Elvira Vigna – Nada a dizer

Por Caio Lima

Dá para admirar arte. Dá para analisar arte tecnicamente. Dá para interpretar arte. Dá para compreender a arte sob vários aspectos. Dá para elogiar a arte. Dá para sair por aí tirando onda com os outros porque você gosta de rock tcheco, usa um turbante marroquino, entende os quadros de Pollock e lê James Joyce todo dia antes de dormir enquanto toma vinho chileno com seu pastor belga malinois deitado aos seus pés. E isso não vale de absolutamente nada. Para quem conhece o Rede de Intrigas a mensagem é bem clara: ninguém precisa conhecer a fundo o assunto nem elaborar meio mundo de teorias malucas, só tem que rolar sentimento.

Em ‘Nada a dizer’, romance de Elvira Vigna lançado em 2013, a história gira em torno de um casal com seus 60 anos e o marido, Paulo, se mete num caso com uma mulher bem mais nova, N., amiga do casal há uns anos, também casada. Tudo é narrado pela ótica da esposa traída. Aparentemente é um enredo simples. Aparentemente. Elvira cava um poço e traz à tona uma série de questões. Resenhas que tratam da situação da mulher nos relacionamentos, outras falam sobre o retrato da classe média brasileira, algumas são mais gerais, outras vão além e fazem uma análise sob a ótica da psicanálise. Enfim, tem resenha para todos os gostos. Dá para perceber que Elvira é uma unanimidade no cenário contemporâneo (e tem que ser, com essa caneta pesada, nada mais justo).

Eu havia escrito uma resenha grande, bem grande (e boa), fazendo um link e observações sobre todos esses aspectos do livro, mas decidi reescrever para falar sobre uma coisa só. Por isso, perdoem se isso aqui está mal escrito, mas é assim que vai ser. Prometo melhorar.

Tendemos à dualidade. Falei um pouco disso na resenha que fiz sobre ‘A morte e a morte de Quincas Berro Dágua’. É até mais fácil, se pararmos para pensar. Construímos conceitos fechados sobre tudo e todos. Dois tons apenas, sem variações, sem surpresas. Fácil, muito fácil. Tão fácil que fazemos questão de esquecer da nossa própria complexidade. Caímos numa zona de conforto movida pela aparência de que tudo está visivelmente bem. Seguimos por meses, anos, décadas. Eu parei nos anos, ainda bem. Porque quando o invisível salta aos olhos, o desbaratino é louco. Dormimos num castelo e acordamos nas ruínas. Reconstruímos o castelo e voltamos às ruínas. Como se a vida fosse marcada por reconstruções constantes, trabalhosas e nada prazerosas.

Hoje, eu não avalio essa reconstrução de si mesmo como um processo natural. Na verdade é estagnação. É sempre tentar voltar para onde já se esteve antes, num ciclo sem fim. Isso é tão antinatural quanto a coca-cola que a gente toma. E não adianta mudar a torre de lugar, fazer um salão menor ou aumentar os muros, o castelo é sempre o mesmo e se tornará ruína, mais cedo ou mais tarde. Só de parar para falar isso já é cansativo. Mas é necessário para que vocês entendam meu ponto.

A partir do momento em que a protagonista começa a desconfiar das traições de Paulo, um castelo construído por décadas é demolido. No começo é a negação, a revolta, a fúria, o desespero. Como se convive com alguém que te trai? É uma relação hegemônica. Perde-se a liberdade e a equidade. Mas começam os flashbacks, desde quando se conheceram e lutavam contra a ditadura nos anos 60, até se tornarem um casal típico da classe média brasileira. Ou melhor, até se tornarem tudo o que eles combatiam com todas as forças. A vida e suas contradições tragicômicas.

Reconstituir toda uma vida dedicada a outra pessoa, a qual você descobre uma traição tão tosca, num relacionamento de duas pessoas tão abertas, tão progressistas, mostra o caminho o qual eles trilharam para chegar a esse ponto. Mas existe um ponto além, que fica subentendido como condescendência ao término do livro, num primeiro momento, mas que me veio à luz agora, e por isso resolvi mudar tudo.

