Abasse Ndione – A vida em espiral

Por Caio Lima

Capa RádioLondres_Avidaemespiral_AbasseNdione.jpgMuitos defendem que um livro nunca deve ser analisado politicamente. É uma visão purista da literatura e eu até concordo em partes. Acho interessante se apegar apenas à arte. É bonito. Imaginem ter propriedade, tempo e oportunidade de analisar literatura apenas pelo valor literário. Porém, esse não é o caso do Rede de Intrigas.

Recortar a filosofia a fim de esvaziar o sentido original da teoria e/ou prática e moldá-las ao seu bel prazer é uma das especialidades políticas ocidentais mais apuradas e a primeira forma de corrupção possível. É visível, também, que as tradições ou quaisquer aspectos culturais de um povo, ocupam cadeiras muito frágeis ante o fenômeno político ocidental, tornando inviável a existência de uma alternativa ao “prato feito” político que nos é servido.

Foi lá na Grécia Antiga que toda noção de vida pública e privada ocidental surgiu, basicamente. E, bom, qualquer teoria política que conhecemos busca elementos da filosofia grega para justificar seus pontos. O “mito da caverna” talvez seja o exemplo mais claro desse alicerce filosófico helênico. Porém, ele só existe por ser uma defesa à aristocracia filosófica. Sim, Platão era um crítico ferrenho da democracia e acreditava que existiam pessoas (filósofos, no caso) destinadas a guiar a massa para práticas e organização harmônicas. Mas se “mito da caverna” é uma crítica ferrenha à democracia e uma defesa da monarquia filosófica, seria, então, uma falácia muito grande utilizar Platão para reforçar princípios do estado democrático de direito ou a defesa da libertação do homem através do conhecimento. Triste, né?

E então, saltamos no tempo e chegamos ao Senegal de Abasse Ndione, escritor de “A vida em espiral”, em meados de 1980. O melhor em analisar a história é a liberdade. A semelhança entre a Grécia de Platão e o Senegal de Abasse Ndione não é tão bizarra assim e, sinceramente, Abasse poderia ter nascido na Grécia daqueles idos. A crítica ao sistema democrático senegalês é tão sutil quanto profunda, e passível de diferentes interpretações.

Amuyaakar Ndooy, o personagem central do livro, poderia continuar sua vida de taxista, cuidando da mãe, da irmã e da filha, e se reunindo com seus quatro amigos para fumar yamba (maconha) escondido. Porém, numa dessas oportunidades únicas na vida, Ndooy consegue uma boa quantidade de yamba bem quando o Estado está criminalizando seu uso, tornando o produto escasso no mercado. Ndooy decide, então, empreender e mergulhar no tráfico, se tornando um sipikat (traficante). Grana alta, fumo à vontade e poder.

O mundo como ele é faz com que o tráfico pareça enfrentamento político, porém não é bem assim. Conforme Ndooy avança nos negócios e se aproxima das esferas mais altas da sociedade senegalesa, ele entende que o tráfico de yamba (bem como qualquer ilegalidade) é benéfico para a manutenção do sistema e distribuição de poderes no seu país. Uma coisa fica bem clara durante a leitura do livro: a lei não atinge uma parcela de pessoas – os criadores/financiadores das leis.

As leis, como conjunto normativo para uma sociedade, podem ser injustas por natureza. Não é difícil validar exemplos de como leis podem funcionar para garantir privilégios, a escravidão é um exemplo bem claro disso. O link entre uma realidade marginal e a validação do que é legal e o que não é, é um primeiro passo para, mais uma vez, ampliar a discussão para um embate cultural. Resoluções políticas ampliam a distância entre cultura e justiça. Os efeitos são aterradores.

Isso é agravado em um país que dança conforme a música tocada em outras terras. É difícil ser politicamente estável quando as pessoas estão perdidas entre o que lhes é imposto e o que é herança. Muletas culturais nunca aproximam o país colonizado da amplitude de perspectiva, da plenitude do indivíduo – senão o “mito da caverna” não seria usado até hoje (em toda sua subversão de sentido) para defender conceitos democráticos.

“A vida em espiral” é um livro sobre a vida de um traficante? É, mas não é. O livro é uma apologia ao tráfico? Definitivamente, não. A tônica do livro é contestar o sistema, mas não de uma forma convencional. A manobra de Abasse Ndione ao montar o livro é o que separa bons autores de excelentes autores.

Existe uma força ancestral que move Ndooy ao longo do livro. Isso pode passar batido pelo leitor, mas a força está lá, sempre reforçada pela narrativa de Abasse através das recorrentes expressões no dialeto wolof (yamba e sipikat são exemplos disso), típico de uma das tribos que fazem parte do Senegal; ou pela maneira, o lugar, o fornecedor e o clima onde Ndooy busca o yamba. Todo enredo tem uma aura de um Senegal que parece não mais existir. Contudo, essa ancestralidade é a responsável por carregar Ndooy na sua perigosa carreira. Por isso o livro não retrata o simples embate entre tráfico versus sistema. A resistência proposta por Abasse Ndione é cultural.

A raiz cultural dessa Senegal exposta por Abasse Ndione é sólida e mágica. Não existe falácia filosófica que a corrompa. Ser algo sólido já pode ser considerado mágica nessa sociedade pós-moderna, mas a magia é algo maior e foge ao entendimento do leitor. Não por Abasse não conseguir explicar, é vívida a aura que circunda o livro. A questão é compreender a abrangência da cultura.

Descobrir e viver a cultura senegalesa é completamente diferente de defender que toda essa diversidade cultural seja respeitada. Pode-se seguir outras doutrinas, é normal que haja essa liberdade. Mas “A vida em espiral” mostra que apenas quem vive a sua cultura é capaz de falar com propriedade por ela, da mesma forma que é responsável pela sua manutenção e perpetuação. Retirar ou reduzir drasticamente a cultura de um povo, impondo seus métodos e práticas embasados em verdades absolutas sobre modernidade, globalização e a irmandade entre as nações é uma atrocidade.

Afinal, o que seria de um povo que respeita suas raízes e é organizado politicamente? Se você chutou “livre”, acertou. Então porque esses países não se reconhecem culturalmente dentro de um sistema político conhecido? Porque são criados numa base filosófica corrupta. Isso inviabiliza que a expressão “dar certo” seja usada numa frase que contenha “sistemas políticos ocidentais”, mesmo nos países europeus.

Não é aceitável a elevação de uma “nação colonizada” a um status de “nação livre” sob qualquer aspecto, mas a ferida que mais sangra é a ferida cultural. Delinear traços culturais próprios (e progredir por meio deles) torna o homem pleno, dono de si. Com raízes sólidas, muito bem estabelecidas, nada que possa vir do externo é capaz de machucar. Conceitos como justiça são moldados pela equidade social e são consenso, todos defendem a liberdade de todos. A cultura, como modo de vida aplicado, é ampla demais para que alguém não tenha sua cobertura.

É bem verdade que a sutileza de Abasse dá o raso para um leitor menos atento, podendo parecer apenas mais uma história de polícia e ladrão ou, como alguns críticos apontaram, uma apologia ao tráfico. A distorção de uma realidade periférica como apologia já denota o que é o sistema e como ele molda o pensamento do colonizado. O traficante de Abasse, Amuyaakar Ndooy, nada mais é do que uma peça dentro do sistema. Uma peça que cresce, vê as coisas acontecerem e consegue sair.

Resistir culturalmente não é ativismo político por cultivar pautas minoritárias, por usar uma peça de roupa característica ou por incluir um tambor dentro de uma música que você faz. Claro, tudo isso é importante. São símbolos e resoluções que devem ser discutidos e usados com orgulho. Porém, é necessário se fazer maior que o material quando se fala em resistência cultural.

Resistência cultural é ativismo político porque a cultura alça o homem a sua plenitude. E o homem que sabe de onde veio, que sabe para onde vai e que é capaz de reconhecer e abrir espaço para o próximo, é muito mais efetivo em criar um ambiente que se desenvolva de forma saudável e harmônica que qualquer teoria presa em livros de ciência política, jornais de televisão e conspirações de guerra. Fecho com os versos de Marcelo D2: “Eu luto e não me rendo/Caio e não me vendo/Não recuo nem em pensamento/Sigo em movimento, que para mim é natural/De resistência cultural”.

