Érico Veríssimo – Incidente em antares

Por Caio Lima

Acho que todo mundo que se aventura pela literatura produzida por Érico Veríssimo não faz lá muita ideia da dimensão do que é a obra do cara de primeira. Na real, nós nunca sabemos a dimensão da obra de determinado autor, até nos darmos o trabalho de ler. Mas existe aquele rol dos autores mais que consagrados e que você pega para ler com a perfeita noção da grandiosidade da obra do camarada. Aqui no Brasil isso rola muito com Machado de Assis, Clarice Lispector e Paulo Coelho (rçrçrçrç). Com o Veríssimo eu já não vejo esse hype todo. Todas as opiniões e indicações que recebi sobre o cara foram muito sólidas, concisas e sóbrias. É muito esquisito receber dicas assim, tão bem formatadas e que parecem resenhas. Isso me deixou muito curioso. Muito mesmo. Então decidi começar a ler Érico Veríssimo com o (quase) calhamaço ‘Incidente em antares’ e agora eu entendo o porquê das dicas sempre muito sóbrias sobre esse cara.

Lucidez é uma coisa muito difícil de se alcançar no processo de escrita que acontece durante um processo duríssimo de ditadura. Primeiro são as ideias que vão se embaraçando e, depois de desembaraçar esse novelo, vem os ideais com os quais se escreve. Não se empolgar, mantendo o texto numa linha de reflexão bem arrumadinha, é quase impossível. Manter as características da própria escrita e não parecer um destemperado e radical, para não falar comunista (RÇRÇRÇ), mais difícil ainda. Mas agora consigo compreender essa aura de lucidez em torno do Veríssimo. ‘Incidente em antares’ se mantém coeso e lúcido do início ao fim em suas quase 500 páginas.

Retratar o período do golpe militar não é fácil. Retratar como a população reage, em todas as classes, nichos e vertentes ideológicas, menos ainda. Criar um cenário exclusivamente para expor isso tudo de forma clara, esquece, né? Não! Nada disso! Antares, a pequena cidade que faz divisa com a Argentina, está aí para nos provar que em se tratando de recursos narrativos para analisar e sintetizar a história, Veríssimo é um dos melhores que eu já vi. Já impressiona pela criação de Antares, desde sua descoberta e sua divisão entre duas castas de coronéis que acompanham a história de tudo o que rolou pelas bandas do extremo-sul-do-Brasil-que-hoje-não-quer-mais-fazer-parte-do-Brasil.

Um dos méritos de Veríssimo é conseguir manter num universo genérico o pandemônio que se transformou cada cidade do país. As exaltações morais, a fragilidade do modus operandi brasileiro, a necessidade de responder a uma nova ordem econômica e social (que acaso tomasse o poder sofreria embargos econômicos que levariam o país a hecatombe), o poder da mídia nefasta e manipuladora, sempre interessada em municiar intrigas para beneficiar poderosos, e, por fim, a irresponsabilidade moral do brasileiro ao acreditar que ajudar os ricos vai beneficiar os mais pobres, sem entender que o aparelhamento do Estado, da forma que estava formatado, sempre beneficiou os coronéis e empresários em detrimento do povo.

Parece que as coisas só seriam capazes de serem modificadas se algo sobrenatural acontecesse, como sete mortos saírem de seus caixões e infestarem a cidade com um cheiro insuportável. Putrefação ao ar livre e jogar bosta no ventilador, novas modalidades olímpicas. Dos mortos e dos vivos. De traição à corrupção, a cidade inteira se vê desmascarada. Uma imersão moral acontece e, de repente, esses coronéis que comandavam a cidade já não são tão mais onipotentes assim ante o povo. Os mortos, que nada deviam a ninguém e só queriam o direito de serem enterrados o quanto antes, despiram os cidadãos de bem de Antares. As exigências de ordem, de moralidade e civilidade caíram por terra no momento em que todos tiveram suas máscaras arrancadas e viram o poço de corrupção em que cada um se encontrava.

