Svetlana Aleksiévitch – Vozes de Tchernóbil

Por Caio Lima

Pessoas fazem história todo dia. Eu, você, a tia que vende tapioca na faculdade (saudades, tia) e todo mundo. Somos fonte da história que fazemos e das que vamos nos metendo pelo caminho. A dimensão que você dá a sua própria história depende de você e com quem você a divide. A maioria das pessoas pode achar que esse blog é um fracasso, por exemplo. Eu o colocaria como um sucesso. Só as pessoas que me foram trazidas por esse singelo espaço, o tornam um sucesso.

Esses múltiplos sentidos da vida são melhores que qualquer autoajuda. Talvez seja o que dê o reconhecimento (merecido) ao Vozes de Tchernóbil, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, “ouvido e transcrito” pela bielorrussa Svetlana Aleksiévitch. Muito provavelmente esse foi o livro que me causou mais problemas nessa vida de fazer resenhas:

  1. Pelo fato de ter me deixado num estado de morbidez, comfortably numb (Waters, Gilmour, paga nóis), fora do comum;
  2. Após a mesa da Svetlana na FLIP, eu fiquei me perguntando “o que mais eu poderia falar?”. Ela chegou com o pé na porta e amarrou muito bem os assuntos;
  3. É um livro que está sendo tão resenhado, que eu estou com um medo muito sério de ser repetitivo e ficar no lugar comum. O que complica, porque mais do mesmo é muito ruim pra quem lê e para o ego de quem escreve também. Hehehe.

Somos acostumados a aprender a história através dos tecnicismos escolares. Um expoente majoritário que cria as bases/leis/regras, uma situação específica e um lugar no planeta, misture tudo numa bacia e pronto, temos um evento histórico. Vemos tudo de longe, como se teorias políticas, guerras, desastres, civilizações e a própria evolução fossem imbuídas de caracterizar e organizar a história por si só. Talvez seja isso mesmo. Essa história é continuamente escrita e documentada.

Sob essa perspectiva continuamente escrita, ficamos tristes ao ver inocentes mortos pela interminável guerra de poder nas cidades. A falta de segurança e a não perspectiva de uma solução são alarmantes. Mas essa mesma violência é natural. Discutimos a inabilidade do Estado para lidar com isso, como o crime é organizado, corrupção, boas maneiras e qual uva faz o melhor vinho, tudo ao mesmo tempo. Somos capazes de falar que “o João Roleta, irmão do Zé Catraca, lá do morro do Véu Vendado, morreu com um tiro de 12 na cara” com uma indiferença sórdida.

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil.jpgÉ lógico que quando lemos a palavra Tchernóbil, o que vem a mente é a catástrofe. Os fatos e o tempo. Os fatos explicam muito bem o impacto de Tchernóbil para a ciência, a política, enfim, para a história. O tempo, intuitivamente, selecionou cada fato grande o suficiente para fazer valer à pena sua relevância histórica. Há diversos cacoetes e chavões técnicos ao se discutir Tchernóbil, talvez para que a soma entre tempo e fato não nos dê a chance de sofrer além do acidente em si. Nada é mais importante que a história, afinal. Mas é tudo tão distante, ermo e frio.

Dizem que ouvir e colocar os relatos num livro não é literatura, não é livro jornalístico, não é nada além de um documento. Aí você vê um “documento” ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Procurando a história do tal “documento”, eu descobri que isso é fruto de 40 anos de entrevistas que formam uma série de cinco livros chamada Vozes da Utopia (que nome! QUE NOME!). Resultado de jornalismo investigativo puro, sensibilidade, empatia e vontade de realizar um trabalho que não seja apenas transcrever um conjunto de grandes histórias, mas revelar pedaços que a história insiste em suprimir até ocultar. As histórias que sucumbem ante a imponência dos fatos e o poder do tempo.