A esposa traída se confronta o tempo inteiro com o ato da traição e tudo que ela construiu com Paulo, esse bosta. Uma vida dedicada, curtida, arrastada por um relacionamento que agora está à beira da falência. E nesses enfrentamentos que se desenrolam por meses, existe um quê do duplo citado lá em cima. Você termina com um relacionamento e larga o amor da sua vida por conta da traição, ou o perdoa e finge que nada aconteceu para manter as aparências e tudo bem, bola pra frente, segue o baile? Duas questões com implicações enormes. Ou você tenta se reconstruir aos 60 anos de idade, mais ou menos, ou você se anula completamente e passa a mão da cabeça do cara só para manter o castelo em pé.

Pode parecer condescendência, burrice ou inocência. Para mim, foi uma tentativa de evoluir, de fazer as coisas diferentes e de se equilibrar frente a esse desmoronamento. Não é a questão do perdão, de parecer superior a isso tudo. É uma questão que parte de uma tomada de rumo diferente. De se libertar de um relacionamento abusivo e usufruir de um relacionamento livre, realmente. É tratar as coisas para além do duplo que imaginamos que tudo seja constituído, com desprendimento de intenções. Sentidos novos, caminhos novos. Parece uma viagem bem taoista, mas no meio desse caos todo, me ficou essa impressão. Tudo está ali para ser absorvido, sentido e destrinchado. Tudo serve para nossa evolução. Tudo serve para que nos equilibremos. Principalmente quando tratamos de amor, já que o amor é liberdade. Às vezes só é necessário sentir, sem ter nada a dizer.

Manning Marable – Malcolm X: uma vida de reinvenções

Por Caio Lima

Uns fazem história, outros contam história. Talvez essa frase seja uma definição muito oportuna entre um biografado e um biógrafo. Conduzir a história de uma pessoa tão maior que você mesmo é uma espécie de fardo voluntário. É uma espécie de bancada de negócios também, já que uma biografia bem montada constrói uma personalidade ou a desmonta em questão de poucas páginas e, bom, quem vai contestar o biógrafo que estudou tanto a vida dessa pessoa X para dedicar meses/anos da sua própria vida escrevendo sobre a vida dela, não é mesmo? A biografia é um subproduto literário que tem o poder de elevar expoentes até o infinito se pensarmos bem.

Só de falarmos em “literatura”, costumeiramente reservamos locais mais intelectualizados para contextualizar a obra de alguém, mesmo que esse alguém seja o Caio Castro (tenho vergonha do meu nome agora, como faz?), um cantor teen em início de carreira ou nossos queridos produtores de entretenimento para internet, mais conhecidos como youtubers. Por mais contestados que estes sejam a nível literário, eles geram muito lucro e de certa forma eternizam seu nome através da arte, gerando uma enorme divulgação através de um meio o qual os próprios nunca imaginariam estar inseridos, muito menos causar tanto impacto financeiro. Business first, babe.

Essa solidificação da literatura como propaganda e culto à personalidade não é de hoje. A cultura ocidental e todos os seus meios de controle dependem, por si só, de ídolos para se manterem estáveis. Mas num mundo que foi deixando de ser totalitário para se tornar mais “democrático”, entra em desuso utilizar uma única imagem como representação máxima. Somos seguidores de infinitas imagens que nos dividem, adulando um sistema cruel de normalização da ignorância e, pior, de subserviência a pessoas “melhores” que nós por natureza, apesar de não sabermos qual natureza é essa que torna alguém instantaneamente melhor do que eu, você e todo mundo.

Deter e estudar a informação, analisar os fatos e progredir pelo caminho sinuoso que uma vida tão invejada, perseguida e movimentada oferece. Talvez essa deveria ser a prática comum a nós todos, ao menos para investigar as pessoas que dizemos acreditar, quando naturalmente veneramos de olhos fechados. Falando de um biógrafo, isso deveria ser lei! E no meio de tantas biografias risíveis, me vem a biografia de Malcolm X, escrita por Manning Marable. Malcolm X não é apenas um homem, é uma lenda. Para quem está inserido no rap há muito tempo e convive com a manifestação quase que diária do seu nome em lançamentos da cena, é muito difícil não vinculá-lo a algo naturalmente superior e intocável. O X aqui é bem mais importante e representativo que o do Eike e sua teoria da multiplicação fracassada, diga-se de passagem.

