Federigo Tozzi – Memórias de um empregado

Por Caio Lima

Emprego vem do latim “implicare”, que significa “unir, juntar, enlaçar”. Empregar uma pessoa é envolve-la num interesse comum. O empregado, desta forma, seria uma das engrenagens que move determinado interesse. Engrenagens são elementos de transmissão de potência. Pois bem, se uma engrenagem quebra, a máquina para. Não tem como continuar de forma capenga, do jeito que dá. A máquina para e é só, até ser consertada. Terrível. Nos coloquemos como empregados agora, vocês enxergam alguma semelhança da sua realidade com o sentido etimológico da palavra? E a palavra emprego, remete o envolvimento de pessoas num interesse comum? A viagem etimológica pode nos levar a lugares muito mais interessantes do que pensamos; e isso está refletido no romance “Memórias de um empregado”, do italiano Federigo Tozzi.

Desde a Grécia Antiga, o homem ocidental atualiza as definições da palavra “emprego”. Apesar do nosso ponto chave ser a Revolução Industrial, podemos fazer reflexões acerca da relação entre o homem, o emprego, os meios de transporte e a necessidade de cobrir grandes distâncias, bem antes disso. Por exemplo, como o deslocamento era algo tão individual? Uma carruagem já apresenta uma ordenação hierárquica entre patrão e empregado. Mesmo parecendo algo lúdico, são relações diretas.

Num mundo de relações diretas, mesmo onde uma parte sobrepuja a outra, as noções de distância são muito menores. Não sei se vocês percebem, mas somos muito mais efetivos quando sabemos o que estamos fazendo e para quem estamos fazendo. Essa troca direta, mesmo que desigual, dá sentido à relação que fizemos de emprego e o ideal de um objetivo ou interesse comum. Apesar de haver uma distância física, há a redução da distância emocional da coisa. O sentimento de satisfação, a própria conexão interpessoal estabelecida e a oportunidade de ser uma engrenagem na máquina, detém esse poder de redução de distâncias. Essa é uma forma genérica de explicar como os grandes impérios foram formados à base de cavalos e canelas, por exemplo.

O mundo moderno reduziu as distâncias físicas a nada, é um fato. Em compensação, a distância emocional torna-se cada vez maior. Consegue-se levar 100 pessoas num vagão de trem para o trabalho, mas nenhuma delas sabe o porquê de trabalhar tanto assim. Por isso que algumas viagens, curtas e rotineiras, tornam-se verdadeiros calvários. “Memórias de um empregado” é um romance sobre emprego e distância. Não que tudo se deva a ele ter ido trabalhar longe de Florença, as distâncias já existiam antes de ele partir.

Toda distância só é grande porque leva tempo percorre-la. Se ir daqui para o Japão levasse apenas uma hora, ninguém diria que o Japão é do outro lado do mundo, por exemplo. Da mesma forma, quão menor o tempo para você chegar no seu emprego, dentro das definições modernas, mais você terá disposição e tempo para trabalhar. O emprego, que se transmuta numa função sem fim senão a sobrevivência do empregado (não se acreditando fazer parte de um todo), acaba por ser a grande fuga do enquadro constante das distâncias emocionais, que são aumentadas progressivamente.

Produzir pode não ser fabril. Na verdade, não é em grande parte. A produção provém da realização, da satisfação. Mas pensem comigo: se produzir é meu único jeito de sustentar minha família, o quão satisfeito eu devo estar? A resposta é óbvia, minha satisfação reside em sobreviver e que os meus também saibam sobreviver tanto quanto eu. Você cria pessoas para que sobrevivam e se sintam satisfeitas à sua maneira. Essa é a estrutura de uma família no século XX. Naturalmente, essa é a estrutura familiar de Tozzi.

Para um adolescente, isso já é conviver com distâncias emocionais gigantes num período da vida em que não se acredita que viver seja só isso. É por isso que Tozzi esconde seu noivado. Isso mesmo, ele esconde a parte da vida em que se sente realizado da família. Como, eu não sei, mas esconde. Isso acentua a distância emocional que existe dentro de um lar, dentro de uma unidade familiar.

A partir do momento que se torna necessário esconder uma coisa tão importante quanto o amor, sabemos que as coisas não vão nada bem. Isso é mais uma consequência da redução das distâncias físicas em detrimento da redução das distâncias emocionais. O emprego, quando é declarado como objetivo fim na vida de uma pessoa, é porque ele já tomou conta de lugares que seriam inacessíveis a ele. Isso amplifica o sentido de sobrevivência mencionado acima, porque há o desejo de manutenção do emprego a qualquer custo. Sem aquela atividade fim, você não sobrevive e não se satisfaz. Toda a sua atenção é voltada para o emprego, bem como seu amor, sua raiva e o restante da sua humanidade.

A falta de aprofundamento em outras áreas da vida, ou o próprio desconhecimento sobre, fazem com que o pai de Tozzi defina a vida do filho, mandando-o para uma cidade do interior para trabalhar na estação de trem. Mesmo com noivado marcado, mesmo não querendo, Tozzi se vê obrigado a ir. A perpetuação do conceito de emprego como única forma de sobrevivência é mais forte que qualquer vontade que ele tenha. Nem mesmo seu noivado o faz refutar, fazer uma objeção ou algo do tipo. Ele vai.

Existe algo instintivo em nós, algo que revela, no nosso estado de espírito, que estamos em profundo desacordo com o mundo que escolhemos viver. Sim, o mundo que escolhemos viver. A vida é uma questão de perspectiva; de igual forma, a matéria também é. O crescente aumento dessas distâncias emocionais nos afasta de qualquer sensibilidade que possa existir. O emprego nos força a mecanizar as relações mais honestas que temos conosco e as únicas poucas coisas capazes de ainda despertarem isso em nós são as que deixamos guardadas em compartimentos especiais do nosso pensamento, em objetos especiais, em cartas cheias de promessas. Essa é a única coisa que ainda aproxima Tozzi, já empregado, do adolescente que sonha em se casar com a mulher que ama.

Pior do que em casa, sozinho e numa cidade pequena, Tozzi logo enxerga que a falta de tato, a disputa incessante pela manutenção do emprego e a manifestação de desagrado com a sua presença ali, são traços aos quais ele deveria se adaptar para sobreviver. E ele se adapta rápido. A distância que o afasta das boas coisas, agora o leva para um estado de espírito amargo. Isso o faz escrever mais. E é nesse ponto que Tozzi transcendeu e criou um grande romance de 100 páginas.