Nessa guerra da moral e dos bons costumes, as diferenças ideológicas foram classificadas como crimes hediondos e jamais poderiam ser discutidas. Seria criminoso ser um vermelho/subversivo/comunista. Vai pra Cuba! Nem apontar para a grave falha democrática que é a permissão de uma vertente ideológica diferente, alternativa ao poder atual, é permitido. As privações de pensamento são muito piores que as privações físicas e isso é assustador. De repente, todos em Antares começam a perceber que existe uma doutrinação ideológica muito mais profunda que qualquer doutrinação, supostamente vermelha, já que não os dá o direito de escolha.

Mas após muito cansaço, muita força e num estágio de decomposição avançado, os sete mortos conseguem seu devido repouso. O cheiro acaba e o show também. De repente, Antares enterra seus antagonistas e tudo volta ao normal. Os desvios dos bons costumes que todos pregam voltam às caixas pretas pessoais. É mais confortável alimentar o Estado do jeito que está do que discutir sobre algo que já está feito, não? Uma pequena centelha se acendeu, mas não foi o suficiente. Nunca é. A vida continuou normal. Havia emprego, havia ordem, havia prosperidade e havia gente de bem. Antares é um reflexo perfeito do antagonismo brasileiro à transparência, a abertura das mazelas, para que haja uma profunda reforma social, e consequentemente política. E isso só começa quando cada um é capaz de reconhecer, se desprender e praticar, finalmente, a igualdade, a empatia e a solidariedade para que todos sejam capazes de exercerem sua cidadania com segurança e liberdade.

E, como se não fosse o bastante, Veríssimo tem a capacidade de tecer um retrato tão fiel do povo brasileiro em todas as suas camadas e ideologias, esparsas e não conciliatórias, que todo esse retrato que foi pintado encaixa, certinho, com o que está rolando hoje. A única diferença é que não foram colocados militares nas ruas, a manobra foi interna e muito bem arquitetada, sem alarde. Mas o inimigo comum reapareceu, agora na forma de partido. Os que bradam pelo livre direito de se expressar são cada vez mais silenciados pela grande mídia, que manipula e delega poderes de acordo com seus interesses. Heróis de barro são criados instantaneamente e arrancados do mapa quando não mais convêm. E o povo continua pagando a conta por tudo o que acontece, não lhe sendo permitido o acesso a uma educação ampla e formadora, mas sim uma educação altamente técnica e restritiva à amplitude e importância de questões que vivemos no cotidiano.

Assim, o cidadão não precisa pensar nessa coisa chata e suja que é a política, pode se importar apenas com seu trabalho e ganhar seu dinheiro mirrado e muito suado. Quem sabe seu filho não dá uma sorte e consegue uma vida melhor, afinal. Seus desvios de conduta para com o próximo, desde que bem escondidos, nem serão notados e, se ninguém viu, não é pecado. O morador de favela continua assustando. O homem de terno e gravata merece toda a admiração do mundo. Baixa cultura e alta cultura. Mesóclise e gíria.

Agora entendo o porquê de receber tantas indicações sóbrias sobre Veríssimo. Literariamente fantástico, ele é capaz de recriar o brasileiro em suas tristes facetas. E, tendo em vista o cenário atual, isso não é nada bom. Grupelhos, autointitulados de porta-vozes da democracia, buscam benefícios para uma única classe (a média, sempre a classe média) alegando estar perdendo espaço e, assim, retira espaço do semelhante. Não existe “quando o meu termina, o seu começa”. A fila tem um final e um formato de pirâmide, não é cíclica. E sabemos muito bem nas costas de quem a conta sempre estoura. Eles não tem face, não tem identidade, não tem cultura, não tem voz e, por fim, não tem espaço. São comunidades, coletivos, minorias. Se a sua democracia exclui essas vozes, esqueça um Brasil mais justo. Veríssimo foi além do governo ditatorial. Infelizmente, somos uma nação de ditadores e golpistas. Mesmo os que falam em democracia. Ao terminar de ler, me peguei com os mesmos olhos sóbrios das pessoas que me indicaram Veríssimo. Agora entendo o porquê.

