Charles Dickens – Tempos difíceis

Por Caio Lima

Depois de uma Flip completamente fora das tendências editoriais das grandes máquinas de cuspir livros brasileiras, dois autores em particular chamaram muito a minha atenção pela literatura que praticam, claro, mas não foi só por isso. Marlon James e Paul Beatty expuseram suas contradições sem vergonha de serem felizes. Mais preocupados em fazer algo literariamente relevante que abocanhar fatias de mercado específicas, ambos relataram aspectos importantes do que produzem. Inclusive, o ponto que dá início a esse texto é uma frase que circulou pelas redes sociais do próprio evento, quando Marlon James cita Dickens na seguinte frase: “Charles Dickens defendeu manifestações que mataram mais de 400 jamaicanos. Era um filho da mãe. Ao mesmo tempo, poucos escritores tiveram uma influência tão grande em como estruturo meus livros”.

downloadNum primeiro momento, a frase foi engraçada. Mas, passado o riso, veio uma onda de reflexão profunda e algumas pessoas ao redor foram embora da mesa. Como falar mal do, talvez, maior escritor inglês de todos os tempos? Quem esse jamaicano que escreveu um romancezinho pensa que é?

Tendo lido apenas “Tempos difíceis”, eu não tenho como saber se, dentro de sua vasta obra, Dickens foi racista. Também não me preocupei em pesquisar se há um dossiê que aponta racismo, misoginia, homofobia ou qualquer outro tipo de preconceito. Provavelmente existe. Dei um google e já apareceu uma infinidade de resultados sobre maus tratos domésticos, racismo e, pasmem, assombrações. O cara batia neurose com fantasmas. Enfim, o relatório parece ser grande. Lerei com calma. O problema todo é: a obra de Dickens, uma vez lida, não há como não passar em branco. E o discurso é tão próximo da nossa realidade atual, que se afeiçoar a Dickens é um passo natural para o leitor.

Pensem em “Tempos difíceis”. A cidade de Coketown, dominada por duas linhagens aristocráticas de origens distintas, se esfacela diante da necessidade de acúmulo de capital e a hipocrisia reinante na cidade. Um retrato das urbes inglesas do século XIX. Um universo micro que pontua características de um novo modelo de sociedade que reproduz práticas antigas, como a educação usada como doutrina de vertentes singulares de pensamento, a escravidão e as injustiças sociais com camadas não contempladas com direitos à cidadania, mas que carregam o fardo mais pesado dos deveres, sem margem para erro.

O martelo bate pesado para quem não pode argumentar, persuadir ou amaciar o ego do juiz. Num simples caso de roubo, o filho do dono dos meios de produção, viciado em jogo e com dívidas altas, preparou evidências para que um funcionário comum levasse a culpa. É incontestável a previsibilidade de culpa no caso. Mínimas evidências são capazes de dissuadir uma forte suspeita nesses casos de maioridade social. Imagine se ele estivesse com uma garrafa de Pinho Sol nas mãos, o escândalo que não fariam. Pena a marca não existir à época, o enredo de Dickens tomaria contornos muito mais dramáticos.

A exploração da miséria humana nas grandes cidades em meio a uma revolução que, a despeito dos meios de produção, acelerou o acúmulo de capital e atrasou o avanço humano, lança sobre o homem uma espécie de dívida inata. Os benefícios para a humanidade citados pelos livros de história citam não são acessíveis à grande parcela das pessoas até hoje. A necessidade de sobreviver não permite que sobre tempo para usufruir de qualquer inovação. A necessidade de ganhar dinheiro para sobreviver não permite que sobre alguma farpela no final do mês para adquirir, de alguma maneira, o direito de usufruir tudo aquilo que fez com que a humanidade evoluísse. Ser humano é cada vez mais complicado. E caro.

As contradições que Dickens impõe a sua produção literária extrapolam o livro em si. Numa época de revolução e ordenação social em castas muito bem fixas e quase intransponíveis, a preferência por ser publicado em fascículos por revistas acessíveis à população de baixa renda e, via de regra, baixa escolaridade, era uma tentativa de equalizar a distribuição de entretenimento, conhecimento e humanidade. Talvez Dickens tenha sido o único da era vitoriana a não erguer uma redoma em torno de si e seus dilemas pessoais, numa autocrítica blasé e sectária. A opção por tratar de contextos puramente sociais com personagens pouco convencionais para a época é, definitivamente, surpreendente.

Tudo muito bonito, é verdade. O problema é que há uma crise de identidade geral entre o olhar que temos sobre a arte e a importância que damos a ela.

Eu não entendo literatura da mesma forma que você, que está lendo esse texto. Muito menos da mesma forma que alguém do século XIX, como o próprio Dickens. Ou como Marlon James, que se inspira em Dickens mesmo sabendo que ele apoiou um massacre contra seu povo e era, muito provavelmente, racista. Afinal, como você enxerga a arte? Mais precisamente, a literatura? É realmente uma pergunta, respondam nos comentários.

Essa é uma excelente temporada para derrubar cânones literários. Ou ao menos reverter sua polaridade e tomar nota de algumas demandas não correspondidas pelas formulações vigentes. Sabemos como nosso cânone ocidental é formado. Sabemos da quantidade de vozes apagadas na história. Isso não desqualifica a literatura produzida por Dickens, absolutamente. Ele tem seu lugar cativo na história da literatura — e na minha estante —, mas se há a possibilidade de contestá-lo, por que não o fazer? Se a arte surge como contestação e quebra de paradigma, seria ilógico eu não poder contestá-la.

As vozes que Dickens abre têm relação intrínseca com um processo de industrialização forçado e a formação de nichos populacionais miseráveis e invisíveis para a sociedade que consumia literatura à época. É difícil reparar numa realidade senão a sua, ainda mais quando a sua é uma realidade de privilégios, sabemos bem. Portanto, muito dessa vontade de escrever sobre a miséria de Londres — ou Coketown, no caso específico de “Tempos difíceis” — é proveniente de uma juventude afetada pela famigerada Revolução Industrial. Tendo que trabalhar desde muito novo, a vivência do autor com a miséria e, mais precisamente, com as pessoas afetadas por essa miséria, fez com que o foco de observação fosse completamente diferente dos seus pares literários. Mas existem misérias, ou nuances, que Dickens jamais conseguiria representar na sua literatura.

A literatura que se busca hoje é, conceitualmente, mais plural e incisiva em questões individuais. Os conceitos puramente classistas do século XIX não conseguem, por mais que se tenha uma dose gigante de boa vontade em empreender sentidos às obras, saciar a fome de representatividade de uma geração que une os conceitos de gênero, raça e classe num caldeirão fervendo, derretendo qualquer suspeita de noções pré-concebidas sobre suas identidades – hoje, tantas, que a gente fica até meio perdido.

Nada mais natural, portanto, que um gênero como a autoficção cresça e se torne a nova tendência literária aqui no Brasil. Suis generis, é o literato brincando com sua própria história e expondo demandas individuais. Num país tão plural e caótico, é difícil ter coragem para expor demandas que não sejam únicas e, principalmente, próximas das vivências de cada autor. De fato, é mais uma tática de defesa do mercado editorial que, além da crise financeira, não sabe se comportar em relação a demandas sociais. Ou simplesmente as ignora, vai saber.

Sabemos que autoficção não nasceu aqui e que não existe apenas isso sendo publicado no país. É uma questão de demanda, de fomento. Um relato individual é incontestável, por mais contestáveis que sejam as ideias expostas pelo autor. Sempre funcionará como um mea culpa bastante eficiente. Isso não quer dizer que sejam produções ruins. É mais uma visão geral. O indivíduo, enquanto unidade produtora/consumidora de literatura, nunca terá contraponto ou oposição plausível a acusações feitas por massas. Afinal, quem pode mensurar o impacto das suas próprias memórias no processo criativo de um livro? A discussão se estenderia pela eternidade. São as grandes editoras fazendo o que sabem fazer de melhor: business.

O que não impede que surja outro fenômeno, numa literatura mais social e politizada, que queira representar nichos específicos da sociedade. Uma literatura endereçada, com representatividade e, normalmente, colaborativa, proveniente de mercados e editoras pequenas, com pouco investimento e que acabam caindo nas graças de nichos cada vez maiores e diversos por apresentarem visões diferentes de mundo, muito particulares e pouco aparentes. Vozes que se erguem.

Nesse samba de uma nota só pelo qual os círculos literários têm passado, Dickens, além de se tornar figura contestável, fica um pouco esquecido, num limbo. Ele não produziu uma autoficção supra individual e incontestável, tampouco foi capaz de atender demandas específicas, apesar de ter tentado dar voz aos excluídos da sociedade inglesa. O que sobra desses dois contextos é literatura. E isso nos leva de volta à frase de Marlon James.

James não relativiza um Dickens racista na sua frase. Na verdade, ele expõe uma face que muito incomodou boa parte do público, que fez bico e ficou meio estupefato. Seu romance sofre influência direta de Dickens, é perceptível. Mas o contexto, a reinvindicação, o sentido da escrita de Marlon é completamente distinto. A influência não descaracteriza o desprezo, o desagrado. E, por mais que achem, não é engraçado, peculiar ou oblíquo que James tenha se inspirado em Dickens para se formar autor. Essa história de superação digna de programas de auditório transmitidos aos domingos à tarde só pode ser contada graças a visão crítica de James sobre Dickens.