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Raio-X lírico: Marechal

Por Caio Lima

Quanto mais se personaliza uma função, mais complexo se torna enxergar suas influências e em como elas atuam dentro do processo criativo. Uma tentativa de análise lírica sobre o Marechal é complicada, são poucas letras e tentar desenvolver em cima do que está escrito é tentar desvendar a pessoa, o que torna evidente que a construção lírica de Marechal é muito mais alicerçada nas suas experimentações filosóficas e espirituais que em algum motivo poético ou ficcional.

Eu realmente não sei o motivo de inventar esses textos. Mas desafio lançado tem que ser cumprido. Bora!

Ninguém está preparado para o álbum do Marechal. Nem o próprio Marechal está preparado para o álbum do Marechal. Quer dizer, parece que agora está. O disco está anunciado para esse ano e todo mundo está na expectativa. E essa expectativa é tão alta, mas tão alta, que eu me peguei pensando no porquê de o Marechal ser do tamanho que é dentro da cultura hip hop.

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O rap ganhou novos ares com o Quinto Andar, sem dúvidas. O grupo carioca escalou um 4-3-3 com ataque total (brasfoot rules) e fugiu dos padrões, abrindo espaços no rap nacional. Julgado como rap descompromissado à época, o discurso largado, bem-humorado e audacioso renovou o gênero, abriu a oportunidade para que o rap não fosse um casulo, mas sim uma forma de atacar em todos os espaços possíveis e, claro, ocasionou o surgimento de MC’s que viraram lendas.

Se contarmos que o digníssimo motivo desse texto parou de estudar no meio regular de ensino aos treze anos para cuidar da própria educação, a gênese do QA me parece ter o gosto do sonho de infância: um grupo de rap formado por amigos, sem compromisso com o próprio sistema do rap e que fez sucesso dessa forma. Se parasse por aqui, Marechal já teria o nome escrito na história do rap nacional, bem como todos os outros integrantes do QA o tem. Mas não é bem assim, vocês sabem. Até o Piratão, único álbum do coletivo, os objetivos caminhavam em prol do disco. Após, as coisas se articularam de maneira diferente para os integrantes e Marechal foi um que “levou seus talentos para South Beach”.

Antes de começarmos a escrever sobre os rumos do Marechal pós QA, precisamos conversar sobre alguns aspectos da cultura hip hop pouco abordados nos dias de hoje, porém fundamentais para a formação da cultura; e, consequentemente, para a minha visão do que representa o Marechal dentro da nossa cena.

O legado da luta árdua deixado pelas décadas de 50 e 60 é muito maior que a política. Todos os revolucionários, além de se comunicarem, buscaram longe do padrão americano os pilares para a mudança. O que ficou tanto tempo escondido pelo opressor, começou a ganhar espaço e força como práticas cotidianas, como cultura vivida. As diversas representações culturais africanas, árabes e orientais emergiram com força e passaram a fazer parte do imaginário dos guetos americanos.

Vocês já assistiram The Get Down? Vou me utilizar de dois personagens para salientar dois pontos. O primeiro é o Shaolin Fantastic, influenciado diretamente pela cultura pop nipônica, com toda a adoração por artes marciais, samurais, ninjas e códigos de conduta regidos pelo silêncio e sacrifício. A segunda figura a ser destacada é o Dizzee, o artista, rei da pichação. O estilo good vibes, que apela para a elevação do espírito e autoconhecimento, também é uma influência oriental muito forte, mas aí estão misturadas linhas filosóficas diversas e muito confusas para quem está começando a entender como as doutrinas orientais funcionam (tipo o escritor que aqui vos fala). Taoísmo, islamismo, budismo, hinduísmo e outras práticas, mesmo não sendo seguidas à risca, passaram a fazer a cabeça das pessoas. Não são poucos os que passam essa visão no rap, principalmente os dinossauros como KRS-One, Rakim e Mos Def.

Virando o jogo e olhando para a raiz, a difusão das matrizes culturais africanas como práticas comuns começa a fomentar uma ideia muito concentrada que, salientada por toda essa filosofia de libertação e autoconhecimento, vai moldando as bases do movimento hip hop. E para ser livre, evoluir e entender que seu irmão é exatamente igual a você, é necessário saber de onde veio e saber o porquê te descaracterizaram e arrancaram suas raízes! Como puderam ignorar sua árvore genealógica por tantos séculos? Aqui entra o papel do “griot moderno”, o MC. A função original do griot é a de um transmissor de conhecimento. São sábios, perpetuadores da cultura da forma mais ampla possível. Mas nada disso foi escrito, todo o conhecimento era repassado de forma oral.

É exatamente nesse ponto, tendo pincelado rapidamente a função do griot, a revalorização das raízes culturais africanas e a inserção dessas linhas filosóficas orientais dentro do hip hop, que voltamos a falar sobre o Marechal (finalmente, Caio).

Ainda jovem, Marechal foi caçando seu caminho e sofrendo com algumas pedras no sapato durante a caminhada. Além da saída do QA, o que gerou surpresa, teve a treta com o Cabal. A treta proporcionou um momento histórico para o rap nacional, mas olhando bem para o Marechal de hoje dá para perceber que não era bem esse o caminho. Períodos turbulentos assim podem ser considerados como um inferno astral, onde você mobiliza toda a energia que possui para gerar ações negativas. Mesmo tentando acertar, se não há um alinhamento harmônico das energias que você emana e te envolvem, todas as vibrações são traduzidas em más atitudes.

A necessidade de Marechal ter de explicar sua saída do QA ou sua treta com o Cabal ofusca o surgimento da Batalha do Conhecimento, da filosofia “Um só caminho” e da própria VVAR (Vamos Voltar À Realidade). O interesse do público é direcionado para esse mundo do rap game, do business, da “arte profissional” e seus ramos “colunísticos”.

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Desta forma, para se manter relevante há a necessidade de circular pelo ambiente profissional do rap. Lançar sons constantemente, estar nos canais de mídia especializada, ser participativo nas redes sociais e todo o resto do script do rap. Num período de reorganização espiritual e estudo pesado, essa é a última coisa a se esperar de alguém. E uma vez iniciado o processo da busca pelo próprio caminho, não há mais volta. Segue o jogo, mas agora à própria maneira.

Para mim, o hip hop transforma e liberta antes de educar. Mostrar que as pessoas são capazes de criar o próprio espaço e trilhar o próprio caminho, essa é a essência. E é uma guerra tentar levar esse tipo de pensamento para dentro de espaços em que mentes são dominadas de todas as maneiras possíveis e imagináveis. É tanta energia negativa historicamente aplicada nas pessoas, que é difícil o resgate da autoestima. Alguns possuem essa força de vontade inabalável inata, mas a grande maioria precisa de ajuda.

Entender e viver o hip hop fez com que Marechal reagisse ao mundo como ele é. A primeira reação à indústria musical foi a de sair da indústria musical. Todo mundo conhece a frase clássica “lanço uma música por ano e você não fica uma semana sem ouvir”. Eu não parei para contar as músicas do Marechal, mas as poucas músicas têm mais implicações que apenas ser um revoltado com o sistema. É difícil se manter relevante lançando pouquíssimas músicas e fazer com que elas permaneçam atrativas, mantenham a identidade e atravessem o tempo.

E para atrair um público que precisa da cultura hip hop, é necessário sair do público de rap. O MC deve se reinventar a todo momento para atingir mais pessoas. Enxergar uma realidade, traduzir em poucas linhas e prover o resgate do brio e ao mesmo tempo entregar esperança. É uma constante troca, é um constante aprendizado. É necessário se permitir mudar junto com a mudança que o MC é capaz de provocar, saber lidar com as energias diferentes, se adaptar, repelir o que é lúgubre para, aí sim, gerar mudança. Não é fácil se colocar em posição tão vulnerável numa cultura onde o sentido de H.aço foi se tornando algo radical.