Falar aqui do que representa Malcolm X é chover no molhado. Mas falar o que representa essa biografia de Manning Marable é essencial para que possamos entender que quanto mais humano for, melhor. Sermos próximos de Malcolm não é retirar sua importância, é dignificar cada um que acredita nas suas palavras como um igual, capaz de representar e fazer tanto quanto ele fez. É entender que legados existem para serem usufruídos e aperfeiçoados conforme a necessidade e a mudança dos tempos; e não como um fetiche inatingível.

Manning demorou 10 anos para escrever essa biografia e, além disso, montou o maior acervo sobre Malcolm X do mundo. A biografia torna-se, portanto, a condensação de tanta informação acumulada e (des)informação desmentida. Professor universitário de respeito, detentor de uma vasta obra literária sobre história, cultura e direito dos negros americanos, ele dedicou sua vida percorrendo o ideal de que sua militância acadêmica fosse capaz de atingir todos os negros sem exceção, o que abrange, não muito diferente daqui, a maioria da população negra que vive em situação marginal. Existe o extenso e árduo trabalho de pesquisa, existe o trabalho de condensar toda essa pesquisa num único volume e, ainda por cima, existe a transformação da linguagem, saindo de um livro denso e acadêmico, como deveria ser um livro fruto de um trabalho acadêmico de 10 longos anos com uma vasta equipe, para uma linguagem que abrangesse o americano comum, inserindo a academia para um público totalmente periférico. Isso é ativismo. Mais importante: isso é legado! O site com todo o acervo que Manning teve acesso está aberto ao público, tem o que vocês quiserem saber lá de graça. Surreal!

Mas disponibilizar tanto conteúdo assim, de uma vez, tem lá seus perigos. Isso pode desmistificar a indústria que alimenta a imagem de Malcolm que querem modular na cabeça das pessoas. Pode colocar em xeque, também, a extravagância de quem acredita que Malcolm era intocável pela sua grandiosidade e representatividade, como líder de uma seita, um profeta, um xamã. Não que devamos passar a vida inteira relativizando atitudes de pessoas, é babaquice passar uma vida inteira falando “olha, ele foi muito bom, mas fez xixi fora do vaso três vezes essa semana” ou “olha, ele foi uma pessoa ruim, mas teve um dia que tirou um gatinho de uma árvore, merece lá seu crédito por isso”. Enfim, o grande perigo dessa biografia (e a maior virtude) é mostrar o homem Malcolm X e tudo o que ele foi capaz de realizar dentro de todas as suas contradições, que não eram poucas.

Após um longo processo de leitura, de ter passado e repassado alguns capítulos desse livro, entendo e admiro Malcolm mais ainda. Mas não é por sua luta, apenas. Malcolm, mais do que ninguém, foi um homem de fases. Durante toda a sua vida mudou, e mudou muito. Sem medo de ser controverso, ele seguiu em frente. Desde o malandro e chapado Big Red até o consagrado mensageiro da integração racial e do pan-africanismo, percorremos vários caminhos, que na verdade nos levam a um lugar só: não se submeter a nenhuma força externa, mesmo nos momentos mais difíceis. Para que fique bem claro: não se submeter a nenhuma força externa não significa que ele era autossuficiente e que não havia, nele, outras influências. Significa, sim, que apesar de tudo o que o rodeava, ele foi capaz de canalizar sua visão de mundo e seguir adiante da forma que bem entendia, incluso todas as suas mudanças e contradições, certo?

Claro que a vida não é feita apenas de suquinho de framboesa. Suas escolhas o levaram a uma perseguição implacável até sua morte, à depreciação popular, ao rompimento de vínculos afetivos fortíssimos e a relegar a própria esposa e filhas num segundo plano, se ausentando sempre que podia. Se isso tudo valeu a pena? Só o próprio poderia responder. Muitas atitudes que Malcolm foi capaz de tomar foram absurdas e temerárias. São coisas que eu nunca imaginaria, na verdade. A maior delas foi um encontro, quando ainda estava na Nação do Islã, para negociar com a KKK. É, isso aí mesmo, Malcolm negociou um acordo com a KKK. Dentre outras coisas, Malcolm aderiu, primariamente, a uma ideologia totalmente sectária, que via os homens brancos como demônios e excluía qualquer outra raça senão a do homem negro oriental. Também era machista, homofóbico, adúltero, entre outros. Ou seja, tem Malcolm pra todo mundo. Para quem o ama e para quem o odeia. E ainda tem bastante motivo pra justificar a sua opinião.

