Desejo para 2017!

Por Caio Lima

Eu não tenho conhecimento suficiente para falar da literatura em si. A única coisa que eu posso dissertar aqui é acerca das impressões mais fortes que o livro me faz sentir ao longo da leitura e no período de reflexão após. Nesse período de reflexão eu vou encaixando referências, literárias ou não, que estão dentro do contexto que eu quero passar. Mais do que vontade de ler o livro, acredito que o trabalho de crítica, quando bem feito, desperta o leitor para um mundo além do objeto livro. Isso soa óbvio (porque é óbvio), mas não são só os livros lidos que fazem um escritor ou uma pessoa “erudita”, é a forma como os livros são tratados depois de lidos. E todos que acompanham o Rede de Intrigas desde o começo sabem que os livros são parte essencial da minha vida. A de verdade, não a de leitor.

Parte importante dessa influência literária tão profunda e da vontade de escrever sobre os livros que leio (e que possuem uma mensagem que valha o trabalho de fazer uma resenha), é quase um apelo para que todos leiam sem essa charlatanice de se colocar no lugar do autor ou algo parecido, que tenho ouvido insistentemente durante esses últimos dias. Parece que a literatura tornou-se um mundo de intenções e isso é perigosíssimo.

A arte não é feita de intenções. Não é e ponto. A partir do momento que é publicado um livro, naquelas folhas de papel pólen, dentro daquela capa dura bonita, na folha de guarda estilizada, no marcador de fita colorida charmoso e nas palavras impressas num tom de azul ou roxo (não dá para diferenciar de tão especial que é a tinta), estão as ideias, mesmo que momentâneas, do autor. Presumindo que não haja interferência de editora, ghostwriter e tudo mais, beleza? Até porque essas influências todas só mostram que o autor é um cagão, sem personalidade alguma, quando poderia ser apenas um péssimo escritor ou ter cometido uma grave deslize no meio da sua obra.

Entendem que não é pecado algum achar que alguém escreveu (ou só escreve) merda? Ninguém é à prova de críticas. Críticas, quando bem embasadas, por mais duras que sejam, servem de estímulo e apontam caminhos para melhora. É mais que um meio de influência e captação de público, como vem sendo. Crítica é o termômetro de um trabalho. Isso não significa que todos os críticos devam concordar. Eu mesmo não concordo com a maioria dos posfácios (textos de apoio em geral) que leio, por exemplo, inclusive inverti completamente o sentido de um para colocar a minha interpretação de ‘O supermacho’, escrito por Alfred Jarry. Esses textos são, normalmente, escritos por pessoas do mais alto nível de erudição literária da face da Terra. Mas e aí? Eu vou me submeter a opiniões que eu não concordo, sendo que eu tenho como sustentar minha posição até que me provem o contrário? Nunca! Isso não significa que eu não mude de opinião, mas antes a gente discute e chega num termo, ué. Onde já se viu a palavra de alguém virar lei agora? Se for pra confiar na palavra de alguém, eu confio na minha (se eu fosse vocês, confiaria também, hehehe).

Da mesma forma, nunca faria uma resenha sobre ‘O tribunal da quinta-feira’, do Laub, por exemplo, porque a minha seria um plágio da escrita lá no Livros Abertos (clique aqui) ou a resenha de ‘1984’ do Orwell lá no Curioosamente (clique aqui). Meu senso de coesão, meu ego e minha visão de literatura não permitem que eu resenhe um livro apenas pelo hype ou para corroborar que achei um livro bom. Não há motivo de eu colocar minha opinião se alguém já o fez com competência e eu concordo inteiramente com isso. Não ganho nada, falando de valor crítico, para o meu trabalho. Definitivamente, NÃO!

Isso tudo passa pelo mercado editorial e a capacidade de criar pequenos monstros que geram lucro e fazem a roda mercadológica girar, permitindo que autores com menor alcance também cheguem ao país e essa baboseira toda. Não quero retomar essa discussão por aqui, porque maquia, de certa forma, o papel de quem fala sobre literatura em blogs e vlogs e ogs e ogs e ogs. A crítica é um espaço livre. Tem que ser! Se há uma obrigação, não da leitura para a resenha, mas de ter uma opinião que não desagrade autor, editora, fãs ou que quer que seja, cria-se um ambiente de literatura superficial, repetitivo, que desestimula o leitor e, principalmente, quem faz a crítica. Qualquer um que já tenha trabalhado sabe do gostinho amargo que fica quando um chefe pede algo que você sabe que está errado, mas não pode passar por cima do chefe. Imagine quando é algo que você faz por gosto, como falar de literatura, ou “livros”.

Outra coisa: não se atenham somente aos “livros”. Procurem, pesquisem, desenvolvam ideias. Em períodos tão difíceis, a arte atua como protesto, claro, mas é uma forma de abstração da realidade. Acho que todo mundo leu Anne Frank aqui e consegue entender um pouco o que eu estou falando. E a literatura tem tão fácil acesso hoje quanto os mp3 da vida. Conseguimos bons livros em sebos a preços excelentes, mesmo em edições mais antigas. Livros digitais são de graça (quem aqui nunca utilizou o LêLivros, né?). Eu curto livros físicos, gosto das edições, me amarro, acho lindo, admiro, ainda mais as “edições-conceito”. Mas os livros são mais que isso. Muito mais.

Esse texto não é uma tentativa de diminuir o trabalho de ninguém, é só a percepção de um meio com muita gente talentosa, mas que estão permitindo que as coisas fiquem engessadas, mecânicas, artificiais. Literatura e zona de conforto não combinam, tanto que as maiores críticas que já vi foram para autores que caíram nessa zona. Sendo assim, não há motivo para deixar que a nossa conversa sobre literatura caia numa estagnação tão abrupta num período de meses. Resenhas novas, diferentes, criativas. Projetos de leitura novos. Desafios mais abrangentes. Entrevistas e eventos. O que quer que seja, usem a criatividade e foquem na literatura antes de qualquer coisa. No mais, critiquem, conversem, discutam. Essa é a graça da coisa. Esse é meu pedido para 2017!

Obrigado a todos que leram o Rede de Intrigas durante esse ano de estreia. 2017 vem bastante coisa nova, tenham paciência comigo. Seguimos na sombra!

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