O problema é que o mundo exige organização, profissionalização, consumo e massificação. Sem isso você vira um errante da cultura, uma personalidade caricata que só fala em coisas que não podemos tocar e acaba isolado nos seus próprios ideais. Então o “trabalho de formiguinha” não tem alcance se a criançada que recebeu os livros do Projeto Livrar não pode encontrar as músicas do Marechal no YouTube. Hoje a identificação se dá pelo consumo. O que eu posso consumir é o que trará a certeza da minha identificação. É triste? Sim, mas é real. Qual o segredo para fugir do sistema, então? Descentralizar os conceitos.

A mesma descentralização cultural que firmou as bases do hip hop é o que Marechal faz com a realidade do mercado brasileiro. Ele não é o diferentão roots do rap nacional até o osso. Temos aqui uma pessoa que tem fé nos seus valores, que estuda muito e que está disposta a estabelecer uma troca sincera com todo tipo de público. Marechal torna-se, então, uma personificação da cultura hip hop sem parecer mórbido ou estacionado nos anos 90. O mesmo choque cultural que o movimento hip hop tomou, absorveu, fincou suas bases e foi perpetuado é o que Marechal emprega até o atual momento no seu “um só caminho”. Entre pontos altos e a possibilidade de estar “se vendendo”, ele tenta encontrar brechas no mercado que permitam a grande massa ouvir o famoso “rap de mensagem”.

Isso acontece na música “Guerra”, que fez parte de trilha sonora de filme e série; acontece com a gravadora que vende uns panos irados, a VVAR; acontece com a participação na música do Costagold, “Quem tava lá”; acontece na nova Batalha do Real, que virou um grande circuito, com rimadores selecionados à dedo, todos já bastante conhecidos do público. Isso tudo é transformar seu ideal em produto. É o que permite as pessoas consumirem e criarem vínculos com o que ouviram num primeiro contato. É mercado. E não é ruim, não é pecado e não é desrespeito!

A questão é: ninguém sabe o quão próprio é algum produto após tê-lo colocado na rua, sabemos apenas que existe um ideal por trás do que foi lançado. Talvez seja por isso que Marechal ainda não lançou seu álbum. Durante esses longos anos de trabalho ininterrupto com a cultura hip hop, estudando continuamente e sentindo que o que for lançado pode não ser forte o bastante para manter suas raízes ideológicas frente a esse mercado emergente, maluco e megalomaníaco chamado “rap nacional”, ele refugou diversas vezes.

Todo o trabalho feito até aqui se resume a lançar um disco? Qual a importância do registro físico, afinal? Eu não me surpreenderia que novamente o CD não saísse. É uma questão de sentimento; e se sentir bem para lançar uma obra envolve plenitude. Não creio que um disco seja capaz de traduzir a linha de pensamento seguida por uma vida. É um recorte momentâneo que estará registrado para sempre. Se o Marechal achar que ainda existe algo a ser trabalhado, ele irá refugar novamente e é assim que será.

Por outro lado, existe a pressão externa e o reconhecimento de tudo aquilo que o trouxe até aqui. Seria bonito ter um disco. Digo mais, seria justo. Nem vou falar que a geração de novos ouvintes meio que exige trampo na rua. O consumo proporciona ídolos e essa coisa imagética é capaz de transformar tudo em tendência. Um exemplo é o próprio público de rap, pouquíssimos reconhecem a literatura como hábito salutar sem ter alguém famoso falando sobre ou vão pesquisar sem ouvir referências nas letras dos MC’s. Usar da própria imagem para propagar a mensagem é uma espécie de mal necessário, por mais terrível que isso soe para mim. Em 2017 é complicado ser Madlib, MF Doom ou Mahal. Marechal sabe muito bem disso.

Tudo é cíclico. Para propagar uma mensagem, é necessário reconhecer que as pessoas querem mudança. As pessoas para reivindicarem mudança, precisam de algo que as desperte. E assim segue o Ouroboros do hip hop. Ataques cada vez mais pesados são lançados contra a cultura, mas ainda resistimos. Marechal soube captar a mudança e se permitiu mudar, com fluidez. No fim, tudo é literatura e terá cura, tudo flui, apesar da literatura ter me pregado uma peça com esse texto, que acabou sendo muito mais jornalístico que literário. Culpa do Marechal, que não lança esse álbum logo.

Review lírico: Djonga – Heresia

Por Caio Lima

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A concepção de um projeto é um mundo à parte. Tentar compreender o disco dentro do que está registrado pelo MC e do que eu sinto, é mergulhar nesse mundo e permitir que as ideias e pensamentos fluam livremente. Por isso não acredito em resenhas que saem após uma semana do lançamento do disco, principalmente se é de um MC que tem consistência e relevância líricas.

Se me dissessem que após dois meses de lançado o álbum Heresia sumiria tão rápido das discussões de internet, eu não acreditaria. Não é um sumiço do tipo “ninguém fala mais sobre”. As pessoas falam, mas o que mais se vê é: “é bom, mas está abaixo do que eu esperava” ou “ele manda bem, mas é muito repetitivo nas referências e punchlines, sempre com o mesmo flow e isso cansa” ou “não entendi o porquê do Djonga ter feito um álbum tão rápido e lançado assim, seria melhor se tivesse lançado um Castelos & Ruínas (BK’) mesmo demorando mais tempo”.

Quando pensamos sobre arte, não me parece ser agradável tornar-se senso comum. Principalmente quando você lança um álbum. Mais ainda quando você lança seu primeiro álbum e enxerga o hype mudar de direção de forma bastante brusca. O Djonga continua sendo o Djonga, porém, o hype criado em torno da imagem do Djonga vem acompanhado de expectativas dentro de um universo fechado, de um padrão. E, se o MC decide sair desse universo, o peso desse senso comum ainda fala mais alto entre o público. Mais alto do que a própria arte. O que me fez refletir sobre o que representa Heresia.

Djonga aproveitou o status de revelação que conquistou e, ciente do impacto que causou na cena, acelerou o processo para fazer seu disco solo antes mesmo de qualquer trabalho fechado com seu grupo de origem, o DV Tribo (leiam com a voz da Clara Lima). É uma jogada de risco. Mas big playaz assumem riscos, certo? Não é um disco perfeito. Não vejo que esse disco tenha nascido para ser perfeito. Ele mais me parece uma transição de ciclos de uma mente que ainda não assimilou exatamente tudo o que é capaz de fazer.

Eu notei a repetição de algumas técnicas de escrita ao longo do disco e, sinceramente, não me incomodou. Também não acho que o tom do disco foi tão monocórdio quanto falam. Heresia está muito longe de ser algo reto. Djonga tem boas alterações de flow, na maior parte do tempo bastante sutis, priorizando a construção da ideia. É uma questão de escolha, pura e simplesmente. Se lançado em 2015, ninguém usaria o excesso de punchlines para justificar qualquer desagrado com a obra. Me preocupa esse zelo pela parte técnica de quem nunca escreveu uma linha ou pior, de quem não tem propriedade sobre o que escreve.

Temos um disco de papo reto aqui. Não tem um bate-cabeça igual “Vida lixo” ou qualquer coisa mais dançante. Nem o que seria uma lovesong é uma lovesong de verdade. São faixas conflituosas, confusas, com “excesso de informação”, profundas e muito bem escritas. Sim, isso é possível. Talvez não seja explicável, mas é possível.

O que é memorável nesse disco, também é o que não o dá o status de perfeito, tornando a análise ainda mais desafiadora. Durante todo o processo de escrita Djonga quer se mostrar preparado para encarar um novo ciclo de sua vida; como pai, referência dessa nova geração de MC’s ou exercendo algum tipo de ativismo, por exemplo. Isso fica muito claro nas letras mais lineares, ou não tão conflituosas, que o disco possui: Corre das notas, Santa ceia e O mundo é nosso. Aqui ele dá passos à frente e assume com autoridade sua postura em cada aspecto que aborda.

Porém, ele não consegue fechar o ciclo em que suas ações se concentravam antes de aparecer como Djonga, o MC, de fato. Djonga não é um alterego do Gustavo, não podemos dividir as coisas assim (o que tornaria tudo mais simples). Existe um processo de transição conturbado aqui. Talvez uma transição que, mesmo após o disco lançado, não tenha sido concluída completamente.