 A literatura não aponta ou propõe o que é certo e o que é errado. A literatura tem, por definição e função artística, fazer você pensar por sua conta, se arriscar a formar uma opinião e, o mais difícil de tudo, ter coragem de se desfazer de opiniões já formadas. O certo e o errado ficam à cargo do que você acredita ser certo e errado. E isso muda conforme o tempo passa. Da mesma forma que o autor de ficção faz proposições segundo seu ponto de vista, tudo aquilo que seguimos está intrinsecamente ligado ao modo como vemos o mundo e isso não cabe a ninguém julgar, senão nós mesmos. É algo sublime. Todos esses processos de incineração ou exaltação virtual que vemos hoje em dia, principalmente sobre nomes como Malcolm X, Che Guevara e Fidel Castro, os três maiores personagens da segunda metade do século XX e bastante próximos ideologicamente entre si, refletem esse processo perverso de ter de escolher um lado para seguir, quando eles mesmos se deixaram levar por devaneios e contradições durante toda a vida. Por isso, senhores, quem muito julga ou determina o que são outras pessoas, nada mais faz do que falar de si mesmo. Seus julgamentos são, mais do que suas atitudes, o conjunto da sua alma.

Manning é professor, negro, escritor e ativista. Isso não o impediu de ver claras contradições e mentiras nas muitas versões de Malcolm que passaram por ele nessa roda-viva que é a geração de ídolos-quase-deuses que no mundo se criou. Na verdade, todas essas atividades o fizeram questionar de forma muito severa tudo o que conhecia até então. O ser humano Malcolm X, sua visão de mundo e a influência que ele foi capaz de causar na vida de milhões de pessoas. Contextualizar isso vai muito além de emitir uma opinião como “ame-o ou deixe-o”. Existe um processo de recriação da história que abrange algo tão complexo e sutil, que não pode ser tratado nunca com imparcialidade. Aqui não reside uma biografia imparcial, muito menos uma visão relativista de Malcolm. Lembrem-se: informação e estudo produzem liberdade de pensamento, não pessoas que ficam em cima do muro. Cada linha escrita por Manning tem essa função, fazer com que pensemos sobre Malcolm X de forma objetiva.

Falar do autor da biografia, e não do biografado, pode parecer controverso, mas eu quis que fosse assim. Infelizmente não temos obras traduzidas, além dessa, do autor. Eu gostaria de conferir tudo o que esse cara escreveu. Infelizmente não percebemos, mas autores como Angela Davis, Maya Angelou, Bell Hooks, Marcus Garvey e outros grandes autores e ativistas negros não chegam até nós da forma que deveriam. Isso é inadmissível. Perdemos, cada vez mais, a capacidade de observar o mundo de forma democrática. As visões são unilaterais demais, seguimos tendências e ainda achamos que temos liberdade de pensamento. Por isso é importante falar de Manning Marable, mais até que da biografia em si. Por fortuna do destino, do trabalho e de um Pulitzer mais que merecido, ele foi traduzido para nós. Mas quanto ainda está coberto para nós? Quantas faces da história ainda não conhecemos e não somos capazes de interpretar livremente?

Malcolm descobriu a liberdade através do conhecimento, por isso nunca se importou em se contradizer e defender aquilo que acreditava à medida que seu desenvolvimento o fazia transgredir os padrões a que ele mesmo se impunha tão firmemente. Suas contradições foram exploradas para que se tornasse lenda, quando, na verdade, só o tornavam cada vez mais humano. Marable, tanto quanto X, buscou beber na fonte do conhecimento e entregou uma biografia escrita com a firmeza de uma pessoa livre, desprendida das convicções que nos impedem de olhar além do homem e explorar todo seu legado. Malcolm X foi um gênio de seu tempo, Marable outro. Está na hora de conhecermos ambos. O legado de Malcolm X está seguro, e livre, na biografia de Manning Marable.