Ler “Tempos difíceis” só me provou duas coisas: a primeira — e óbvia — é que Dickens é um grande escritor e eu deveria ter começado a ler sua obra mais cedo; a segunda passa pelas falhas de construção do nosso senso crítico como leitores e a formação e a falta de conhecimento que temos do nosso poder de disseminar informação. Somos veículos muito frágeis no que tange ao diálogo, incapazes de construir pontes permanentes que privilegiam a compreensão de outros mundos, tempos e ideais. A verdadeira revolução não carece de mais energia. Carece, sim, de onde e como concentrar essa energia.

É aí que o imponderável de Dickens aparece. A menina rica, criada para ser uma esposa perfeita, dentro de uma educação completamente tecnicista e que pretere o irmão à luz da justiça e da própria consciência. Os processos desenvolvidos até o desfecho, as ações desencadeadas por um senso incomum de liberdade de pensamento e justiça social e, finalmente, a revolução em Coketown. Sim, revolução. O processo que se passa em “Tempos difíceis” é revolucionário, crítico e silencioso.

Isso não anula nem por um momento sequer a verdadeira face de Dickens. Essa face racista que eu estou indo pesquisar agora. É apenas literatura. E literatura é tudo o que sobra. Se você não souber aprecia-la e critica-la, fatalmente Dickens ou seu autor favorito perderão completamente o sentido. Os alicerces para a contestação também se perdem no processo, rapidamente colocando o leitor numa bolha de privilégios onde ele não sabe exatamente contra quem ou o que lutar. E as teorias, o desagrado e a luta se tornam tão vazias de razão que o sentimento revolucionário, aquele romântico, se esvai junto. São muitos os exemplos dos que se tornaram ditadores de si mesmos por terem perdido a conexão com seus alicerces.

Num mundo literário tão cobiçado por seu comportamento piramidal, acabamos por esquecer que praticar a literatura no cotidiano é um ato de retratação e justiça contínuos. Após um século e meio, enxergamos faces de Dickens expostas por vozes que se levantam na busca de retratar e preencher as lacunas deixadas pelo escritor inglês e, não menos importante, balançar as bases já pouco sólidas do cânone (não vou esticar o assunto sobre a criação de um contracânone, isso fica para outro texto, mas que é bastante interessante, é). Gerar incômodo, provocar discussão, bagunçar a ordem. Ora, ora, se não é exatamente por isso que Dickens é louvado.

Marlon James se inspira em Dickens, e, aqui, Dickens é tratado não como um autor do cânone literário ocidental, mas como um autor de reconhecida importância e que deve ter sua obra revista e confrontada por olhos que enxergam além do que era visto no século XIX, olhos esses que caem nas redes de um mercado que enxerga dois polos distintos pelo simples fato disso ser melhor pros negócios, mercado do qual o Rede de Intrigas foge para trazer esse tipo de texto que era para ser apenas sobre um livro, mas que começou com uma frase de Marlon James, que se inspira em Dickens. Ciclos que se renovam. São tempos difíceis.

O Sebo Rede de Intrigas está de volta! Confiram!

BK’ – Castelos e ruínas

Por Caio Lima

Uma das principais, senão a principal, funções da arte é emocionar. E emocionar não é fazer chorar, apenas. Acho que o Guardião das Palavras, que vive no Vale das Palavras, deve chorar toda vez que vê um vocábulo tão bonito ser reduzido a algo tão superficial. E o pior, os considerados literatos, intelectuais do mais alto gabarito, são os que mais se utilizam de tal prática. Mas deixemos de lado a intelectualidade e voltemos à arte e ao que nos emociona.

Estou devendo a resenha de “Castelos e ruínas”, do BK’, há quase um ano e meio. E eu realmente tento escreve-la há quase um ano e meio. Mas nunca consegui. E antes que eu comece a falar o porquê, quero que vocês saibam que esse texto pode se aproximar muito mais de um relato que de uma resenha crítica dos “portais de rap”, que prezam por um formato engessado e copiam tudo do estrangeiro, dos formatos de reportagem até os jornalistas incompetentes.

8da4e39437ac3c204a353ac8e90977d1.960x960x1Essa caminhada com o disco começa bem antes de o disco ser lançado. Em outubro de 2015 eu ainda trabalhava, havia acabado de chegar de uma importante viagem e fazia planos ambiciosos com a grana que eu estava ganhando. Não que estivesse tudo bem. Não estava. A Camila, talvez a pessoa que eu mais confie nesse mundo, havia rompido comigo. A Carolina, por quem eu estava fascinado, partiu. As coisas em casa estavam bem esquisitas também, tudo passava por extremos. Eis que surge a Magali, uma menina de 7 anos que enfrentava um câncer no estômago em estágio avançado muito bravamente. A família, sem recursos para manter o tratamento, pedia ajuda. Eu atendi o pedido.

Em questão de meses tudo mudou. No meu “Castelos e ruínas”, as polaridades foram invertidas. O status no trabalho, o dinheiro e a importância que eu dava às coisas certas, dentro do sistema, foram rapidamente minguando. Numa série de sucessivos golpes de realidade, eu passei a priorizar o que me emocionava. Minhas relações melhoraram, consegui extirpar alguns traumas e recebi de presente uma consciência mais tranquila, com a satisfação nas coisas simples ou no que realmente vale a pena.

A Magali morreu no dia 11/03/2016. Não foi um período fácil. Por mais que eu soubesse quão remotas eram as chances de ela resistir, eu não estava preparado para quando acontecesse. Ninguém está, eu acho. Foi um período de caos. Naqueles cinco dias entre a morte da Magali e o lançamento do “Castelos e ruínas”, eu não sabia o que era castelo e o que era ruína ainda. A inversão da ordem natural das coisas nunca fez sentido na minha cabeça, mas ao mesmo tempo eu ainda creio que aquela criança cumpriu seu objetivo aqui neste plano. Os momentos de paz interior e a situação caótica da minha cabeça destravaram uma série de crises de ansiedade. Eu, sempre leitor, não sabia interpretar o que acontecia comigo.

Quando o disco foi lançado, no dia 16, fui ouvir na função de uma pessoa que acompanhou o BK’ desde o começo do começo. Meu mano (e gênio) Gabriel Marinho foi o produtor e me mostrou a guia da primeira gravação do BK’, de 2011, quando ele ainda era o Abebe Bikila e fez participação numa música do Mineiro Treze (https://www.youtube.com/watch?v=HK01xl-dZGg). Já comentávamos entre uma aula e outra sobre o futuro do rap no RJ e BK’ não era apenas mais um nome ventilado, era uma aposta séria.

Engraçado como as histórias se cruzam em linhas extremamente tênues, não?

Pelas resenhas de bar na faculdade, em 2011, até a mixtape do Néctar, “Seguimos na sombra”, em meados de 2015, a evolução e a visibilidade do seu rap foram proporcionais ao seu talento; bem como o boom que existiu com “Castelos e ruínas”. O sucesso pode vir de diferentes formas, não existe receita. Mas não é difícil adivinhar que com o talento e o constante trabalho em prol de evolução, o sucesso, além de natural, seria sólido. Mas esse texto não é sobre o BK’, necessariamente. É sobre como a arte emociona. Não se esqueçam.

Eu não quis ouvir “Visão ampla”, lançada poucas horas antes do disco completo. Esperei de forma solene que o tempo passasse, lento como só o tempo pode ser em meio a crises. São nesses momentos de espera que as verdadeiras transformações internas costumam acontecer, eu acho. A gente vai criando expectativa e se desprende um pouco da realidade, do momento. Começamos a criar um outro mundo, imaginário, que sempre nos é solícito e agradável. Ruim é quando esse mundo se perde em meio à quebra de expectativas e o encanto se rompe. As crises voltam mais intensas e repelem a felicidade de uma forma tão violenta, que se acontecem de forma sucessiva nem Dante conseguiria criar um inferno para tal. Felizmente, esse não foi o caso.

Arte é uma forma de diálogo. E, por mais incrível que pareça, o rap praticado aqui no Brasil desde 2013 carece de MC’s que saibam puxar assunto. Ao ouvir o disco pela primeira vez, eu simplesmente me empolguei. É um baita disco! Para mim, um clássico! E fui ouvir de novo, de novo e mais outras incontáveis vezes. Quão maior era o mergulho dentro do disco, com mais afinco eu estudava o contexto, a técnica, a construção toda. Não demorou muito para que eu tivesse destrinchado o “Castelos e ruínas” do BK’. E adianto que esse não é, definitivamente, um disco simples.

Um momento na programação: não, eu não vou dizer que esse disco foi feito para mim e que me fez mudar de vida. Repito, eu não faço parte dos portais de rap que vocês amam e seguem! Isso é de uma desonestidade com o leitor sem tamanho e, bom, eu sei muito bem o que escrevo e onde quero chegar com isso!

O ponto é que a arte, quando abre o diálogo, engana. Minhas constantes anotações traduziam o meu olhar sobre um disco que estava falando comigo. Eram meus castelos e minhas ruínas anotados. O envolvimento com a arte faz com que olhemos para dentro do nosso próprio universo. E, de imaginário por conta das expectativas criadas, se torna um mundo real. Não, nada melhorou. Mas eu entendi o que era ruína e o que era castelo dentro daquele momento turvo. É bom saber quais armas eu tinha e contra qual inimigo eu estava lutando, é claro. Só que não adiantou muito, já que eu não sabia o que fazer. Entendem como a arte mexe com o emocional e o emocional não quer dizer que seja algo necessariamente bom? Olha só a merda em que eu me meti.

