto dizem que a ficção desperta.

Verão em Baden-Baden é um grande livro. Sem medo de ser o que é. Sem rótulos. Dostoiévski e Anna Grigorievna têm suas vozes abertas nesse púlpito que é a literatura. O médico é sensível demais para interferir no que diz seu objeto de admiração. Tsípkin pode até ter tentado ser o médico viajante, mas não conseguiu. Não se pode criar algo apenas por acreditar ser especial demais ter a percepção de que Dostoiévski, então seu autor favorito, era muito mais que um grande escritor dentro de suas obras. Imagine o quão megalomaníaco seria achar que apenas você, e mais ninguém, pode dialogar com a obra de um autor. Por isso o médico me é tão familiar que poderia ser eu mesmo. Esse trem-jazz de Verão em Baden-Baden virou rotina. Essa aqui foi mais uma viagem.

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Elvira Vigna – Nada a dizer

Por Caio Lima

Dá para admirar arte. Dá para analisar arte tecnicamente. Dá para interpretar arte. Dá para compreender a arte sob vários aspectos. Dá para elogiar a arte. Dá para sair por aí tirando onda com os outros porque você gosta de rock tcheco, usa um turbante marroquino, entende os quadros de Pollock e lê James Joyce todo dia antes de dormir enquanto toma vinho chileno com seu pastor belga malinois deitado aos seus pés. E isso não vale de absolutamente nada. Para quem conhece o Rede de Intrigas a mensagem é bem clara: ninguém precisa conhecer a fundo o assunto nem elaborar meio mundo de teorias malucas, só tem que rolar sentimento.

Em ‘Nada a dizer’, romance de Elvira Vigna lançado em 2013, a história gira em torno de um casal com seus 60 anos e o marido, Paulo, se mete num caso com uma mulher bem mais nova, N., amiga do casal há uns anos, também casada. Tudo é narrado pela ótica da esposa traída. Aparentemente é um enredo simples. Aparentemente. Elvira cava um poço e traz à tona uma série de questões. Resenhas que tratam da situação da mulher nos relacionamentos, outras falam sobre o retrato da classe média brasileira, algumas são mais gerais, outras vão além e fazem uma análise sob a ótica da psicanálise. Enfim, tem resenha para todos os gostos. Dá para perceber que Elvira é uma unanimidade no cenário contemporâneo (e tem que ser, com essa caneta pesada, nada mais justo).

Eu havia escrito uma resenha grande, bem grande (e boa), fazendo um link e observações sobre todos esses aspectos do livro, mas decidi reescrever para falar sobre uma coisa só. Por isso, perdoem se isso aqui está mal escrito, mas é assim que vai ser. Prometo melhorar.

Tendemos à dualidade. Falei um pouco disso na resenha que fiz sobre ‘A morte e a morte de Quincas Berro Dágua’. É até mais fácil, se pararmos para pensar. Construímos conceitos fechados sobre tudo e todos. Dois tons apenas, sem variações, sem surpresas. Fácil, muito fácil. Tão fácil que fazemos questão de esquecer da nossa própria complexidade. Caímos numa zona de conforto movida pela aparência de que tudo está visivelmente bem. Seguimos por meses, anos, décadas. Eu parei nos anos, ainda bem. Porque quando o invisível salta aos olhos, o desbaratino é louco. Dormimos num castelo e acordamos nas ruínas. Reconstruímos o castelo e voltamos às ruínas. Como se a vida fosse marcada por reconstruções constantes, trabalhosas e nada prazerosas.

Hoje, eu não avalio essa reconstrução de si mesmo como um processo natural. Na verdade é estagnação. É sempre tentar voltar para onde já se esteve antes, num ciclo sem fim. Isso é tão antinatural quanto a coca-cola que a gente toma. E não adianta mudar a torre de lugar, fazer um salão menor ou aumentar os muros, o castelo é sempre o mesmo e se tornará ruína, mais cedo ou mais tarde. Só de parar para falar isso já é cansativo. Mas é necessário para que vocês entendam meu ponto.