Thomas Pynchon – O leilão do lote 49

Por Caio Lima

A literatura costuma endossar algumas temáticas ou questões cheias de significados, mas via de regra há um aprofundamento dessas questões todas até o cerne do pensamento humano. É pesado. Você lê e sai com a cabeça doendo, numa crise existencial grotesca e, o pior de tudo, não tem absolutamente ninguém para conversar sobre o que leu que tenha sentido a mesma coisa que você, é impossível. Olha uma confissão em cinco linhas do porquê o Rede de Intrigas foi criado. Brincadeira, não foi só por isso. Enfim, fazendo contraponto a essa máxima da profunda exploração do ser humano e suas mazelas, virtudes e embaraços, há uma outra linha, que me agrada muito, de escritores que levam o ser humano a um estado de absurdo completo, desenvolvendo suas obras de uma maneira completamente livre de qualquer estereótipo. Seja no estilo de escrever ou nas ideias que são ventiladas através da obra, esses autores têm essa capacidade ilimitada de elevar o ser humano, e a vida de uma maneira geral, a algo bizarro.

Claro que isso não tira a complexidade e, muito menos, a profundidade da leitura. Mas o sentimento de estranheza é, sem sombra de dúvida, uma verve nova para o leitor comum. Sair da zona de conforto, ler pelas entrelinhas e todas essas coisas que vocês ouvem em palestras motivacionais para jovens empreendedores, mas que nunca pensam em aplicar em atividades básicas, tipo ler ou estudar, tá ligado?

Do século XX até os dias de hoje, em muito se pode falar do desenvolvimento de uma literatura que trata o homem num hemisfério absurdo ou surreal. É provável que nenhum deles seja mais famoso que Kafka. O universo kafkiano é repleto de referências e analogias estranhas e que passam batidas a um leitor desatento, muitas vezes achando a psicodelia de Kafka algo surreal, mas despretensioso. Nessa linha psicodélica, temos uma coletânea memorável de poetas, desde os clássicos poetas malditos, como Baudelaire e Rimbaud, até, numa aproximação muito tênue, o nosso Leminski, cercando a atmosfera de suas obras com uma mistura inexata e arrebatadora do lúdico e do lúgubre, aludindo sempre ao fantástico mundo dos vícios, amores e misérias imensuráveis. Por falar em vício, a geração beat é especialista em recriar o absurdo humano, principalmente nas mãos de Allen Ginsberg e William S. Burroughs, através do êxtase das sensações elevadas a partir de psicotrópicos fortíssimos que vão se alimentando do meio literário até chegar a Irvine Welsh e Chuck Palahniuk e seus brados contraculturais espalhafatosos. Alguns movimentos, por aparência ou fixação mercadológica, também carregam essa espécie de descarrego bizarro. A ficção científica tem muito disso, por exemplo. E outros autores retratam a vida como ela é numa irônia sem fim do absurdo, estou certo ou estou errado, Nelson Rodrigues? Mário de Andrade, com Macunaíma. O boom sulamericano com autores como Borges, Cortázar e Gabo, entre outros clássicos e não tão clássicos que carregam essa marca bizarra em diferentes níveis de intensidade ao longo da história.

Eu só fui atentar para esse viés literário com maior força após ter lido Graça Infinita, do David Foster Wallace. Gostaria de resenha-lo um dia, quem sabe. Mas, para quem deseja ler ou matar algumas pontas soltas do livro, a Camila, do Livros Abertos, fez uma resenha tão especial e cheia de pormenores, que vale a pena ser lida e relida. Graça Infinita elevou infinitamente meu tino para as referências e para o mundo particular de cada autor: processo criativo, crenças pessoais, artigos relacionados e até informações mais gerais. Num livro tão absurdo, com tantas estruturas narrativas diferentes, é impossível contemplar toda a concepção da obra de uma vez só. Ela vai batendo aos poucos e em épocas diferentes, pedindo releituras e material de apoio constantemente. Afinal, essa é a mágica da boa literatura bizarra, fazer você chorar montando as peças do quebra-cabeças. Buscando referências, eu cheguei a muitos lugares, autores e materiais diferentes, mas nenhum comparável a Thomas Pynchon e seu universo regido pela paranoia.

