Charles Dickens – Tempos difíceis

Por Caio Lima

Depois de uma Flip completamente fora das tendências editoriais das grandes máquinas de cuspir livros brasileiras, dois autores em particular chamaram muito a minha atenção pela literatura que praticam, claro, mas não foi só por isso. Marlon James e Paul Beatty expuseram suas contradições sem vergonha de serem felizes. Mais preocupados em fazer algo literariamente relevante que abocanhar fatias de mercado específicas, ambos relataram aspectos importantes do que produzem. Inclusive, o ponto que dá início a esse texto é uma frase que circulou pelas redes sociais do próprio evento, quando Marlon James cita Dickens na seguinte frase: “Charles Dickens defendeu manifestações que mataram mais de 400 jamaicanos. Era um filho da mãe. Ao mesmo tempo, poucos escritores tiveram uma influência tão grande em como estruturo meus livros”.

Num primeiro momento, a frase foi engraçada. Mas, passado o riso, veio uma onda de reflexão profunda e algumas pessoas ao redor foram embora da mesa. Como falar mal do, talvez, maior escritor inglês de todos os tempos? Quem esse jamaicano que escreveu um romancezinho pensa que é?

Tendo lido apenas “Tempos difíceis”, eu não tenho como saber se, dentro de sua vasta obra, Dickens foi racista. Também não me preocupei em pesquisar se há um dossiê que aponta racismo, misoginia, homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito. Provavelmente existe. Dei um google e já apareceu uma infinidade de resultados sobre maus tratos domésticos, racismo e, pasmem, assombrações. O cara batia neurose com fantasmas. Enfim, o relatório parece ser grande. Lerei com calma. O problema todo é: a obra de Dickens, uma vez lida, não há como não passar em branco. E o discurso é tão próximo da nossa realidade atual, que se afeiçoar a Dickens é um passo natural para o leitor.

Pensem em “Tempos difíceis”. A cidade de Coketown, dominada por duas linhagens aristocráticas de origens distintas, se esfacela diante da necessidade de acúmulo de capital e a hipocrisia reinante na cidade. Um retrato das urbes inglesas do século XIX. Um universo micro que pontua características de um novo modelo de sociedade que reproduz práticas antigas, como a educação usada como doutrina de vertentes singulares de pensamento, a escravidão e as injustiças sociais com camadas não contempladas com direitos à cidadania, mas que carregam o fardo mais pesado dos deveres, sem margem para erro.

O martelo bate pesado para quem não pode argumentar, persuadir ou amaciar o ego do juiz. Num simples caso de roubo, o filho do dono dos meios de produção, viciado em jogo e com dívidas altas, preparou evidências para que um funcionário comum levasse a culpa. É incontestável a previsibilidade de culpa no caso. Mínimas evidências são capazes de dissuadir uma forte suspeita nesses casos de maioridade social. Imagine se ele estivesse com uma garrafa de Pinho Sol nas mãos, o escândalo que não fariam. Pena a marca não existir à época, o enredo de Dickens tomaria contornos muito mais dramáticos.

A exploração da miséria humana nas grandes cidades em meio a uma revolução que, a despeito dos meios de produção, acelerou o acúmulo de capital e atrasou o avanço humano, lança sobre o homem uma espécie de dívida inata. Os benefícios para a humanidade citados pelos livros de história citam não são acessíveis à grande parcela das pessoas até hoje. A necessidade de sobreviver não permite que sobre tempo para usufruir de qualquer inovação. A necessidade de ganhar dinheiro para sobreviver não permite que sobre alguma farpela no final do mês para adquirir, de alguma maneira, o direito de usufruir tudo aquilo que fez com que a humanidade evoluísse. Ser humano é cada vez mais complicado. E caro.

As contradições que Dickens impõe a sua produção literária extrapolam o livro em si. Numa época de revolução e ordenação social em castas muito bem fixas e quase intransponíveis, a preferência por ser publicado em fascículos por revistas acessíveis à população de baixa renda e, via de regra, baixa escolaridade, era uma tentativa de equalizar a distribuição de entretenimento, conhecimento e humanidade. Talvez Dickens tenha sido o único da era vitoriana a não erguer uma redoma em torno de si e seus dilemas pessoais, numa autocrítica blasé e sectária. A opção por tratar de contextos puramente sociais com personagens pouco convencionais para a época é, definitivamente, surpreendente.