Da Svetlana, em si, temos um breve prefácio, os títulos dos relatos (magníficos), o discurso feito ao ganhar o Nobel de Literatura e os parênteses com as reações dos entrevistados. E só. Esqueça qualquer ardil literário, manifestação política, aquele estoicismo que encontramos nos nossos historiadores preferidos, o duplipensar de autores medíocres que querem seguidores fiéis e espaço na mídia, os fatos que compõem um artigo científico e a criatividade interminável de um autor de ficção científica. Nada disso existe em Vozes de Tchernóbil. São apenas relatos das pessoas que conviveram ou ainda convivem com a tragédia. A abrangência dos relatos, a urgência, o sentido disso tudo, fica a cargo do leitor.

Em meio aos grandes momentos da história existe algo subjetivo, manipulável e frágil. Cada entrevistado, na profunda dor, na inocência, inconformismo, devoção, incredulidade ou pureza, passou uma visão muito particular do que foi Tchernóbil. De como as vidas foram modificadas, ou não. Essa coleção de relatos profundos, pacientes, que divagam de um ponto ao outro, muitas vezes sem objetivo nenhum, nos colocam frente a frente com a maior deficiência que temos: a capacidade de se colocar no lugar do outro, a falta de empatia com o sofrimento alheio. Não existe uma transferência de culpa ou vitimismo. O livro inteiro é um exercício extremamente físico de como reagimos a cada um daqueles depoimentos. Ou você se rende e se abre para absorver as experiências das pessoas ou você larga o livro.

Entender as pessoas. Ouvir, absorver, sentir. Foi a única coisa que Svetlana fez ao longo dos anos. A “mulher-ouvido”, sem escrever uma única palavra de sua autoria, provocou esse alarde todo. Deu espaço a todas essas vozes que a grande história ocultou. São essas as pessoas, e outras tantas, atingidas pela catástrofe nuclear de Tchernóbil. Agora todos nós as conhecemos. Eu nunca fui capaz de pensar sob esse aspecto. Acredito que poucos foram.

Ao longo do livro eu fui desarmado. Nenhuma evidência histórica me traria a sensação de desalento ao ver trabalhadores rurais tão apegados a sua terra, agora contaminada até o talo com radiação, voltarem para suas casas e continuarem suas vidas e comerem seus tomates, agora radiativos. O avanço das horas não me fez chorar menos com as crianças, que corriam de peito aberto e não aceitavam serem castigadas por algo que não podem ver, sentir ou tocar. A radiação transformaria a todas, inevitavelmente. Suas esperanças me transformaram, felizmente.

Através da perspectiva de cada um, enxergamos uma hecatombe diferente. Momentos de profunda devastação moral, com os primeiro e último relatos do livro. Momentos de riso frouxo com algumas figuronas. Momentos de esperança com os relatos das crianças. Momentos de ternura, raiva, inconformismo. Uma coleção de visões. É estranho quando você se reconhece capaz de entender outra pessoa plenamente lendo apenas um relato dela, não é? Não somos acostumados a isso no cotidiano. Isso choca.

O evento, em si, desencadeia tudo. Mas o que dá o sentido a tudo são as pessoas. Coisa que a história faz questão de esquecer ou não mostrar. Sempre compramos uma versão técnica, bonita e cheia de correção para fazer jus aos fatos e ao tempo. Mas a história é feita por pessoas, para pessoas e atinge pessoas. Qualquer ideal que deturpe isso nos afasta do que verdadeiramente somos. Vozes de Tchernóbil no traz de volta instantaneamente, assim, finalmente, vemos as nossas imagens refletidas num espelho, quando somos educados para enxergar tudo em vitrines. São iluminados os capazes de provocar isso. Ou são, tão simplesmente, humanos.

O trabalho de Svetlana é tão especial por isso. É uma reeducação do ser humano, uma nova aula de história. Durante três semanas pensei em como resenhar esse livro. Hoje ainda sinto que essa resenha não será capaz de tocar alguém como eu acho que deveria tocar, muito provável que eu tenha ficado no lugar comum. Mas isso deixou de me interessar. Meus olhos se voltam às histórias que vivencio diariamente, nos fatos que a história anda registrando mundo afora e, principalmente, nas milhares de histórias que o tempo e os fatos farão questão de passar por cima. O tempo, o fato e a história. Não, nada disso importa mais.