Pynchon é grafado como um autor pós-moderno. Ninguém sabe muito bem o que isso quer dizer. Nas muitas literaturas existentes, o pós-moderno é algo muito sem face e com milhares de conotações ideológicas, tanto que marxistas e libertários são muito contundentes com suas críticas e associações, algumas até bastante semelhantes. Ironia ou não, é um meio cheio de nuances e eu, não sendo conhecedor profundo e nem estudante de letras, filosofia ou qualquer cátedra que me dê autonomia para dissertar sobre isso, não me arriscarei indo para águas profundas e colocarei uma interpretação minha do que é o pós-modernismo de Pynchon, segundo pude acompanhar em ‘o leilão do lote 49’. Permitam-me a licença poética (sempre quis colocar essa frase num texto).

Existe uma espécie de ruptura do pensamento moderno após a segunda guerra mundial. Não só na questão de ordenação e polarização econômica e ideológica. A tecnologia num avanço constante e vertiginoso, as novas maneiras de se conseguir informação e até na forma como essa informação chegava ao consumidor, de forma apropriadamente ideológica e urgente, elevando a intensidade e, consequentemente, o significado de qualquer informação nova que surgisse, por menor que fosse. O deslocamento instantâneo dos sentimentos, podendo ser manipulados de forma conspiratória e constante, renova essa ideia da necessidade do avanço fugaz e urgente. O que isso quer dizer, basicamente? Que a grande transição do moderno para o pós-moderno é a intensidade com que nossos reflexos e habilidades trabalham. O olhar romântico sobre uma metade de século que caminhou sob revoluções e guerras ideológicas já não é mais possível. A informação e, principalmente, a manipulação da distribuição dessa informação, controlam o sentimento de revolta, desconforto ou satisfação das pessoas, por exemplo. Agora pare e reflita: você já reparou nas suas trocas de humor durante o dia? Ou quantas coisas você faz em áreas totalmente diferentes umas das outras? Então, esse é o mundo pós-moderno.

Édipa Mass é vítima dessa loucura pós-moderna. Após receber a responsabilidade de fazer o inventário de um ex, Pierce Inverarity, ela entra de cabeça na busca do significado de Tristero, um serviço postal underground e que tem uma trompa postal como marca registrada. Nesse processo de investigação asfixiante, ela roda algumas cidades da Califórnia e esbarra com um monte de gente que, supostamente, estaria ligada à Tristero. O grande problema é que no fim das contas ela só encontra dúvidas e sua vida como terra arrasada. O marido se torna viciado em LSD, o amante foge com uma adolescente namorada de um dos caras da banda, seu analista fica louco e o dramaturgo, sua última esperança de ajuda, se mata. E, no fim das contas, tem o inventário do Inverarity, que é os EUA. Nada fácil, Édipa (suspiro de desolação).

Eu não sei a pessoa que colocaria o nome da filha de Édipa, mas caso exista alguma, torço para que ela seja estéril. Nesse caso, eu fui procurar um pouco da história de Édipo e no meio de toda a tragédia encontrei um ponto que, talvez, tenha sido a intenção de Pynchon ao dar esse nome a sua heroína. Caso não tenha sido, ao menos me ajudou a construir essa resenha, o que está de excelente tamanho. No caso, Édipo encara a esfinge e a derrota dentro do seu próprio jogo. A esfinge é um rito de passagem: ou você acerta a charada e ela abre o caminho, ou você erra e fica empacado. Enquanto houver a necessidade de atravessar tal caminho, o homem continuará tentando. Esse é o motivo de tantos ficarem loucos com o enigma da esfinge. É como estar perdido e andar em círculos eternamente, até a loucura. Édipo derrotou a esfinge, Édipa não.

A manifestação simbólica da tragédia grega não está tão longe assim do mundo pós-moderno retratado por Pynchon. Os dois se reconhecem muito bem, apesar de não se encaixarem. E o autor sabe disso. Ele usa o passado como uma alegoria do futuro, mesmo tendo a certeza de que ambos não se assemelham em forma. Nem poderiam. As condições de cada época não geram equivalência, nem mesmo partem do mesmo princípio, apesar de terem, em dados momentos, processuais semelhantes. A fixação de Édipa à sua rotina e sua vida, fazem dela uma refém de um tempo que já passou a partir do momento que ela recebe a notícia do inventário e enxerga a Tristero como uma grande conspiração, tirando-a do mundo real sob os mandamentos de eventos fantásticos e irreverentes da paranoia e elevando sua condição de perseguição a uma experiência tão alucinógena quanto o uso abusivo de LSD pelo seu marido. Essa transição entre dois mundos que Édipa bate de frente constantemente é seu enigma da esfinge.