Lendo com atenção, percebemos que as entradas nos diários vão sofrendo mudanças de forma ao longo do livro e que existe uma tendência nisso. Quão mais distante emocionalmente Tozzi se encontra, mais longas são as entradas. A literatura, manifestada através do diário, poderia ser um ponto de encontro dos maus pensamentos. Poderia, até aparenta ser, mas não é. O diário, como todo bom diário, mostra-se um lugar para deixar a fluidez de pensamento acontecer, funciona como uma terapia, uma conversa consigo mesmo. Mas ele vai além e mostra que no mundo operário de Tozzi, no mundo de um trabalhador comum no início do século XX, há um contentamento, dispersão e alívio imediato, no exato momento em que se consegue elaborar imprecações contra tudo aquilo que o deteriora, mas não é suficientemente forte para resolver de uma vez por todas.

Sim, somos mais suscetíveis a elaborar e discorrer sobre os maus acontecimentos da vida do que de encara-los de vez. Quiçá falar muito sobre as boas coisas, estas guardamos conosco a sete chaves. Isso mostra o quão covarde somos; o quão satisfeitos com a miséria somos, a ponto de querer mantê-la mesmo passando por humilhações terríveis; o quão rápido substituímos as boas coisas da vida, as que realmente importam, por problemas diversos e fazemos de um grão de areia uma grande montanha; o quão somos desgarrados de quem nós dizemos amar, já que deixamos as preocupações levarem até o que é o amor; e, finalmente, o quão egoístas e teimosos somos capazes de ser, achando que o mundo gira em torno dos nossos problemas.

Fiquei realmente sentido de ver Tozzi carregando essas marcas já tão jovem, mas, mais que sentido, me identifiquei prontamente. Não é necessário fazer muita coisa, na verdade. É apenas uma questão de distanciamento. Se nos deslocamos para perto do que amamos, as perspectivas mudam. Isso já será notado nas folhas do diário em que estiver escrevendo. Seria possível regredir para um estado mais puro de consciência, no qual as trocas são mais afetivas, sem a loucura de hoje em dia? Talvez. Seria uma viagem longa. Bem que eu disse no começo que o sentido etimológico de “emprego” nos embarcaria nela.

Frederic Manning – Soldados rasos

Por Caio Lima

A guerra sempre foi vista com olhos de nobreza. O desenvolvimento do homem e suas virtudes plenas alcançam seu rendimento máximo e ultrapassam os certames comuns para um estado de elevação espiritual e comportamental jamais conquistados. É ali, naquele campo enorme e, ironicamente, claustrofóbico que as raízes dos valores mais nobres e céleres do ser humano se excedem numa demonstração desesperada e oportunista da fibra moral e do caráter do homem. É ali, no meio dos morteiros, tiros e granadas que o homem realiza sua maior introspecção e divide-se num flagelo divino, pois luta para si, por sua nação e por todos os princípios nos quais acredita. No clima tenso, em meio aos gritos dos homens feridos, é que o soldado se destaca e é capaz de elevar-se à uma condição semelhante a de um nobre, sobre-humano, se sentindo tão importante quanto seu rei deve se sentir. E assim a guerra se manifesta como o elo entre o homem e o mais puro estado que ele poderia alcançar, num forçoso processo de seleção natural onde não são os mais fortes que sobrevivem, mas os mais arrebatados, colocando-se em paridade a Ares, divindade helênica, deus da guerra, pois Hércules já foi ultrapassado há tempos. C’est le guerre. Mais non.

Frederic Manning já não era um adolescente quando foi à guerra. Crítico literário reconhecido e poeta, após muitos anos, em 1929, resolveu publicar um romance baseado nas histórias que viveu e observou durante a primeira guerra mundial. O Soldado 19022 ganhou o mundo revelando uma guerra sem glamour ou feitos heroicos diários. Na verdade, nada de heroico acontece durante esse livro. Se você procura um romance inspirado em fatos vividos por um herói, lamento dizer, mas Manning era apenas um soldado raso que escreveu sobre outros soldados rasos. Para compreender Manning e seus olhos de poeta, há de se buscar na essência do seu referencial o porquê de ‘Soldados rasos’ ser, definitivamente, a grande obra da primeira guerra, senão de todas as guerras, que eu tive a oportunidade de ler.

Todo capítulo é iniciado por recortes de peças de Shakespeare. Mais do que a linguagem, o grande ato subversivo da obra shakespeariana é dar voz igualitária a senhores e gente comum, modulando um pouco a pirâmide social que dita a importância dos acontecimentos e delegando influência a personagens que retratassem a base do povo, ou seja, nem o menor personagem das tramas de Shakespeare é um completo zero à esquerda. Isso explica, por exemplo, o efeito espantoso do discurso de ‘Henrique V’, talvez o discurso mais famoso do mundo. O clamor e seu reconhecimento através das gerações se dá porque há, de fato, uma elevação do espírito dos soldados comuns, que combateriam junto ao seu rei como iguais. Shakespeare fez um retrato da alma da guerra, ou no que acreditavam sê-la, mais humano. Manning capta essa essência para observar o front e colocar no papel a história de Bourne, uma espécie de alter ego. De forma alguma ele é tão encantador como Shakespeare foi capaz de ser, mas reside no seu olhar lúgubre, quase depressivo, a força da guerra sobre o homem comum. E, da mesma forma que em toda obra shakespeariana, isso não reside na nobreza inata, tanto como status quo quanto como virtude, mas quem ascende à ela.

Estruturalmente, a narrativa de Manning conduz Bourne de forma despretensiosa, tanto quanto suas atividades no front. Mas não que Bourne fosse preguiçoso ou desatento, muito pelo contrário. Sempre solicitado por algum setor diferente, era tido como exemplo de retidão como soldado, sendo, por diversas vezes e à contragosto, elegido a oficial, mas sempre procurando uma via para recusar a promoção, pois se sentia melhor como um soldado comum, junto dos seus. Essa despretensão de Bourne (e consequentemente Manning) pela vida na guerra, nos arrasta para dentro de um universo até então novo dentro de toda a “literatura de guerra” de um modo geral. Sempre muito denso, as peças motoras da guerra que Manning participa vão se montando em torno das atividades comuns dos homens que compõem o exército britânico na França. Nada de muito especial, nunca. Treinamentos, homens feridos, transferências de setor, morteiros explodindo, deslocamento de acampamentos, mortes, uns tragos clandestinos e noites mal dormidas.