Fora as três músicas supracitadas e o interlúdio do FBC, que é genial (!!!), todas as outras faixas giram em torno desse entreciclos que Djonga, ao que me parece, vivia enquanto compunha e produzia seu disco. São músicas com altos e baixos, que vão revezando a forma de tratar a passagem do tempo e tem cortes muito bruscos. O refrão de Geminiano ilustra bem o que é essa transição do Djonga: “Na real, se era pra ser/Ou não/Não quero ela por perto/Só que não quero ela longe, não/Na real, se era pra ser/Sei não/Não quero ela por perto/Difícil é querer ela longe, irmão”.

Não é o efeito do duplo que mora nessas linhas. São manifestações confusas de alguém que sabe que precisa mudar, porém não sabe a medida da mudança que precisa fazer, sacam? Um exemplo claro disso é continuar a analisar como Djonga trata seus relacionamentos com mulheres durante o disco. Algumas faixas agressivas, outras onde ele é mais condescendente. O equilíbrio entre essas tratativas, a maneira certa de abordar sem perder sua identidade; é profunda demais essa parada. E confusa. São manifestações que se ramificam sobre qualquer aspecto que ele abordou no Heresia, do racismo até o rap game.

A segurança de reconhecer ser dono de um potencial enorme, mas não saber até onde esse potencial pode ser destravado e, mais importante, onde esse potencial pode leva-lo. Isso não causa em vocês a sensação de precisar decidir? A necessidade de se posicionar de forma enfática? É dentro de conflitos assim que nascem as outras faixas do disco; como Esquimó, a melhor do disco e uma das melhores músicas do ano de longe.

Quanto às referências, punchlines e o estilo desbocado de rimar, esse é o estilo do cara. Não vou ficar analisando a capa do disco ou as vezes que ele cita Racionais. O Genius está aí exatamente para satisfazer essa ânsia de vocês. Só acrescento uma coisa: todo esse emaranhado de referências cai sobre a própria personalidade do Djonga. Se não fosse por isso, nenhuma delas faria sentido.

Entre a confusão e a conclusão, Heresia é grandioso. Retrata uma fase muito singular do artista e, principalmente, da pessoa. Revelar o emaranhado dos seus pensamentos é um ato de coragem numa cena que cresce cheia de pessoas que não se colocam em xeque. E como o próprio Djonga diz: “Aquele cheque precisa ser assinado/Quem tá com a moral em xeque, precisa ser perdoado”. Não há mal nenhum em ser quem é, mesmo que você não saiba que caminhos tomar. Grandes jogadas são feitas por grandes jogadores. Passem a 10 para ele.

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Ainda bem que não definem – Um tratado sobre lírica

Por Caio Lima

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Lírica é uma palavra que vive de extremos dentro do rap. Alguns defendem que todo e qualquer MC deve ser lírico, extremamente poético; outros articulam argumentos defendendo a parte melódica, dizendo que lírica não é o principal numa música, que o certo é ter um compromisso muito mais voltado para o ritmo que para a poesia. O Rede de Intrigas é, essencialmente, um blog sobre literatura e, se vamos tratar sobre rap, é porque ele possui algum valor poético relevante. Portanto, tudo que for discutido aqui será baseado em desdobramentos líricos. Mas, afinal, o que é lírica?

O que conhecemos por lírica começou (adivinhem) na Grécia Antiga. Eram poesias feitas num formato diferente, mais ritmado, podendo ser acompanhadas por flauta ou… lira! Daí o termo “lírica”. A capacidade de comprimir amplos sentidos dentro de versos mais curtos e cantados, despertou o público para uma nova maneira de sentir e consumir poesia. Essa poesia lírica parecia tratar de manifestações mais profundas da condição humana que o habitual, então, naturalmente, novos temas começaram a ter mais espaço dentro do círculo poético grego. Daí à promoção da lírica a um status de algo mais elevado e profundo do que a poesia épica e a poesia dramática, foi um pulo.

Avançando no tempo, os europeus evoluíram o sentido de lirismo. O lirismo torna-se algo sentimental em forma e sentido. Ou seja, quão mais fundo o poeta mergulhasse nos seus próprios sentimentos ao escrever, mais lírico ele seria. E, estando neste extremo sentimental, é claro que a lírica seria utilizada de forma apelativa como recurso para angariar um público que nunca viu seus sentimentos representados. Existe Shakespeare de um lado; e existe algumas críticas a peças/óperas que parecem as críticas que fazemos às novelas daqui em contrapartida. O próprio Shakespeare (se é que ele existiu) foi alvo de críticas parecidas.

Acontece que a lírica não depende só do sentimento para existir. Tudo acontece à base da troca entre o eu-lírico do poeta e o receptor da mensagem. Quando há entendimento e, mais importante, a sensação de que a mensagem do poeta afeta diretamente a condição sentimental/existencial do receptor, existe lírica. A acepção da lírica só pode acontecer quando todas as partes se envolvem emocionalmente com a poesia. Um exemplo claro disso é a quantidade de autores de prosa que estão tentando cativar o público através da prosa-poética. O efeito do sentimento cria alguns laços que são benéficos até para o mercado editorial (fidelização do público, blindar o livro de críticas, etc.), mas o foco desse texto é outro.

A história do movimento hip hop nasce com profundas bases sociais, buscando autoafirmação e engajamento dos guetos. Não existia poetas de ofício, a realidade de quem fazia o movimento acontecer através do rap, no caso, não permitia esse tipo de sonho. Tudo era experimental. Se o MC não conseguisse cativar o público com versos curtos, rápidos, acompanhando o ritmo do DJ e, por fim, cheios de sentimento (mesmo que todo esse sentimento esteja contido num bragadoccious), ele perderia a batalha, a moral, o território e aquilo que você assistiu em “The get down”. Pode soar contraditório dentro do meio poético, mas a competição das batalhas estimulava os MC’s a desenvolverem qualidade lírica.

Autoafirmação é uma palavra mágica para entendermos o que é o rap, e esta existe inserida em contextos sociais e econômicos bastante fortes. Mas da forma como ela é perseguida só o MC compreende, são alicerces muito subjetivos e pessoais. Isso sustenta o rap até hoje. Mesmo que o MC fale apenas sobre a situação política e econômica do país, isso é dado sob uma perspectiva muito pessoal. Existe um aspecto de liderança muito forte dentro da própria poesia que o rap se propõe a fazer, independentemente da questão temática. Essa percepção pessoal do MC sempre foi mais relevante que os próprios dados estatísticos que o mundo ama analisar para tirar suas conclusões.

Entendem como o rap é uma nova maneira de reviver a força da poesia? Não é apenas música. Canta-se muito pouco e fala-se muito dentro de um rap. É sempre alvo de expectativa o que o MC tem para falar, quais sentimentos, ideias e ideais ele quer manifestar/celebrar no momento. Ao mesmo tempo que a voz é música, a voz também emite ideias que são capazes de se conectar com o ouvinte. Retornamos para a base da poesia lírica grega, sacam? Existe uma construção preocupada em fazer com que o ouvinte interaja e sinta com o discurso, mas no lugar das liras temos MPC’s. Ser um MC, portanto, não é apenas fazer música.

Com tudo isso dito, o conceito de lírica ainda é amplo demais tanto na poesia quanto no rap. Mas é assim que deve ser. Eu posso achar que Big Daddy Kane escrevia de forma muito simples se comparado ao que Quavo (Migos) escreve hoje, mas como não levar em conta que essa simplicidade foi um dos alicerces do rap e, mais importante, foi capaz de se comunicar com toda uma geração de forma sólida? Estamos tratando da construção de uma cultura aqui, afinal.

Já que não há maneira de falar o que é lírico ou não, além de toda questão sentimental que o termo “lírica” envolve, o texto acaba por aqui. Não, brincadeira. Continuem lendo.