Aguarda na Disciplina|FLIP 2016

A FLIP 2016 terminou e agora começa a nossa jornada de posts. Em termos gerais, foi mesmo o que eu havia previsto: mais interação do público, mesas com assuntos encaixados e mais artistas de rua. Claro que o mundo não é perfeito como eu gostaria que fosse e temos aqui algumas dúzias de problemas, mas isso é papo de futuro.

Antes de falar sobre o evento, existe algo muito mais importante que deve ser colocado aqui: com menos de dois meses, o Rede de Intrigas contou com a colaboração de muita gente e a FLIP 2016 foi o extrato disso. Aos que ajudaram com a cobertura do evento, nas ruas, na correria das mesas super distantes, nos imprevistos, nas caronas e quem estava de longe, sempre me atualizando, solicitando e sugerindo. Agradeço aos autores que tiveram a paciência de ouvir, assimilar e contribuir. E agradeço previamente as pessoas que me ajudarão a organizar todo o mundo de materiais e serão meus revisores, analistas e sempre serão companheiros fieis. Repetindo, com menos de dois meses de história o Rede de Intrigas já pode ser considerado um projeto de extremo sucesso ao conseguir envolver por livre e espontânea vontade uma galera comprometida com a arte. A vocês, meus amigos, faltam palavras de agradecimento.

Agora a FLIP. Ah, a FLIP. Foi uma festa diferente, mais humana, mais próxima das pessoas. A opção pela poesia marginal com a cara e a voz de uma mulher encurtou o distanciamento natural que a arte promove entre o receptor e o autor. Foi uma FLIP mais quente e até o clima ajudou.

Claro que alguns erros estruturais aconteceram e serão falados por aqui, porque aqui a gente não tem medo de meter o dedo na ferida. Tem bastante coisa pra falar e todas serão tratadas separadamente e de forma construtiva. Mas a mensagem foi dada e a FLIP, que via um público mais distante ano após ano, conseguiu ver uma aproximação muito clara. Mesmo com uma cidade mais vazia por conta de vários fatores, principalmente a crise, houve um massivo aumento da participação das pessoas. Não houve sensação de vazio em momento algum (a não ser em algumas mesas podres).

Os eventos aconteceram em todas as partes do centro histórico da cidade, então imaginem a correria que foi e o estado dos pés de todos que colaboraram para trazer uma cobertura da forma mais completa possível para vocês. Pois é, mas valeu a pena e o saldo foi extremamente positivo. Não apenas pelo material que coletamos, mas pela satisfação de cada um em estar ali. Valeu o cansaço e agora vem à próxima parte do trabalho, que é passar essa satisfação e o saldo disso tudo para vocês.

Para dar um gostinho do que foi essa FLIP e do que está por vir, rolou cobertura em quinze das vinte mesas da Tenda dos Autores, Casa Folha, Casa Rocco, Casa de Cultura, Casa SESC, lançamento de livro e muita coisa na rua, com os artistas que vieram por conta própria buscar o seu espaço. Passando esse estado letárgico que fica após cinco dias alucinantes, tô vendo que vou ter que escrever pra cacete!

É isso aí, galera. Aguardem na disciplina que tá saindo parada boa com as impressões da FLIP, resenhas exclusivas e muitas novidades do Rede de Intrigas para vocês.

Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

Escalada Literária

“Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência.”

Sigmund Freud

Conversar literatura abre espaço para uma série de interações. Obtemos pontos de vista novos e completamente diferentes, uma construção mais ampla e sólida do senso crítico e aprendemos a ouvir e interagir com o próximo. Isso tudo vem agregado, também, da busca natural por referências de novas obras e autores impulsionando a tão famosa ‘Escalada Literária’.

Tomando como ponto de partida um lugar comum, é bem natural que comecemos a ler ou quando crianças ou a partir de alguma recomendação de um livro que está vendendo muito, sendo muito comentado. Normalmente algum desses best-sellers que viram filmes e séries e possuem toda aquela estrutura enorme, mas com conteúdo bem insosso. É o que eu considero boa literatura? Não. É um começo? É. Ao começar a ler, você naturalmente sai do ponto zero. Ponto positivo.