Saindo do século XVI, e de Shakespeare, e mergulhando no século XVII, e mudando completamente o tópico também, podemos explicar esse marasmo estrutural através da física de Isaac Newton com a Primeira Lei de Newton, a famosa Lei da Inércia. Nela, Newton diz que um objeto que não sofre a ação de qualquer força permanece em seu estado natural: ou parado, ou em movimento retilíneo uniforme. Toda a tramitação burocrática, que refletida no próprio ambiente das trincheiras, é a tônica da organização militar. A guerra é um grande jogo de xadrez sem tempo determinado para cada jogada. Nesse MRU (Movimento Retilíneo Uniforme) que é a organização/movimentação do exército, sobra um tempo que não é capaz de ser preenchido a partir do momento em que identificam a não necessidade de tantos trâmites para que as coisas funcionem bem ou se mantenham no lugar. O aparecimento de lacunas de tempo cada vez maiores a serem preenchidas e a própria sensação do quão vagaroso é fazer uma guerra, retirando aquele ideal do heroísmo e da ação ininterrupta, provoca um sentimento comum de desânimo. E meios de se aprofundar nesse desânimo não faltam no front. A princípio, essas maneiras de extravasar aparentam aleatoriedade, mas podem ser explicadas por um estado da (falta de) consciência que funciona como elo entre o homem, a guerra e seu sentido.

A depressão, em diferentes níveis, é um ponto chave para mergulhar na obra de Manning. A realidade lúgubre em que habita Bourne é fruto de uma desconstrução consistente de alguns sentimentos que nos são comuns e aparecem como necessários em situações tão extremas quanto uma guerra. Passamos longe da indiferença aqui. Sua própria aversão às patentes militares e suas constantes reclamações/manifestações sob as condições da guerra e a injustiça dos oficiais, inferem a ele esse senso de justiça social dentro da organização militar, retirando qualquer suspeita de que esteja alheio aos acontecimentos. Trata-se de um estado de espírito mais profundo e, por isso mesmo, muito mais difícil de ser trabalhado na literatura. É a perda do medo e, consequentemente, da esperança, causados pela afetação direta das liberdades mais básicas. Ou da esperança de tê-las o quanto antes. Ou medo de não tê-las nunca mais. A afirmação do ócio e a inutilidade do cumprimento dos exercícios de guerra, misturados a essa sensação de que não adianta esperar por mais nada, transformam a voz comum de um livro de guerra para algo mais simbólico e próximo do front.

Espinosa define que “a esperança é uma alegria instável nascida da ideia de uma coisa futura ou passada, do resultado da qual duvidamos numa certa medida”, e “o medo é uma tristeza instável nascida da ideia de uma coisa futura ou passada, do resultado da qual duvidamos numa certa medida”. Numa primeira conclusão, é evidente que a esperança e o medo são inseparáveis. Um é incapaz de existir sem o outro, porque possuem a mesma origem para que sejam realizadas as suas proposições: a dúvida.

Essa “alegria instável”, sem a dúvida sendo o fiel da balança para que haja a esperança, torna-se “alegria plena”. Ou seja, saímos de um estado de expectativa iminente e passamos para uma esfera mais sólida, pois nessa ideia reside o usufruto do estado de alegria no presente; já não há mais passado ou futuro para pensar, apenas o presente a ser desfrutado, agora! Da mesma forma acontece com o medo; se retirado o permanente estado de incerteza, colocamos de lado esse elástico temporal entre passado e futuro, realizando a sensação no presente, contemporânea ao sentimento em sua plenitude.

Desespero, por definição, é não ter esperança mais. Pode ser definido, também, pela consumação do medo. Eis o elo que precisávamos para continuar. Longe das fugas mirabolantes ou dos atos heroicos irracionais (ambos são desespero também, mas aí chegaríamos em outras esferas da discussão filosófica), a desesperança de Bourne é a plenitude da sua realidade. Quando seu medo é materializado no teu presente e há a perda total da boa esperança, larga-se mão de qualquer noção de satisfação ou melhoria, mesmo que num curto prazo de tempo. Trechos recorrentes que tratam a guerra como já vencida, mas sem data para terminar, são a síntese perfeita desse fatalismo depressivo de Manning e a manifestação sincera de alguém desesperado, mas já conformado com seu estado de eterna espera por um ponto final. É um poço sem fundo no qual Bourne afunda e nos leva junto. Essa imersão no desespero, como recurso narrativo, mexe profundamente com a nossa cultura imediatista no exercício da leitura, configurada por problemas que se interligam, todos, com a ansiedade, a necessidade de saber tudo logo. Criando uma redoma de espera insatisfeita e conformação depressiva, somos regidos para dentro de uma rotina de leitura psicologicamente cruel e física. Isso é genial!

Mas essa empatia para com o estado depressivo crescente de Bourne só pode ser realizada através da observação de alguém cuja a sensibilidade é, de fato, uma característica inata e muito latente. A expressão “enxergar com os olhos de um poeta”, no século XX, não poderia ser delegada a mais ninguém, senão Frederic Manning. Bourne é usado como espinha dorsal para interligar tudo o que ouviu e observou na guerra. Manter uma narrativa sólida com esse nível de exposição emocional, sem perder o fio da meada e sem perder a conexão e a ordem de todos personagens ali lançados, preservando a força e importância de cada um deles, não é, definitivamente, coisa para qualquer um fazer. É talento, inspiração e, quem sabe, um encontro mediúnico com Shakespeare.

Nada disso adiantaria se a narrativa não fosse movida por uma linguagem de fácil acesso e cheia de recursos muito bem manipulados. Sendo o livro um expositor de toda uma classe, cabe ao autor conseguir reproduzir sua escrita de maneira a fazer esse intercâmbio entre o soldado e a literatura. E Frederic Manning o fez com maestria. É claro que ele sofreu censura, teve várias partes do seu texto recortadas para que pudesse ser publicado e a versão original do texto só chegou às livrarias no fim dos anos 70. Ainda assim, existe uma essência impossível de ser contida na narrativa de Manning que, mesmo com o texto picotado pelos editores, causou revolta ao falar da guerra de forma tão popular, colocando sua visão proletária e depressiva das trincheiras.