José Donoso – O Lugar Sem Limites

Por Caio Lima

A discussão de gênero em plenos anos 60 até agora me parecia algo a ser abordado em grandes centros do mundo. É engraçado e estranho como o excesso de informações também pode te direcionar a núcleos e isso acaba criando estereótipos. Há uma espécie de seletividade na nossa própria desconstrução de preconceitos. É bem isso mesmo, acreditem. Olhamos para as minorias que estão no nosso meio comum, mas já pararam para pensar em quem vive nas mais diversas margens da sociedade? Em quem carrega diversos estigmas e tem de encarar uma sociedade que aponta o dedo para cada um deles? Em como deve ser uma mulher negra? Uma travesti pobre? Então, amiguinhos, pensem muito bem ao falar que são desconstruídos.

Daí me pego lendo um livro de um chileno, esse tal José Donoso, que conta a história dos medos de Manuela. Manuela é uma travesti quarentona, tem uma filha e administra um bordel que herdou após forjar uma relação sexual com a antiga dona, mas isso são outros quinhentos. Esse bordel fica lá em El Olivo. Sabem onde é isso? No interior do interior do Chile, onde as ruas eram de barro e nem energia elétrica tinha, mas estava pra chegar. Don Alejo, em toda sua onipotência, havia garantido.

“E quando ele me imobilizou com os outros homens, bem que me deu uns agarrões, não eram agarrões inocentes, então com a idade e a experiencia a gente não iria perceber? E furioso, porque a gente é bicha nem sei direito o que ele falou que ia fazer comigo. Quero só ver, sem vergonha safado. Me dá vontade de vestir a roupa de espanhola na frente dele para ver o que ele faz. Agora, por exemplo, se estivesse aqui no povoado. Ir para rua enfiada no vestido e com roupas atrás da orelha e toda maquiada, as pessoas na rua dizendo Oi, Manuela, Nossa, Que elegância, posso acompanhá-la? O maior sucesso, euzinha … E ai Pancho, furioso, me encontrara numa esquina e me disse você me dá nojo, vá tirar isso, você é uma vergonha para o povoado.”

A tensão da história é a chegada de Pancho ao vilarejo. Pancho é o maior algoz de Manuela pelo simples fato de há um ano ter rasgado seu vestido de espanhola que lhe caia tão bem. A agressão era o de menos, mas o vestido rasgado era imperdoável. Ao longo do dia, Donoso vai narrando com diversos flashbacks as intrincadas relações entre a ex-dona do bordel, Manuela, Don Alejo e Pancho. É uma velha história de dívidas e cobranças típica de uma vila situada na América Latina. E naquela noite haveria o desfecho desses desmembramentos todos.

José Donoso - O Lugar Sem LimitesPercebem em como o enredo é denso e recheado de questões para debatermos? Manuela é travesti e tem uma filha que a ajuda a cuidar do bordel. Manuela já não tem mais idade para esses desvarios e gera descrédito das suas próprias funcionárias: “se ela ao menos se depilasse”. Don Alejo é aquela velha figura que detém o poder da região toda, um coronel a quem todos recorrem nas horas de desespero. Pancho é o homem da história, o típico homem sem estudo, trabalhador e extremamente másculo, um estereótipo do homem do interior.

José Donoso foi valente ao lançar em 1967, às vésperas da “geração paz e amor” e demais movimentos, um romance que mostrasse a realidade dos preconceitos. Os grandes centros expuseram muitos conceitos que precisavam ser ouvidos. Mas ao ler a naturalidade da convivência com o medo e o quão normal é a violência usada para reagir ao diferente em Um Lugar Sem Limites, a sensação de que as palavras e os pensamentos não atingiram a quem realmente os sofre da forma mais espontânea possível é muito latente.