Enquanto eu não achava as respostas para melhorar meu momento, eu seguia ouvindo “Castelos e ruínas” e fazendo um diário das minhas conversas com BK’ e comigo mesmo. Às voltas com uma faculdade que me cansa profundamente (e causa tédio), um trabalho que, além de não me valorizar, ainda atrasava os salários e as demais obrigações da vida adulta, até meus motivos literários giravam em torno dessa pesquisa de campo em mim mesmo. Logo, escrever não era mais uma tentativa de descobrir, e sim mais um motivo.

O disco, como todo bom MC gosta de dizer, é como um livro. E os motivos literários que cercam “Castelos e ruínas” não são tão óbvios assim. Existem muito mais elementos que os simples altos e baixos exemplificados em resenhas por aí e pelo próprio BK’, tentando encurtar entrevistas. Ouçam atentamente. O amor, a morte e as ruas são dúbios, não duplos. Não existem extremos perfeitos que não sejam prisões. A gente demora a entender esse negócio, mas é real. Não adianta ter um castelo que te sirva de prisão. Da mesma forma, ruínas tem seu charme e atraem. Não pelas joias, relíquias ou algo de valor material. Falo da força de uma história a ser contada, recontada e reerguida.

Todo esse processo literário e de interpretação do que eu mesmo anotava dentro de todo o conceito do disco, é transcrito nos meus textos aqui pelo Rede de Intrigas. Essa capacidade de reproduzir ideias dentro de universos próprios, de dialogar com mortos e de me colocar como centro de uma obra sem me apropriar dela.

Mas toda vez que eu tentava escrever sobre “Castelos e ruínas”, travava. Algumas situações são fortes demais para que sejam apenas escritas. Eu anotei tanto, escrevi tanto, li tanto. E simplesmente não conseguia, por quê? A arte me afastou de mim durante muito tempo nesse processo. Meus motivos para escrever não eram pessoais ou românticos, eram fuga. São as peças que a arte prega. Eram meus castelos e ruínas mostrando sua dubiedade na prática. A vida é uma grande obra literária, afinal.

Tanto foi assim que, para vocês terem uma noção, eu cheguei a comprar ingressos para o show do BK’ três vezes e não fui. Isso sem contar as vezes que desistia de ir (pelo menos nessas eu não perdi dinheiro). Eu não estava pronto para me colocar à prova desse jeito. Pior, eu descobri que nunca estaria pronto se não me dispusesse a reerguer a história dessas ruínas que eu tinha nas mãos. É um processo trabalhoso no meio de um ciclo triste, estranho e desgastante. Até descobrir que nunca se sabe se está pronto ou não. Ou você aguenta a porrada, ou sucumbe. A vida não é muito paciente com quem fica se preparando a vida inteira. Já que eu estava no inferno, me dei um abraço.

Foi um longo processo até eu decidir largar toda a minha preparação para a Flip e subir até Petrópolis para, finalmente, assistir um show do BK’ com seu “Castelos e ruínas”. Foi no dia 22/07, não faz muito tempo. Sozinho, apenas bebendo água e tendo que encarar um bando de adolescentes insuportáveis achando que são adultos porque vão numa balada classe média do centro da cidade. Mas nem isso me irritou ou me fez repensar. Eu estava lá para ver o show de “Castelos e ruínas”. E vi. Fiquei no fundo da boate, com uma garrafa d’água, isolado. Não dava para ver tanta coisa do palco, então fechei os olhos. “Sigo na sombra” começou a tocar e as memórias retornaram. Mais uma vez mergulhei nelas. Impossível não me emocionar. Apenas deixei que a clareza do momento fosse bagunçada por todo o processo até conseguir chegar ali.

Um ciclo foi fechado e quando eu coloco “Castelos e ruínas” para tocar, as memórias que habitam minha mente não deixam com que eu me perca mais. Eu não me aproprio da realidade alheia para escrever minha própria história. Acho que não preciso disso mais e dá para perceber por esse texto. Não que eu tenha me encontrado, a busca é um presente vitalício.  É complicado entender a dinâmica da vida e das coisas que você tem que correr atrás. Oportunidade, momento e percepção são coisas que precisam andar juntas, mas tal qual as histórias que se entrelaçam aqui, todas elas são unidas por linhas tênues. Tênues como a linha da vida. Das vidas que se foram e das que ficaram, resta saber o que fazer com o que sobra disso tudo.

Se isso é uma resenha? Claro que é! Leiam com atenção. Tudo o que vocês precisam saber sobre as técnicas que o BK’ usa, eu utilizei ao escrever. O enredo do disco também está aí. Vocês sabem que o disco é um clássico instantâneo. Me ajuda! Aprendam a ler e saiam da bolha, camaradas. Está tudo aí.

Se isso é um relato da minha vida? Claro que é! Não sei o que vocês vão extrair desse texto, porém, pela primeira vez, estou criando a expectativa de que olhem de forma muito diferente para a arte. Se eu não tivesse reconhecido tudo o que havia ao meu redor, a Magali não teria me colocado nessa rota de colisão com minhas próprias crenças e eu não teria feito das minhas ruínas a minha história mais bonita. Sou dono das minhas memórias e construí meu presente através delas. De ruínas para castelos que ninguém é capaz de tocar, mas sempre compartilhados com todos os bons.

Se isso é uma homenagem? Claro que é! Infelizmente não citei todas as pessoas que me ajudaram nesse processo. E muitas das que citei não poderão ver, em especial minha pequena Magali e a Carolina. Mas todos que fazem parte do processo sabem que são contemplados nessas linhas. Foi um processo longo e, bom, quem sabe, sabe.

Finalmente eu estou subindo pro meu nome ser eterno igual pixo.

Descanse em paz, mestre Luiz Melodia.

Lima Barreto e a loucura: os porões da escravidão no século XX

Por Caio Lima

Hospício Nacional do alienados - Acervo do IPHAN, Inventário

Admito: estava tentando fazer deste texto tudo o que eu nunca fiz na vida: um texto sério. Verdade! Eu juro que tentei. Mas a medida em que me aprofundava no tema, mais pessoal minha linguagem ficava e, de repente, o texto parecia um grande amontoado de parágrafos escritos por várias personalidades, mas nenhuma sequer continha minha essência ou personalidade ou alma ou jeito. Por isso desmanchei absolutamente tudo e resolvi reescrever do jeito de sempre. Me desculpem se isso os frustra, mas não dá para ser crítico sério nesse espaço altamente subversivo. Seria tanto loucura quanto a morte do Rede de Intrigas, o queridinho do submundo literário.

Por falar em loucura e morte, ambas motivam esse texto. Numa sequência biológica/patológica/qualquer-coisa-lógica, uma leva a outra num processo irreversível (não importa a ordem). Numa sequência histórica, as duas se confundem e se completam ao designar o destino de milhares. Acredito que o grande problema aqui é definirmos o que é loucura e o que é morte, afinal.

Em “O cemitério dos vivos”, de Lima Barreto, comecei a identificar a loucura como sendo mais uma questão social-normativa que patológica. Afinal, quem nunca fez uma loucura de amor? Ou quem nunca ficou louco na balada, chapadão mesmo? E aquela amiga desbocada que fala o que pensa, né, “miga, sua louca”? Pois é, a loucura é vivenciada comumente por nós e muito bem aceita, aliás. Tem lá seu charme com um pouco de malemolência.

Também vem misturada com uma porção de raiva e pitadas de preconceito, já que talvez aquela mina que tenha se recusado a ficar contigo na balada precise de uma camisa-de-força, porque ela é uma “feminazi histérica”. Ou “aquele bando de faveladinhos imitando bandido, tudo marginal e maluco, porque se a polícia chega vai derrubar sem dó”. “Acho que minha empregada tá louca, disse que o filho dela vai comprar um carro zero. Que absurdo!”

Voltemos um pouco no tempo.

O processo de abolição da escravatura, formalizado em 1889, não foi tão seguro e correto na prática quanto parecia ser em aspectos morais. A população negra, já num processo contínuo de alforria, continuou sendo explorada, agora vivendo com um soldo irrisório (isso quando conseguiam emprego) para declarar que os escravos libertos teriam algum padrão de vida que não fosse a miséria.

Um retrato atual do centro do Rio de Janeiro não seria tão diferente da imagem que temos do centro no início do século 20. Mudam-se as proporções, mas não a composição do quadro. Classe, raça e gênero muito bem definidos, até em estereótipos, se cruzando. Do dono do meio de produção até o mendigo.

Com essa quantidade de mendicantes, os aglomerados periféricos cada vez maiores, a ascensão de uma classe criminosa assolando a cidade e milhares de trabalhadores em regime de servidão consentida (não dá nem para chamar de subemprego); meios de controle populacional tiveram de ser estabelecidos. Primeiro, o embrutecimento policial entrou em voga. A repressão brutal de uma miséria criada pelos próprios mandatários do Estado é uma alternativa óbvia desde sempre, mas não o suficiente para essa nova época de “liberdade e progresso”.