Outros, grandes, trazem consigo o medo e a esperança como marca registrada. Apesar das constatações sobre o estado psicológico da guerra e sua influência na formação do homem, a esperança não deixa que essas obras desenvolvam totalmente o potencial destrutivo da guerra e o medo não deixa que os valores básicos do homem sejam explorados acima de todos os males. São autores encobertos por dúvidas e as dúvidas fazem flutuar, dentro da própria narrativa, a extensão e a magnitude do fenômeno no homem e na sociedade. É como se sobrasse sentimento e faltasse substância. A dúvida é necessária, porém a guerra é feita de certezas, de plenitude. Isso enriquece, inclusive, o debate filosófico sobre o que é, de verdade, a guerra.

A obra de Manning foge, e muito, desse contexto dúbio, e é sólida e constante, como num samba de uma nota só, sendo caracterizada pela ausência do medo e da esperança, bem como pelas ausências das paixões e dos arrebatamentos. Ausência é uma palavra que define muito bem essa odisseia moderna. A guerra retira muito mais do que é capaz de retribuir às pessoas. Enquanto a literatura tenta construir o homem dentro do ambiente da guerra, Manning vai desconstruindo cada camada dos soldados que habitam seu livro. De repente esse festival de ausências começa não só a fazer sentido, mas também revelam que o homem da guerra não é bravo, não é um herói helênico e não é um animal que age por puro instinto. O homem da guerra torna-se, numa rotina de autocomiseração, depressão e descontrole, nulo. Nesse ponto, não há compensação futura da vida, do Estado ou da família que o restitua. A guerra não é uma cicatriz remanescente, é ferida aberta. Não existe mais medo da guerra. O estado desse novo homem é inviolável e pleno. Ele vive com o que restou da guerra, sem medo ou esperança.

São a “ausência como certeza” e a “desconstrução do homem” que regem as vozes e o comportamento dos soldados, principalmente de Bourne, nossa espinha dorsal, durante toda a narrativa. Intrinsecamente ligado aos soldados está a ausência de ação no livro. Não são narradas grandes batalhas, nem precisam ser. Não porque não havia batalhas a serem travadas. Havia muitas. É a tônica de uma guerra, afinal. Mas os soldados caracterizam-se pela função, um cargo tão somente, não pela vontade de lutar. Seus espíritos não são movidos pelo combustível da glória a qualquer custo. Estes só querem que tudo acabe o mais rápido possível. Tanto faz os meios, só o fim da guerra, ou só o fim, interessa. As batalhas e a glória da guerra ficam a cargo de quem foi moldado a pensar somente nisso, ignorando a própria saúde mental ou a existência de traços humanos nos seus subordinados.

O absurdo reside na guerra dos que enxergam que sua liberdade plena é proveniente das realizações conquistadas nos campos de batalha. Tratamos, assim, de um estado de consciência que prega o princípio da amoralidade e se eleva para a satisfação integral como a virtude básica. Camus explica isso em sua filosofia do absurdo, que eu sempre utilizo por aqui, aliás. Manning mostra o estado de pessoas que vivem alheias e, pior, a mercê das reservas morais de quem atinge esse estado de consciência nas trincheiras. Pressuposto isso, concluímos que esse livro vai além de um registro de guerra. Essa é uma obra de protestos.

As pequenas guerras internas travadas entre soldados e oficiais do exército inglês reforçam, como dito, que a desconstrução do homem é gradativa e incapaz de gerar indiferença, mas sim manifestações claras de vazios provenientes de uma depressão profunda. Outro ponto são as maneiras de extravasar ou externar os vazios que são sentidos no cotidiano vagaroso da guerra, que são bem diferentes em forma, mas possuem uma fundamentação básica, pois os soldados se reconhecem entre si não só pela classe, mas pelo vazio, pela semelhança dos seus dramas e pela indiferença com que são tratados. Sendo assim, há a identificação do espaço gigante que existe entre eles, soldados, e seus oficiais. São duas guerras diferentes e nada paritárias. Há, de uma maneira latente, a subversão da forma que a guerra é contada através dos tempos na literatura de ficção, principalmente. Há um descenso claro em relação ao brio do homem da guerra. Na verdade, não há brio nenhum nesse livro, senão qualquer coisa que possa ser considerada “o desejo de que tudo acabe logo”.

Escrever sobre a guerra é fácil desde que sua literatura esteja de acordo com o mercado. Clássicos serão sempre clássicos e, muitos deles, foram censurados em diversas épocas por diferentes motivos. Voltando a linguagem e ao texto em si, temos aqui um dos livros mais subversivos da história. Sem exagero. Talvez nem Manning soubesse disso ao escrever. Muitas das vezes, ao colocarmos sentimentos puros no papel, podemos ser o ponto de partida de uma revolução, sim. Não existe um estágio de nirvana aqui, de ninguém. É uma luta crua e cruel pelo fim. O fatalismo com que a palavra “fim” é tratado no front amplia, e muito, seus significados para um acontecimento além do fim da guerra. Todo e qualquer final possui o mesmo sentido. Triste.

A história é recheada de obras subversivas que se tornaram atemporais, mas poucas são as capazes de permanecer tão subversivas a ponto de descerem os degraus da forma em que são moldadas e escritas. E diferente de outras obras, aqui temos a inserção de uma abordagem muito aguda, nova e, ainda assim, muito palatável da guerra. Sentimos o peso das palavras de Manning como se fossem nossas palavras e, por isso mesmo, não sabemos o porquê de nos sentirmos vazios, mas passamos a questionar essas ausências virais que passam do livro para nós e passamos a enxerga-las de forma cotidiana. Algo acontece para lá da simples identificação com o livro, é como se fôssemos os próprios soldados e tentássemos procurar por mais outros. E na tentativa de identificar outros soldados iguais ao que eu estava me descobrindo, o registro logo me trouxe a lembrança de um conhecido da força aérea alemã que foi combater no Afeganistão e no Iraque há poucos anos atrás. Ele voltou exatamente como um dos soldados que Manning descreve no livro: vazio, ausente e à espera do fim.

Literatura plena, sem abstrações. Não pensem vocês que a plenitude de estado dentro da literatura é imiscuir-se de uma discussão ampla. Aferir um estado de espírito contrário a grande maioria das literaturas existentes é abrir um novo ponto para se discutir literatura, literatura de guerra e a própria guerra em todos os seus desdobramentos.  Isso é contracultura no seu nível mais elevado. Isso é arte.