Todo mundo, sem exceção, já disse alguma vez “essa é minha música”, muito embora essa música nunca tenha sido escrita diretamente para você. Qual a primeira coisa que você faz para explicar que a música é sua? Vai olhar a letra, óbvio. Lendo a letra você faz todas as conexões e confirma que aquela música foi feita para você! Impossível que não tenha sido! Como assim?!?!?!?!

Existe uma iluminação que determinou algo muito importante dentro de toda a abrangência do assunto em questão: a construção lírica. Nós podemos pegar a poesia do cara, quebra-la em todos os pedaços possíveis e tentar encontrar um sentido nisso tudo. Não necessariamente um sentido absoluto. Mas algo que faça sentido para cada um, em particular.

Em movimentos poéticos marginais isso é uma tarefa árdua. Por estar inserido numa rota contracultural, muitos aspectos da poesia são subversivos e internos, e acaso não olhemos com a devida atenção, vários pontos podem vir a escapar à nossa percepção e comprometer o sentido que damos ao registro. Ou seja, a lírica, dependendo de como a poesia é manipulada, produz uma espécie de efeito sanfona que varia de registro para registro; ora ela se conecta automaticamente, ora ela vai se revelando aos poucos. Um terrível jogo de gato e rato.

A própria cultura hip hop contribui para que isso aconteça. As batalhas exigiam que cada MC criasse artifícios poéticos que o identificassem dentre todos os outros. Se não havia conhecimento teórico suficiente para que a poesia fosse elaborada demais, a competição fez com que novas formas de fazer poesia fossem exploradas. Mas não é parecido com o que Allen Ginsberg fez com o Uivo, por exemplo. A poesia surgia de forma crua e, a partir da necessidade de conjugar mais ideias, foram absorvidos elementos a fim de encorpar a mistura, torna-la diferente, única.

A evolução do discurso é tanta que, mesmo sendo uma cultura muito recente e sofrendo os preconceitos naturais de uma atividade marginal, virou cadeira nas maiores universidades americanas e produziu discos que entraram para acervos de grandes bibliotecas, usados como referência em diversos aspectos, inclusive no estudo da famigerada linguística.

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Por falar em discos que foram para a academia, Nas escreveu a bíblia do hip hop, “Illmatic”, porém não é o MC mais técnico que existe. O ponto é: Nas soube utilizar tudo o que sabia para criar uma conexão tão forte entre seu registro e o receptor da mensagem, que ele conseguiu condensar tudo o que entendemos por hip hop num disco de uma intro e nove faixas (esse é o real sentido de “fazer tanto com tão pouco”). Uma mensagem profunda, colocada com os recursos que ele quis dispor e tudo isso feito com o intuito de fazer as pessoas sentirem. Sentirem o quê? A Nova York vista por Nas, o hip hop, a violência das ruas ou o que quer que seja, não importa. Aí mora a graça da lírica, nesse diálogo. Essa talvez seja a única definição (por mais vaga que seja) de lírica dentro do rap. Unimos à poesia a forma como ela é pronunciada, o clima do beat e tudo isso te abraça. Você só sente a brisa bater e fala: “mano, isso é rap!”

Por isso, mais importante que os recursos técnicos ou linguísticos do MC, é você estar conectado à música como ouvinte. A conexão é o que nos faz definir o que é um som descartável, qual MC é lírico ou dizer que “é um som cheio de referências, legal, porém são referências vazias”. A conexão é o que sobra quando todo o hype passa. Apenas sentar e ouvir um bom rap, sabem como é?

Como toda arte, o rap é responsável por fazer que você sinta. Sentir a mensagem vem antes de tudo. É por isso que Mano Brown nunca sairá de moda, mesmo quando lá no começo ele fazia uns esquemas de rima bem quadrados se comparados as multissilábicas de hoje em dia. Talvez seja exatamente por isso que as pessoas amam Eminem, mesmo com versos aparentemente reprováveis ele oferece um mergulho profundo dentro do que faz (e não é um universo fácil de compreender) e o ouvinte sente essa necessidade de buscar.

Ainda bem que não é possível definir lírica. Imagina alguém vir com um relatório para me dizer o porquê de Kendrick Lamar ser mais lírico que Andre 3000 ou Q-Tip quando eu não acho que seja? Qual base ela teria para definir o que eu devo sentir quando ouço determinado MC? Bizarro, não? E é exatamente essa não definição que seleciona naturalmente o que permanece relevante e o que some com o tempo. É por isso que Run DMC vai continuar fazendo gerações e gerações comprarem Adidas.

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Galera, logo aqui do lado tem um atalho direto para o nosso sebo no Facebook. Para que o Rede de Intrigas produza mais conteúdo, precisamos girar esses livros. Tem muita coisa boa e num preço bom. Ajudem a gente! 🙂

Roberto Bolaño – 2666

Por Caio Lima

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Eu estava observando pela vida afora, e não encontrei muitas resenhas sobre o romance psicodélico de Roberto Bolaño, “2666”. E, curiosamente, a que eu mais gostei foi a mais curtinha e chegou por e-mail, me convencendo a ler Bolaño de uma vez por todas. Eu acho que enxergo uma espécie de urgência e verdade por detrás das palavras, que sobrepujam os aspectos técnicos dos livros. Isso me inspira. Não interessa o que a pessoa quis dizer, a partir daqui é comigo e o que eu faço com as palavras dela. Da mesma forma, não interessa, absolutamente, o que Bolaño quis escrever, mas é perfeitamente plausível que eu me inspire ao falar de “2666” e crie teorias absurdas sobre o livro. Para quem já leu, no segundo livro Amalfitano pendura um livro de geometria no varal, lembram? A partir dessa cena, eu comecei a traçar paralelos que me ajudarão a explicar o que eu consegui compreender de “2666” tanto em sentido quanto em estrutura. Vamos? Vamos.

Toda relação interpessoal pode ser considerada uma reta. Existe uma pessoa A que direciona a sua atenção para uma pessoa B. Porém, todo esse direcionamento para a outra pessoa existe por conta de uma atividade fim, um objetivo comum. A atividade fim do ser humano é a sua essência, sua razão de ser, existir, socializar e tudo mais. No caso de “2666”, Bolaño assume a violência como atividade fim do ser humano. Nossas relações sempre buscam formas de manifestar o que há de mais violento entre nós. Vejam bem, “entre nós” e não “em nós”. A violência, como razão, produto e derrocada do ser humano, é obtida através da troca.

Voltando às formas geométricas, temos as pessoas A e B, mais a violência como vértices, portanto as relações interpessoais se dão em triângulos. Triângulos são as formas geométricas planas mais simples que temos. Toda figura geométrica plana produz uma área na sua superfície, e essa área é preenchida com o que idealizamos ou sentimos nesse triângulo de relações. Seria mais ou menos o seguinte: se eu, pessoa A, amo pessoa B, toda troca entre nós teria, como fim, a violência, e o amor que sentimos um pelo outro funcionaria como força motriz e justificativa para a violência cometida. O amor foi só um exemplo, mas não interessa o sentimento ou desejo que habite essa área criada pelo triângulo, por mais bonito que seja.

Outro aspecto da obra que a teoria dos triângulos pode ajudar é na sensação de solidão e vazio constantes ao longo dos cinco livros. Podemos considerar a violência como inviolável. Essas quebras de relação acontecem, então, quando chegamos ao estado fim do homem e finalmente rompemos certo paradigma, ou quando há uma separação abrupta das pessoas que se relacionam. O triângulo, uma vez formado, jamais será desfeito, mas quando não se consegue atingir a esse objetivo fim das relações humanas, os sentidos de incompreensão e vazio se aguçam. É como se tudo perdesse o sentido, tudo ficasse incompleto.

A relação com a morte como forma de rompimento dessa busca pela origem do ser, me fez lembrar de uma frase de Malcolm X: “Se você não está pronto para morrer por ela, risque a palavra ‘liberdade’ do seu vocabulário. ”

O cultivo da violência é uma das coisas mais abominadas pelo mundo ocidental, porém é o meio pelo qual o mundo ocidental foi criado. A não expressão da nossa natureza violenta é o meio mais eficaz de controle social possível. Foi assim que os países europeus mudaram o mapa do mundo e colonizaram toda a América e a África, por exemplo. Agiram com violência, implantaram a filosofia ocidental de vida e, de repente, a violência não seria mais tolerada.