Naturalmente, quanto mais gostamos de um assunto, mais lemos sobre. Então quanto mais Percy Jackson eu leio, por exemplo, mais obras do Rick Riordan eu irei buscar. Isso é legal? É muito legal. Mas e depois? Das duas uma: ou você vai procurar um autor que tenha escrita parecida ao Rick Riordan ou vai buscar as referências que o próprio autor usou para poder escrever seus livros, correto? Beleza, beleza, beleza. Outro ponto positivo.

Nessa busca por novas referências, pintou algum autor mais maduro, né? Bernard Cornwell, M.K. Hume, Robin Hobb, George R.R. Martin, Tolkien, Stephen King. E o que você fez? Anotou? Foi pesquisar sobre os livros? Muito bem. Ponto positivo. Mesmo assim não se sentiu seguro para arriscar na leitura? Tudo bem, sem problemas. Mas deixa lá anotadinho que uma hora você cria coragem.

Criou coragem, leu, curtiu e quer mais? Mais uma rodada de busca por referências. Mas esses autores não se limitam ao mundo da fantasia e ficção histórica. Agora começam a surgir alguns clássicos. Bram Stoker, Mary Shelley, Jane Austen, George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Henry James, Franz Kafka e por aí vai. Então você começa a compreender que a partir desses clássicos mais acessíveis, esses grandes autores ao escrever usavam e abusavam de referências. Um grande passo.

Ao chegar nesse ponto você já compreendeu que para escrever, deve-se ler muito. Inclusive os autores pioneiros, inovadores, passaram por todo esse processo de construção de referências a partir das leituras que fizeram ao longo da vida. Então se torna natural buscar cada vez mais referências, ser cada vez mais curioso. É perceptível como você se torna mais exigente a cada obra, não é? E sua sede natural por sempre ir mais a fundo. Isso é uma maravilha! E nem doeu. Dá pra notar as mudanças na estante, a variedade maior de livros e assuntos, em como você passa a construir teu pensamento e em como você, naturalmente, se aproxima do mundo. A literatura tem essa capacidade que transcende o puro entretenimento.

Não adianta pular de Como Eu Era Antes de Você para Graça Infinita de uma vez. Pode até ser feito, mas as dificuldades serão enormes e às vezes tão grandes que causam a interrupção da leitura e uma quebra do processo de evolução, criando bloqueios gravíssimos e dificílimos de transpor. É um trabalho árduo. Cada obra tem o seu valor, cada autor tem seu estilo de escrever e uma mensagem para passar. Ir com calma, dentro do próprio ritmo, e construir gradativamente o conhecimento necessário para ler, digerir e conseguir dialogar com qualquer autor que seja é o caminho pelo qual segui e o caminho que recomendo e tento demonstrar às pessoas. Desta forma, ler Bernard Cornwell não perde a graça mesmo quando você é capaz de ler, com plenitude de absorção, Homero. Dá pra apreciar a literatura em todos os seus níveis. Nada é nulo. Pode ser ruim, muito ruim, mas não nulo.

Essa escalada tem um tempo que é muito pessoal, mas a coleta de informações quase sempre vem do meio em que estamos inseridos. A importância de apresentar referências, de conversar sobre o que se lê e de extrair o máximo de cada obra tem o poder transformador de inspirar outros. É uma lição de empatia e humildade das maiores. Algo que muito falta hoje em dia, inclusive. Por isso, repito, sou fã de leituras coletivas (o projeto do blog tá amadurecendo) e debates. No fim, junto com a ‘Escalada Literária’, podemos praticar uma série de valores que tanto sentimos falta no cotidiano. Adquirimos o hábito de sermos cada vez mais contestadores, solícitos e compreensivos. Viu como todas as ideias até aqui se misturam? É um conjunto de ações que gera um conjunto de resultados. O pensamento é disseminar a ideia e devagarinho a gente vai colhendo os frutos.