Frederic Manning não escreveu o maior libelo humanista sobre a guerra, muito menos a obra de maior impacto visual, com batalhas, atos heroicos e horror. Sua preocupação foi a de retratar as ausências tão garantidas quanto o soldo miserável dos soldados, de escrever sobre lacunas que vão deixando de ser preenchidas gradativamente pela ação de um tempo que parece nunca passar. Sua visão sólida sobre o vazio da guerra vai contra a corrente da literatura subversiva que acusa e cobra, colocando pimenta na ferida. Manning já não se vê capaz de cobrar nada, afinal, sua espera de nada vale quando não se sabe quando será o fim. Sua desesperança já não permitia o medo agir na sua escrita mais, proporcionando um embate sublime entre as ausências que sentia e a eternidade do seu maior registro. No fim, é dessa ausência de tudo que o poeta se faz presente. A plenitude do momento colocado com sentimento. Guernica da literatura. A depressão como agente de criação. Coletivizar o íntimo. Tornar íntimo um meio tão coletivo. Manning é fascinante por ter escrito uma obra gigante sobre um dos maiores processos de inanição do mundo; e dele mesmo.

Deixem os robôs para as fábricas

Por Caio Lima

Eu, às voltas com minhas leituras amontoadas, vivo inventando projetos literários e deixando pronto um arsenal de resenhas para o blog. Sabe como é, né? Vai que rola uma semana corrida, tudo dá errado e, de repente, o blog fica lá, às moscas. Isso não é legal. Eu levo essa parada muito a sério para deixar as coisas correrem soltas desse jeito. Essa semana eu comecei mais um, muito específico, que é a leitura de ‘Em busca do tempo perdido’, do Proust, o cara que escreve parágrafos tão longos quanto bonitos. E me peguei pensando em fazer um diário de leitura, uma parada com metas e toda subordinada. Mas desisti na hora. Não rola comigo. A literatura, para mim, tem um valor intrínseco muito latente para definir metas. Claro, rolará uma parada toda especial aqui para o blog ao fim de cada um dos sete livros que compõem a saga mais caudalosa da história da literatura, mas não vai ser algo tão regrado assim.

Indo na onda de tentar colocar metas, fui para Petrópolis e decidi levar somente ‘homens em guerra’, do Andreas Latzko, e ‘o vermelho e o negro’, classicão que estava pegando no meu pé desde setembro. Do Latzko, só faltava o último conto, tranquilo e favorável. Um dos grandes livros do ano e provocou uma revolução aqui no Rede de Intrigas que vocês não fazem ideia, nem vão fazer por agora. Do Stendhal faltavam umas 250 páginas ainda. Bagulho estava neurótico. Eis que no ambiente sempre chuvoso da serra, dei cabo do calhamaço mais dolorido de ler no decorrer desse ano. Não se enganem, faz jus ao status de clássico e rolará aquela resenha mafiosa aqui no Rede de Intrigas. Não sei se foi o clima da serra, se eu que estava muito inspirado, mas fluiu. Li as 250 páginas com um prazer enorme.

Literatura, antes de função, é prazer. E o prazer é uma coisa complexa, cheia de picos e nuances que nem mesmo nós entendemos. De repente, bate aquela vontade e pronto, você termina 250 páginas de um livro que estava num ritmo bastante vagaroso, rápida e facilmente. Mas vocês já repararam que a absorção da leitura prazerosa é muito maior, que quando lemos algo por obrigação? Isso é bem óbvio, eu sei. Talvez. Não tanto, vai. Eu fico imaginando essa galera que tem parceria com todas as editoras do planeta e não consegue ler o que realmente quer, para meio que suprir uma demanda de livros recebidos, que precisam ser lidos e resenhados rapidamente, já que o mercado exige cada vez mais velocidade nas respostas. Ou aquelas pessoas que seguem fielmente as dicas de blogueiros e só leem o que já foi lido, e opinado, por outros. Assim não caem na tentação de ler algo que, por ventura, não venham a gostar. Imagina perder tempo com um livro que fulano não gostou, cruzes. Ou, pior, os alunos do ensino fundamental e ensino médio que são obrigados a ler, tanto no colégio quanto, principalmente, para vestibulares, livros que eles sequer conseguem contextualizar. Pior ainda, fazem uma leitura rápida, tentando absorver o máximo possível daquele arremedo de palavras soltas que estão numa outra conjuntura, completamente estranha, para responder uma ou duas perguntas de uma prova gigantesca! E cada prova tem sua própria lista de livros! (Milhares de exclamações!)!

Os tempos mudam, os hábitos nem tanto. Hoje o tempo é dos números e dos gráficos irrefutáveis. Inclusive, o Dallagnol está ministrando um curso sobre isso, online e totalmente de graça. Não percam! Voltando, as estatísticas mostram tudo o que acontece a todo o momento e é impossível refutá-las. Argumentos irrefutáveis geram autômatos. E é uma sociedade de leitores autômatos, pragmáticos, quadrados e técnicos que estamos criando. Mais uma vez, vemos uma crescente onda de recortes niilistas, onde um livro sobre teoria política tem valor muito maior que um livro de poesia, por exemplo, pois é a economia que faz o mundo girar e a poesia é coisa de desocupado que não está nem aí para o futuro, só querem saber de fazer ciranda para protestar contra o governo golpista e acampar na praia do sono.

Isso não é uma condição única e exclusiva do nosso tempo. Isso é cíclico. Aqui no Brasil, então… acontece de ano em ano. Só muda a forma. Mas é certo que a sociedade sempre tem que estar num estado de inércia intelectual e sempre combativa entre iguais. Somos os maiores reguladores de um regime democrático que não nos serve. Isso acontece, dentre diversos motivos e técnicas de manipulação de massas, porque não sentimos prazer algum em desfrutar da única coisa que todos podem produzir à sua maneira e difundir de forma gratuita e interminável, nossa cultura. Dentro desse contexto de cultura, a literatura é o movimento que sofre cada vez mais com essa lobotomia generalizada. Erros de interpretação simples, a necessidade de sempre ser literal, reto, conciso e estreito. Não há oportunidade de defesa para quem desperta dúvida. Alimentar a dúvida é o grande crime social. Tem dúvida disso? Pegue qualquer notícia de qualquer portal no Facebook e abra os comentários.