Logo no primeiro livro, Bolaño retrata a busca até os confins do México, em Santa Teresa, de quatro pós-doutores em literatura alemã – um espanhol, um italiano, uma britânica e outro francês – pelo autor (alemão, claro) que é objeto de estudo e da admiração deles, o famoso Archimboldi. Essa busca pelo autor alemão não permite que eles percebam o que se passa na cidade, com os eventos constantes de mulheres abusadas e mortas de forma muito violenta.

Num paralelo, a busca por sonhos impossíveis toma o lugar da realidade. Mulheres morrem misteriosamente a todo momento, mas a busca por Archimboldi tira, inclusive do leitor, a sensação de gravidade sobre os acontecimentos em Santa Teresa. As expressões violentas ficam em segundo plano, sempre. E quando os pós-doutores praticam a violência de forma vazia, ela vem contextualizada, como se fosse uma expressão não natural movida por forças que tomaram o lugar da razão. Pós-doutores europeus seriam incapazes de tal ferocidade.

Já no segundo livro, com Amalfitano, essa violência é ofuscada, mais uma vez, por um paternalismo enorme e alguns transtornos gigantescos do mesmo. Pode não parecer, mas todos os extremos, das suas confusões com a esposa até a cisma com o livro de geometria (e o que pode ser tratado como loucura), são traços que validam, ao meu ver, a teoria dos triângulos e o rompimento das relações de forma abrupta. Revelam o vazio da morte e em como é dialética a questão entre a plenitude do ser e o conforto dos limites.

O jogo entre colonizado e colonizador não existe pela relação direta de servidão. O homem, quando muito pressionado em suas relações, tende a alcançar a violência como meio de libertação. O que fazer, então? Permitir que essas pessoas em estado servil encontrem na sua realidade alguma forma de poder, de ser autoridade. De repente, os servos são o principal método de controlar outros servos. Acaso exista violência, ela seria deliberadamente direcionada para o espelho. É o jogo do “mata ou morre”. Ou melhor, pessoas que tem algum privilégio mínimo se aproveitam das lacunas que o sistema propositalmente possibilita para violentar pessoas socialmente menos privilegiadas. A morte de mulheres em Santa Teresa começa a ganhar espaço.

Espaço esse que lança a Santa Teresa um jornalista negro para cobrir a luta de boxe do século e que acaba se perturbando e, por que não, se identificando pela questão das mulheres mortas. Além de deflagrar toda a questão da imprensa americana, suja como ela sempre foi, essa parte coloca muito em xeque a posição e importância que damos ao que chamamos de potências mundiais. Os problemas relatados por Bolaño são parte de países colonizados, não de países pobres. Os EUA entram nessa questão de país colonizado e que vive sob constante tensão por viver de forma muito latente os efeitos de um processo forçoso e muito mal resolvido de colonização. X morreu há 50 anos apenas, emboscado por negros num país onde negros eram mortos por brancos apenas por serem negros. Mais um caso de violência contra o espelho. Quer mais terceiro mundo que isso?

Na entrevista que faz com o líder do Panteras Negras fica evidente que a desnaturalização da violência se impôs até dentro da célula mais belicosa no movimento de luta pelos direitos dos negros americanos. E é importante como Bolaño trabalha isso com humor. O pensamento do colonizador é tão, mas tão costurado ao ideal da perfeição da vida, que gera caos e seletividade. São poucos os colonizados qualificados para usufruírem dos poderes de um colonizador. É engraçado, é irônico, é peculiar, é excêntrico e é caótico. E, particularmente, o caos é uma maravilha.

Refletir sobre o caos e seus múltiplos conceitos é refletir sobre as origens da cultura em si. E reparem em como as relações entre diferentes culturas são completamente desiguais. Essas culturas europeias, colonizadoras, ditam o ritmo do que acontece no mundo e são puras, quase impenetráveis. A não permeabilidade cultural gera, de forma sistêmica, falta de entendimento, de empatia. A reprodução de uma cultura considerada como correta, gera opressão. Hoje há a admissão de diferentes culturas no espaço, mas não no pensamento. A predominância cultural é o ponto base do autoritarismo, que leva, num ponto extremo, ao nazismo, um dos pontos chave de toda a obra de Bolaño.

A violência como fim, como razão de ser do homem, só é capaz de existir quando há troca. É um fim alavancado pelas interações pessoais e por forças e desejos que não somos capazes de compreender à luz da ciência. Sabem a teoria do super-homem, de Nietzsche? É um fim violento, agressivo. Ele se desgarra de todo conceito cultural do homem ocidental e ressurge para uma nova era. A violência com que Malcolm X tratava o desejo pela liberdade é um fim, uma quebra de paradigma, um rompimento do que foi estabelecido não importando o seu custo.

Sem estabelecer trocas, o nazismo almeja a purificação cultural. É um conceito muito maior do que a simples superioridade de raça. Não existe nada sobre violência como fim, trata-se da morte como meio. E a morte atua como ponto de ruptura das relações, gerando vazios. Impor-se como única cultura e postura aceitáveis, inibe a troca. A postura autoritária gera esse tipo de vazio sem matar, por exemplo. Inibir a troca é tornar uma cultura incapaz de evolução. É um processo lento, que demora séculos, mas nada que é hermético sobrevive, por mais que demore a ruir. A cultura, quando viva, não é pura.

O que nos leva ao livro quatro, que nada mais é que uma sucessão de registros sobre mulheres assassinadas. Ao dissecar cada caso, ao contar cada história até onde se sabe, as ideias sobre a mentalidade do colonizador e da natureza da violência são escancaradas. Poucas vezes eu senti um vazio tão grande lendo alguma coisa. Os relatos são crus e apenas se sucedem, um atrás do outro, sem pausa e sem um fim, um objetivo. Mas é exatamente isso! Mulheres morrendo apenas por serem mulheres! Isso não é vazio de sentido? Homens abusando do seu privilégio social para assassinar mulheres é tão sem sentido, que é real. É desesperador.

Durante toda a narrativa existem críticas ferrenhas ao Estado, ao empresariado, à desigualdade social, aos moldes em que os movimentos sociais se conservam, ao show de horrores que é a imprensa, aos órgãos de segurança públicos, à natureza do homem, aos regimes ditatoriais, à academia, a autores, filósofos e obras consagrados e, por fim, ao próprio mercado editorial. Mas essa discussão sobre violência, morte e vazio, rouba a cena. E isso recai sobre a própria literatura.

Eis que chegamos ao quinto e derradeiro livro, que trata a vida de Archimboldi. Mas, não sei para quem já leu, aqui temos algo muito mais forte que um registro biográfico. É por isso que afirmo: depois de Bolaño, ninguém mais deveria escrever sobre a vida de escritores/poetas.

A literatura gera o contato com a violência antes mesmo de haver qualquer interação interpessoal. Diferente de uma relação comum, o escritor encontra sua “razão de ser” para, aí sim, interagir com as pessoas. O espaço vazio é a voga. A literatura é capaz de levar uma pessoa ao seu extremo e, enquanto o que está escrito não atinge outras pessoas que se identifiquem com aquilo, esse vazio só se agrava. São raros os escritores que querem ser ou se sentem compreendidos, estabelecendo essa relação de troca ainda em vida. É uma troca estabelecida entre o escritor e seu ápice: seu registro será eternamente lembrado como recompensa pelo salto para além do mundano, por ter transcendido à vida, porém, o tempo presente, onde o vazio existe e aumenta progressivamente, nunca será preenchido. Isso é cruel.

Eu tive que reler “2666” para compreender melhor essa relação entre literatura, violência e a busca por “preencher vazios” que ficou dando voltas na minha cabeça. Acontece que, se você ler com atenção, não precisa ler mais que 30 páginas de cada livro para perceber todas essas relações que eu fiz aqui. É tudo jogado na cara.