Ainda hoje, apesar de toda a rede vasta de informação que possuímos através da internet, somos extremamente desfocados ao que não nos é comum. A desconstrução é muito parcial e extremamente seletiva. Há quem defendas os gays, mas despreze os “viados”. Entendem a subjetividade desse desprezo? Isso é preconceito.

Donoso nos bate ao deixar evidente esse preconceito cego que atinge as grandes massas e que violenta todo dia quem vive à margem dos nossos olhos. Os limites se tornam inexistentes quando os estereótipos são naturais e os conceitos de certo e errado são excludentes dentro das próprias minorias. O pobre que olha torto e aponta o “defeito” de outro pobre por algum comportamento diferente se esquece de que ambos são pobres. Pior, se esquece de que ambos são humanos.

Ítalo Calvino – O Visconde Partido ao Meio

Por Caio Lima

“Cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração.”

Eu admiro as pessoas capazes de fazer soar simples qualquer história que contam. É sério, não existe hora ruim pra ouvi-las. Ítalo Calvino é um desses caras. É meio que uma receita de bolo: tá sem paciência, ressaca ou sem ânimo pra nada, então vai lá e pega um Calvino pra respirar, ler uma grande história e ainda tomar tapas e tapas e tapas na cara, mesmo com toda a sensibilidade que transborda desse cara. E numa situação dessas de ressaca literária que, num belo domingo, eu fui procurar O Visconde Partido ao Meio na minha prateleira.

Ítalo Calvino - O Visconde Partido ao MeioEu encaixei esse livro na categoria de “Livro Bobo” do Desafio Livrada! 2016, mas já me adianto que de bobo, em essência, o livro não tem nada. Eu já sabia o que esperar do livro, pois é de Calvino (claro!). Mas o encaixei como “Livro Bobo” pela escrita despretensiosa, simples e bem-humorada do autor. Fica aqui meu mea-culpa.

Primeira coisa: Medardo di Terralba! Você pensaria num nome melhor pra um nobre qualquer? Eu não. Não colocaria num futuro filho meu (bem futuro) pelos trocadilhos com merda, mas quem sabe num peixe beta. Estou refletindo sobre.

Enfim, o Visconde tomou um tiro de canhão no meio do peito enquanto lutava contra os turcos, em prol dos cristãos. Nessa loucura, só acharam a metade direita dele. Após recuperar-se parcialmente (porque essa é só a metade dele, sacou?), o Visconde se revela um personagem oblíquo aos olhos dos demais. Ninguém entende tanta crueldade e autoritarismo. O sentimento de revolta é crescente entre seus subordinados. É muita maldade para uma metade só.

Mas e a outra metade? A metade esquerda é bem vendedora de miçangas. Sumido pelo meio do mato, vive falando com plantas e cuidando de animais por aí. É uma parte excelente no âmago do seu ser. Ternura, arco-íris pela boca e mais miçangas no ar. Mas é tão bom que atrapalha e é tão chato que enjoa. É uma metade que gera revolta. Cansativa, superficial e suas boas intenções só interferem (muito) negativamente nas ações alheias.

“Ó Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desrraigado, mas você também, e todos. Mas, isso agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer com os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.”

Os antagonismos que carregamos nos servem de balança e são os limitadores das ações extremas que, por ventura, somos tentados a tomar. Isso vem muito de encontro a algumas filosofias orientais. Vocês que já leram Calvino já perceberam isso nos livros dele? Talvez seja só uma impressão minha, mas fica o questionamento.

Como eu disse lá em cima, Calvino tem esse poder de simplificar as coisas. Aqui, de forma leve, bem humorada e rápida, ele nos dá uma aula de que o indivíduo é indivisível e, desta forma, não se pode defini-lo a partir de conceitos tão puramente simples como o bom e o mau. Nós temos o nosso próprio “controle de qualidade” (a não ser que você seja diagnosticado com uma patologia, claro). É uma análise do ser humano como um todo, desmistificando conceitos e julgamentos superficiais. O que acreditamos é construído dentro de bases muito profundas que, além de se interligarem, são continuamente moldadas por uma série de fatores ao longo da vida.