Se há uma tendência geral, mesmo naqueles que dizem lidar com literatura por amor, a girar em torno de um ciclo, torna-se simples a dedução de que a liberdade promovida pela literatura, como arte que é, tem sido amplamente cerceada. Mas é mais bonito falar que é chato ou desnecessário, assim você só se preocupa com o que interessa. Falar sobre literatura não interessa. Impor sua opinião e se fechar num círculo comum, sim. Ver a cultura, na sua manifestação mais individual, simples e livre, ser podada dessa forma é a maior comprovação de que a sociedade está sofrendo com um sério problema de identidade. Não nos reconhecemos mais, mesmo com um espelho gigantesco na nossa frente e nas nossas estantes.

Se esse quadro é reversível ou não, eu não sei. Aparentemente, não. Essa onda pragmática em tempos de crise econômica é muito forte: o mercado editorial precisa lucrar desesperadamente, o número de brasileiros leitores está diminuindo e a receita disso tudo você vê na vitrine das livrarias. Fica meio rap de mensagem, saca? Tipo aqueles grupos que só falam do menor da favela que busca redenção na sociedade durante um disco inteiro. Mas é necessário haver resistência para mostrar que literatura é um prazer, acima de tudo. E que, com prazer, somos capazes de ir muito mais além do que pela obrigação. A literatura precisa de mais leitores assim, que sintam prazer ao ler. Sem preconceitos ou círculos fechados. Se a arte imita a vida, sabemos onde vai parar uma pessoa que sente prazer com a arte que produz e que consome. No mais, deixem os robôs para as fábricas.

Vladimir Korolenko – Em má companhia

Por Caio Lima

Antes de qualquer coisa, essa semana é meu aniversário. Sábado, para ser mais exato. Eu não ligo muito para datas comemorativas em geral. Nem aniversário, nem Natal, nem Páscoa, nem nada. Mas esse ano, com o Rede de Intrigas, me atrevi a me expor mais sem ganhar absolutamente nada para isso. E é por isso que essa semana as resenhas acabam por se misturar com meus pontos de vista e impressões de mundo. Mais que o normal. De uma forma íntima, saca? Funciona como um acerto de contas que eu sinto a necessidade de fazer. Não com as pessoas, mas com a minha própria memória.

Korolenko, para quem não sabe, era um profundo defensor dos direitos humanos, dos párias da sociedade e, principalmente, das crianças. Crianças são as que mais sofrem em qualquer sociedade baseada na divisão social por ordem do poder aquisitivo e posição ideológica. Nascem inseridas, e indefesas, num sistema que não as permite a ingenuidade ou a curiosidade. São adequadas a serem o que nasceram para ser. Não existe o período de adaptação ou o período de contestação que nós, adultos, temos quando, por exemplo, protestamos contra um governo golpista. Porém, crianças são seres mágicos e puros. Felizmente, não precisa fazer muita coisa para incitar a curiosidade de uma. E acorrentados nessa esperança de que uma geração futura seja melhor do que a nossa é que ainda acreditamos que há solução para todos os males do mundo.

A história que eu tenho para contar aqui não se parece muito com a do livro, mas acredito que quem costuma frequentar aqui já sabe que eu falo pouca coisa sobre os livros em si. Prefiro deixar minhas impressões de leitura, contextualiza-los a alguma situação ou dissertar sobre pontos específicos. Salvo raras exceções, é isso aí mesmo. Até porque, existe uma coisa chamada sinopse e se vocês quiserem saber do que o livro se trata assim, bonitinho e mastigado, leiam a sinopse. Meu trabalho aqui é tentar passar algo além do livro, o famigerado “poder transformador da literatura”. Então, quem gostou bate palma, caldeirão! Loucura, loucura, loucura! Maestro Billy, som na caixa! (Plateia fazendo ola enquanto toca ‘Love generation’).

‘Em má companhia’ chegou para mim num momento delicado, mas oportuno. E ler a pureza de intenção de uma criança para com os outros, arriscando a sorte e o nome da família, me fez compreender e repensar o momento pelo qual eu estava passando. A turbulência foi se extinguindo e eu me remontei. Porque os livros que tem mais valor para mim são esses que fogem da esfera literária e se materializam como cura, como exemplo, como conselheiro e como um bom amigo. E foi lendo sobre o poder transformador da criança, através da inocência e pureza, que eu comecei a acreditar que eu havia passado pela experiência mais incrível da minha vida.

Fazendo uma reflexão bem profunda, eu cheguei à conclusão de que eu mentiria dizendo que cuidei de uma criança com câncer nos seus seis últimos meses de vida. Mentiria porque cuidar é algo que vai muito além de ajudar a custear o tratamento ou visitar quando dá. Cuidar tem um sentido muito mais espiritual e professoral do que vocês podem imaginar. Existe uma questão de entrega constante e uma batalha enorme contra o próprio ego. Ego esse, que nasce cada vez mais cedo em nós e nos tira a oportunidade de olhar o próximo com a clareza e a pureza de uma criança. É um choque muito grande quando um pequeno ser de sete anos de idade te ensina mais em seis meses do que todos a sua volta tentaram ensinar a vida inteira.

Foram dias difíceis, em boa parte por saber que o quadro era irreversível, em outra boa parte por não conseguir me desvencilhar daquilo tudo. Ao invés de sair e olhar tudo de fora, eu mergulhei cada vez mais no universo dessa criança. Foi algo desesperador. Sempre à espera do inevitável, a sensação era a de me envolver em algo que me quebraria ao meio ali na frente. Sozinho em casa, viajando para a faculdade ou até indo encontra-la, eu ficava imaginando no tamanho do buraco que eu havia me metido e seria difícil sair. Muito difícil.

O que era mais engraçado, é que quando eu chegava para vê-la, essas aflições todas eram interrompidas bruscamente. Era um alívio. É lógico que o ambiente de uma criança com câncer não é feliz, mas a criança é. Nessa felicidade eu pegava carona e, sinceramente, não havia doença naquelas poucas horas que passávamos juntos. Existia um transporte para outro mundo e tudo estava bem, tranquilo e favorável. Eu já vi outros casos de câncer acontecerem, vencidos com louvor e muita luta. Mas eu nunca vi alguém não precisar lutar para deixar a doença de lado da forma que essa criança fazia. Essa serenidade e controle rechaçavam automaticamente toda a minha consciência que se perguntava o porquê adquirir esse sofrimento todo num momento já bastante conturbado.