É, talvez, por isso que Bolaño, em muitos momentos, consome páginas e páginas tecendo críticas ao sistema, elaborando minicontos dentro dos livros e falando sobre vinte mil coisas aleatórias que, aparentemente, não fazem sentido. Mas qual a graça de uma obra tão fechada em si mesmo, tão perfeita? Por que não o leitor sentir na pele a violência de um fluxo de pensamento (ou vários deles)? Por que não o leitor não dar valor à beleza da construção narrativa de um Octávio Paz, fazendo com que soem bonitas partes tão violentas quanto as escritas por Gógol em “Tarás Bulba”? Você, como leitor, pode falar que “2666” poderia ter menos 500 páginas. Mas não tem!

Ah, a adorável perfeição dos pensamentos objetivos demais, que estão enquadrados dentro de uma classificação correta, criada por algum órgão especializado e gabaritado, e provocam certo efeito que deixa a todos a sensação de êxtase pelo mesmo motivo, na mesma parte, do mesmo jeito.

O tino que temos ao definir tecnicamente uma obra, não é o mesmo que temos ao ler e percebe-la como um todo. A necessidade de ler não sobrepuja a necessidade de escrever. A leitura é o fim de uma comunicação em que se espera que se preencha um vazio. Antes de ser analisada, uma obra precisa ser entendida. E entender uma obra que (obviamente) foi escrita por alguém é uma das coisas mais humanas que existe. Vai além de estudos acadêmicos, literários e mercadológicos. Estamos falando de empatia, de se justapor a alguém e, finalmente, de fecharmos um ciclo de interação.

Eu não reli Bolaño para resenhar Bolaño, eu reli porque precisava. Toda essa estrutura recai sobre o que eu realizei com o Rede de Intrigas até aqui. Foi um choque perceber as coisas que eu percebi. E foi um choque necessário. Uma das dádivas que a interação com mortos, através da literatura, produz é a sensação de conforto ao olhar para minha estante e ver como um livro me fez enxergar e aspirar coisas melhores. Ele está aqui do meu lado agora e eu estou extremamente feliz por esse texto, sabe-se lá o porquê.

Federigo Tozzi – Memórias de um empregado

Por Caio Lima

Emprego vem do latim “implicare”, que significa “unir, juntar, enlaçar”. Empregar uma pessoa é envolve-la num interesse comum. O empregado, desta forma, seria uma das engrenagens que move determinado interesse. Engrenagens são elementos de transmissão de potência. Pois bem, se uma engrenagem quebra, a máquina para. Não tem como continuar de forma capenga, do jeito que dá. A máquina para e é só, até ser consertada. Terrível. Nos coloquemos como empregados agora, vocês enxergam alguma semelhança da sua realidade com o sentido etimológico da palavra? E a palavra emprego, remete o envolvimento de pessoas num interesse comum? A viagem etimológica pode nos levar a lugares muito mais interessantes do que pensamos; e isso está refletido no romance “Memórias de um empregado”, do italiano Federigo Tozzi.

Desde a Grécia Antiga, o homem ocidental atualiza as definições da palavra “emprego”. Apesar do nosso ponto chave ser a Revolução Industrial, podemos fazer reflexões acerca da relação entre o homem, o emprego, os meios de transporte e a necessidade de cobrir grandes distâncias, bem antes disso. Por exemplo, como o deslocamento era algo tão individual? Uma carruagem já apresenta uma ordenação hierárquica entre patrão e empregado. Mesmo parecendo algo lúdico, são relações diretas.

Num mundo de relações diretas, mesmo onde uma parte sobrepuja a outra, as noções de distância são muito menores. Não sei se vocês percebem, mas somos muito mais efetivos quando sabemos o que estamos fazendo e para quem estamos fazendo. Essa troca direta, mesmo que desigual, dá sentido à relação que fizemos de emprego e o ideal de um objetivo ou interesse comum. Apesar de haver uma distância física, há a redução da distância emocional da coisa. O sentimento de satisfação, a própria conexão interpessoal estabelecida e a oportunidade de ser uma engrenagem na máquina, detém esse poder de redução de distâncias. Essa é uma forma genérica de explicar como os grandes impérios foram formados à base de cavalos e canelas, por exemplo.

O mundo moderno reduziu as distâncias físicas a nada, é um fato. Em compensação, a distância emocional torna-se cada vez maior. Consegue-se levar 100 pessoas num vagão de trem para o trabalho, mas nenhuma delas sabe o porquê de trabalhar tanto assim. Por isso que algumas viagens, curtas e rotineiras, tornam-se verdadeiros calvários. “Memórias de um empregado” é um romance sobre emprego e distância. Não que tudo se deva a ele ter ido trabalhar longe de Florença, as distâncias já existiam antes de ele partir.

Toda distância só é grande porque leva tempo percorre-la. Se ir daqui para o Japão levasse apenas uma hora, ninguém diria que o Japão é do outro lado do mundo, por exemplo. Da mesma forma, quão menor o tempo para você chegar no seu emprego, dentro das definições modernas, mais você terá disposição e tempo para trabalhar. O emprego, que se transmuta numa função sem fim senão a sobrevivência do empregado (não se acreditando fazer parte de um todo), acaba por ser a grande fuga do enquadro constante das distâncias emocionais, que são aumentadas progressivamente.

Produzir pode não ser fabril. Na verdade, não é em grande parte. A produção provém da realização, da satisfação. Mas pensem comigo: se produzir é meu único jeito de sustentar minha família, o quão satisfeito eu devo estar? A resposta é óbvia, minha satisfação reside em sobreviver e que os meus também saibam sobreviver tanto quanto eu. Você cria pessoas para que sobrevivam e se sintam satisfeitas à sua maneira. Essa é a estrutura de uma família no século XX. Naturalmente, essa é a estrutura familiar de Tozzi.

Para um adolescente, isso já é conviver com distâncias emocionais gigantes num período da vida em que não se acredita que viver seja só isso. É por isso que Tozzi esconde seu noivado. Isso mesmo, ele esconde a parte da vida em que se sente realizado da família. Como, eu não sei, mas esconde. Isso acentua a distância emocional que existe dentro de um lar, dentro de uma unidade familiar.

A partir do momento que se torna necessário esconder uma coisa tão importante quanto o amor, sabemos que as coisas não vão nada bem. Isso é mais uma consequência da redução das distâncias físicas em detrimento da redução das distâncias emocionais. O emprego, quando é declarado como objetivo fim na vida de uma pessoa, é porque ele já tomou conta de lugares que seriam inacessíveis a ele. Isso amplifica o sentido de sobrevivência mencionado acima, porque há o desejo de manutenção do emprego a qualquer custo. Sem aquela atividade fim, você não sobrevive e não se satisfaz. Toda a sua atenção é voltada para o emprego, bem como seu amor, sua raiva e o restante da sua humanidade.

A falta de aprofundamento em outras áreas da vida, ou o próprio desconhecimento sobre, fazem com que o pai de Tozzi defina a vida do filho, mandando-o para uma cidade do interior para trabalhar na estação de trem. Mesmo com noivado marcado, mesmo não querendo, Tozzi se vê obrigado a ir. A perpetuação do conceito de emprego como única forma de sobrevivência é mais forte que qualquer vontade que ele tenha. Nem mesmo seu noivado o faz refutar, fazer uma objeção ou algo do tipo. Ele vai.

Existe algo instintivo em nós, algo que revela, no nosso estado de espírito, que estamos em profundo desacordo com o mundo que escolhemos viver. Sim, o mundo que escolhemos viver. A vida é uma questão de perspectiva; de igual forma, a matéria também é. O crescente aumento dessas distâncias emocionais nos afasta de qualquer sensibilidade que possa existir. O emprego nos força a mecanizar as relações mais honestas que temos conosco e as únicas poucas coisas capazes de ainda despertarem isso em nós são as que deixamos guardadas em compartimentos especiais do nosso pensamento, em objetos especiais, em cartas cheias de promessas. Essa é a única coisa que ainda aproxima Tozzi, já empregado, do adolescente que sonha em se casar com a mulher que ama.