Um livro bem-humorado e bem levinho, mas não se esqueçam de que quem o escreveu foi Calvino. Nunca esperem nada menos que reflexões profundas durante a noite tirando seu sono e a excelência de quem entende as mazelas da alma como poucos.

Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

Escalada Literária

“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.”

Sigmund Freud

Conversar literatura abre espaço para uma série de interações. Obtemos pontos de vista novos e completamente diferentes, uma construção mais ampla e sólida do senso crítico e aprendemos a ouvir e interagir com o próximo. Isso tudo vem agregado, também, da busca natural por referências de novas obras e autores impulsionando a tão famosa ‘Escalada Literária’.

Tomando como ponto de partida um lugar comum, é bem natural que comecemos a ler ou quando crianças ou a partir de alguma recomendação de um livro que está vendendo muito, sendo muito comentado. Normalmente algum desses best-sellers que viram filmes e séries e possuem toda aquela estrutura enorme, mas com conteúdo bem insosso. É o que eu considero boa literatura? Não. É um começo? É. Ao começar a ler, você naturalmente sai do ponto zero. Ponto positivo.

Naturalmente, quanto mais gostamos de um assunto, mais lemos sobre. Então quanto mais Percy Jackson eu leio, por exemplo, mais obras do Rick Riordan eu irei buscar. Isso é legal? É muito legal. Mas e depois? Das duas uma: ou você vai procurar um autor que tenha escrita parecida ao Rick Riordan ou vai buscar as referências que o próprio autor usou para poder escrever seus livros, correto? Beleza, beleza, beleza. Outro ponto positivo.

Nessa busca por novas referências, pintou algum autor mais maduro, né? Bernard Cornwell, M.K. Hume, Robin Hobb, George R.R. Martin, Tolkien, Stephen King. E o que você fez? Anotou? Foi pesquisar sobre os livros? Muito bem. Ponto positivo. Mesmo assim não se sentiu seguro para arriscar na leitura? Tudo bem, sem problemas. Mas deixa lá anotadinho que uma hora você cria coragem.

Criou coragem, leu, curtiu e quer mais? Mais uma rodada de busca por referências. Mas esses autores não se limitam ao mundo da fantasia e ficção histórica. Agora começam a surgir alguns clássicos. Bram Stoker, Mary Shelley, Jane Austen, George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Henry James, Franz Kafka e por aí vai. Então você começa a compreender que a partir desses clássicos mais acessíveis, esses grandes autores ao escrever usavam e abusavam de referências. Um grande passo.

Ao chegar nesse ponto você já compreendeu que para escrever, deve-se ler muito. Inclusive os autores pioneiros, inovadores, passaram por todo esse processo de construção de referências a partir das leituras que fizeram ao longo da vida. Então se torna natural buscar cada vez mais referências, ser cada vez mais curioso. É perceptível como você se torna mais exigente a cada obra, não é? E sua sede natural por sempre ir mais a fundo. Isso é uma maravilha! E nem doeu. Dá pra notar as mudanças na estante, a variedade maior de livros e assuntos, em como você passa a construir teu pensamento e em como você, naturalmente, se aproxima do mundo. A literatura tem essa capacidade que transcende o puro entretenimento.

Não adianta pular de Como Eu Era Antes de Você para Graça Infinita de uma vez. Pode até ser feito, mas as dificuldades serão enormes e às vezes tão grandes que causam a interrupção da leitura e uma quebra do processo de evolução, criando bloqueios gravíssimos e dificílimos de transpor. É um trabalho árduo. Cada obra tem o seu valor, cada autor tem seu estilo de escrever e uma mensagem para passar. Ir com calma, dentro do próprio ritmo, e construir gradativamente o conhecimento necessário para ler, digerir e conseguir dialogar com qualquer autor que seja é o caminho pelo qual segui e o caminho que recomendo e tento demonstrar às pessoas. Desta forma, ler Bernard Cornwell não perde a graça mesmo quando você é capaz de ler, com plenitude de absorção, Homero. Dá pra apreciar a literatura em todos os seus níveis. Nada é nulo. Pode ser ruim, muito ruim, mas não nulo.