Conversar Literatura

Por Caio Lima

“A literatura é essencialmente solidão. Escreve-se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo, o ato de leitura permite uma comunicação entre dois seres humanos.”

Paul Auster

Fazemos muita questão de quantificar os livros que lemos por semana, mês e/ou ano. As pesquisas apontam que o brasileiro, em média, lê 4,5 livros por ano, um aumento de meio livro por ano referente à pesquisa realizada há quase cinco anos atrás, por exemplo. Levando-se em conta que mais da metade da população brasileira não é de leitores, sabemos que esses 4,5 livros per capita ficam distribuídos entre uma minoria. Mas normalmente essa estatística, para quem lê, é muito visual. Acabamos usando essa quantificação das leituras que fazemos como um recurso para mostrar que somos leitores ávidos, que há uma evolução natural da nossa escalada literária ou para tirar onda com os coleguinhas dos grupos das redes sociais.

Eu não me excluo do fato de ser, também, um pequeno fã de estatísticas e de ter minha tabela montada com os livros que leio durante o ano, um contador de páginas por ano desde 2011 e um contador de páginas por editoras. Estatísticas são muito úteis, sim. Por exemplo, nessa minha tabela (falarei sobre isso com mais calma em outro momento) eu descobri que quase metade de todos os livros que li foram de autores ou norte-americanos ou britânicos. Isso é muita coisa! De literatura brasileira não havia quase nada. Esses dados me deram base para que eu desse uma guinada na busca de descentralizar meus hábitos de leitura.

Eu sempre li muito mais que a média de livros lidos anualmente por brasileiro. Isso é bom, muito bom. Mas esse tipo de estatística não qualifica as leituras realizadas e não comprova que há uma fixação do que foi lido. E a literatura sem esse entendimento, essa compreensão de todo o contexto, não sobrevive. A exposição de pontos de vista diferentes dos meus acerca de algumas obras me fez abrir os olhos para um mundo completamente diferente. Isso só foi possível através de interações que passam longe da interpretação de dados estatísticos. Eu só fui capaz de identificar isso um tanto mais maduro, quando passei a frequentar clubes de livros em redes sociais, feiras, festas, debates e de levar em conta a opinião de alguns críticos não tão formais assim.

A interação pessoal complementa a literatura, bem como qualquer área da arte. A exposição de opiniões, o livre debate e a natural defesa de ideais constroem de forma natural muitos conceitos ou valores que desejamos ver aplicados dentro do nosso cotidiano. E há cada vez menos disso acontecendo atualmente. Existe um conceito que se assemelha à apropriação indébita da literatura. São, em sua grande maioria, grupos que abraçam opiniões consideradas cabíveis com a mesma facilidade e prontidão que repelem opiniões contrárias achando que há algo diferenciado entre os leitores de certo tipo de obra literária e os não-leitores destas. Vemos isso com muita frequência entre fãs de certa saga famosa versus fãs de outra saga famosa (isso já foi explicado aqui em posts anteriores). Mas é crescente, e preocupante, o distanciamento entre os leitores de clássicos, cânones e hipsters literários para o resto dos leitores, principalmente dos novos leitores.

“O declínio da literatura indica o declínio de uma nação.”

Goethe

A literatura bem feita não tem o objetivo de elitizar e construir uma redoma intelectual aos que são capazes de alcança-la (todos somos, afinal). É um meio de expor ideias, conceitos e arte e qualquer autor se utiliza da literatura para que isso chegue ao maior número possível de pessoas. Portanto, a literatura (e a arte em geral) carrega consigo a tarefa de estimular interações sociais. Os que são capazes de ler Victor Hugo devem despertar às pessoas o interesse em ler Victor Hugo, devem debater sobre Victor Hugo, devem conversar sobre Victor Hugo. Quem lê Victor Hugo pode ter dificuldades ao pegar James Joyce como próximo desafio, mas isso não implica em dois polos diferentes que são obrigados a conviver. Quem leu James Joyce também tem essa função de ajudar quem pode sentir dificuldades na sua forma reconhecidamente excêntrica de escrever e expor conceitos. Não existe o maior, o melhor, o mais. Existe o debate, a troca de ideias e o engrandecimento cultural e social gerados por conversarmos literatura.