Uma das muitas soluções foi a internação em hospícios. Afinal, é muito fácil ser declarado louco quando se está morto de fome e morando na rua. Uma miséria, repito, induzida, porém não programada. Das condições descritas por Lima Barreto, o quão ser declarado louco e jogado num sanatório não é uma maneira de extermínio? Qual a possibilidade real de reintegração na sociedade ou, mais simples, de ser tratado como um simples ser humano?

Antes de Lima Barreto se internar e resolver escrever sobre o sanatório e a loucura, Machado de Assis, no conto “O alienista”, já havia tocado na ferida da loucura como regimento social. Quem não riu do auto-diagnóstico do louquíssimo dr. Simão Bacamarte? É lógico que a superficialidade dos questionamentos filosóficos ali escritos é interessantíssima. De médico e de louco todo mundo tem um pouco, já diz o ditado. Mas esse é só o começo de uma longa reflexão, é raso. “O alienista” não existe à toa. Talvez fosse o objeto do desejo machadiano abrir uma outra discussão: já que todos somos um tanto quanto “loucos”, por qual razão aqueles internos estão presos? Qual medicina é capaz de diagnosticar a loucura? Por que aceitar o diagnóstico de forma tão passiva? Qual o perfil dos internos?

O questionamento à loucura já existia às beiras da abolição da escravatura, denunciada muito sutilmente por um autor negro. Coincidência, será? Obviamente que não. Se levantarmos dados dos registros das casas psiquiátricas do Rio de Janeiro desde 1880, descobriremos que os internos negros são sempre maioria. Não estaria Machado denunciando, com toda sua habilidade narrativa, um processo crescente de higienização social? A mesma denúncia que faz Lima Barreto três décadas depois, quando sentiu na pele o duro processo que seus iguais passavam. Vemos que a ficção, mais uma vez, além de ter a função de sensibilizar, funciona como denúncia.

Lima Barreto se internou voluntariamente por conta do alcoolismo, que o estava esgotando até os últimos recursos. Não que ele tenha vivido muito após sua internação (entrou em dezembro de 1919 e morreu em meados de 1921), mas foi o suficiente para deixar anotações de um diário e um romance incompleto, os quais o permitiram momentos de frágil sanidade no meio de um ambiente mais parecido com uma catacumba.

Conforme Lima relata no seu livro, sob o pseudônimo de Vicente Mascarenhas (um dos tantos pseudônimos encontrados nas anotações, sendo este o adotado oficialmente), os internos variavam de causa e origem, mas a grande maioria presente no pátio era de negros com problemas diversos que acabavam por desenvolver a “loucura” num ambiente que mais lembrava uma masmorra; muito parecido com um campo de concentração, ou com uma senzala. Os maus tratos, a falta de assistência médica, a alimentação ridícula, enfim, a falta do básico em se tratando de um lugar que supostamente deveria ajudar “loucos” a viverem com alguma dignidade.

Os manuscritos de Lima Barreto já funcionavam como olhos dentro de uma realidade tão periférica, mas tão periférica, que se torna inexistente às vistas do cidadão médio brasileiro. Talvez, em certo momento tenha ocorrido um clamor tão grande pelo achado dos manuscritos, que as letras foram mais relevantes que a condição humana, e “O cemitério dos mortos” acabou passando por mais um livro ficcional de Lima Barreto com cunho político-social, não obtendo a atenção devida.

Lima Barreto, 1914 - Acervo do IPHAN, Inventário_350

Um de nossos maiores autores teve a sensibilidade de, mesmo num período crítico de sua vida, relatar de forma tão singela e vívida um processo maligno que objetivava tornar invisível e justificar o contínuo extermínio de negros, em sua maioria. A loucura se confunde com a morte a partir do momento em que o louco se torna invisível aos nossos olhos. As portas das casas psiquiátricas são as portas do próprio purgatório, onde almas errantes devem passar por provações que nós, dentro de toda nossa normalidade, não temos noção do que seja. Até porque, nós não tratamos dos loucos, não sabemos o que fazer com eles, como reagir, como falar-lhes ou como olhá-los. Eles não existem para nós. São apenas loucos e fogem da nossa alçada. E essa loucura abrange tantas misérias humanas que se reconhecer num louco é desumanizar-se. O que não é normal não é norma, não é aceito, não é padrão e, logo, não é humano.

Já havia um minidocumentário, de 1979, intitulado “Em nome da razão – Os porões da loucura” (facilmente encontrado na internet), denunciando as condições subumanas em que internos do Hospital Colônia, incapacitados, segundo laudos, de manifestarem cuidados próprios eram tratados. Porém, em fins de ditadura, sabemos que o jornalismo investigativo não era visto com bons olhos, ainda mais em se tratando de unidades mantidas pelo Estado e que promoviam a nossa famigerada higiene social em busca de ordem e paz nos grandes centros urbanos.

Eis que em 2013, quase 100 anos após a segunda internação de Lima Barreto no sanatório, foi lançado o livro “Holocausto Brasileiro”, da Daniela Arbex. Mais uma denúncia contra o sistema de extermínio de pobres, negros, mulheres e demais minorias através de uma casa psiquiátrica, pontuando a loucura como justificativa. Como no documentário de 1979, há pela jornalista um reaproveitamento e aprofundamento do holocausto acontecido no Hospital Colônia, em Barbacena, Minas Gerais.

A barbárie a que foram levados os internos do Hospital Colônia ao longo dos séculos em nada difere da que Lima Barreto passou em 1919. Por isso me pergunto se a denúncia sobre o Hospital Colônia e suas práticas, em Barbacena, realmente chocou a nós todos com a força que deveria, ou se a descrença natural que o leitor médio brasileiro mantém na literatura de ficção como meio de apontar feridas é tão grande que, apesar de termos lido tanto sobre a realidade social brasileira, só acreditamos que essa realidade tão cruel existe quando esfregada na nossa cara por meio de um texto jornalístico. Ainda prefiro me forçar a acreditar na humanidade da classe literária por aqui, apesar de minha intuição apontar o contrário.

É claro que o aporte midiático e material quase 100 anos depois de Lima Barreto ter sido um interno, é algo infinitamente maior que o disponível à época. Porém, reparem bem, que o projeto de compensar mazelas criadas por uma sociedade extremamente desigual com o diagnóstico de “loucura” se mantém intacto. A loucura e a morte sempre andaram de mãos dadas, mas nunca se misturaram de forma tão homogênea quanto o que podemos ver por meio de “O cemitério dos vivos” e “Holocausto brasileiro”. O laudo emitido pelo médico é uma condenação. Existe um tribunal funcional, com um processual bastante veloz e que atua à margem da lei sem a interferência de terceiros, executando sentenças de morte ao bel prazer do Estado e seus pares.

Muito se pode falar dos motivos pelos quais uma sociedade chega a esse estágio de indiferença para com as parcelas miseráveis da população. Teorizar e justificar comportamentos doentios, definitivamente, não é o caso do Rede de Intrigas. Confabulamos sobre a origem da vida, sobre o amor e a saudade por aqui, mas este nunca será um espaço para a racionalização da agressão, do desprezo, da indiferença e do preconceito. Nunca será! Entretanto, apontar algumas verdades históricas é necessário nesses casos. Afinal, após todo esse alinhamento histórico, um texto que de tão organizadinho chega a dar orgulho, eu não ficaria sem estragar toda a organização e definhar o texto em milhares de questões que vocês não vão me responder, mas com certeza irão refletir sobre.

Esse sou eu e vocês já deveriam estar acostumados. Hehehe.

Apesar dos sanatórios terem sido derrubados, o processo de higienização social continua. O show tem que continuar, não é mesmo? O que o atual prefeito de São Paulo fez em maio deste ano tentando “livrar” a área da cracolândia dos moradores de rua é um ato fascista e, naturalmente (como convém à raça), covarde contra o qual não se tem defesa, já que o próprio Estado é o mediador das ações. É uma prática comum no país e tende a ser cada vez mais enfática. Os monstros sempre serão os que não podem falar. A caça aos menos favorecidos alimentada pela desculpa da limpeza social, nada mais é que uma limpeza étnica que vira e mexe assola a cabeça do brasileiro médio. Nada saiu do lugar, apenas os motivos mudaram.

Para além disso tudo, há o contínuo desrespeito com as “minorias” que buscam espaço e direitos, já que nem todos são iguais perante a lei (Rafa Braga que o diga). O sentido de loucura tem desertado os drogados, doentes e miseráveis vagarosamente para ocupar-se de abranger os grupos sociais que lutam ativamente por uma sociedade realmente igualitária, educada e respeitosa para com todos os seus cidadãos, sem ressalva ou asterisco. Não se assustem se negros, o movimento LGBT, mulheres, índios, deficientes físicos e outros forem comumente taxados de malucos e colocados como extremistas sanguinários por pedirem igualdade, apenas. É o novo sentido que a loucura se apossa para ferir mais e mais as liberdades de quem procura e precisa de voz.

Num sentido social, a loucura parece ser uma licença poética para uma ordem de extermínio. Após passar tanto tempo estudando para esse texto, sinto que todo os caminhos da contracultura, que se torna uma cena cada vez mais sólida no país, convergem para um natural enfrentamento à loucura e ao caos que tentam nos impor como norma. É um processo mais espiritual que físico e tenho acompanhado avanços significativos nessa busca, pelo menos em mim mesmo. No fim, somos um enorme universo e precisamos aceitar essa condição. Ou seremos induzidos à loucura da rotina, do consumo, da competição e de todos os outros processos escravagistas aos quais temos cada vez mais acesso.