A afirmação aclamada de Marx “a história se repete, primeiro como farsa, depois como tragédia” pode ser taxada como um grande erro (mas é uma frase bonita) se acompanharmos a evolução do homem e das formas de ordenamento social ao longo da história, já que usar a história como simulacro não é exemplificar ou emular no passado uma situação equivalente no presente. Pontos podem ser semelhantes, mal comparando, até o resultado final pode ser, mas a história é continuamente escrita e não repete capítulos. Por isso que ficamos perdidos junto com Édipa ao rememorar a história do serviço postal Tristero. Nada é conclusivo ou explica muita coisa de seu funcionamento atual, se comparando a sua origem na Europa e seu estabelecimento nos EUA no meio do século XIX. Essa sensação de estar à deriva junto com Édipa é proposital. Causa um desconforto extremo pesquisar sobre o passado de alguma coisa tentando justificar ações no presente e não conseguir tornar as duas realidades, passado e presente, concomitantes. Isso agrava o estado de desespero e aumenta essa tensão de sentir algo prestes a te engolir sem poder algum de defesa. Bem-vindos à paranoia de Pynchon.

Tudo o que foi dito aí em cima nos ajuda a entender o contexto do livro e, consequentemente, da linha que Pynchon adota para criar seu ambiente paranoico, já que, segundo informações, essa é uma constante da sua literatura. Mas entender a heroína é fundamental para revelarmos o quão grande foi Pynchon nesse livro. Essa interposição de pessoas e fatos aleatórios que levam Édipa a acreditar que o serviço postal Tristero é alguma conspiração grandiosa e, mais para o fim, pessoal, pode ser explicado sob diversas óticas. Uma delas pode ser uma relação entre o que acontece à Édipa e a teoria da heterotopia de Foucault. Heterotopia é a teoria que versa sobre espaços não hegemônicos, falando de forma muito simplificada, ou seja, lugares que você encontra tudo ao mesmo tempo. Ao longo do livro, Édipa encontra todo o tipo de gente, em todos os lugares de San Francisco, onde ela passa as 24h mais alucinantes que eu já vi na literatura, com algum tipo de relação muito particular com o serviço postal Tristero. Ou seja, você não consegue distinguir um comportamento ou um padrão de quem usa o serviço. Ele é usado por todos, em qualquer lugar e sob qualquer aspecto. Não conseguir construir um padrão para conseguir informações é tão devastador quanto conseguir informações de todos os lados possíveis. E se apoiar nessa profusão de “sinais” torna o poço de Édipa completamente sem fundo.

Édipa eleva-se a uma realidade improvável, aproveitando sinais controversos e migalhas de informação para reforçar a conspiração Tristero e, consequentemente, sua paranoia. Todo o mundo que Édipa conhece desmorona sob seus olhos, enquanto ela permanece presa nessa realidade criada a partir do símbolo da trompa postal, mesmo sem nada que conecte as pontas soltas que ela tem nas mãos. Ela perde tudo da vida que deixou para trás e também não consegue sair do lugar para descobrir o que é Tristero. O que sobra para Édipa? A paranoia.

Além de toda essa maluquice filosófica que eu disse, há ainda um mar de referência dos anos 60 no livro. Muitas mesmo. Jogadas sem dó. Lendo com atenção dá para pegar muita coisa. Essas metáforas que ambientam os EUA dos anos 60 e alguns marcos da história americana e da cultura europeia clássica, trazem uma maneira nova de ver a história em si. Como eu disse lá em cima, esses caras bizarros amam fazer com que a gente passe mal tentando desvendar tudo o que eles colocam nos livros. Mas essa análise não está fora de todo esse contexto filosófico do livro e do pós-modernismo como um todo, seja lá qual definição adotarem. Toda essa geração de Pynchon sofria do mal de Édipa, estavam todos perdidos pela nova ordem do mundo. De repente o mundo virou do avesso, as coisas começaram a acontecer rápido demais e as pessoas começaram a sentir coisas demais e a fazer coisas demais e a pensar coisas demais, até o que não deveriam pensar de tão bizarra que era a ideia.