Ninguém tem o direito de menosprezar o amigo que lê youtubers, os novos best-sellers ou livros eróticos. Existe um acesso muito facilitado a essa literatura e, repito, são portas de entrada para o meio literário a serem consideradas. O fato é que não podemos só navegar onde é mais fácil. E isso passa em como uma literatura mais elaborada é apresentada ao leitor, seja de primeira viagem ou não. Nisso estão envolvidos a família, a escola, a sociedade de uma maneira geral e os próprios meios de comunicação. Acredito que canais livres que mesmo de forma amadora (olha nóix aqui) exponham opiniões e incitem o debate livre, são profundos agentes de mudança. Tomar coragem e abrir um espaço para esse tipo de debate talvez seja uma forma de incentivar pessoas de forma efetiva a terem o hábito de conversar literatura, e não apenas quantificar livros. E adquirirmos a noção que: vergonha maior é achar que dispõe de todo o conhecimento e que não tem a obrigação, ou até mesmo necessidade, de passa-lo adiante. Subir num pedestal por gostar de livros mais complicados, de difícil acesso, não ajuda em absolutamente nada. As pessoas só saberão a diferença entre as literaturas da Kéfera e de Machado de Assis se ambos forem apresentados de forma acessível e isso depende bastante do que foi tratado nesses parágrafos aí de cima.

Inclusive, sendo profundo entusiasta de leituras coletivas e debates abertos, estou preparando um projeto de leitura coletiva. Dependendo da galera que quiser participar, tocamos o barco pra frente. Portanto, me mandem mensagens com sugestões e quanto à aceitação da ideia.

Lembrando que: os dois primeiros artigos não retratam a qualidade das obras que são lançadas, mas sim um modelo de mercado cada vez mais evidente. Óbvio que há um investimento visando à estratégia de mercado em detrimento da qualidade literária, o que culmina no surgimento de muita coisa dispensável. Mas nesse meio também se encaixam caras como Tolkien, George R. R. Martin, Stephen King e outros que eu curto bastante e tem uma extensa linha dos mais diversos artigos lançados por aí.

Vamos conversar mais literatura, galera!

João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro

Por Caio Lima

Literatura nacional nunca foi meu forte. É até engraçado, porque eu sempre tive algum contato, principalmente na época pavorosa dos vestibulares. Várias bancas, cada uma com uma lista de livros diferente e lá vai Caio tentar ler aquilo tudo. Claro que eu coloquei os mais curtinhos como prioridade. Quando eu vi o absurdo de colocarem um livro de quase 700 páginas numa dessas listas, mas é claro (muita ênfase nesse claro) que eu nem toquei no livro. E assim os anos correram e eis que agora, sem leituras obrigatórias, esse calhamaço me aparece novamente. O momento não poderia ser mais oportuno.

Capa_Viva o povo brasileiro - Edicao especial.inddViva o Povo Brasileiro é um grande romance de formação sobre o Brasil. Do Brasil colônia até a ditadura (o livro foi lançado em 1984), o livro traça do nascimento das raízes do país até o século XX, revelando um estágio de maturidade que nunca foi atingido.

É complicado falar sobre as personagens do livro pelo fato de encontrarmos essas personagens todos os dias na rua. O Brasil não mudou tanto assim do século XVI para cá. Não mesmo. Somos um padrão completamente arcaico de sociedade, justamente por não reconhecermos a nossa formação. Nossa evolução como sociedade acontece a passos vagarosos. Passos esses que só são dados após muita luta, mas que logo retrocedem pela falta de vontade e paciência de um povo criado para ser arcaico, conservador e fechado. E, nessa missão de elucidar o que deveria ser óbvio, Viva o Povo Brasileiro é simplesmente fenomenal.