Autores como Lima Barreto são o verdadeiro motivo do Rede de Intrigas existir. Não que eu possa encarnar as vozes que gritam por baixo das palavras escritas, como é o caso de “O cemitério dos vivos”. Nem nos meus melhores dias eu me sinto capaz de tanto. Mas existe uma motivação grande demais em que a literatura seja mais instintiva que investigada, mais sentida que reproduzida. Preencher vazios, ser real, ser humano. São o que essas vozes me dizem e eu tento erguer a minha própria. Podem me chamar de louco.

Viva, Lima Barreto! A Flip está chegando!

Abasse Ndione – A vida em espiral

Por Caio Lima

Capa RádioLondres_Avidaemespiral_AbasseNdione.jpgMuitos defendem que um livro nunca deve ser analisado politicamente. É uma visão purista da literatura e eu até concordo em partes. Acho interessante se apegar apenas à arte. É bonito. Imaginem ter propriedade, tempo e oportunidade de analisar literatura apenas pelo valor literário. Porém, esse não é o caso do Rede de Intrigas.

Recortar a filosofia a fim de esvaziar o sentido original da teoria e/ou prática e moldá-las ao seu bel prazer é uma das especialidades políticas ocidentais mais apuradas e a primeira forma de corrupção possível. É visível, também, que as tradições ou quaisquer aspectos culturais de um povo, ocupam cadeiras muito frágeis ante o fenômeno político ocidental, tornando inviável a existência de uma alternativa ao “prato feito” político que nos é servido.

Foi lá na Grécia Antiga que toda noção de vida pública e privada ocidental surgiu, basicamente. E, bom, qualquer teoria política que conhecemos busca elementos da filosofia grega para justificar seus pontos. O “mito da caverna” talvez seja o exemplo mais claro desse alicerce filosófico helênico. Porém, ele só existe por ser uma defesa à aristocracia filosófica. Sim, Platão era um crítico ferrenho da democracia e acreditava que existiam pessoas (filósofos, no caso) destinadas a guiar a massa para práticas e organização harmônicas. Mas se “mito da caverna” é uma crítica ferrenha à democracia e uma defesa da monarquia filosófica, seria, então, uma falácia muito grande utilizar Platão para reforçar princípios do estado democrático de direito ou a defesa da libertação do homem através do conhecimento. Triste, né?

E então, saltamos no tempo e chegamos ao Senegal de Abasse Ndione, escritor de “A vida em espiral”, em meados de 1980. O melhor em analisar a história é a liberdade. A semelhança entre a Grécia de Platão e o Senegal de Abasse Ndione não é tão bizarra assim e, sinceramente, Abasse poderia ter nascido na Grécia daqueles idos. A crítica ao sistema democrático senegalês é tão sutil quanto profunda, e passível de diferentes interpretações.

Amuyaakar Ndooy, o personagem central do livro, poderia continuar sua vida de taxista, cuidando da mãe, da irmã e da filha, e se reunindo com seus quatro amigos para fumar yamba (maconha) escondido. Porém, numa dessas oportunidades únicas na vida, Ndooy consegue uma boa quantidade de yamba bem quando o Estado está criminalizando seu uso, tornando o produto escasso no mercado. Ndooy decide, então, empreender e mergulhar no tráfico, se tornando um sipikat (traficante). Grana alta, fumo à vontade e poder.

O mundo como ele é faz com que o tráfico pareça enfrentamento político, porém não é bem assim. Conforme Ndooy avança nos negócios e se aproxima das esferas mais altas da sociedade senegalesa, ele entende que o tráfico de yamba (bem como qualquer ilegalidade) é benéfico para a manutenção do sistema e distribuição de poderes no seu país. Uma coisa fica bem clara durante a leitura do livro: a lei não atinge uma parcela de pessoas – os criadores/financiadores das leis.

As leis, como conjunto normativo para uma sociedade, podem ser injustas por natureza. Não é difícil validar exemplos de como leis podem funcionar para garantir privilégios, a escravidão é um exemplo bem claro disso. O link entre uma realidade marginal e a validação do que é legal e o que não é, é um primeiro passo para, mais uma vez, ampliar a discussão para um embate cultural. Resoluções políticas ampliam a distância entre cultura e justiça. Os efeitos são aterradores.

Isso é agravado em um país que dança conforme a música tocada em outras terras. É difícil ser politicamente estável quando as pessoas estão perdidas entre o que lhes é imposto e o que é herança. Muletas culturais nunca aproximam o país colonizado da amplitude de perspectiva, da plenitude do indivíduo – senão o “mito da caverna” não seria usado até hoje (em toda sua subversão de sentido) para defender conceitos democráticos.

“A vida em espiral” é um livro sobre a vida de um traficante? É, mas não é. O livro é uma apologia ao tráfico? Definitivamente, não. A tônica do livro é contestar o sistema, mas não de uma forma convencional. A manobra de Abasse Ndione ao montar o livro é o que separa bons autores de excelentes autores.

Existe uma força ancestral que move Ndooy ao longo do livro. Isso pode passar batido pelo leitor, mas a força está lá, sempre reforçada pela narrativa de Abasse através das recorrentes expressões no dialeto wolof (yamba e sipikat são exemplos disso), típico de uma das tribos que fazem parte do Senegal; ou pela maneira, o lugar, o fornecedor e o clima onde Ndooy busca o yamba. Todo enredo tem uma aura de um Senegal que parece não mais existir. Contudo, essa ancestralidade é a responsável por carregar Ndooy na sua perigosa carreira. Por isso o livro não retrata o simples embate entre tráfico versus sistema. A resistência proposta por Abasse Ndione é cultural.

A raiz cultural dessa Senegal exposta por Abasse Ndione é sólida e mágica. Não existe falácia filosófica que a corrompa. Ser algo sólido já pode ser considerado mágica nessa sociedade pós-moderna, mas a magia é algo maior e foge ao entendimento do leitor. Não por Abasse não conseguir explicar, é vívida a aura que circunda o livro. A questão é compreender a abrangência da cultura.

Descobrir e viver a cultura senegalesa é completamente diferente de defender que toda essa diversidade cultural seja respeitada. Pode-se seguir outras doutrinas, é normal que haja essa liberdade. Mas “A vida em espiral” mostra que apenas quem vive a sua cultura é capaz de falar com propriedade por ela, da mesma forma que é responsável pela sua manutenção e perpetuação. Retirar ou reduzir drasticamente a cultura de um povo, impondo seus métodos e práticas embasados em verdades absolutas sobre modernidade, globalização e a irmandade entre as nações é uma atrocidade.

Afinal, o que seria de um povo que respeita suas raízes e é organizado politicamente? Se você chutou “livre”, acertou. Então porque esses países não se reconhecem culturalmente dentro de um sistema político conhecido? Porque são criados numa base filosófica corrupta. Isso inviabiliza que a expressão “dar certo” seja usada numa frase que contenha “sistemas políticos ocidentais”, mesmo nos países europeus.

Não é aceitável a elevação de uma “nação colonizada” a um status de “nação livre” sob qualquer aspecto, mas a ferida que mais sangra é a ferida cultural. Delinear traços culturais próprios (e progredir por meio deles) torna o homem pleno, dono de si. Com raízes sólidas, muito bem estabelecidas, nada que possa vir do externo é capaz de machucar. Conceitos como justiça são moldados pela equidade social e são consenso, todos defendem a liberdade de todos. A cultura, como modo de vida aplicado, é ampla demais para que alguém não tenha sua cobertura.

É bem verdade que a sutileza de Abasse dá o raso para um leitor menos atento, podendo parecer apenas mais uma história de polícia e ladrão ou, como alguns críticos apontaram, uma apologia ao tráfico. A distorção de uma realidade periférica como apologia já denota o que é o sistema e como ele molda o pensamento do colonizado. O traficante de Abasse, Amuyaakar Ndooy, nada mais é do que uma peça dentro do sistema. Uma peça que cresce, vê as coisas acontecerem e consegue sair.

Resistir culturalmente não é ativismo político por cultivar pautas minoritárias, por usar uma peça de roupa característica ou por incluir um tambor dentro de uma música que você faz. Claro, tudo isso é importante. São símbolos e resoluções que devem ser discutidos e usados com orgulho. Porém, é necessário se fazer maior que o material quando se fala em resistência cultural.

Resistência cultural é ativismo político porque a cultura alça o homem a sua plenitude. E o homem que sabe de onde veio, que sabe para onde vai e que é capaz de reconhecer e abrir espaço para o próximo, é muito mais efetivo em criar um ambiente que se desenvolva de forma saudável e harmônica que qualquer teoria presa em livros de ciência política, jornais de televisão e conspirações de guerra. Fecho com os versos de Marcelo D2: “Eu luto e não me rendo/Caio e não me vendo/Não recuo nem em pensamento/Sigo em movimento, que para mim é natural/De resistência cultural”.

Galera, aqui do lado estão os ícones das nossas redes sociais. Nos sigam e passem lá no Sebo Rede de Intrigas para nos dar uma força (e garantir uns livros num bom preço hehehe). 

 

Raio-X lírico: Marechal

Por Caio Lima

Quanto mais se personaliza uma função, mais complexo se torna enxergar suas influências e em como elas atuam dentro do processo criativo. Uma tentativa de análise lírica sobre o Marechal é complicada, são poucas letras e tentar desenvolver em cima do que está escrito é tentar desvendar a pessoa, o que torna evidente que a construção lírica de Marechal é muito mais alicerçada nas suas experimentações filosóficas e espirituais que em algum motivo poético ou ficcional.