Essa escalada tem um tempo que é muito pessoal, mas a coleta de informações quase sempre vem do meio em que estamos inseridos. A importância de apresentar referências, de conversar sobre o que se lê e de extrair o máximo de cada obra tem o poder transformador de inspirar outros. É uma lição de empatia e humildade das maiores. Algo que muito falta hoje em dia, inclusive. Por isso, repito, sou fã de leituras coletivas (o projeto do blog tá amadurecendo) e debates. No fim, junto com a ‘Escalada Literária’, podemos praticar uma série de valores que tanto sentimos falta no cotidiano. Adquirimos o hábito de sermos cada vez mais contestadores, solícitos e compreensivos. Viu como todas as ideias até aqui se misturam? É um conjunto de ações que gera um conjunto de resultados. O pensamento é disseminar a ideia e devagarinho a gente vai colhendo os frutos.

Raduan Nassar – Um Copo de Cólera

Raduan Nassar é um daqueles fenômenos que só a literatura é capaz de explicar. Tendo toda sua obra resumida a três livros, ele ganhou recentemente o Prêmio Camões 2016, premiação de maior importância para autores da língua portuguesa e é apenas o décimo segundo brasileiro a ganhar essa honraria. Minha primeira experiência com Nassar foi com o tão aclamado Um Copo de Cólera.

Quando eu peguei Um Copo de Cólera para ler, logo pensei “esse aqui vai levar uma tarde”. Ledo engano. Uma tarde foi pouco, muito pouco. Não que Nassar tenha escrito com extrema precisão técnica (Lavoura Arcaica tá aí pra isso), mas existe um conjunto de fatores que fazem com que Um Copo de Cólera tenha exercido esse poder de fixação sobre minha pessoa.

copo-de-coleraLogo nas primeiras dez páginas há uma intensidade arrebatadora. A escrita é simples para justamente deixar o enredo fluir com a força que deve ser. Eu li cada linha vidrado, tentando captar a intenção de cada palavra. Não adianta fugir, Nassar faz isso naturalmente da mesma forma que a gravidade nos prende aqui. São quase noventa páginas retratando uma noite e a manhã após de um casal. A relação dos dois se dá à flor da pele. Na noite há o amor em toda sua volúpia, na manhã às vias de fato após uma discussão. Retratar em um período tão curto de tempo como são excêntricos e soberbos todos os sentimentos e fatores que giram em torno de um relacionamento é algo de extrema sensibilidade e habilidade descritiva.

Os parágrafos que perduram por páginas e marcam os “capítulos” do livro são desafiadores. Te exigem fôlego ao mesmo tempo que te prendem. É uma escalada sem paradas. Um mergulho em apneia, testando nossa capacidade pulmonar ao extremo. Um Copo de Cólera é um teste de resistência de noventa páginas equilibradas por extremos.

É um belo tapa na cara quando, após completamente envolvido na leitura, Nassar vai explorando nossa ingenuidade. A cada momento que ele coloca essas camadas de intensidade extrema, ele joga com as personagens. Como se fossem atores, eles se travestem com uma nova face, formando um novo casal. É um jogo perturbador que nos faz refletir o quão suscetível somos ao cair nessa mesma roda de papeis interpretados em busca de alguma coisa que falta num relacionamento. Ou sendo mais amplo, na própria vida. O quão atores somos capazes de ser? E como faz quando as máscaras caem?

Isso reflete muito o momento que o Brasil vivia. O livro foi escrito em 1970 e lançado em 1978, época da ditadura militar que, após o milagre econômico, começava a mergulhar na crise. Os excessos do casal refletem muito bem o amor bandido, promíscuo e incontrolável que existia na época (existe até hoje, na verdade) por ideais de países diferentes que não tem absolutamente nada de semelhante com o que é o Brasil de fato, em suas origens.