A partir do momento em que a protagonista começa a desconfiar das traições de Paulo, um castelo construído por décadas é demolido. No começo é a negação, a revolta, a fúria, o desespero. Como se convive com alguém que te trai? É uma relação hegemônica. Perde-se a liberdade e a equidade. Mas começam os flashbacks, desde quando se conheceram e lutavam contra a ditadura nos anos 60, até se tornarem um casal típico da classe média brasileira. Ou melhor, até se tornarem tudo o que eles combatiam com todas as forças. A vida e suas contradições tragicômicas.

Reconstituir toda uma vida dedicada a outra pessoa, a qual você descobre uma traição tão tosca, num relacionamento de duas pessoas tão abertas, tão progressistas, mostra o caminho o qual eles trilharam para chegar a esse ponto. Mas existe um ponto além, que fica subentendido como condescendência ao término do livro, num primeiro momento, mas que me veio à luz agora, e por isso resolvi mudar tudo.

A esposa traída se confronta o tempo inteiro com o ato da traição e tudo que ela construiu com Paulo, esse bosta. Uma vida dedicada, curtida, arrastada por um relacionamento que agora está à beira da falência. E nesses enfrentamentos que se desenrolam por meses, existe um quê do duplo citado lá em cima. Você termina com um relacionamento e larga o amor da sua vida por conta da traição, ou o perdoa e finge que nada aconteceu para manter as aparências e tudo bem, bola pra frente, segue o baile? Duas questões com implicações enormes. Ou você tenta se reconstruir aos 60 anos de idade, mais ou menos, ou você se anula completamente e passa a mão da cabeça do cara só para manter o castelo em pé.

Pode parecer condescendência, burrice ou inocência. Para mim, foi uma tentativa de evoluir, de fazer as coisas diferentes e de se equilibrar frente a esse desmoronamento. Não é a questão do perdão, de parecer superior a isso tudo. É uma questão que parte de uma tomada de rumo diferente. De se libertar de um relacionamento abusivo e usufruir de um relacionamento livre, realmente. É tratar as coisas para além do duplo que imaginamos que tudo seja constituído, com desprendimento de intenções. Sentidos novos, caminhos novos. Parece uma viagem bem taoista, mas no meio desse caos todo, me ficou essa impressão. Tudo está ali para ser absorvido, sentido e destrinchado. Tudo serve para nossa evolução. Tudo serve para que nos equilibremos. Principalmente quando tratamos de amor, já que o amor é liberdade. Às vezes só é necessário sentir, sem ter nada a dizer.

Thomas Pynchon – O leilão do lote 49

Por Caio Lima

A literatura costuma endossar algumas temáticas ou questões cheias de significados, mas via de regra há um aprofundamento dessas questões todas até o cerne do pensamento humano. É pesado. Você lê e sai com a cabeça doendo, numa crise existencial grotesca e, o pior de tudo, não tem absolutamente ninguém para conversar sobre o que leu que tenha sentido a mesma coisa que você, é impossível. Olha uma confissão em cinco linhas do porquê o Rede de Intrigas foi criado. Brincadeira, não foi só por isso. Enfim, fazendo contraponto a essa máxima da profunda exploração do ser humano e suas mazelas, virtudes e embaraços, há uma outra linha, que me agrada muito, de escritores que levam o ser humano a um estado de absurdo completo, desenvolvendo suas obras de uma maneira completamente livre de qualquer estereótipo. Seja no estilo de escrever ou nas ideias que são ventiladas através da obra, esses autores têm essa capacidade ilimitada de elevar o ser humano, e a vida de uma maneira geral, a algo bizarro.

Claro que isso não tira a complexidade e, muito menos, a profundidade da leitura. Mas o sentimento de estranheza é, sem sombra de dúvida, uma verve nova para o leitor comum. Sair da zona de conforto, ler pelas entrelinhas e todas essas coisas que vocês ouvem em palestras motivacionais para jovens empreendedores, mas que nunca pensam em aplicar em atividades básicas, tipo ler ou estudar, tá ligado?