Tudo muito bonito, é verdade. O problema é que há uma crise de identidade geral entre o olhar que temos sobre a arte e a importância que damos a ela.

Eu não entendo literatura da mesma forma que você, que está lendo esse texto. Muito menos da mesma forma que alguém do século XIX, como o próprio Dickens. Ou como Marlon James, que se inspira em Dickens mesmo sabendo que ele apoiou um massacre contra seu povo e era, muito provavelmente, racista. Afinal, como você enxerga a arte? Mais precisamente, a literatura? É realmente uma pergunta, respondam nos comentários.

Charles Dickens at the age of 47, by William Powell Frith. London, England, 1859

Essa é uma excelente temporada para derrubar cânones literários. Ou ao menos reverter sua polaridade e tomar nota de algumas demandas não correspondidas pelas formulações vigentes. Sabemos como nosso cânone ocidental é formado. Sabemos da quantidade de vozes apagadas na história. Isso não desqualifica a literatura produzida por Dickens, absolutamente. Ele tem seu lugar cativo na história da literatura — e na minha estante —, mas se há a possibilidade de contestá-lo, por que não o fazer? Se a arte surge como contestação e quebra de paradigma, seria ilógico eu não poder contestá-la.

As vozes que Dickens abre têm relação intrínseca com um processo de industrialização forçado e a formação de nichos populacionais miseráveis e invisíveis para a sociedade que consumia literatura à época. É difícil reparar numa realidade senão a sua, ainda mais quando a sua é uma realidade de privilégios, sabemos bem. Portanto, muito dessa vontade de escrever sobre a miséria de Londres — ou Coketown, no caso específico de “Tempos difíceis” — é proveniente de uma juventude afetada pela famigerada Revolução Industrial. Tendo que trabalhar desde muito novo, a vivência do autor com a miséria e, mais precisamente, com as pessoas afetadas por essa miséria, fez com que o foco de observação fosse completamente diferente dos seus pares literários. Mas existem misérias, ou nuances, que Dickens jamais conseguiria representar na sua literatura.

A literatura que se busca hoje é, conceitualmente, mais plural e incisiva em questões individuais. Os conceitos puramente classistas do século XIX não conseguem, por mais que se tenha uma dose gigante de boa vontade em empreender sentidos às obras, saciar a fome de representatividade de uma geração que une os conceitos de gênero, raça e classe num caldeirão fervendo, derretendo qualquer suspeita de noções pré-concebidas sobre suas identidades – hoje, tantas, que a gente fica até meio perdido.

Nada mais natural, portanto, que um gênero como a autoficção cresça e se torne a nova tendência literária aqui no Brasil. Suis generis, é o literato brincando com sua própria história e expondo demandas individuais. Num país tão plural e caótico, é difícil ter coragem para expor demandas que não sejam únicas e, principalmente, próximas das vivências de cada autor. De fato, é mais uma tática de defesa do mercado editorial que, além da crise financeira, não sabe se comportar em relação a demandas sociais. Ou simplesmente as ignora, vai saber.

Sabemos que autoficção não nasceu aqui e que não existe apenas isso sendo publicado no país. É uma questão de demanda, de fomento. Um relato individual é incontestável, por mais contestáveis que sejam as ideias expostas pelo autor. Sempre funcionará como um mea culpa bastante eficiente. Isso não quer dizer que sejam produções ruins. É mais uma visão geral. O indivíduo, enquanto unidade produtora/consumidora de literatura, nunca terá contraponto ou oposição plausível a acusações feitas por massas. Afinal, quem pode mensurar o impacto das suas próprias memórias no processo criativo de um livro? A discussão se estenderia pela eternidade. São as grandes editoras fazendo o que sabem fazer de melhor: business.

O que não impede que surja outro fenômeno, numa literatura mais social e politizada, que queira representar nichos específicos da sociedade. Uma literatura endereçada, com representatividade e, normalmente, colaborativa, proveniente de mercados e editoras pequenas, com pouco investimento e que acabam caindo nas graças de nichos cada vez maiores e diversos por apresentarem visões diferentes de mundo, muito particulares e pouco aparentes. Vozes que se erguem.