Apesar de sermos um baile de carnaval veneziano, o baile sempre acaba e temos que tirar as máscaras. Isso desnuda nossa identidade. E é difícil lidar com o que realmente somos, ainda mais quando nos acostumamos às máscaras. Em anos, em meses ou em horas, é indiferente. Da mesma forma que o casal do livro, tomamos rumos distintos. Mas sempre dispostos a voltar ao lugar comum.

P.S.: O FILME É UMA MERDA!

Marion Zimmer Bradley – As Brumas de Avalon

Por Caio Lima

Desenvolver um enredo que passa pela construção de um ideal dentro de um contexto que caiba uma lenda como é Artur e a exposição de argumentos histórico-geográfico-culturais (ficou bonito isso), nos deixam apenas duas opções: o fracasso total ou um sucesso absurdo.

Marion ganha muitos pontos num quesito que é mostrar o contexto da história. O início de tudo com Igraine, Gorlois e Uthred, não serviu tão somente para figurar como um prólogo da história de Artur, mas serviu também para expor de forma muito sutil tudo o que seria colocado com muito mais contundência no desenrolar do enredo. Além dos principais pontos, existem muitos outros “subpontos” que ela começa a desenvolver. Pontos como a voz ativa da mulher na sociedade, a fidelidade moral, a existência de uma esfera espiritual que não é naturalmente cultivada, a multiplicidade de religiões/seitas/credos e o respeito mútuo (deixa pra lá…) entre elas, em como as relações entre destino e vontade própria são altamente sutis, o entendimento e o cumprimento do que se está destinado a fazer, os limites do amor, entre outros, ficam ali implícitos esperando a hora de serem jogados no decorrer do livro.

“… é que não existe história totalmente verdadeira. A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade de nossos pensamentos.”

Marion cria um enredo extremamente rico e dinâmico para uma história movida basicamente por jogos de poder sutis. Ela mostra a alternância de cada um em si, como indivíduo. Através dos desejos momentâneos de cada personagem, suas decisões, por mais firmes que sejam, derretem como gelo e escorrem até o ralo da alma parecendo nunca ter habitado aquele espaço. E realmente somos desta forma! Além da nossa própria personalidade, a construção da sociedade e as restrições a que somos submetidos são determinantes para qualquer desejo nosso. Marion é capaz de deixar isso muito evidente com Morgana, que demorou a tomar nota disso pela decepção que teve com Viviane. E traça paralelos, quando Viviane respeitou o desejo da Deusa e, mesmo sabendo que se tratava de irmãos, deixou que o ato nas fogueiras de Beltane fosse consumado por Artur e Morgana.

E tudo que tange a desejo e abdicação dependem de como você é fiel à pessoa que você está ligada ou ao objetivo o qual acredita. Guinevere é fiel ao catolicismo ao exigir que Artur fosse convertido ao cristianismo, o obrigando usando de toda a chantagem emocional possível. Mas, quando o assunto é Lancelote… sua fidelidade ao que prega cai por terra. Artur manteve-se fiel a seu povo sendo um rei justo e nobre, conseguindo a tão desejada paz para a Bretanha e uma época de prosperidade, mas não foi fiel à Avalon conforme havia jurado. Lancelote virou produto de seus desejos: o desejo de servir a Artur, seu melhor amigo, e o desejo por Guinevere. São direções paralelas, e a acidez que é permanecer na dúvida o jogou num limbo.

Após desenhar os personagens e construir esses “subpontos”, ela decide voltar para o centro da teia que foi capaz de tecer com uma força impressionante. Ela consegue fazer transparecer na escrita a ambição de cada envolvido nessa disputa pelo poder da Bretanha. Assim faz parecer que todas aquelas agruras e angustias só poderiam culminar numa ambição cruel e desenfreada. Todos assumem sua culpa no cartório. É incrível como parece que as brumas caíram sob os olhos de todos e as ações começaram a ficar mais fortes e mais duras. Alguns conceitos tão aflorados antes só apareceram em pequenos traços, como a compaixão e a empatia.