Eu realmente não sei o motivo de inventar esses textos. Mas desafio lançado tem que ser cumprido. Bora!

Ninguém está preparado para o álbum do Marechal. Nem o próprio Marechal está preparado para o álbum do Marechal. Quer dizer, parece que agora está. O disco está anunciado para esse ano e todo mundo está na expectativa. E essa expectativa é tão alta, mas tão alta, que eu me peguei pensando no porquê de o Marechal ser do tamanho que é dentro da cultura hip hop.

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O rap ganhou novos ares com o Quinto Andar, sem dúvidas. O grupo carioca escalou um 4-3-3 com ataque total (brasfoot rules) e fugiu dos padrões, abrindo espaços no rap nacional. Julgado como rap descompromissado à época, o discurso largado, bem-humorado e audacioso renovou o gênero, abriu a oportunidade para que o rap não fosse um casulo, mas sim uma forma de atacar em todos os espaços possíveis e, claro, ocasionou o surgimento de MC’s que viraram lendas.

Se contarmos que o digníssimo motivo desse texto parou de estudar no meio regular de ensino aos treze anos para cuidar da própria educação, a gênese do QA me parece ter o gosto do sonho de infância: um grupo de rap formado por amigos, sem compromisso com o próprio sistema do rap e que fez sucesso dessa forma. Se parasse por aqui, Marechal já teria o nome escrito na história do rap nacional, bem como todos os outros integrantes do QA o tem. Mas não é bem assim, vocês sabem. Até o Piratão, único álbum do coletivo, os objetivos caminhavam em prol do disco. Após, as coisas se articularam de maneira diferente para os integrantes e Marechal foi um que “levou seus talentos para South Beach”.

Antes de começarmos a escrever sobre os rumos do Marechal pós QA, precisamos conversar sobre alguns aspectos da cultura hip hop pouco abordados nos dias de hoje, porém fundamentais para a formação da cultura; e, consequentemente, para a minha visão do que representa o Marechal dentro da nossa cena.

O legado da luta árdua deixado pelas décadas de 50 e 60 é muito maior que a política. Todos os revolucionários, além de se comunicarem, buscaram longe do padrão americano os pilares para a mudança. O que ficou tanto tempo escondido pelo opressor, começou a ganhar espaço e força como práticas cotidianas, como cultura vivida. As diversas representações culturais africanas, árabes e orientais emergiram com força e passaram a fazer parte do imaginário dos guetos americanos.

Vocês já assistiram The Get Down? Vou me utilizar de dois personagens para salientar dois pontos. O primeiro é o Shaolin Fantastic, influenciado diretamente pela cultura pop nipônica, com toda a adoração por artes marciais, samurais, ninjas e códigos de conduta regidos pelo silêncio e sacrifício. A segunda figura a ser destacada é o Dizzee, o artista, rei da pichação. O estilo good vibes, que apela para a elevação do espírito e autoconhecimento, também é uma influência oriental muito forte, mas aí estão misturadas linhas filosóficas diversas e muito confusas para quem está começando a entender como as doutrinas orientais funcionam (tipo o escritor que aqui vos fala). Taoísmo, islamismo, budismo, hinduísmo e outras práticas, mesmo não sendo seguidas à risca, passaram a fazer a cabeça das pessoas. Não são poucos os que passam essa visão no rap, principalmente os dinossauros como KRS-One, Rakim e Mos Def.

Virando o jogo e olhando para a raiz, a difusão das matrizes culturais africanas como práticas comuns começa a fomentar uma ideia muito concentrada que, salientada por toda essa filosofia de libertação e autoconhecimento, vai moldando as bases do movimento hip hop. E para ser livre, evoluir e entender que seu irmão é exatamente igual a você, é necessário saber de onde veio e saber o porquê te descaracterizaram e arrancaram suas raízes! Como puderam ignorar sua árvore genealógica por tantos séculos? Aqui entra o papel do “griot moderno”, o MC. A função original do griot é a de um transmissor de conhecimento. São sábios, perpetuadores da cultura da forma mais ampla possível. Mas nada disso foi escrito, todo o conhecimento era repassado de forma oral.

É exatamente nesse ponto, tendo pincelado rapidamente a função do griot, a revalorização das raízes culturais africanas e a inserção dessas linhas filosóficas orientais dentro do hip hop, que voltamos a falar sobre o Marechal (finalmente, Caio).

Ainda jovem, Marechal foi caçando seu caminho e sofrendo com algumas pedras no sapato durante a caminhada. Além da saída do QA, o que gerou surpresa, teve a treta com o Cabal. A treta proporcionou um momento histórico para o rap nacional, mas olhando bem para o Marechal de hoje dá para perceber que não era bem esse o caminho. Períodos turbulentos assim podem ser considerados como um inferno astral, onde você mobiliza toda a energia que possui para gerar ações negativas. Mesmo tentando acertar, se não há um alinhamento harmônico das energias que você emana e te envolvem, todas as vibrações são traduzidas em más atitudes.

A necessidade de Marechal ter de explicar sua saída do QA ou sua treta com o Cabal ofusca o surgimento da Batalha do Conhecimento, da filosofia “Um só caminho” e da própria VVAR (Vamos Voltar À Realidade). O interesse do público é direcionado para esse mundo do rap game, do business, da “arte profissional” e seus ramos “colunísticos”.

Marechal

Desta forma, para se manter relevante há a necessidade de circular pelo ambiente profissional do rap. Lançar sons constantemente, estar nos canais de mídia especializada, ser participativo nas redes sociais e todo o resto do script do rap. Num período de reorganização espiritual e estudo pesado, essa é a última coisa a se esperar de alguém. E uma vez iniciado o processo da busca pelo próprio caminho, não há mais volta. Segue o jogo, mas agora à própria maneira.

Para mim, o hip hop transforma e liberta antes de educar. Mostrar que as pessoas são capazes de criar o próprio espaço e trilhar o próprio caminho, essa é a essência. E é uma guerra tentar levar esse tipo de pensamento para dentro de espaços em que mentes são dominadas de todas as maneiras possíveis e imagináveis. É tanta energia negativa historicamente aplicada nas pessoas, que é difícil o resgate da autoestima. Alguns possuem essa força de vontade inabalável inata, mas a grande maioria precisa de ajuda.

Entender e viver o hip hop fez com que Marechal reagisse ao mundo como ele é. A primeira reação à indústria musical foi a de sair da indústria musical. Todo mundo conhece a frase clássica “lanço uma música por ano e você não fica uma semana sem ouvir”. Eu não parei para contar as músicas do Marechal, mas as poucas músicas têm mais implicações que apenas ser um revoltado com o sistema. É difícil se manter relevante lançando pouquíssimas músicas e fazer com que elas permaneçam atrativas, mantenham a identidade e atravessem o tempo.

E para atrair um público que precisa da cultura hip hop, é necessário sair do público de rap. O MC deve se reinventar a todo momento para atingir mais pessoas. Enxergar uma realidade, traduzir em poucas linhas e prover o resgate do brio e ao mesmo tempo entregar esperança. É uma constante troca, é um constante aprendizado. É necessário se permitir mudar junto com a mudança que o MC é capaz de provocar, saber lidar com as energias diferentes, se adaptar, repelir o que é lúgubre para, aí sim, gerar mudança. Não é fácil se colocar em posição tão vulnerável numa cultura onde o sentido de H.aço foi se tornando algo radical.

O problema é que o mundo exige organização, profissionalização, consumo e massificação. Sem isso você vira um errante da cultura, uma personalidade caricata que só fala em coisas que não podemos tocar e acaba isolado nos seus próprios ideais. Então o “trabalho de formiguinha” não tem alcance se a criançada que recebeu os livros do Projeto Livrar não pode encontrar as músicas do Marechal no YouTube. Hoje a identificação se dá pelo consumo. O que eu posso consumir é o que trará a certeza da minha identificação. É triste? Sim, mas é real. Qual o segredo para fugir do sistema, então? Descentralizar os conceitos.

A mesma descentralização cultural que firmou as bases do hip hop é o que Marechal faz com a realidade do mercado brasileiro. Ele não é o diferentão roots do rap nacional até o osso. Temos aqui uma pessoa que tem fé nos seus valores, que estuda muito e que está disposta a estabelecer uma troca sincera com todo tipo de público. Marechal torna-se, então, uma personificação da cultura hip hop sem parecer mórbido ou estacionado nos anos 90. O mesmo choque cultural que o movimento hip hop tomou, absorveu, fincou suas bases e foi perpetuado é o que Marechal emprega até o atual momento no seu “um só caminho”. Entre pontos altos e a possibilidade de estar “se vendendo”, ele tenta encontrar brechas no mercado que permitam a grande massa ouvir o famoso “rap de mensagem”.

Isso acontece na música “Guerra”, que fez parte de trilha sonora de filme e série; acontece com a gravadora que vende uns panos irados, a VVAR; acontece com a participação na música do Costagold, “Quem tava lá”; acontece na nova Batalha do Real, que virou um grande circuito, com rimadores selecionados à dedo, todos já bastante conhecidos do público. Isso tudo é transformar seu ideal em produto. É o que permite as pessoas consumirem e criarem vínculos com o que ouviram num primeiro contato. É mercado. E não é ruim, não é pecado e não é desrespeito!