Quem foi incumbido de colonizar o país, continua colonizando. Quem foi escolhido para ser colonizado, continua tomando na cabeça. Os reguladores entre ‘quem manda’ e ‘quem obedece’ também mantém um padrão bem identificável. Em todos os diferentes estágios dos quase 500 anos de Brasil retratados no livro, muitas coisas mudaram, mas os valores sociais sempre foram mantidos.

“Sabe como é a baleia que se apelida toadeira? É o mais valente ser vivente existente, que recebe pelo flanco as arpoadas, que se vê cercado dos inimigos mais mortais que qualquer bicho pode ter, que vê o mar virado num espinheiro fatal e então, levantando o dorso como um cavalo de nobreza, sacudindo a cabeça como um combatente que não se rende, não dá ousadia de bufar, não dá ousadia de gemer, mas segura o ardor de tantos dardos lhe mordendo as costas, manda que seu sangue lhe seja fiel naquela hora e, com um arranco a que nada na Terra pode resistir, estraçalha o que estiver à frente e leva barco, leva gente, leva corda, leva tudo, num carreirão de espuma e água pelos sete mares, vencendo assim quem quer que pensa que é vencido aquele que vencido não vai ser, pela força do orgulho e da resistência.”

Ao atribuir o valor social, histórico e cultural de todos os povos que formaram o Povo Brasileiro, numa Bahia que resume toda a miscigenação que nos identifica, durante todo o livro é bem latente como foram suprimidos e marginalizados a cultura e costumes dos colonizados, escravizados e servidores. Mas essa marginalização não é fruto, simplesmente, da relação entre dominado e dominante (explica muita coisa, mas não é só), existe algo bastante arraigado no inconsciente coletivo que normaliza, relativiza e apazigua algumas atitudes antissemitas, até. Um povo tão mestiço, tão plural e tão criativo não deveria ser refém de certos pensamentos que são elaborados e ratificados por fundamentações tão desumanas e de ideologia tão rasteira. É usar o povo como agente regulador do próprio povo.

Tenho que ressaltar a parte dos orixás na Guerra do Paraguai. Mas que sequência magnífica! Admito conhecer muito pouco das religiões e cultura africanas, mas após isso é basicamente impossível não ir buscar mais referências. É deslumbrante, envolvente e de uma escrita soberba!

Os pulos temporais durante todo o livro, de um século para outro a todo o momento, continuam a explicitar a questão de que o Povo Brasileiro, mesmo com o passar dos séculos, tem suas raízes formadoras muito evidentes. Que a ordenação social, a partir de todo o processo de colonização do país, continua ali historicamente e que, apesar dos avanços e das incursões e inversão de posições de elementos desse grande agrupamento social em agrupamentos sociais antes inacessíveis, a grande massa continua estática sofrendo dos antigos males.

É uma história de gerações seculares, profunda e bonita. Tem amor, tem luta, tem injustiça, tem briga, tem guerra e tem alma. Ubaldo só precisava de um grande romance para consolidar a carreira, mas acabou escrevendo uma carteira de identidade que precisa ser lida. O povo brasileiro é plural, bonito, cheio de influências e capaz de pensar por si só, mas precisa se desfazer de muitas vendas ainda. Viva o Povo Brasileiro é um grande caminho para olharmos nossas raízes.

P.S.: Notaram que só resenhei autores que começam pela letra J? É coincidência pura e simples. Não há nada de conspiração por aqui. Nada que vocês saibam, evidentemente.

Enquanto isso o Desafio Livrada! 2016 segue assim:

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann
2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski
3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe
4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko
5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino
6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade
7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex
8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro
9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg
10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein
12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino
13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger
14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal
15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Segue o baile.

Americanização da Literatura e Senso Crítico

Por Caio Lima

“Quando não somos inteligíveis é porque não somos inteligentes.”