Do século XX até os dias de hoje, em muito se pode falar do desenvolvimento de uma literatura que trata o homem num hemisfério absurdo ou surreal. É provável que nenhum deles seja mais famoso que Kafka. O universo kafkiano é repleto de referências e analogias estranhas e que passam batidas a um leitor desatento, muitas vezes achando a psicodelia de Kafka algo surreal, mas despretensioso. Nessa linha psicodélica, temos uma coletânea memorável de poetas, desde os clássicos poetas malditos, como Baudelaire e Rimbaud, até, numa aproximação muito tênue, o nosso Leminski, cercando a atmosfera de suas obras com uma mistura inexata e arrebatadora do lúdico e do lúgubre, aludindo sempre ao fantástico mundo dos vícios, amores e misérias imensuráveis. Por falar em vício, a geração beat é especialista em recriar o absurdo humano, principalmente nas mãos de Allen Ginsberg e William S. Burroughs, através do êxtase das sensações elevadas a partir de psicotrópicos fortíssimos que vão se alimentando do meio literário até chegar a Irvine Welsh e Chuck Palahniuk e seus brados contraculturais espalhafatosos. Alguns movimentos, por aparência ou fixação mercadológica, também carregam essa espécie de descarrego bizarro. A ficção científica tem muito disso, por exemplo. E outros autores retratam a vida como ela é numa irônia sem fim do absurdo, estou certo ou estou errado, Nelson Rodrigues? Mário de Andrade, com Macunaíma. O boom sulamericano com autores como Borges, Cortázar e Gabo, entre outros clássicos e não tão clássicos que carregam essa marca bizarra em diferentes níveis de intensidade ao longo da história.

Eu só fui atentar para esse viés literário com maior força após ter lido Graça Infinita, do David Foster Wallace. Gostaria de resenha-lo um dia, quem sabe. Mas, para quem deseja ler ou matar algumas pontas soltas do livro, a Camila, do Livros Abertos, fez uma resenha tão especial e cheia de pormenores, que vale a pena ser lida e relida. Graça Infinita elevou infinitamente meu tino para as referências e para o mundo particular de cada autor: processo criativo, crenças pessoais, artigos relacionados e até informações mais gerais. Num livro tão absurdo, com tantas estruturas narrativas diferentes, é impossível contemplar toda a concepção da obra de uma vez só. Ela vai batendo aos poucos e em épocas diferentes, pedindo releituras e material de apoio constantemente. Afinal, essa é a mágica da boa literatura bizarra, fazer você chorar montando as peças do quebra-cabeças. Buscando referências, eu cheguei a muitos lugares, autores e materiais diferentes, mas nenhum comparável a Thomas Pynchon e seu universo regido pela paranoia.

Pynchon é grafado como um autor pós-moderno. Ninguém sabe muito bem o que isso quer dizer. Nas muitas literaturas existentes, o pós-moderno é algo muito sem face e com milhares de conotações ideológicas, tanto que marxistas e libertários são muito contundentes com suas críticas e associações, algumas até bastante semelhantes. Ironia ou não, é um meio cheio de nuances e eu, não sendo conhecedor profundo e nem estudante de letras, filosofia ou qualquer cátedra que me dê autonomia para dissertar sobre isso, não me arriscarei indo para águas profundas e colocarei uma interpretação minha do que é o pós-modernismo de Pynchon, segundo pude acompanhar em ‘o leilão do lote 49’. Permitam-me a licença poética (sempre quis colocar essa frase num texto).

Existe uma espécie de ruptura do pensamento moderno após a segunda guerra mundial. Não só na questão de ordenação e polarização econômica e ideológica. A tecnologia num avanço constante e vertiginoso, as novas maneiras de se conseguir informação e até na forma como essa informação chegava ao consumidor, de forma apropriadamente ideológica e urgente, elevando a intensidade e, consequentemente, o significado de qualquer informação nova que surgisse, por menor que fosse. O deslocamento instantâneo dos sentimentos, podendo ser manipulados de forma conspiratória e constante, renova essa ideia da necessidade do avanço fugaz e urgente. O que isso quer dizer, basicamente? Que a grande transição do moderno para o pós-moderno é a intensidade com que nossos reflexos e habilidades trabalham. O olhar romântico sobre uma metade de século que caminhou sob revoluções e guerras ideológicas já não é mais possível. A informação e, principalmente, a manipulação da distribuição dessa informação, controlam o sentimento de revolta, desconforto ou satisfação das pessoas, por exemplo. Agora pare e reflita: você já reparou nas suas trocas de humor durante o dia? Ou quantas coisas você faz em áreas totalmente diferentes umas das outras? Então, esse é o mundo pós-moderno.