Foram intensivos de um mundo paralelo onde reinava a santa trindade: palavras doces, sorrisos frouxos e histórias fantásticas. E sem perceber eu entrei nesse mundo também. Foi esquisito entender o mundo sem o ego cego do meio corporativista, mas tudo começou a ficar muito mais claro e simples. As coisas boas começaram a ficar incrivelmente boas. Tão boas que eu, por instinto, passei a cultiva-las cada vez mais e isso me resgatou da mortificação a qual eu estava entregue. Passei a trabalhar, estudar e render melhor em tudo o que fazia. As ideias foram mais positivas. Eu criei coragem para reconstruir laços perdidos por, simplesmente, não perceber a péssima ciranda que eu estava dançando. E o melhor de tudo, ainda poderia desfrutar de todos os momentos com a criança. É aquele sentimento da presença e da certeza que aprendemos que são a muleta perfeita para aprisionar pessoas e ideias.

Quando a sentença veio, eu perdi o chão de verdade. Saber que o inevitável tinha prazo foi o pior momento da minha vida. Eu custei a entender que era a posse que me fazia tão mal. Mas por um lado, foi isso que forjou a mentira de que eu cuidei dela por seis meses, porque foi nessa situação, quando não havia mais jeito, que, aí sim, eu verdadeiramente tomei conta das coisas. E vejam só, até que eu não fiz cagada. Foi um mês e uns quebradinhos de aplaudir de pé, igreja. Eu ainda não entendia e não conseguia largar essa noção de posse, mas foram momentos tão lindos e vívidos quanto eu poderia desejar. E não foi um esforço sobre-humano cuidar, não. Foi natural, como tudo deve ser. Por mais triste que seja a situação toda, eu não conseguia ficar triste. Havia algo impregnado em mim que eu jamais conseguiria explicar.

Como uma avalanche, veio a notícia de que sua vida findou. A criança já não suportava mais. Na verdade, eu é que estava suportando por ela aqueles últimos momentos. Foi um processo cansativo, extenuante. Até cair a ficha do que havia acontecido, eu estava tranquilo. Depois veio aquela onda de incompreensão e os questionamentos são inúmeros, mas todos eles ficam sem resposta. E logo após eu me aventurei pelos caminhos sinuosos de Korolenko em ‘Em má companhia’. Eu logo fui me remontando, devagar para não causar transtorno, e fui tocando a vida, criando o Rede de Intrigas e tomando um calote fenomenal da empresa que eu trabalhava.

Minha história não tem muita ligação com a história do livro, a não ser o ponto principal: as crianças tem uma percepção de mundo muito mais elevada que a nossa. Elas devem ser ouvidas e levar crédito pela sua capacidade infindável de agir com pureza e bravura, mesmo nesses momentos em que o destino está selado. Eu, burro velho e cheio de manias, tive a minha vida mudada. Aprendi a me reposicionar, a tirar o corporativismo entranhado por essa sede de competição para ganhar uma miséria e aprendi a dádiva de se viver com a leveza de ser quem você é, porque isso espalha luz por qualquer chão que você pise. Se eu dissesse, antes dessa história toda, que foi uma criança a responsável por me fazer pensar assim, vocês não acreditariam. Mas foi. E eu não tive a oportunidade de agradece-la como deveria.

A gratidão desses seis meses saem em cada muito obrigado que eu dirijo às pessoas, mesmo que tímido e rápido. Eu não agradeço a atitude de dar licença, mas agradeço a sua boa vontade e compreensão de me ceder seu espaço momentaneamente. Isso pode te parecer filosofia de boteco, mas é assim que eu penso e me comporto. A vida me deu a oportunidade de vivenciar cada pequeno momento em busca do que realmente vale à pena. E para isso seis meses foram tão suficientes quanto seriam sessenta anos.

Korolenko nunca teria escrito algo para mim, até porque daqui a pouco ele completa o centenário de sua morte, mas eu sinto como se fosse. Essa mágica que a verdadeira arte é capaz de produzir é motivo da minha gratidão também. Foi lendo que eu percebi que não é só a literatura que ensina, salva e liberta. A pureza de uma criança me salvou do que eu poderia me tornar, acaso continuasse seguindo por esse mundo onde temos que medir muito bem até onde podemos ir por alguém ou alguma causa. A literatura me fez colocar os pés no chão e enxergar tudo o que eu me permiti mudar. São reflexos que deixo transparecer em cada ‘muito obrigado’ que falo. As atitudes, a boa vontade e a gentileza que muitos me proporcionaram e que eu procuro proporcionar. Eu não sou nenhum espírito elevado ou bom exemplo de qualquer coisa. Sigo o exemplo de uma criança cheia de luz e que se foi, deixando um legado de uma nobreza muito maior do que nós, adultos, seríamos capazes de realizar.

E da mesma forma que a bonequinha da capa do livro ilustra tão bem o quão espiritual é a relação entre essas crianças, eu guardo um único desenho como evidência física da minha experiência sentimental com essa criança. Nesse desenho há uma casa de sentimentos bons e nós dois. Esses sentimentos bons que antes residiam na criança, agora residem em mim. Não existe honra ou riqueza maiores do que essa. Muito obrigado, criança. Você cuidou de mim e mudou a minha vida. Muito obrigado, Korolenko. Você soube mostrar que a resistência num mundo doente é cultivar o amor, coisa que as crianças sabem perfeitamente o que é. Eu vivi isso na pele. Ainda bem. Essa era a dívida que eu tinha para com a minha memória e resolvi expor para vocês, portanto meu muito obrigado à todos que leram até aqui.

Vladimir Korolenko – O Músico Cego

Por Caio Lima

A literatura russa é uma das três escolas literárias que mais admiro. Um monte de gente fala um monte de coisas sobre os russos: pais da psicologia, obras profundas, reis dos calhamaços, Editora 34 e essas coisas. Para mim, todo o movimento literário russo reside num pilar principal: resistência. Essa palavrinha (que cai como uma luva nos dias de hoje) se faz presente de forma muito íntima em todos os grandes autores russos. O interessante é em como eles aplicam sua forma de resistência, manipulando a escrita através de retratos da sociedade. Esses retratos são tão vívidos que até em contos fantásticos fica bastante evidente o teor crítico.

“O Músico Cego” é a obra máxima de Korolenko e conta a vida de Piótr, um menino cego desde o nascimento, de uma família consideravelmente abastada e que, além de bastante inteligente, possuía habilidade incomum para a música. Em contrapartida, a cegueira lhe era um pesadelo e, desde o nascimento, uma barreira para conseguir ir além ou ter uma vida comum, segundo suas próprias limitações de entendimento acerca do que poderia ser e fazer de sua própria vida. Esse é, de forma resumida, o enredo da história. Parece simples (e bastante tedioso) discorrer sobre a vida de um cego, mas não é bem assim. Korolenko era ferrenho defensor dos direitos humanos e dos marginais numa Rússia czarista e isso diz bastante coisa, mas vamos por partes.