A questão é: ninguém sabe o quão próprio é algum produto após tê-lo colocado na rua, sabemos apenas que existe um ideal por trás do que foi lançado. Talvez seja por isso que Marechal ainda não lançou seu álbum. Durante esses longos anos de trabalho ininterrupto com a cultura hip hop, estudando continuamente e sentindo que o que for lançado pode não ser forte o bastante para manter suas raízes ideológicas frente a esse mercado emergente, maluco e megalomaníaco chamado “rap nacional”, ele refugou diversas vezes.

Todo o trabalho feito até aqui se resume a lançar um disco? Qual a importância do registro físico, afinal? Eu não me surpreenderia que novamente o CD não saísse. É uma questão de sentimento; e se sentir bem para lançar uma obra envolve plenitude. Não creio que um disco seja capaz de traduzir a linha de pensamento seguida por uma vida. É um recorte momentâneo que estará registrado para sempre. Se o Marechal achar que ainda existe algo a ser trabalhado, ele irá refugar novamente e é assim que será.

Por outro lado, existe a pressão externa e o reconhecimento de tudo aquilo que o trouxe até aqui. Seria bonito ter um disco. Digo mais, seria justo. Nem vou falar que a geração de novos ouvintes meio que exige trampo na rua. O consumo proporciona ídolos e essa coisa imagética é capaz de transformar tudo em tendência. Um exemplo é o próprio público de rap, pouquíssimos reconhecem a literatura como hábito salutar sem ter alguém famoso falando sobre ou vão pesquisar sem ouvir referências nas letras dos MC’s. Usar da própria imagem para propagar a mensagem é uma espécie de mal necessário, por mais terrível que isso soe para mim. Em 2017 é complicado ser Madlib, MF Doom ou Mahal. Marechal sabe muito bem disso.

Tudo é cíclico. Para propagar uma mensagem, é necessário reconhecer que as pessoas querem mudança. As pessoas para reivindicarem mudança, precisam de algo que as desperte. E assim segue o Ouroboros do hip hop. Ataques cada vez mais pesados são lançados contra a cultura, mas ainda resistimos. Marechal soube captar a mudança e se permitiu mudar, com fluidez. No fim, tudo é literatura e terá cura, tudo flui, apesar da literatura ter me pregado uma peça com esse texto, que acabou sendo muito mais jornalístico que literário. Culpa do Marechal, que não lança esse álbum logo.

Review lírico: Djonga – Heresia

Por Caio Lima

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A concepção de um projeto é um mundo à parte. Tentar compreender o disco dentro do que está registrado pelo MC e do que eu sinto, é mergulhar nesse mundo e permitir que as ideias e pensamentos fluam livremente. Por isso não acredito em resenhas que saem após uma semana do lançamento do disco, principalmente se é de um MC que tem consistência e relevância líricas.

Se me dissessem que após dois meses de lançado o álbum Heresia sumiria tão rápido das discussões de internet, eu não acreditaria. Não é um sumiço do tipo “ninguém fala mais sobre”. As pessoas falam, mas o que mais se vê é: “é bom, mas está abaixo do que eu esperava” ou “ele manda bem, mas é muito repetitivo nas referências e punchlines, sempre com o mesmo flow e isso cansa” ou “não entendi o porquê do Djonga ter feito um álbum tão rápido e lançado assim, seria melhor se tivesse lançado um Castelos & Ruínas (BK’) mesmo demorando mais tempo”.

Quando pensamos sobre arte, não me parece ser agradável tornar-se senso comum. Principalmente quando você lança um álbum. Mais ainda quando você lança seu primeiro álbum e enxerga o hype mudar de direção de forma bastante brusca. O Djonga continua sendo o Djonga, porém, o hype criado em torno da imagem do Djonga vem acompanhado de expectativas dentro de um universo fechado, de um padrão. E, se o MC decide sair desse universo, o peso desse senso comum ainda fala mais alto entre o público. Mais alto do que a própria arte. O que me fez refletir sobre o que representa Heresia.

Djonga aproveitou o status de revelação que conquistou e, ciente do impacto que causou na cena, acelerou o processo para fazer seu disco solo antes mesmo de qualquer trabalho fechado com seu grupo de origem, o DV Tribo (leiam com a voz da Clara Lima). É uma jogada de risco. Mas big playaz assumem riscos, certo? Não é um disco perfeito. Não vejo que esse disco tenha nascido para ser perfeito. Ele mais me parece uma transição de ciclos de uma mente que ainda não assimilou exatamente tudo o que é capaz de fazer.

Eu notei a repetição de algumas técnicas de escrita ao longo do disco e, sinceramente, não me incomodou. Também não acho que o tom do disco foi tão monocórdio quanto falam. Heresia está muito longe de ser algo reto. Djonga tem boas alterações de flow, na maior parte do tempo bastante sutis, priorizando a construção da ideia. É uma questão de escolha, pura e simplesmente. Se lançado em 2015, ninguém usaria o excesso de punchlines para justificar qualquer desagrado com a obra. Me preocupa esse zelo pela parte técnica de quem nunca escreveu uma linha ou pior, de quem não tem propriedade sobre o que escreve.

Temos um disco de papo reto aqui. Não tem um bate-cabeça igual “Vida lixo” ou qualquer coisa mais dançante. Nem o que seria uma lovesong é uma lovesong de verdade. São faixas conflituosas, confusas, com “excesso de informação”, profundas e muito bem escritas. Sim, isso é possível. Talvez não seja explicável, mas é possível.

O que é memorável nesse disco, também é o que não o dá o status de perfeito, tornando a análise ainda mais desafiadora. Durante todo o processo de escrita Djonga quer se mostrar preparado para encarar um novo ciclo de sua vida; como pai, referência dessa nova geração de MC’s ou exercendo algum tipo de ativismo, por exemplo. Isso fica muito claro nas letras mais lineares, ou não tão conflituosas, que o disco possui: Corre das notas, Santa ceia e O mundo é nosso. Aqui ele dá passos à frente e assume com autoridade sua postura em cada aspecto que aborda.

Porém, ele não consegue fechar o ciclo em que suas ações se concentravam antes de aparecer como Djonga, o MC, de fato. Djonga não é um alterego do Gustavo, não podemos dividir as coisas assim (o que tornaria tudo mais simples). Existe um processo de transição conturbado aqui. Talvez uma transição que, mesmo após o disco lançado, não tenha sido concluída completamente.

Fora as três músicas supracitadas e o interlúdio do FBC, que é genial (!!!), todas as outras faixas giram em torno desse entreciclos que Djonga, ao que me parece, vivia enquanto compunha e produzia seu disco. São músicas com altos e baixos, que vão revezando a forma de tratar a passagem do tempo e tem cortes muito bruscos. O refrão de Geminiano ilustra bem o que é essa transição do Djonga: “Na real, se era pra ser/Ou não/Não quero ela por perto/Só que não quero ela longe, não/Na real, se era pra ser/Sei não/Não quero ela por perto/Difícil é querer ela longe, irmão”.

Não é o efeito do duplo que mora nessas linhas. São manifestações confusas de alguém que sabe que precisa mudar, porém não sabe a medida da mudança que precisa fazer, sacam? Um exemplo claro disso é continuar a analisar como Djonga trata seus relacionamentos com mulheres durante o disco. Algumas faixas agressivas, outras onde ele é mais condescendente. O equilíbrio entre essas tratativas, a maneira certa de abordar sem perder sua identidade; é profunda demais essa parada. E confusa. São manifestações que se ramificam sobre qualquer aspecto que ele abordou no Heresia, do racismo até o rap game.

A segurança de reconhecer ser dono de um potencial enorme, mas não saber até onde esse potencial pode ser destravado e, mais importante, onde esse potencial pode leva-lo. Isso não causa em vocês a sensação de precisar decidir? A necessidade de se posicionar de forma enfática? É dentro de conflitos assim que nascem as outras faixas do disco; como Esquimó, a melhor do disco e uma das melhores músicas do ano de longe.

Quanto às referências, punchlines e o estilo desbocado de rimar, esse é o estilo do cara. Não vou ficar analisando a capa do disco ou as vezes que ele cita Racionais. O Genius está aí exatamente para satisfazer essa ânsia de vocês. Só acrescento uma coisa: todo esse emaranhado de referências cai sobre a própria personalidade do Djonga. Se não fosse por isso, nenhuma delas faria sentido.

Entre a confusão e a conclusão, Heresia é grandioso. Retrata uma fase muito singular do artista e, principalmente, da pessoa. Revelar o emaranhado dos seus pensamentos é um ato de coragem numa cena que cresce cheia de pessoas que não se colocam em xeque. E como o próprio Djonga diz: “Aquele cheque precisa ser assinado/Quem tá com a moral em xeque, precisa ser perdoado”. Não há mal nenhum em ser quem é, mesmo que você não saiba que caminhos tomar. Grandes jogadas são feitas por grandes jogadores. Passem a 10 para ele.

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Ainda bem que não definem – Um tratado sobre lírica

Por Caio Lima

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Lírica é uma palavra que vive de extremos dentro do rap. Alguns defendem que todo e qualquer MC deve ser lírico, extremamente poético; outros articulam argumentos defendendo a parte melódica, dizendo que lírica não é o principal numa música, que o certo é ter um compromisso muito mais voltado para o ritmo que para a poesia. O Rede de Intrigas é, essencialmente, um blog sobre literatura e, se vamos tratar sobre rap, é porque ele possui algum valor poético relevante. Portanto, tudo que for discutido aqui será baseado em desdobramentos líricos. Mas, afinal, o que é lírica?