Édipa Mass é vítima dessa loucura pós-moderna. Após receber a responsabilidade de fazer o inventário de um ex, Pierce Inverarity, ela entra de cabeça na busca do significado de Tristero, um serviço postal underground e que tem uma trompa postal como marca registrada. Nesse processo de investigação asfixiante, ela roda algumas cidades da Califórnia e esbarra com um monte de gente que, supostamente, estaria ligada à Tristero. O grande problema é que no fim das contas ela só encontra dúvidas e sua vida como terra arrasada. O marido se torna viciado em LSD, o amante foge com uma adolescente namorada de um dos caras da banda, seu analista fica louco e o dramaturgo, sua última esperança de ajuda, se mata. E, no fim das contas, tem o inventário do Inverarity, que é os EUA. Nada fácil, Édipa (suspiro de desolação).

Eu não sei a pessoa que colocaria o nome da filha de Édipa, mas caso exista alguma, torço para que ela seja estéril. Nesse caso, eu fui procurar um pouco da história de Édipo e no meio de toda a tragédia encontrei um ponto que, talvez, tenha sido a intenção de Pynchon ao dar esse nome a sua heroína. Caso não tenha sido, ao menos me ajudou a construir essa resenha, o que está de excelente tamanho. No caso, Édipo encara a esfinge e a derrota dentro do seu próprio jogo. A esfinge é um rito de passagem: ou você acerta a charada e ela abre o caminho, ou você erra e fica empacado. Enquanto houver a necessidade de atravessar tal caminho, o homem continuará tentando. Esse é o motivo de tantos ficarem loucos com o enigma da esfinge. É como estar perdido e andar em círculos eternamente, até a loucura. Édipo derrotou a esfinge, Édipa não.

A manifestação simbólica da tragédia grega não está tão longe assim do mundo pós-moderno retratado por Pynchon. Os dois se reconhecem muito bem, apesar de não se encaixarem. E o autor sabe disso. Ele usa o passado como uma alegoria do futuro, mesmo tendo a certeza de que ambos não se assemelham em forma. Nem poderiam. As condições de cada época não geram equivalência, nem mesmo partem do mesmo princípio, apesar de terem, em dados momentos, processuais semelhantes. A fixação de Édipa à sua rotina e sua vida, fazem dela uma refém de um tempo que já passou a partir do momento que ela recebe a notícia do inventário e enxerga a Tristero como uma grande conspiração, tirando-a do mundo real sob os mandamentos de eventos fantásticos e irreverentes da paranoia e elevando sua condição de perseguição a uma experiência tão alucinógena quanto o uso abusivo de LSD pelo seu marido. Essa transição entre dois mundos que Édipa bate de frente constantemente é seu enigma da esfinge.

A afirmação aclamada de Marx “a história se repete, primeiro como farsa, depois como tragédia” pode ser taxada como um grande erro (mas é uma frase bonita) se acompanharmos a evolução do homem e das formas de ordenamento social ao longo da história, já que usar a história como simulacro não é exemplificar ou emular no passado uma situação equivalente no presente. Pontos podem ser semelhantes, mal comparando, até o resultado final pode ser, mas a história é continuamente escrita e não repete capítulos. Por isso que ficamos perdidos junto com Édipa ao rememorar a história do serviço postal Tristero. Nada é conclusivo ou explica muita coisa de seu funcionamento atual, se comparando a sua origem na Europa e seu estabelecimento nos EUA no meio do século XIX. Essa sensação de estar à deriva junto com Édipa é proposital. Causa um desconforto extremo pesquisar sobre o passado de alguma coisa tentando justificar ações no presente e não conseguir tornar as duas realidades, passado e presente, concomitantes. Isso agrava o estado de desespero e aumenta essa tensão de sentir algo prestes a te engolir sem poder algum de defesa. Bem-vindos à paranoia de Pynchon.