Victor Hugo

As editoras injetam no mercado cada vez mais marcas literárias. No labirinto que é o mercado editorial brasileiro, muitas editoras apontam para apenas uma saída. Existe toda uma padronização midiática que só difere pelo meio em que está inserida. No caso deste texto, lembrando sempre, a inclusão da literatura nessa poderosíssima rede de entretenimento norte-americana.

Essa exploração comercial de marcas e ícones funciona como uma ode ao consumo. Há uma rápida identificação entre produto e consumidor, gerando a primeira safra de consumo. Rapidamente os acomete outra onda e consome-se muito mais, com velocidade ainda maior, outra marca. Até a criação de tantos objetos de desejo que não é possível consumir tudo e todos ao mesmo tempo, pois as condições financeiras, psicológicas e espaciais não coexistem. Desta forma a indústria do entretenimento inibe a formação de uma mentalidade crítica acerca da abrangência do valor artístico, cultural e social do que é produzido. É uma ação direta num tipo de carência intelectual que é fomentada historicamente por lideranças em busca da não formação plena da sociedade, excluindo sua noção mais básica e imprescindível, que é o senso crítico.

Obviamente ninguém nasceu lendo Guerra e Paz, do Tolstói. Mas, dentro do que observo, a massa de novos leitores é tratada como órfã de boa literatura e esse entretenimento viral veio suprir essa carência. É isso que aparenta. Essa orfandade tem ar de necessidade, ar de falta de incentivo à cultura. É um pensamento doente, torpe, degenerativo e funciona como uma epidemia. Em questão de poucos anos as estantes dos novos leitores brasileiros se renderam (quase) única e exclusivamente a marcas, em que alguns de seus produtos são livros.

Podemos chamar essa busca incessante por informações mastigadas, ruminadas, processadas e coadas de colonização cultural. Em países de terceiro mundo, com uma crise gritante de identidade (Brasil? Oi?), isso se torna uma arma extremamente eficaz no que tange à manutenção sistêmica de uma massa que esteja sempre abaixo de qualquer crítica. Evitar que haja contestação de políticas degradantes à população como um todo através dos véus do entretenimento de massas é uma das blindagens mais eficazes criadas. E se não há soberania na produção de nossa própria arte, imagine agora se há soberania sobre nossa maneira de decidir o destino político do país, por exemplo.

Essa viagem toda explicita o papel vital que a literatura sempre teve para a formação do pensar. Ao deixarmos o entretenimento sem critério ser reconhecido como algo extremamente natural, há uma identificação com uma cultura e realidade totalmente genéricas.  Cortamos uma via poderosíssima de formação do senso crítico permitindo que esses véus cubram todo o meio literário que tem por função não só o entretenimento, mas também mostrar diversos aspectos que influenciam o desenvolvimento pessoal e social. Há um reforço de ideal quanto à literatura brasileira, pelo fato do Brasil ser celeiro de autores fenomenais. Além de haver um dever de todos quanto a um melhor desenvolvimento do cenário editorial brasileiro, de fomentar autores brasileiros. Debater sobre nosso ambiente ajuda (e muito!!!) a criarmos uma identidade mais una como cidadãos.

“Odeio os livros; ensinam apenas a falar daquilo que não se sabe.”

Jean-Jacques Rousseau

Consumir (no sentido mais abjeto da palavra) literatura não é o ideal, mas já que é o principal viés do mercado editorial hoje, que saibamos aproveitar as brechas que nos são dadas. Que esses “livros-produto” sejam uma porta de entrada, e não uma razão de viver para os que se iniciam no mundo mágico e democrático da literatura. Quanto mais literatura que estimule o pensar, a arte, a criatividade e os sentimentos, melhor. O conhecimento passado em vias mais pessoais de comunicação, como os próprios blogs, são de fundamental importância para incentivar a busca por novas referências e novos caminhos. Esse é meu objetivo com este espaço, da mesma forma que fui inspirado por muitos da mesma maneira.

P.S.: Para maiores dados sobre o mercado editorial do Brasil é recomendada a leitura da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, com última edição lançada agora, em 2016. Aproveitem enquanto o café tá fresco, meu povo.