O que conhecemos por lírica começou (adivinhem) na Grécia Antiga. Eram poesias feitas num formato diferente, mais ritmado, podendo ser acompanhadas por flauta ou… lira! Daí o termo “lírica”. A capacidade de comprimir amplos sentidos dentro de versos mais curtos e cantados, despertou o público para uma nova maneira de sentir e consumir poesia. Essa poesia lírica parecia tratar de manifestações mais profundas da condição humana que o habitual, então, naturalmente, novos temas começaram a ter mais espaço dentro do círculo poético grego. Daí à promoção da lírica a um status de algo mais elevado e profundo do que a poesia épica e a poesia dramática, foi um pulo.

Avançando no tempo, os europeus evoluíram o sentido de lirismo. O lirismo torna-se algo sentimental em forma e sentido. Ou seja, quão mais fundo o poeta mergulhasse nos seus próprios sentimentos ao escrever, mais lírico ele seria. E, estando neste extremo sentimental, é claro que a lírica seria utilizada de forma apelativa como recurso para angariar um público que nunca viu seus sentimentos representados. Existe Shakespeare de um lado; e existe algumas críticas a peças/óperas que parecem as críticas que fazemos às novelas daqui em contrapartida. O próprio Shakespeare (se é que ele existiu) foi alvo de críticas parecidas.

Acontece que a lírica não depende só do sentimento para existir. Tudo acontece à base da troca entre o eu-lírico do poeta e o receptor da mensagem. Quando há entendimento e, mais importante, a sensação de que a mensagem do poeta afeta diretamente a condição sentimental/existencial do receptor, existe lírica. A acepção da lírica só pode acontecer quando todas as partes se envolvem emocionalmente com a poesia. Um exemplo claro disso é a quantidade de autores de prosa que estão tentando cativar o público através da prosa-poética. O efeito do sentimento cria alguns laços que são benéficos até para o mercado editorial (fidelização do público, blindar o livro de críticas, etc.), mas o foco desse texto é outro.

A história do movimento hip hop nasce com profundas bases sociais, buscando autoafirmação e engajamento dos guetos. Não existia poetas de ofício, a realidade de quem fazia o movimento acontecer através do rap, no caso, não permitia esse tipo de sonho. Tudo era experimental. Se o MC não conseguisse cativar o público com versos curtos, rápidos, acompanhando o ritmo do DJ e, por fim, cheios de sentimento (mesmo que todo esse sentimento esteja contido num bragadoccious), ele perderia a batalha, a moral, o território e aquilo que você assistiu em “The get down”. Pode soar contraditório dentro do meio poético, mas a competição das batalhas estimulava os MC’s a desenvolverem qualidade lírica.

Autoafirmação é uma palavra mágica para entendermos o que é o rap, e esta existe inserida em contextos sociais e econômicos bastante fortes. Mas da forma como ela é perseguida só o MC compreende, são alicerces muito subjetivos e pessoais. Isso sustenta o rap até hoje. Mesmo que o MC fale apenas sobre a situação política e econômica do país, isso é dado sob uma perspectiva muito pessoal. Existe um aspecto de liderança muito forte dentro da própria poesia que o rap se propõe a fazer, independentemente da questão temática. Essa percepção pessoal do MC sempre foi mais relevante que os próprios dados estatísticos que o mundo ama analisar para tirar suas conclusões.

Entendem como o rap é uma nova maneira de reviver a força da poesia? Não é apenas música. Canta-se muito pouco e fala-se muito dentro de um rap. É sempre alvo de expectativa o que o MC tem para falar, quais sentimentos, ideias e ideais ele quer manifestar/celebrar no momento. Ao mesmo tempo que a voz é música, a voz também emite ideias que são capazes de se conectar com o ouvinte. Retornamos para a base da poesia lírica grega, sacam? Existe uma construção preocupada em fazer com que o ouvinte interaja e sinta com o discurso, mas no lugar das liras temos MPC’s. Ser um MC, portanto, não é apenas fazer música.

Com tudo isso dito, o conceito de lírica ainda é amplo demais tanto na poesia quanto no rap. Mas é assim que deve ser. Eu posso achar que Big Daddy Kane escrevia de forma muito simples se comparado ao que Quavo (Migos) escreve hoje, mas como não levar em conta que essa simplicidade foi um dos alicerces do rap e, mais importante, foi capaz de se comunicar com toda uma geração de forma sólida? Estamos tratando da construção de uma cultura aqui, afinal.

Já que não há maneira de falar o que é lírico ou não, além de toda questão sentimental que o termo “lírica” envolve, o texto acaba por aqui. Não, brincadeira. Continuem lendo.

Todo mundo, sem exceção, já disse alguma vez “essa é minha música”, muito embora essa música nunca tenha sido escrita diretamente para você. Qual a primeira coisa que você faz para explicar que a música é sua? Vai olhar a letra, óbvio. Lendo a letra você faz todas as conexões e confirma que aquela música foi feita para você! Impossível que não tenha sido! Como assim?!?!?!?!

Existe uma iluminação que determinou algo muito importante dentro de toda a abrangência do assunto em questão: a construção lírica. Nós podemos pegar a poesia do cara, quebra-la em todos os pedaços possíveis e tentar encontrar um sentido nisso tudo. Não necessariamente um sentido absoluto. Mas algo que faça sentido para cada um, em particular.

Em movimentos poéticos marginais isso é uma tarefa árdua. Por estar inserido numa rota contracultural, muitos aspectos da poesia são subversivos e internos, e acaso não olhemos com a devida atenção, vários pontos podem vir a escapar à nossa percepção e comprometer o sentido que damos ao registro. Ou seja, a lírica, dependendo de como a poesia é manipulada, produz uma espécie de efeito sanfona que varia de registro para registro; ora ela se conecta automaticamente, ora ela vai se revelando aos poucos. Um terrível jogo de gato e rato.

A própria cultura hip hop contribui para que isso aconteça. As batalhas exigiam que cada MC criasse artifícios poéticos que o identificassem dentre todos os outros. Se não havia conhecimento teórico suficiente para que a poesia fosse elaborada demais, a competição fez com que novas formas de fazer poesia fossem exploradas. Mas não é parecido com o que Allen Ginsberg fez com o Uivo, por exemplo. A poesia surgia de forma crua e, a partir da necessidade de conjugar mais ideias, foram absorvidos elementos a fim de encorpar a mistura, torna-la diferente, única.

A evolução do discurso é tanta que, mesmo sendo uma cultura muito recente e sofrendo os preconceitos naturais de uma atividade marginal, virou cadeira nas maiores universidades americanas e produziu discos que entraram para acervos de grandes bibliotecas, usados como referência em diversos aspectos, inclusive no estudo da famigerada linguística.

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Por falar em discos que foram para a academia, Nas escreveu a bíblia do hip hop, “Illmatic”, porém não é o MC mais técnico que existe. O ponto é: Nas soube utilizar tudo o que sabia para criar uma conexão tão forte entre seu registro e o receptor da mensagem, que ele conseguiu condensar tudo o que entendemos por hip hop num disco de uma intro e nove faixas (esse é o real sentido de “fazer tanto com tão pouco”). Uma mensagem profunda, colocada com os recursos que ele quis dispor e tudo isso feito com o intuito de fazer as pessoas sentirem. Sentirem o quê? A Nova York vista por Nas, o hip hop, a violência das ruas ou o que quer que seja, não importa. Aí mora a graça da lírica, nesse diálogo. Essa talvez seja a única definição (por mais vaga que seja) de lírica dentro do rap. Unimos à poesia a forma como ela é pronunciada, o clima do beat e tudo isso te abraça. Você só sente a brisa bater e fala: “mano, isso é rap!”

Por isso, mais importante que os recursos técnicos ou linguísticos do MC, é você estar conectado à música como ouvinte. A conexão é o que nos faz definir o que é um som descartável, qual MC é lírico ou dizer que “é um som cheio de referências, legal, porém são referências vazias”. A conexão é o que sobra quando todo o hype passa. Apenas sentar e ouvir um bom rap, sabem como é?

Como toda arte, o rap é responsável por fazer que você sinta. Sentir a mensagem vem antes de tudo. É por isso que Mano Brown nunca sairá de moda, mesmo quando lá no começo ele fazia uns esquemas de rima bem quadrados se comparados as multissilábicas de hoje em dia. Talvez seja exatamente por isso que as pessoas amam Eminem, mesmo com versos aparentemente reprováveis ele oferece um mergulho profundo dentro do que faz (e não é um universo fácil de compreender) e o ouvinte sente essa necessidade de buscar.

Ainda bem que não é possível definir lírica. Imagina alguém vir com um relatório para me dizer o porquê de Kendrick Lamar ser mais lírico que Andre 3000 ou Q-Tip quando eu não acho que seja? Qual base ela teria para definir o que eu devo sentir quando ouço determinado MC? Bizarro, não? E é exatamente essa não definição que seleciona naturalmente o que permanece relevante e o que some com o tempo. É por isso que Run DMC vai continuar fazendo gerações e gerações comprarem Adidas.

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