Tudo o que foi dito aí em cima nos ajuda a entender o contexto do livro e, consequentemente, da linha que Pynchon adota para criar seu ambiente paranoico, já que, segundo informações, essa é uma constante da sua literatura. Mas entender a heroína é fundamental para revelarmos o quão grande foi Pynchon nesse livro. Essa interposição de pessoas e fatos aleatórios que levam Édipa a acreditar que o serviço postal Tristero é alguma conspiração grandiosa e, mais para o fim, pessoal, pode ser explicado sob diversas óticas. Uma delas pode ser uma relação entre o que acontece à Édipa e a teoria da heterotopia de Foucault. Heterotopia é a teoria que versa sobre espaços não hegemônicos, falando de forma muito simplificada, ou seja, lugares que você encontra tudo ao mesmo tempo. Ao longo do livro, Édipa encontra todo o tipo de gente, em todos os lugares de San Francisco, onde ela passa as 24h mais alucinantes que eu já vi na literatura, com algum tipo de relação muito particular com o serviço postal Tristero. Ou seja, você não consegue distinguir um comportamento ou um padrão de quem usa o serviço. Ele é usado por todos, em qualquer lugar e sob qualquer aspecto. Não conseguir construir um padrão para conseguir informações é tão devastador quanto conseguir informações de todos os lados possíveis. E se apoiar nessa profusão de “sinais” torna o poço de Édipa completamente sem fundo.

Édipa eleva-se a uma realidade improvável, aproveitando sinais controversos e migalhas de informação para reforçar a conspiração Tristero e, consequentemente, sua paranoia. Todo o mundo que Édipa conhece desmorona sob seus olhos, enquanto ela permanece presa nessa realidade criada a partir do símbolo da trompa postal, mesmo sem nada que conecte as pontas soltas que ela tem nas mãos. Ela perde tudo da vida que deixou para trás e também não consegue sair do lugar para descobrir o que é Tristero. O que sobra para Édipa? A paranoia.

Além de toda essa maluquice filosófica que eu disse, há ainda um mar de referência dos anos 60 no livro. Muitas mesmo. Jogadas sem dó. Lendo com atenção dá para pegar muita coisa. Essas metáforas que ambientam os EUA dos anos 60 e alguns marcos da história americana e da cultura europeia clássica, trazem uma maneira nova de ver a história em si. Como eu disse lá em cima, esses caras bizarros amam fazer com que a gente passe mal tentando desvendar tudo o que eles colocam nos livros. Mas essa análise não está fora de todo esse contexto filosófico do livro e do pós-modernismo como um todo, seja lá qual definição adotarem. Toda essa geração de Pynchon sofria do mal de Édipa, estavam todos perdidos pela nova ordem do mundo. De repente o mundo virou do avesso, as coisas começaram a acontecer rápido demais e as pessoas começaram a sentir coisas demais e a fazer coisas demais e a pensar coisas demais, até o que não deveriam pensar de tão bizarra que era a ideia.

O que sobra quando, para acompanhar o novo e desconhecido, perdemos o velho que era nossa base? Nada. Foi o que sobrou a Édipa. Foi o que sobrou para toda uma geração que foi submetida à transição violenta de uma época. É o que sobraria para toda nossa geração acaso a ordem das coisas mudasse de forma quase que instantânea. Viver na paranoia, para a paranoia e de paranoia. A história não se repete, já que nada voltará a ser como antes. A transição de eras não respeita seu tempo e o que você pensa. A história é o ente mais imperialista que existe e todo dia é acrescentada de páginas novas e não muito bem escritas, passando milhares de pessoas para um estado de letargia e paranoia. E resistindo ao tempo, como uma obra-prima da literatura deve resistir, Pynchon nos fez olhar o passado de forma crítica, analisar nosso presente e entender o que esperar do futuro.