Nesse samba de uma nota só pelo qual os círculos literários têm passado, Dickens, além de se tornar figura contestável, fica um pouco esquecido, num limbo. Ele não produziu uma autoficção supra individual e incontestável, tampouco foi capaz de atender demandas específicas, apesar de ter tentado dar voz aos excluídos da sociedade inglesa. O que sobra desses dois contextos é literatura. E isso nos leva de volta à frase de Marlon James.

James não relativiza um Dickens racista na sua frase. Na verdade, ele expõe uma face que muito incomodou boa parte do público, que fez bico e ficou meio estupefato. Seu romance sofre influência direta de Dickens, é perceptível. Mas o contexto, a reinvindicação, o sentido da escrita de Marlon é completamente distinto. A influência não descaracteriza o desprezo, o desagrado. E, por mais que achem, não é engraçado, peculiar ou oblíquo que James tenha se inspirado em Dickens para se formar autor. Essa história de superação digna de programas de auditório transmitidos aos domingos à tarde só pode ser contada graças a visão crítica de James sobre Dickens.

Ler “Tempos difíceis” só me provou duas coisas: a primeira — e óbvia — é que Dickens é um grande escritor e eu deveria ter começado a ler sua obra mais cedo; a segunda passa pelas falhas de construção do nosso senso crítico como leitores e a formação e a falta de conhecimento que temos do nosso poder de disseminar informação. Somos veículos muito frágeis no que tange ao diálogo, incapazes de construir pontes permanentes que privilegiam a compreensão de outros mundos, tempos e ideais. A verdadeira revolução não carece de mais energia. Carece, sim, de onde e como concentrar essa energia.

É aí que o imponderável de Dickens aparece. A menina rica, criada para ser uma esposa perfeita, dentro de uma educação completamente tecnicista e que pretere o irmão à luz da justiça e da própria consciência. Os processos desenvolvidos até o desfecho, as ações desencadeadas por um senso incomum de liberdade de pensamento e justiça social e, finalmente, a revolução em Coketown. Sim, revolução. O processo que se passa em “Tempos difíceis” é revolucionário, crítico e silencioso.

Isso não anula nem por um momento sequer a verdadeira face de Dickens. Essa face racista que eu estou indo pesquisar agora. É apenas literatura. E literatura é tudo o que sobra. Se você não souber aprecia-la e critica-la, fatalmente Dickens ou seu autor favorito perderão completamente o sentido. Os alicerces para a contestação também se perdem no processo, rapidamente colocando o leitor numa bolha de privilégios onde ele não sabe exatamente contra quem ou o que lutar. E as teorias, o desagrado e a luta se tornam tão vazias de razão que o sentimento revolucionário, aquele romântico, se esvai junto. São muitos os exemplos dos que se tornaram ditadores de si mesmos por terem perdido a conexão com seus alicerces.

Num mundo literário tão cobiçado por seu comportamento piramidal, acabamos por esquecer que praticar a literatura no cotidiano é um ato de retratação e justiça contínuos. Após um século e meio, enxergamos faces de Dickens expostas por vozes que se levantam na busca de retratar e preencher as lacunas deixadas pelo escritor inglês e, não menos importante, balançar as bases já pouco sólidas do cânone (não vou esticar o assunto sobre a criação de um contracânone, isso fica para outro texto, mas que é bastante interessante, é). Gerar incômodo, provocar discussão, bagunçar a ordem. Ora, ora, se não é exatamente por isso que Dickens é louvado.

Marlon James se inspira em Dickens, e, aqui, Dickens é tratado não como um autor do cânone literário ocidental, mas como um autor de reconhecida importância e que deve ter sua obra revista e confrontada por olhos que enxergam além do que era visto no século XIX, olhos esses que caem nas redes de um mercado que enxerga dois polos distintos pelo simples fato disso ser melhor pros negócios, mercado do qual o Rede de Intrigas foge para trazer esse tipo de texto que era para ser apenas sobre um livro, mas que começou com uma frase de Marlon James, que se inspira em Dickens. Ciclos que se renovam. São tempos difíceis.

O Sebo Rede de Intrigas está de volta! Confiram!

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