A primeira coisa se chama higienização social. Sim, é um termo forte. Muito forte. Mas é o que rola em governos reacionários e que privilegiam uma certa casta. Qualquer coisa que fuja um padrão estético e comportamental é, naturalmente, deixada de lado pela sociedade. Korolenko usa isso com a cegueira de Piótr que, apesar de viver numa família com condições, não possui crédito suficiente em suas habilidades. Sua cegueira é motivo suficiente para que deem ao nosso pequeno uma vida isolada. Há um afastamento natural até daqueles cuja inocência não ousamos duvidar, as próprias crianças que residem ali por perto.

A solidão dos socialmente excluídos é passada de forma muito bonita (bem escrita) por Korolenko, mas é inevitável sentir como se fosse próprio da gente a relação endurecida de Piótr com a cegueira, como se fosse uma profunda cova, e a aceitação dessa condição como definitiva em diversas partes do livro. Mesmo em condições financeiras, sua deficiência o anula. Ele sente que é e acaba por se tornar um peso à todos que o cercam. Essa devoção pela sua falta de serventia ao mundo o proporciona uma visão minúscula de si mesmo e a sensação de vergonha por ser cego age sobre Piótr como um rolo compressor, mas não é capaz de colocar freios em seu desenvolvimento a partir da arte.

Piótr sonha constantemente, mas, por não possuir visão, não é capaz de dar vida ao que sonhou. É um processo duro demais para uma criança/adolescente se dar conta de que não consegue materializar talvez a alegria mais básica que possuímos. Isso o faz atingir níveis incompreensíveis de sua exclusão do mundo por conta da cegueira. Ainda mais quando numa igreja, outro padre, também cego de nascença e totalmente amargurado, trata de um noviço que ainda é capaz de sonhar com a mãe, pois só perdeu a visão aos sete anos. Se nem capaz de sonhar ele poderia ser, não há medida para sua inutilidade.

Evelina foi a única, fora a família, que criou laços verdadeiros com Piótr. Admirou sua música, aprendeu com suas sensações e o fez sentir parte de algo maior do que sua limitação o impedia de enxergar, literalmente. Evelina representa um outro ponto deixado de lado por sociedades reacionárias padrão: a mulher. Dentro de uma sociedade que exigia da mulher a condição de dona de casa e mãe de família, onde montar uma lista de compras e calcular despesas básicas era ensinamento mais que suficiente e a subserviência ao homem da casa, Evelina é a representação de um desafio aos padrões tão grande ou maior que Piótr. A partir da insistência dela nessa relação com Piótr que nosso protagonista passa a ter um desenvolvimento cada vez mais amplo. Mas Evelina é mais do que uma parte importante da história de Piótr, ela tem seus próprios sonhos e ambições e é uma mulher transgressora.

A estabilidade de estar num círculo onde você é aceito e a percepção de que esse círculo é minúsculo. Perceber que sua cegueira não o limita de realizar coisas extraordinárias e sentir que outros iguais não tem a mesma oportunidade que você e vivem na amargura, fazendo das suas vidas penitência. Isso leva Piótr a quase entregar os pontos de vez. Isso só não acontece porque Máksim, seu tio aleijado, portanto inútil para a sociedade, resolve mostra-lo a vida como ela é e o apresenta aos cegos mendicantes do mundo real, excluídos da sociedade e que sobrevivem através de migalhas. O canto desses mendigos sustenta a moral de quem sobrevive ante uma sociedade que não os ouve.

Máksim, fã máximo de Garibaldi, foi aleijado em combate e considerado inútil pela sociedade após sacrificar o próprio corpo. Com Piótr a rotina da casa se modificou e ele foi o primeiro a atentar para seu talento com a música, além de ser um grande e severo explicador. Foi o único, durante muito tempo, a acreditar que Piótr poderia sim constituir parte da sociedade sem qualquer tipo de restrição. Através do desenvolvimento da arte, Máksim apresenta a seu sobrinho um mundo novo e cheio de sensações. Seus ensinamentos foram capazes de iluminar nosso protagonista e sua explicação sobre como as cores podem ser explicadas através das sensações sonoras é um dos diálogos mais bonitos que eu já li em toda a minha vida. Sério, vocês precisam ler isso!

Do horror de uma mãe que sabe que concebeu um filho deficiente numa sociedade que não sabe lidar e abomina o diferente à redenção do amor verdadeiro e da felicidade em ver o filho desenvolver suas habilidades e florescer como ser humano comum. Músico, casado e pai. E não como um ser grotesco. Junto com Piótr, sua família também se desenvolveu. Ele teve condições e, apesar de todas as dificuldades, escancarou uma porta da sociedade e abriu caminho para uma discussão que vai muito além da deficiência em si.

Korolenko, ao meu ver, transformou em público assuntos que eram questões ignoradas pela sociedade. Misturou num livro só e deu voz a, basicamente, todas as vozes excluídas da Ucrânia daqueles tempos. Sentenciou a inabilidade da casta superior em andar não só junto do povo, mas também de criar estereótipos perfeitos. E o mais importante, as lições de Piótr foram dados pelos pilares subversivos e populares da sociedade, o que compõe a maior parcela da população, na real. Isso dá uma noção muito básica que deveríamos prestar mais atenção: a sabedoria e o poder emanam do povo. Piótr mostrou que cego é gente, mas precisou de muita gente para chegar lá. Essa gente toda estava sem voz, assim como Piótr. Essas vozes se misturaram em uma só, com ajuda mútua.

Se você ainda não percebe quantos Piótr temos hoje, olhe para o lado. Não, não falo somente de cegos ou deficientes físicos. Num aspecto geral mesmo. A maioria precisa se superar hoje em dia para chegar a algum lugar, poucos são os que conseguem. Korolenko pintou um retrato da Ucrânia de seu tempo, mas será que aqui é tão diferente assim? Acredito que não. Korolenko escreveu um manifesto de empatia, de luta e de resistência. O maior pesadelo de quem domina, é ver a ascensão de quem não tem voz. As vozes ao lado de Piótr se levantaram e todos venceram. E eu me pergunto: quando eu vou me superar? quando você vai se superar? quando nós todos iremos vencer?