Pior do que em casa, sozinho e numa cidade pequena, Tozzi logo enxerga que a falta de tato, a disputa incessante pela manutenção do emprego e a manifestação de desagrado com a sua presença ali, são traços aos quais ele deveria se adaptar para sobreviver. E ele se adapta rápido. A distância que o afasta das boas coisas, agora o leva para um estado de espírito amargo. Isso o faz escrever mais. E é nesse ponto que Tozzi transcendeu e criou um grande romance de 100 páginas.

Lendo com atenção, percebemos que as entradas nos diários vão sofrendo mudanças de forma ao longo do livro e que existe uma tendência nisso. Quão mais distante emocionalmente Tozzi se encontra, mais longas são as entradas. A literatura, manifestada através do diário, poderia ser um ponto de encontro dos maus pensamentos. Poderia, até aparenta ser, mas não é. O diário, como todo bom diário, mostra-se um lugar para deixar a fluidez de pensamento acontecer, funciona como uma terapia, uma conversa consigo mesmo. Mas ele vai além e mostra que no mundo operário de Tozzi, no mundo de um trabalhador comum no início do século XX, há um contentamento, dispersão e alívio imediato, no exato momento em que se consegue elaborar imprecações contra tudo aquilo que o deteriora, mas não é suficientemente forte para resolver de uma vez por todas.

Sim, somos mais suscetíveis a elaborar e discorrer sobre os maus acontecimentos da vida do que de encara-los de vez. Quiçá falar muito sobre as boas coisas, estas guardamos conosco a sete chaves. Isso mostra o quão covarde somos; o quão satisfeitos com a miséria somos, a ponto de querer mantê-la mesmo passando por humilhações terríveis; o quão rápido substituímos as boas coisas da vida, as que realmente importam, por problemas diversos e fazemos de um grão de areia uma grande montanha; o quão somos desgarrados de quem nós dizemos amar, já que deixamos as preocupações levarem até o que é o amor; e, finalmente, o quão egoístas e teimosos somos capazes de ser, achando que o mundo gira em torno dos nossos problemas.

Fiquei realmente sentido de ver Tozzi carregando essas marcas já tão jovem, mas, mais que sentido, me identifiquei prontamente. Não é necessário fazer muita coisa, na verdade. É apenas uma questão de distanciamento. Se nos deslocamos para perto do que amamos, as perspectivas mudam. Isso já será notado nas folhas do diário em que estiver escrevendo. Seria possível regredir para um estado mais puro de consciência, no qual as trocas são mais afetivas, sem a loucura de hoje em dia? Talvez. Seria uma viagem longa. Bem que eu disse no começo que o sentido etimológico de “emprego” nos embarcaria nela.

Elvira Vigna – Nada a dizer

Por Caio Lima

Dá para admirar arte. Dá para analisar arte tecnicamente. Dá para interpretar arte. Dá para compreender a arte sob vários aspectos. Dá para elogiar a arte. Dá para sair por aí tirando onda com os outros porque você gosta de rock tcheco, usa um turbante marroquino, entende os quadros de Pollock e lê James Joyce todo dia antes de dormir enquanto toma vinho chileno com seu pastor belga malinois deitado aos seus pés. E isso não vale de absolutamente nada. Para quem conhece o Rede de Intrigas a mensagem é bem clara: ninguém precisa conhecer a fundo o assunto nem elaborar meio mundo de teorias malucas, só tem que rolar sentimento.

Em ‘Nada a dizer’, romance de Elvira Vigna lançado em 2013, a história gira em torno de um casal com seus 60 anos e o marido, Paulo, se mete num caso com uma mulher bem mais nova, N., amiga do casal há uns anos, também casada. Tudo é narrado pela ótica da esposa traída. Aparentemente é um enredo simples. Aparentemente. Elvira cava um poço e traz à tona uma série de questões. Resenhas que tratam da situação da mulher nos relacionamentos, outras falam sobre o retrato da classe média brasileira, algumas são mais gerais, outras vão além e fazem uma análise sob a ótica da psicanálise. Enfim, tem resenha para todos os gostos. Dá para perceber que Elvira é uma unanimidade no cenário contemporâneo (e tem que ser, com essa caneta pesada, nada mais justo).

Eu havia escrito uma resenha grande, bem grande (e boa), fazendo um link e observações sobre todos esses aspectos do livro, mas decidi reescrever para falar sobre uma coisa só. Por isso, perdoem se isso aqui está mal escrito, mas é assim que vai ser. Prometo melhorar.

Tendemos à dualidade. Falei um pouco disso na resenha que fiz sobre ‘A morte e a morte de Quincas Berro Dágua’. É até mais fácil, se pararmos para pensar. Construímos conceitos fechados sobre tudo e todos. Dois tons apenas, sem variações, sem surpresas. Fácil, muito fácil. Tão fácil que fazemos questão de esquecer da nossa própria complexidade. Caímos numa zona de conforto movida pela aparência de que tudo está visivelmente bem. Seguimos por meses, anos, décadas. Eu parei nos anos, ainda bem. Porque quando o invisível salta aos olhos, o desbaratino é louco. Dormimos num castelo e acordamos nas ruínas. Reconstruímos o castelo e voltamos às ruínas. Como se a vida fosse marcada por reconstruções constantes, trabalhosas e nada prazerosas.

Hoje, eu não avalio essa reconstrução de si mesmo como um processo natural. Na verdade é estagnação. É sempre tentar voltar para onde já se esteve antes, num ciclo sem fim. Isso é tão antinatural quanto a coca-cola que a gente toma. E não adianta mudar a torre de lugar, fazer um salão menor ou aumentar os muros, o castelo é sempre o mesmo e se tornará ruína, mais cedo ou mais tarde. Só de parar para falar isso já é cansativo. Mas é necessário para que vocês entendam meu ponto.

A partir do momento em que a protagonista começa a desconfiar das traições de Paulo, um castelo construído por décadas é demolido. No começo é a negação, a revolta, a fúria, o desespero. Como se convive com alguém que te trai? É uma relação hegemônica. Perde-se a liberdade e a equidade. Mas começam os flashbacks, desde quando se conheceram e lutavam contra a ditadura nos anos 60, até se tornarem um casal típico da classe média brasileira. Ou melhor, até se tornarem tudo o que eles combatiam com todas as forças. A vida e suas contradições tragicômicas.

Reconstituir toda uma vida dedicada a outra pessoa, a qual você descobre uma traição tão tosca, num relacionamento de duas pessoas tão abertas, tão progressistas, mostra o caminho o qual eles trilharam para chegar a esse ponto. Mas existe um ponto além, que fica subentendido como condescendência ao término do livro, num primeiro momento, mas que me veio à luz agora, e por isso resolvi mudar tudo.

A esposa traída se confronta o tempo inteiro com o ato da traição e tudo que ela construiu com Paulo, esse bosta. Uma vida dedicada, curtida, arrastada por um relacionamento que agora está à beira da falência. E nesses enfrentamentos que se desenrolam por meses, existe um quê do duplo citado lá em cima. Você termina com um relacionamento e larga o amor da sua vida por conta da traição, ou o perdoa e finge que nada aconteceu para manter as aparências e tudo bem, bola pra frente, segue o baile? Duas questões com implicações enormes. Ou você tenta se reconstruir aos 60 anos de idade, mais ou menos, ou você se anula completamente e passa a mão da cabeça do cara só para manter o castelo em pé.

Pode parecer condescendência, burrice ou inocência. Para mim, foi uma tentativa de evoluir, de fazer as coisas diferentes e de se equilibrar frente a esse desmoronamento. Não é a questão do perdão, de parecer superior a isso tudo. É uma questão que parte de uma tomada de rumo diferente. De se libertar de um relacionamento abusivo e usufruir de um relacionamento livre, realmente. É tratar as coisas para além do duplo que imaginamos que tudo seja constituído, com desprendimento de intenções. Sentidos novos, caminhos novos. Parece uma viagem bem taoista, mas no meio desse caos todo, me ficou essa impressão. Tudo está ali para ser absorvido, sentido e destrinchado. Tudo serve para nossa evolução. Tudo serve para que nos equilibremos. Principalmente quando tratamos de amor, já que o amor é liberdade. Às vezes só é necessário sentir, sem ter nada a dizer.