O que sobra quando, para acompanhar o novo e desconhecido, perdemos o velho que era nossa base? Nada. Foi o que sobrou a Édipa. Foi o que sobrou para toda uma geração que foi submetida à transição violenta de uma época. É o que sobraria para toda nossa geração acaso a ordem das coisas mudasse de forma quase que instantânea. Viver na paranoia, para a paranoia e de paranoia. A história não se repete, já que nada voltará a ser como antes. A transição de eras não respeita seu tempo e o que você pensa. A história é o ente mais imperialista que existe e todo dia é acrescentada de páginas novas e não muito bem escritas, passando milhares de pessoas para um estado de letargia e paranoia. E resistindo ao tempo, como uma obra-prima da literatura deve resistir, Pynchon nos fez olhar o passado de forma crítica, analisar nosso presente e entender o que esperar do futuro.

Ítalo Calvino – O Visconde Partido ao Meio

Por Caio Lima

“Cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração.”

Eu admiro as pessoas capazes de fazer soar simples qualquer história que contam. É sério, não existe hora ruim pra ouvi-las. Ítalo Calvino é um desses caras. É meio que uma receita de bolo: tá sem paciência, ressaca ou sem ânimo pra nada, então vai lá e pega um Calvino pra respirar, ler uma grande história e ainda tomar tapas e tapas e tapas na cara, mesmo com toda a sensibilidade que transborda desse cara. E numa situação dessas de ressaca literária que, num belo domingo, eu fui procurar O Visconde Partido ao Meio na minha prateleira.

Ítalo Calvino - O Visconde Partido ao MeioEu encaixei esse livro na categoria de “Livro Bobo” do Desafio Livrada! 2016, mas já me adianto que de bobo, em essência, o livro não tem nada. Eu já sabia o que esperar do livro, pois é de Calvino (claro!). Mas o encaixei como “Livro Bobo” pela escrita despretensiosa, simples e bem-humorada do autor. Fica aqui meu mea-culpa.

Primeira coisa: Medardo di Terralba! Você pensaria num nome melhor pra um nobre qualquer? Eu não. Não colocaria num futuro filho meu (bem futuro) pelos trocadilhos com merda, mas quem sabe num peixe beta. Estou refletindo sobre.

Enfim, o Visconde tomou um tiro de canhão no meio do peito enquanto lutava contra os turcos, em prol dos cristãos. Nessa loucura, só acharam a metade direita dele. Após recuperar-se parcialmente (porque essa é só a metade dele, sacou?), o Visconde se revela um personagem oblíquo aos olhos dos demais. Ninguém entende tanta crueldade e autoritarismo. O sentimento de revolta é crescente entre seus subordinados. É muita maldade para uma metade só.

Mas e a outra metade? A metade esquerda é bem vendedora de miçangas. Sumido pelo meio do mato, vive falando com plantas e cuidando de animais por aí. É uma parte excelente no âmago do seu ser. Ternura, arco-íris pela boca e mais miçangas no ar. Mas é tão bom que atrapalha e é tão chato que enjoa. É uma metade que gera revolta. Cansativa, superficial e suas boas intenções só interferem (muito) negativamente nas ações alheias.

“Ó Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desrraigado, mas você também, e todos. Mas, isso agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer com os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.”

Os antagonismos que carregamos nos servem de balança e são os limitadores das ações extremas que, por ventura, somos tentados a tomar. Isso vem muito de encontro a algumas filosofias orientais. Vocês que já leram Calvino já perceberam isso nos livros dele? Talvez seja só uma impressão minha, mas fica o questionamento.

Como eu disse lá em cima, Calvino tem esse poder de simplificar as coisas. Aqui, de forma leve, bem humorada e rápida, ele nos dá uma aula de que o indivíduo é indivisível e, desta forma, não se pode defini-lo a partir de conceitos tão puramente simples como o bom e o mau. Nós temos o nosso próprio “controle de qualidade” (a não ser que você seja diagnosticado com uma patologia, claro). É uma análise do ser humano como um todo, desmistificando conceitos e julgamentos superficiais. O que acreditamos é construído dentro de bases muito profundas que, além de se interligarem, são continuamente moldadas por uma série de fatores ao longo da vida.

Um livro bem-humorado e bem levinho, mas não se esqueçam de que quem o escreveu foi Calvino. Nunca esperem nada menos que reflexões profundas durante a noite tirando seu sono e a excelência de quem entende as mazelas da alma como poucos.