06 - Marion Zimmer Bradley - As Brumas de AvalonCriar uma dependência forçada, estabelecer uma relação de doutrinação conscienciosa. Isso é tão grave que deveria ser crime! Essa é uma faceta nossa como seres humanos e é extremamente difícil desconstruir isso. E no fim, é esse apego aos ideais e essa doutrinação espontânea que vão levando as definições do quarto livro. É o que carrega Morgana, Artur, Lancelote, Guinevere, Morgause, Niniane, Mordred e todos os outros. É o que tentam fazer conosco todo tempo. É o que tentamos replicar para com os outros, de forma inconsciente até. Subjugar e doutrinar. Quantas vezes Morgana ou Guinevere ignoram uma a outra? Como Lancelote, no seu eterno limbo, consegue tratar tão mal sua esposa Eliane? Como Morgana, apesar de reconhecer a bondade de Uriens, lhe retribui com uma gentileza ensaiada e com toda a desfaçatez que há nela? Dizem que as guerras, principalmente as internas, nos endurecem de forma fugaz como têmpera no aço. E é isso que a Marion mostra: você é capaz de ser cruel, de trair, de pisotear sentimentos, de jogar e de matar, até. Ódio, rancor, vingança. É um samba de uma nota só, triste e pesado.

Ao longo dos livros me ficou uma impressão de que tudo que desde o começo foi planejado pela Viviane lá quando planejou casar Igraine com Uthred a qualquer custo dando início ao futuro reinado de Artur como Grande-Rei da Bretanha. Foi algo além de uma missão de resgate à força da Deusa naquela terra. Havia uma aura que circundava todas as decisões tomadas desde então, algo implícito e perdido nas brumas. Algo que vai além da força, do poder, da religiosidade, da devoção e do cumprimento de uma missão. Envolve pureza. Pode parecer estranho, mas foi a minha percepção. E, vendo o desenvolvimento de cada figura no livro, de Viviane até Mordred, fica esse mesmo sentimento de que havia sempre algo subjetivado. Fosse o amor, fosse à Deusa, fosse ao Deus, fosse à paz ou fosse o poder.

Redenção! Essa é a palavra! Como corrigir todos os meus erros? E forçamos respostas para todos os erros que cometemos. Respondemos tudo prontamente, com a melhor das intenções. Afinal, a redenção tem que ser ação imediata, da mesma forma que os erros foram. Notam-se os efeitos aparentes, mas é um baita cobertor curto. Você impõe sua redenção, da mesma forma que impôs seus erros. Doutrinamos nossa bondade também. Os acertos são muito mais eloquentes que os erros na hora de subjugar e doutrinar. E novamente somos reféns das nossas vilanias bem intencionadas.

É um ciclo. Esse foi o ciclo que Morgana teve ao longo dos quatro livros inúmeras vezes. Esse é o retrato do reinado de Artur. É a descrição literal do limbo de Lancelote. É o espelho da ambição desenfreada de Mordred. Esse é o principal motivo de Viviane ter se tornado uma das grandes personagens de todos os tempos para mim. Ela foi assassinada e se foi de forma cruel, mas é perceptível que havia pureza nos seus ideais e na sua luta. Ela obteve sua redenção. É o que aparece dos quatro livros após dissipar toda a névoa. Somos o que somos e, por isso, somos capazes de cumprir os desafios a que nos propomos à nossa maneira, num tempo indeterminado por nós. Do tempo e do que está escrito, cuida o destino. Mas, apesar de inexorável, ele nos dá a dádiva de nos procurarmos a todo o momento. É só ali que cumprimos nossa missão.

“Avalon estará sempre ali para todos os que puderem buscar o caminho, por todos os séculos e além dos séculos. Se não puderem encontrar o caminho de Avalon, isso talvez seja um sinal de que não está pronto pra isso. “

Enquanto isso o Desafio Livrada! 2016 segue assim:

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann
2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski
3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe
4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko
5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino
6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade
7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex
8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro
9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg
10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein
12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino
13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger
14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal
15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Seguimos na sombra.